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sábado, 31 de outubro de 2026

A MISSA DO GALO (1982)

 


            Com direção e roteiro de Nelson Pereira dos Santos, “A Missa do Galo” é um Drama psicológico e introspectivo que encontra sua força não em grandes acontecimentos externos, mas nos desejos, frustrações e possibilidades que permanecem presos dentro dos personagens. É um filme construído a partir dos silêncios, dos olhares e das emoções que nunca chegam a ser plenamente verbalizadas.

         “A Missa do Galo” é um curta-metragem especialmente rico porque reúne dois gigantes da cultura brasileira: Machado de Assis, na literatura, e Nelson Pereira dos Santos, no cinema. A adaptação chama atenção justamente porque o diretor não busca apenas ilustrar o conto original. Seu objetivo parece ser traduzir para a linguagem cinematográfica a mesma ambiguidade psicológica, os vazios narrativos e as incertezas que transformaram o texto machadiano em um dos mais celebrados da literatura brasileira.

        O filme pertence à fase madura de Nelson Pereira dos Santos, um dos nomes mais importantes do Cinema Novo. Ao longo de sua carreira, o diretor demonstrou enorme interesse por adaptações literárias e por investigações sobre a identidade cultural do Brasil. Obras como “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere” comprovam sua habilidade em transportar para o cinema universos literários complexos sem perder suas características essenciais.

         No caso de “A Missa do Galo”, o desafio era ainda maior. O conto de Machado de Assis é famoso justamente por trabalhar aquilo que não é dito. O suspense emocional nasce das entrelinhas, das interpretações possíveis e das dúvidas que permanecem sem resposta. Transformar esse tipo de narrativa em cinema exigia uma abordagem cuidadosa, e Nelson demonstrou compreender perfeitamente essa necessidade.

         O ponto de partida da trama é aparentemente simples. Na noite de Natal, no Rio de Janeiro do século XIX, o jovem Nogueira, então com 17 anos, está hospedado na casa do escrivão Meneses, amigo de sua família, para estudar. Enquanto espera o horário da tradicional Missa do Galo, ele inicia uma conversa com Conceição, esposa de Meneses.

        O que parece ser apenas um diálogo cordial logo ganha novas camadas. Aos poucos, a conversa se transforma em algo mais íntimo, mais delicado e mais difícil de definir. Conceição é uma mulher casada e mais velha que Nogueira. O jovem, por sua vez, encontra-se numa fase marcada pela descoberta dos sentimentos, dos desejos e das ambiguidades da vida adulta. A relação entre os dois nunca se concretiza, mas o filme demonstra que nem sempre é necessário que algo aconteça para que exista tensão dramática.

         Machado de Assis deixa uma pergunta permanente: o que realmente aconteceu naquela noite? Foi apenas uma conversa inocente? Conceição demonstrava interesse por Nogueira? O rapaz interpretou sinais inexistentes? Ou ambos viveram um momento de atração silenciosa que jamais poderia ser assumido? O conto nunca responde. E o filme preserva cuidadosamente essa característica.

         Nelson Pereira dos Santos utiliza algumas sequências imaginárias para sugerir possibilidades. Essas cenas não funcionam como respostas definitivas, mas como projeções dos desejos, medos e fantasias dos personagens. O recurso é empregado com enorme sensibilidade e contribui para que o espectador permaneça constantemente questionando aquilo que vê. Em determinados momentos, torna-se difícil separar realidade, imaginação e desejo.

        Uma das maiores riquezas do curta está justamente na construção de Conceição. Ela é uma personagem extremamente complexa. Pode ser vista como uma mulher solitária, emocionalmente abandonada por um marido que mantém relações extraconjugais e que vive presa às limitações sociais impostas às mulheres de sua época. Ao mesmo tempo, também é possível interpretar que ela possui plena consciência da influência que exerce sobre Nogueira.

         Ela conduz a conversa, prolonga o encontro e cria uma atmosfera de proximidade emocional. Porém, nenhuma dessas interpretações é confirmada de maneira definitiva. Assim como Machado de Assis, Nelson Pereira dos Santos prefere preservar a dúvida.

         As atuações de Isabel Ribeiro, como Conceição, e Olney São Paulo Junior, como Nogueira, são fundamentais para o sucesso da adaptação. Isabel constrói uma personagem que oscila constantemente entre acolhimento, melancolia, mistério e sedução. Já Olney transmite com eficiência o fascínio, a curiosidade e a insegurança de um jovem diante de uma situação emocionalmente nova e difícil de compreender. A química entre os dois sustenta toda a narrativa. O elenco ainda conta com Elza Gomes, Maria Martha dos Santos, Nildo Parente, Rachel Casimiro e Sergio Otero.

         Outro aspecto admirável é o olhar do diretor. Nelson Pereira dos Santos evita transformar a história em um romance. Sua câmera observa os personagens com paciência e discrição. Os enquadramentos demorados, os pequenos gestos, os olhares e os silêncios tornam-se elementos tão importantes quanto os diálogos. O espectador não recebe respostas prontas. Ele é convidado a interpretar cada detalhe.

          Os aspectos técnicos também merecem destaque. Fotografia, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora trabalham em perfeita harmonia para reconstruir a atmosfera do século XIX sem jamais transformar o filme em uma simples reconstituição de época. Tudo funciona para fortalecer o universo emocional dos personagens e aprofundar a sensação de intimidade daquela noite.

         “A Missa do Galo” é uma verdadeira joia do curta-metragem brasileiro. Um filme que fala sobre memória, desejo, solidão, aparência social e sentimentos que jamais chegam a se concretizar plenamente. Mais do que contar uma história, Nelson Pereira dos Santos realiza uma delicada reflexão sobre aquilo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

         Ao compreender que a grande força do conto de Machado de Assis está justamente na ausência de respostas, o diretor transforma o silêncio, a dúvida e a sugestão em ferramentas dramáticas poderosas. O resultado é uma obra memorável, sensível e profundamente humana.



terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O POETA DO CASTELO (1959)

 


O curta-metragem "O Poeta do Castelo", com roteiro e direção de Joaquim Pedro de Andrade, foi o primeiro trabalho do cineasta e já demonstrava o talento que o consagraria posteriormente. Lançado em 1959, o filme oferece um recorte sensível e poético da vida do renomado escritor Manuel Bandeira, um dos maiores nomes do Modernismo brasileiro. Embora simples em sua estrutura, o Documentário é profundamente imersivo, transportando o espectador para dentro da rotina diária do poeta de uma forma íntima e contemplativa.

A narrativa do curta acompanha um dia comum de Manuel Bandeira, revelando detalhes de seu cotidiano. Desde a ida à padaria pela manhã até o café tranquilo à beira da janela, cada ação do poeta é capturada com uma naturalidade que destaca a simplicidade de sua vida e, ao mesmo tempo, a grandeza de seus pensamentos. A câmera segue Bandeira com delicadeza, mostrando-o em momentos cotidianos, como ao datilografar seus textos, ou ao se preparar para sair de casa, sempre com uma abordagem visual que combina o realismo da vida urbana do Rio de Janeiro com a atmosfera quase etérea da criação artística.

O diferencial do Documentário está na maneira como ele insere o espectador no universo interior de Bandeira. Não se trata apenas de um registro visual de sua rotina, mas de uma reflexão sobre a relação entre o cotidiano simples do poeta e a vastidão de seus pensamentos e obras. As narrações de trechos de suas poesias, na voz do próprio Bandeira, adicionam uma camada de profundidade e emoção ao filme, permitindo que o espectador entre em contato direto com a essência de seu lirismo. A voz calma e serena do poeta ressoa ao longo do filme, criando uma conexão pessoal e quase espiritual entre a obra e o público.

"O Poeta do Castelo" é, ao mesmo tempo, um retrato de um homem e de uma cidade. O Rio de Janeiro da década de 1950 serve como pano de fundo para a vida de Bandeira, mas o foco está sempre na simplicidade de seus gestos e na grandiosidade de seu pensamento. O título do filme, que faz referência ao apartamento do poeta no bairro do Castelo, reforça essa dualidade entre o espaço físico limitado e o universo infinito de sua criação literária. Embora Bandeira viva em um espaço concreto e cotidiano, sua verdadeira morada parece ser o mundo lírico de suas poesias, um lugar sem fronteiras, onde a sensibilidade e a contemplação se expandem.

Mesmo com uma técnica visual que pode ser considerada simples, o filme é repleto de sutilezas que demonstram o olhar apurado de Joaquim Pedro de Andrade. Cada enquadramento e movimento de câmera parece desenhado para capturar não apenas o espaço físico em que Bandeira vive, mas o espaço metafísico que ele ocupa como artista.

A simplicidade do Documentário não diminui sua relevância; pelo contrário, ela realça o impacto da obra. "O Poeta do Castelo" não é apenas um registro de um dia comum na vida de Manuel Bandeira, mas uma celebração de sua existência, de sua obra e de sua capacidade de transformar o comum em algo extraordinário. Bandeira, com sua vida tranquila e seus gestos rotineiros, se revela, através da lente de Joaquim Pedro de Andrade, como um gigante da poesia moderna, capaz de encontrar beleza e profundidade nas coisas mais simples.

Ao final, o curta-metragem não apenas documenta a vida de um dos maiores poetas brasileiros, mas também nos faz refletir sobre a natureza da criação artística e sobre como, em meio ao cotidiano, o gênio literário encontra espaço para florescer. O universo de Manuel Bandeira, apesar de enraizado em sua casa e em sua cidade, é infinito, e "O Poeta do Castelo" é uma janela aberta para essa vastidão de imaginação e sensibilidade.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...