Júlio tem um problema. Júlio
sofre de narcolepsia. A narcolepsia é um distúrbio neurológico crônico
caracterizado por sonolência diurna excessiva e ataques de sono incontroláveis.
O filme, com roteiro e direção de Walfried Weissmann, narra uma entrevista com
Júlio.
“Narcolepsia”
tem em sua essência a produção de um documentário sobre Júlio e os desafios do
distúrbio que tem e as complicações do dia a dia. A sacada de mesclar o gênero
Comédia ao pseudodocumentário é um acerto em cheio para trazer um humor muito
bem produzido para o espectador.
O
depoimento de Júlio se alterna com imagens do local onde cede a entrevista,
mesclando com narrações em off, diante de situações constrangedoras e hilárias
por parte do protagonista. Seja na faculdade, em pontos de ônibus, em
confraternizações, ou ainda em momentos íntimos, a criatividade dos
realizadores se apresenta com um humor único.
Gilberto
Scarpa é o motor da trama, com tudo girando ao redor de seu personagem e das
situações enfrentadas por ele. Seja narrando ou dormindo, Gilberto demonstra
uma enorme capacidade de transmitir as frustrações impostas pela narcolepsia. O
elenco, que conta ainda com Izzabela Andrade, Leonardo Souza, Gustavo Campos,
André Andruxa, Carlos Cadu, Mariana Freitas, Rachel Garcia, Jose Texera e
Robson Rio de Janeiro, Luis Jack, Conrado Almada, Fabio Borges, Carlos Paulino,
Santusa Prado, Paulo Sergio e Carolina Correa, consegue imergir o espectador,
seja na locação onde as filmagens do documentário acontece, seja no cotidiano
de Júlio.
“Narcolepsia”
aposta na simplicidade visual, em sua parte documental, alternando cenas em
locações mais movimentadas e onde uma preparação de set necessitou do emprego
de mais recursos. Mas a potência humorística de “Narcolepsia” reside na
potência de seu texto e na competência de Walfried Weissmann, na condução da
direção.
“Narcolepsia”
tem elementos técnicos impecáveis; fotografia, arte, trilha sonora e montagem,
que dão vida à entrevista com Júlio e também nos flashbacks da vida do
protagonista. O resultado é uma combinação perfeita de elementos técnicos,
dramáticos e narrativos que extrai o máximo do projeto, entregando um ótimo filme
de comédia, super inventivo e carismático.
“Ressaca” é uma deliciosa comédia
que acompanha o dia seguinte de Bia e Renato, após uma noite de farra. Ao mesmo
tempo em que vivem uma situação hilária, convivem com o receio do fim da
república onde moram.
O
filme, com roteiro de Pedro Aguilera e direção de Mabel Lopes, tem muita
qualidade, tanto nos aspectos narrativos quanto nos dramáticos e técnicos.
Fotografia, arte e trilha sonora combinam perfeitamente, dando ainda mais luz
ao filme, seja através dos efeitos visuais ou da extração do máximo do texto
que, praticamente é rodado, em grande parte, num único ambiente. Eu sempre
considero que gravar num único ambiente sempre é um desafio. E aqui, a equipe
técnica e criativa tira de letra.
Um
dos grandes acertos do curta é a química entre a dupla de protagonistas, Bia e
Renato, interpretados por Rita Batata e Paulo Maeda. Os dois jovens vampiros,
brincam com a noite anterior e da ressaca atual, mas demonstram preocupação com
o risco de serem despejados. Com o elenco de apoio, formado por Daniel
Kronenberg, Cesar Gouvea, Pedro Costa, Henrique Schafer, Neyde Marchi, Carolina
Capacle, Vera Maria Vieira da Silva, Helder da Rocha, Ângela Ribeiro e Caio
Zam, “Ressaca” ganha substância e mais e mais situações bizarras e
engraçadíssimas.
Outro
ponto forte do filme é trabalhar com a imprevisibilidade do absurdo; seja com o
celular dentro de uma gelatina ou com alguns personagens que são inseridos na
trama, trazendo profundidade narrativa e outro tanto de situações hilárias.
“Ressaca”,
definitivamente, não é um filme mais do mesmo. Por se tratar de um filme que
envolve vampiros, em um ou outro momento, ele usa alguns elementos da trama
para encaixar os personagens dentro da sua realidade, fazendo referências a
outros filmes, mas mais como homenagens, mas sempre de forma criativa e
inventiva. A equipe de produção não usou clichês do gênero como muleta,
apostando na própria capacidade para criar um filme divertido, ousado e
extremamente competente.
“Ressaca”
é uma maravilhosa comédia, com um enredo muito bem desenvolvido, personagens
cativantes, sequências muito divertidas e uma resolução final perfeita. É o
filme para ser visto e recomendados a todos que gostam de uma boa comédia com
um toque de sangue.
Cornélio
Pires, um dos mais importantes etnólogos do Brasil, foi um escritor,
jornalista, folclorista, empresário e ativista cultural. Nascido em 1884, na
cidade de Tietê, interior de São Paulo, Cornélio dedicou sua vida à valorização
e preservação das tradições populares brasileiras, e sua obra atravessou
diversas áreas da cultura. Ele faleceu em janeiro de 1958, em São Paulo, mas
deixou um legado inestimável, que é amplamente explorado no Documentário
“Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires”. Este filme é um verdadeiro
mergulho na história do Brasil, guiado pelos olhos de Cornélio, revelando um
país de 100 anos atrás, com todas as suas nuances culturais, sociais e
econômicas.
O Documentário
acompanha as viagens de Cornélio por diversos pontos do Brasil, e é através
dessas viagens que somos transportados para uma época remota, onde a vida
urbana e rural coexistiam de maneiras que hoje parecem distantes. “Brasil
Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” apresenta um retrato vivo e autêntico
do Brasil do início do século XX, permitindo ao espectador uma visão rara de
como era o cotidiano de várias regiões do país naquela época. Embora grande
parte do filme se concentre no estado da Bahia, Cornélio Pires inicia sua
jornada em Santos, no litoral paulista, destacando a Bolsa de Café, que, na
época, era o principal centro de negociação do café brasileiro, produto que
dominava a economia nacional. O porto de Santos desempenhava um papel crucial
no escoamento do café para o exterior, e Cornélio capta a importância desse
local em suas filmagens.
Além de
retratar pontos icônicos de Santos e da Baixada Santista, Cornélio nos leva ao
Rio de Janeiro, com imagens deslumbrantes da entrada pela Baía de Guanabara,
cenário que até hoje encanta os visitantes da cidade. O filme, sendo mudo,
utiliza legendas informativas que enriquecem a experiência visual, permitindo
que o espectador compreenda a relevância dos locais mostrados. Cornélio não se
limita apenas a pontos turísticos; ele explora o contexto político, cultural, administrativo
e religioso de cada localidade, oferecendo uma visão abrangente do Brasil da
época.
Ao chegar à
Bahia, o Documentário ganha novos contornos, com Cornélio Pires apresentando a
cidade de Salvador de 1925, revelando um tempo em que a capital baiana já era
uma mistura de tradição e modernidade. Locais como o Forte de São Marcelo, o
Farol da Barra e o mercado público são explorados com detalhes minuciosos,
transportando o espectador para o coração da cidade. Além disso, Cornélio
explora as paisagens do Recôncavo Baiano, destacando a produção de fumo e
cacau, e as vastas plantações de cana-de-açúcar na zona canavieira, essenciais
para a economia regional.
O olhar de
Cornélio Pires não se restringe apenas ao registro visual, mas também à
compreensão profunda da essência da sociedade que ele retrata. Em Feira de
Santana, ele nos mostra a feira de gado, um importante evento comercial da
região, e através dessas imagens, conseguimos sentir a vida pulsante da
sociedade local. O Documentário vai além de mostrar simples paisagens ou
práticas econômicas; ele capta a alma das pessoas e dos lugares, oferecendo uma
imersão histórica, cultural e social que faz o espectador se sentir presente
naquela época e envolvido com as histórias das pessoas retratadas.
À medida que o
filme se aproxima de sua conclusão, Cornélio nos apresenta Aracaju, em Sergipe,
com um foco especial na cultura pesqueira dos mangues da cidade. Esse olhar
sobre a economia e a vida cotidiana da região é mais uma amostra do quão
completo e abrangente é o Documentário. Cornélio Pires conseguiu, com
simplicidade e precisão, capturar a riqueza e a diversidade cultural do Brasil
em uma época de grandes transformações.
“Brasil
Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é mais do que um Documentário; é um
registro histórico de valor inestimável, que permite às novas gerações
conhecerem o Brasil de um século atrás. O dinamismo das imagens, o cuidado com
as legendas explicativas e a capacidade de Cornélio em trazer à tona a essência
dos lugares e das pessoas tornam este filme uma obra única. Com seu olhar
perspicaz, Cornélio Pires criou um legado audiovisual que serve não apenas como
um testemunho de sua época, mas como um fio condutor para compreendermos a
evolução do país ao longo do tempo.
Este Documentário
é uma verdadeira viagem no tempo, e sua importância vai além de meramente
mostrar paisagens ou costumes. Ele nos lembra da importância de preservar a
memória de um país em constante transformação, e de valorizar as histórias das
pessoas que, muitas vezes, ficam à margem dos grandes relatos históricos.
“Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é uma obra fundamental para
quem deseja entender o Brasil sob uma ótica cultural e antropológica, e o filme
se mantém como um tributo duradouro ao legado de Cornélio Pires e à rica
diversidade do nosso país.
Com roteiro e direção de Roberto
Farias, “A Pedra do Tesouro” é um curta-metragem que mescla com inteligência e
espontaneidade os gêneros Comédia, Aventura e Faroeste, resgatando o espírito
das tradicionais chanchadas brasileiras. A narrativa parte de uma premissa
simples e envolvente: a descoberta de uma enorme pedra que guarda sob si um
tesouro misterioso e supostamente valioso, capaz de despertar a ambição, e a
trapalhada, de quem chega ao local.
Produzido pela
Produções Cinematográficas R. F. Farias, o filme marca um momento histórico no
audiovisual brasileiro: é a estreia de Renato Aragão e Dedé Santana no cinema.
Mais tarde, com a chegada de Zacarias e Mussum, essa parceria daria origem ao
fenômeno cultural “Os Trapalhões”, um grupo que influenciaria o humor e o
entretenimento no país por décadas. Aqui, vemos os alicerces do que viria a ser
o estilo inconfundível do quarteto: inocência, humor físico, improviso e uma
energia quase cartunesca.
A trama se
desenvolve com a chegada dos dois protagonistas ao local onde a pedra está
enterrada. Porém, o clima de aventura aumenta quando outro grupo, igualmente
interessado no tesouro, surge na região. O resultado é um divertido confronto à
moda antiga, com tiros, perseguições e uma dinâmica quase pantomímica,
reforçada pela ausência de diálogos. A escolha de trabalhar apenas com trilha
sonora e efeitos sonoros, sem falas, não apenas presta homenagem ao cinema mudo
e às comédias físicas do passado, como também destaca a expressividade corporal
dos atores. Tombos, corridas, escorregões, caretas e exageros performáticos
evidenciam a vocação nata de Renato e Dedé para o humor físico.
O diretor
acerta ao mesclar aventura e humor com um toque de mistério. Além da disputa
pelo tesouro, a pedra em si ganha caráter quase mítico: é gigantesca,
resistente a explosivos e extremamente pesada, mesmo com o auxílio de um jipe
para removê-la. Esse elemento repetido gera expectativa cômica e reforça a
narrativa baseada em gags visuais, algo que seria amplamente explorado
posteriormente pelo grupo na televisão e no cinema.
Tecnicamente,
“A Pedra do Tesouro” demonstra um belo equilíbrio entre simplicidade e
inventividade. O uso criativo da fotografia, da direção de arte e do figurino
contribui para situar o público naquele universo rústico, ao mesmo tempo em que
deixa espaço para o humor emergir naturalmente das situações. A ausência de
diálogos exige precisão no timing cômico, na montagem e no trabalho dos atores,
e todos esses elementos funcionam com fluidez e eficiência.
Mais do que um
curta divertido, “A Pedra do Tesouro” é um documento histórico do cinema
brasileiro e um prenúncio de uma parceria artística que marcaria gerações. É
claramente uma obra que vai além da função de entreter; ela apresenta ao
público o embrião de uma das duplas cômicas mais queridas do país, revelando
desde cedo o carisma, o talento físico e a química que fariam de Renato Aragão
e Dedé Santana ícones do humor nacional.
Um curta que
diverte, encanta e, principalmente, registra o início de uma jornada que se
tornaria inesquecível para grande parte dos brasileiros.
Com muita criatividade e
dedicação, Marcos Magalhães dirige e produz uma obra inovadora e cativante,
onde seu personagem principal, criado com maestria, precisa enfrentar uma série
de situações inusitadas e desafiadoras. O diretor explora com genialidade
diversas técnicas de animação, criando um filme que transita com leveza entre
diferentes gêneros cinematográficos, como Aventura e Comédia. Ao brincar com
essas convenções, Magalhães entrega uma obra que transcende o simples rótulo de
Animação, revelando também um caráter experimental e até documental em sua estrutura
e narrativa.
O filme,
intitulado "Animando", produzido em 1983, é um verdadeiro marco no
cinema de Animação brasileiro, produzido em parceria com a agência National
Film Board do Canadá. Marcos Magalhães utiliza desde os elementos mais básicos
da arte da animação para revelar o complexo e árduo processo de produção por
trás de cada movimento e expressão. Ao mesmo tempo em que o personagem é
colocado em situações cômicas e surpreendentes, o diretor alterna diversas
técnicas de Animação, revelando as dificuldades e desafios enfrentados pelos
criadores desse gênero. Com essa abordagem, Magalhães não apenas entretém o
público, mas também expõe o caráter profundamente artístico e técnico da Animação,
prestando uma homenagem aos animadores e profissionais dessa área.
A obra vai
muito além de um simples curta-metragem, conduzindo o espectador por uma
jornada visual que começa com os traços mais simples e evolui até as técnicas
mais sofisticadas da época. "Animando" é um exemplo atemporal, capaz
de nos fazer refletir sobre o desenvolvimento das animações ao longo das
décadas. Desde a utilização das técnicas manuais até as inovações mais
recentes, como a Animação 3D produzida por computadores, o motion capture e o
CGI, o filme nos convida a revisitar o passado e pensar nas transformações que
moldaram essa arte.
O aspecto
metalinguístico da obra também é fascinante. Enquanto o personagem de
"Animando" vive suas aventuras, o filme alterna entre momentos que
revelam os bastidores da produção, destacando a interação das mãos do animador
com os elementos que estão sendo criados, sugerindo o processo por trás da
animação. Esse jogo entre criação e realidade coloca o filme em um patamar
único, misturando a magia da ficção com a franqueza do processo criativo, o que
enriquece a experiência do espectador.
Além da
genialidade técnica e narrativa, "Animando" se destaca também pelo
extraordinário trabalho de sua equipe de som e trilha sonora. A música e os
efeitos sonoros, produzidos por uma equipe talentosa que inclui Marcos Cabral,
Arthur Cabral, Papito, Fernando Miranda, Ricardo Freitas, Sergio Magalhães,
Caio Senna, Claudio Wilner, Claudio Valeriano, Sidnei Chagas, Marcos Amirante e
a sonoplastia de Leonardo de Souza, complementam de maneira primorosa a Animação,
criando uma atmosfera que ora diverte, ora emociona, mas sempre imerge o
espectador no universo peculiar do filme.
Marcos
Magalhães, com "Animando", não apenas entrega uma Animação
tecnicamente brilhante, mas também uma profunda homenagem aos animadores, às
técnicas criativas que evoluíram ao longo dos anos, e a todos os profissionais
que contribuem para a arte da animação. O filme consegue, em poucos minutos, transmitir
a essência dessa forma de arte, mostrando que, por trás de cada movimento
fluido e cada cena engraçada ou emocionante, existe uma imensa dedicação e
paixão pela criação visual.
"Animando"
permanece até hoje como uma das melhores animações já produzidas no Brasil, não
apenas por sua inovação técnica e narrativa, mas por sua capacidade de celebrar
a própria arte da Animação de maneira tão honesta e envolvente. É uma obra que,
mesmo décadas depois de sua criação, continua inspirando novas gerações de
animadores e conquistando todos aqueles que têm a oportunidade de assisti-la.