sexta-feira, 28 de novembro de 2025

NARCOLEPSIA (2009)

 


Júlio tem um problema. Júlio sofre de narcolepsia. A narcolepsia é um distúrbio neurológico crônico caracterizado por sonolência diurna excessiva e ataques de sono incontroláveis. O filme, com roteiro e direção de Walfried Weissmann, narra uma entrevista com Júlio.

         “Narcolepsia” tem em sua essência a produção de um documentário sobre Júlio e os desafios do distúrbio que tem e as complicações do dia a dia. A sacada de mesclar o gênero Comédia ao pseudodocumentário é um acerto em cheio para trazer um humor muito bem produzido para o espectador.

         O depoimento de Júlio se alterna com imagens do local onde cede a entrevista, mesclando com narrações em off, diante de situações constrangedoras e hilárias por parte do protagonista. Seja na faculdade, em pontos de ônibus, em confraternizações, ou ainda em momentos íntimos, a criatividade dos realizadores se apresenta com um humor único.

          Gilberto Scarpa é o motor da trama, com tudo girando ao redor de seu personagem e das situações enfrentadas por ele. Seja narrando ou dormindo, Gilberto demonstra uma enorme capacidade de transmitir as frustrações impostas pela narcolepsia. O elenco, que conta ainda com Izzabela Andrade, Leonardo Souza, Gustavo Campos, André Andruxa, Carlos Cadu, Mariana Freitas, Rachel Garcia, Jose Texera e Robson Rio de Janeiro, Luis Jack, Conrado Almada, Fabio Borges, Carlos Paulino, Santusa Prado, Paulo Sergio e Carolina Correa, consegue imergir o espectador, seja na locação onde as filmagens do documentário acontece, seja no cotidiano de Júlio.

         “Narcolepsia” aposta na simplicidade visual, em sua parte documental, alternando cenas em locações mais movimentadas e onde uma preparação de set necessitou do emprego de mais recursos. Mas a potência humorística de “Narcolepsia” reside na potência de seu texto e na competência de Walfried Weissmann, na condução da direção.

           “Narcolepsia” tem elementos técnicos impecáveis; fotografia, arte, trilha sonora e montagem, que dão vida à entrevista com Júlio e também nos flashbacks da vida do protagonista. O resultado é uma combinação perfeita de elementos técnicos, dramáticos e narrativos que extrai o máximo do projeto, entregando um ótimo filme de comédia, super inventivo e carismático.   




sábado, 15 de novembro de 2025

RESSACA (2012)

 


“Ressaca” é uma deliciosa comédia que acompanha o dia seguinte de Bia e Renato, após uma noite de farra. Ao mesmo tempo em que vivem uma situação hilária, convivem com o receio do fim da república onde moram.

         O filme, com roteiro de Pedro Aguilera e direção de Mabel Lopes, tem muita qualidade, tanto nos aspectos narrativos quanto nos dramáticos e técnicos. Fotografia, arte e trilha sonora combinam perfeitamente, dando ainda mais luz ao filme, seja através dos efeitos visuais ou da extração do máximo do texto que, praticamente é rodado, em grande parte, num único ambiente. Eu sempre considero que gravar num único ambiente sempre é um desafio. E aqui, a equipe técnica e criativa tira de letra.

        Um dos grandes acertos do curta é a química entre a dupla de protagonistas, Bia e Renato, interpretados por Rita Batata e Paulo Maeda. Os dois jovens vampiros, brincam com a noite anterior e da ressaca atual, mas demonstram preocupação com o risco de serem despejados. Com o elenco de apoio, formado por Daniel Kronenberg, Cesar Gouvea, Pedro Costa, Henrique Schafer, Neyde Marchi, Carolina Capacle, Vera Maria Vieira da Silva, Helder da Rocha, Ângela Ribeiro e Caio Zam, “Ressaca” ganha substância e mais e mais situações bizarras e engraçadíssimas.

        Outro ponto forte do filme é trabalhar com a imprevisibilidade do absurdo; seja com o celular dentro de uma gelatina ou com alguns personagens que são inseridos na trama, trazendo profundidade narrativa e outro tanto de situações hilárias.

         “Ressaca”, definitivamente, não é um filme mais do mesmo. Por se tratar de um filme que envolve vampiros, em um ou outro momento, ele usa alguns elementos da trama para encaixar os personagens dentro da sua realidade, fazendo referências a outros filmes, mas mais como homenagens, mas sempre de forma criativa e inventiva. A equipe de produção não usou clichês do gênero como muleta, apostando na própria capacidade para criar um filme divertido, ousado e extremamente competente.

        “Ressaca” é uma maravilhosa comédia, com um enredo muito bem desenvolvido, personagens cativantes, sequências muito divertidas e uma resolução final perfeita. É o filme para ser visto e recomendados a todos que gostam de uma boa comédia com um toque de sangue.



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

BRASIL PITORESCO – AS VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES (1925)

 


Cornélio Pires, um dos mais importantes etnólogos do Brasil, foi um escritor, jornalista, folclorista, empresário e ativista cultural. Nascido em 1884, na cidade de Tietê, interior de São Paulo, Cornélio dedicou sua vida à valorização e preservação das tradições populares brasileiras, e sua obra atravessou diversas áreas da cultura. Ele faleceu em janeiro de 1958, em São Paulo, mas deixou um legado inestimável, que é amplamente explorado no Documentário “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires”. Este filme é um verdadeiro mergulho na história do Brasil, guiado pelos olhos de Cornélio, revelando um país de 100 anos atrás, com todas as suas nuances culturais, sociais e econômicas.

O Documentário acompanha as viagens de Cornélio por diversos pontos do Brasil, e é através dessas viagens que somos transportados para uma época remota, onde a vida urbana e rural coexistiam de maneiras que hoje parecem distantes. “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” apresenta um retrato vivo e autêntico do Brasil do início do século XX, permitindo ao espectador uma visão rara de como era o cotidiano de várias regiões do país naquela época. Embora grande parte do filme se concentre no estado da Bahia, Cornélio Pires inicia sua jornada em Santos, no litoral paulista, destacando a Bolsa de Café, que, na época, era o principal centro de negociação do café brasileiro, produto que dominava a economia nacional. O porto de Santos desempenhava um papel crucial no escoamento do café para o exterior, e Cornélio capta a importância desse local em suas filmagens.

Além de retratar pontos icônicos de Santos e da Baixada Santista, Cornélio nos leva ao Rio de Janeiro, com imagens deslumbrantes da entrada pela Baía de Guanabara, cenário que até hoje encanta os visitantes da cidade. O filme, sendo mudo, utiliza legendas informativas que enriquecem a experiência visual, permitindo que o espectador compreenda a relevância dos locais mostrados. Cornélio não se limita apenas a pontos turísticos; ele explora o contexto político, cultural, administrativo e religioso de cada localidade, oferecendo uma visão abrangente do Brasil da época.

Ao chegar à Bahia, o Documentário ganha novos contornos, com Cornélio Pires apresentando a cidade de Salvador de 1925, revelando um tempo em que a capital baiana já era uma mistura de tradição e modernidade. Locais como o Forte de São Marcelo, o Farol da Barra e o mercado público são explorados com detalhes minuciosos, transportando o espectador para o coração da cidade. Além disso, Cornélio explora as paisagens do Recôncavo Baiano, destacando a produção de fumo e cacau, e as vastas plantações de cana-de-açúcar na zona canavieira, essenciais para a economia regional.

O olhar de Cornélio Pires não se restringe apenas ao registro visual, mas também à compreensão profunda da essência da sociedade que ele retrata. Em Feira de Santana, ele nos mostra a feira de gado, um importante evento comercial da região, e através dessas imagens, conseguimos sentir a vida pulsante da sociedade local. O Documentário vai além de mostrar simples paisagens ou práticas econômicas; ele capta a alma das pessoas e dos lugares, oferecendo uma imersão histórica, cultural e social que faz o espectador se sentir presente naquela época e envolvido com as histórias das pessoas retratadas.

À medida que o filme se aproxima de sua conclusão, Cornélio nos apresenta Aracaju, em Sergipe, com um foco especial na cultura pesqueira dos mangues da cidade. Esse olhar sobre a economia e a vida cotidiana da região é mais uma amostra do quão completo e abrangente é o Documentário. Cornélio Pires conseguiu, com simplicidade e precisão, capturar a riqueza e a diversidade cultural do Brasil em uma época de grandes transformações.

“Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é mais do que um Documentário; é um registro histórico de valor inestimável, que permite às novas gerações conhecerem o Brasil de um século atrás. O dinamismo das imagens, o cuidado com as legendas explicativas e a capacidade de Cornélio em trazer à tona a essência dos lugares e das pessoas tornam este filme uma obra única. Com seu olhar perspicaz, Cornélio Pires criou um legado audiovisual que serve não apenas como um testemunho de sua época, mas como um fio condutor para compreendermos a evolução do país ao longo do tempo.

Este Documentário é uma verdadeira viagem no tempo, e sua importância vai além de meramente mostrar paisagens ou costumes. Ele nos lembra da importância de preservar a memória de um país em constante transformação, e de valorizar as histórias das pessoas que, muitas vezes, ficam à margem dos grandes relatos históricos. “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é uma obra fundamental para quem deseja entender o Brasil sob uma ótica cultural e antropológica, e o filme se mantém como um tributo duradouro ao legado de Cornélio Pires e à rica diversidade do nosso país.




sábado, 8 de novembro de 2025

A PEDRA DO TESOURO (1965)

 


Com roteiro e direção de Roberto Farias, “A Pedra do Tesouro” é um curta-metragem que mescla com inteligência e espontaneidade os gêneros Comédia, Aventura e Faroeste, resgatando o espírito das tradicionais chanchadas brasileiras. A narrativa parte de uma premissa simples e envolvente: a descoberta de uma enorme pedra que guarda sob si um tesouro misterioso e supostamente valioso, capaz de despertar a ambição, e a trapalhada, de quem chega ao local.

Produzido pela Produções Cinematográficas R. F. Farias, o filme marca um momento histórico no audiovisual brasileiro: é a estreia de Renato Aragão e Dedé Santana no cinema. Mais tarde, com a chegada de Zacarias e Mussum, essa parceria daria origem ao fenômeno cultural “Os Trapalhões”, um grupo que influenciaria o humor e o entretenimento no país por décadas. Aqui, vemos os alicerces do que viria a ser o estilo inconfundível do quarteto: inocência, humor físico, improviso e uma energia quase cartunesca.

A trama se desenvolve com a chegada dos dois protagonistas ao local onde a pedra está enterrada. Porém, o clima de aventura aumenta quando outro grupo, igualmente interessado no tesouro, surge na região. O resultado é um divertido confronto à moda antiga, com tiros, perseguições e uma dinâmica quase pantomímica, reforçada pela ausência de diálogos. A escolha de trabalhar apenas com trilha sonora e efeitos sonoros, sem falas, não apenas presta homenagem ao cinema mudo e às comédias físicas do passado, como também destaca a expressividade corporal dos atores. Tombos, corridas, escorregões, caretas e exageros performáticos evidenciam a vocação nata de Renato e Dedé para o humor físico.

O diretor acerta ao mesclar aventura e humor com um toque de mistério. Além da disputa pelo tesouro, a pedra em si ganha caráter quase mítico: é gigantesca, resistente a explosivos e extremamente pesada, mesmo com o auxílio de um jipe para removê-la. Esse elemento repetido gera expectativa cômica e reforça a narrativa baseada em gags visuais, algo que seria amplamente explorado posteriormente pelo grupo na televisão e no cinema.

Tecnicamente, “A Pedra do Tesouro” demonstra um belo equilíbrio entre simplicidade e inventividade. O uso criativo da fotografia, da direção de arte e do figurino contribui para situar o público naquele universo rústico, ao mesmo tempo em que deixa espaço para o humor emergir naturalmente das situações. A ausência de diálogos exige precisão no timing cômico, na montagem e no trabalho dos atores, e todos esses elementos funcionam com fluidez e eficiência.

Mais do que um curta divertido, “A Pedra do Tesouro” é um documento histórico do cinema brasileiro e um prenúncio de uma parceria artística que marcaria gerações. É claramente uma obra que vai além da função de entreter; ela apresenta ao público o embrião de uma das duplas cômicas mais queridas do país, revelando desde cedo o carisma, o talento físico e a química que fariam de Renato Aragão e Dedé Santana ícones do humor nacional.

Um curta que diverte, encanta e, principalmente, registra o início de uma jornada que se tornaria inesquecível para grande parte dos brasileiros.




terça-feira, 4 de novembro de 2025

ANIMANDO (1983)

 


Com muita criatividade e dedicação, Marcos Magalhães dirige e produz uma obra inovadora e cativante, onde seu personagem principal, criado com maestria, precisa enfrentar uma série de situações inusitadas e desafiadoras. O diretor explora com genialidade diversas técnicas de animação, criando um filme que transita com leveza entre diferentes gêneros cinematográficos, como Aventura e Comédia. Ao brincar com essas convenções, Magalhães entrega uma obra que transcende o simples rótulo de Animação, revelando também um caráter experimental e até documental em sua estrutura e narrativa.

O filme, intitulado "Animando", produzido em 1983, é um verdadeiro marco no cinema de Animação brasileiro, produzido em parceria com a agência National Film Board do Canadá. Marcos Magalhães utiliza desde os elementos mais básicos da arte da animação para revelar o complexo e árduo processo de produção por trás de cada movimento e expressão. Ao mesmo tempo em que o personagem é colocado em situações cômicas e surpreendentes, o diretor alterna diversas técnicas de Animação, revelando as dificuldades e desafios enfrentados pelos criadores desse gênero. Com essa abordagem, Magalhães não apenas entretém o público, mas também expõe o caráter profundamente artístico e técnico da Animação, prestando uma homenagem aos animadores e profissionais dessa área.

A obra vai muito além de um simples curta-metragem, conduzindo o espectador por uma jornada visual que começa com os traços mais simples e evolui até as técnicas mais sofisticadas da época. "Animando" é um exemplo atemporal, capaz de nos fazer refletir sobre o desenvolvimento das animações ao longo das décadas. Desde a utilização das técnicas manuais até as inovações mais recentes, como a Animação 3D produzida por computadores, o motion capture e o CGI, o filme nos convida a revisitar o passado e pensar nas transformações que moldaram essa arte.

O aspecto metalinguístico da obra também é fascinante. Enquanto o personagem de "Animando" vive suas aventuras, o filme alterna entre momentos que revelam os bastidores da produção, destacando a interação das mãos do animador com os elementos que estão sendo criados, sugerindo o processo por trás da animação. Esse jogo entre criação e realidade coloca o filme em um patamar único, misturando a magia da ficção com a franqueza do processo criativo, o que enriquece a experiência do espectador.

Além da genialidade técnica e narrativa, "Animando" se destaca também pelo extraordinário trabalho de sua equipe de som e trilha sonora. A música e os efeitos sonoros, produzidos por uma equipe talentosa que inclui Marcos Cabral, Arthur Cabral, Papito, Fernando Miranda, Ricardo Freitas, Sergio Magalhães, Caio Senna, Claudio Wilner, Claudio Valeriano, Sidnei Chagas, Marcos Amirante e a sonoplastia de Leonardo de Souza, complementam de maneira primorosa a Animação, criando uma atmosfera que ora diverte, ora emociona, mas sempre imerge o espectador no universo peculiar do filme.

Marcos Magalhães, com "Animando", não apenas entrega uma Animação tecnicamente brilhante, mas também uma profunda homenagem aos animadores, às técnicas criativas que evoluíram ao longo dos anos, e a todos os profissionais que contribuem para a arte da animação. O filme consegue, em poucos minutos, transmitir a essência dessa forma de arte, mostrando que, por trás de cada movimento fluido e cada cena engraçada ou emocionante, existe uma imensa dedicação e paixão pela criação visual.

"Animando" permanece até hoje como uma das melhores animações já produzidas no Brasil, não apenas por sua inovação técnica e narrativa, mas por sua capacidade de celebrar a própria arte da Animação de maneira tão honesta e envolvente. É uma obra que, mesmo décadas depois de sua criação, continua inspirando novas gerações de animadores e conquistando todos aqueles que têm a oportunidade de assisti-la.




UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...