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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ANACHRONIQUE (2011)

        Com roteiro e direção de Mário Masetti, “Anachronique” é um delicioso curta de Romance que apresenta o encontro de uma mulher que trabalha sozinha numa floricultura sem clientes e um homem que entra no estabelecimento comercial sem muitos motivos. No entanto, a partir desse encontro, há uma interação muito interessante entre os personagens, magistralmente interpretados por Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos.

         Eles se conhecem, porém têm dificuldades em se apresentar. Surge um sentimento. No entanto, esse sentimento não pode ser apresentado por eles, justamente pelo fato de não terem se apresentado. Assim, na opinião dos protagonistas, eles ainda não se conhecem. Existe uma situação quase infantil nessa lógica, mas é justamente essa ingenuidade que torna o relacionamento entre os dois tão interessante.

         Existe uma possibilidade de encontro amoroso. O problema é que eles não conseguem transformar essa possibilidade em encontro de verdade. É justamente aí que o nonsense entra. Em vez de utilizar o absurdo para criar uma situação grandiosa ou surrealista, Mário Masetti parte de uma situação cotidiana e faz com que ela gradualmente se torne estranha. O espectador reconhece aquela dificuldade. São duas pessoas tímidas que poderiam se aproximar, mas não conseguem. O que muda é a maneira como essa dificuldade é apresentada.

         Baseado no texto “A Florista e o Visitante”, de Vera Karam, a própria divulgação do filme destaca a influência de Samuel Beckett. Entretanto, essa influência é importante, mas não deve ser vista como simples imitação. O que ocorre em “Anachronique” é uma situação que nasce da espera, da repetição, da dificuldade de comunicação e da sensação de que alguma coisa deveria acontecer, mas não acontece. Os personagens estão diante da possibilidade de uma aproximação, mas permanecem presos à própria incapacidade de agir. Só que Vera Karam acrescenta uma camada de humor brasileiro que impede que a situação fique excessivamente filosófica ou sombria.

         A escolha da floricultura como ambiente narrativo não parece casual. Flores estão associadas ao amor, ao desejo, ao namoro, à declaração e ao romance. É quase irônico colocar uma mulher que vende flores, objetos tradicionalmente associados à aproximação amorosa, em uma situação em que ela própria não consegue estabelecer uma aproximação. A loja está cheia de símbolos do romance, mas o romance não consegue acontecer. Isso cria uma espécie de paradoxo visual. Há flores por toda parte, mas falta justamente aquilo que elas normalmente representam.

        A floricultura sem clientes também pode representar a própria vendedora. A floricultura está sem compradores. A mulher está ali, esperando, e o lugar parece parado. Ela também parece parada. O estabelecimento pode ser interpretado quase como uma extensão psicológica da personagem. Ela não está apenas trabalhando em uma loja sem movimento. Ela própria parece incapaz de fazer sua vida avançar. Quando o homem entra, surge uma possibilidade de mudança. Mas a timidez impede que essa possibilidade se concretize. Assim, o filme transforma uma situação amorosa em uma pequena reflexão sobre inércia e oportunidade.

         Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos têm atuações sublimes. A química entre os atores eleva a produção a um patamar que impressiona. “Anachronique” marcou a estreia de Mário Masetti em direção cinematográfica. Masetti tem uma trajetória extensa no teatro, e as atuações dos protagonistas, interpretadas teatralmente, criam uma experiência extremamente profunda, acentuando o poder dramático e narrativo da obra. O filme ainda conta com uma participação especial de “Taubaté” Lisboa.

        Outro detalhe pertinente e acertado por parte dos realizadores é a quebra da quarta parede. O homem interage com o espectador, e isso dá ainda mais qualidade à obra, porque o público simplesmente não assiste a um curta, ele participa do filme. Essa interação também contribui para o tom de humor e para a construção de cumplicidade com quem está acompanhando a história. O espectador passa a compreender a situação de uma maneira diferente, como se recebesse informações que o aproximam ainda mais do personagem.

         Apesar de o gênero de “Anachronique” ser Romance, o filme se destaca pela maneira como o humor nasce do desconforto. O filme trabalha com um tipo de humor que não depende de uma piada tradicional. É o humor do constrangimento, da demora e do absurdo da situação. O espectador percebe que existe uma possibilidade romântica entre aquelas pessoas e justamente por isso começa a esperar que algo aconteça. Quando os personagens não conseguem avançar, a expectativa se transforma em humor. Em muitos pontos, a interação do homem com o espectador aprofunda ainda mais esses alívios cômicos.

        Esse mecanismo é muito próximo do teatro do absurdo. A situação se prolonga, a comunicação se torna estranha e aquilo que deveria ser simples se torna extraordinariamente complicado. A graça nasce justamente da dificuldade de fazer algo que, para qualquer outra pessoa, pareceria extremamente fácil.

         “Anachronique” recebeu com méritos o prêmio de Melhor Direção de Arte no VIII Curta Canoa. Isso reforça a importância da floricultura como espaço dramático. A direção de arte não serve apenas para tornar o cenário bonito. Num filme tão dependente de um único ambiente, o espaço precisa ajudar a construir a atmosfera. Flores, objetos, disposição do estabelecimento e o próprio aspecto da loja podem reforçar a sensação de um mundo ligeiramente deslocado da realidade. Cenário, objetos, figurino e maquiagem têm parcelas substanciais na qualidade da obra, com um trabalho primoroso.

         Outros elementos técnicos, como fotografia, montagem e trilha sonora, também são fundamentais. A fotografia se concentra em capturas pontuais de movimentos, ações e expressões, enquanto a trilha sonora dá suporte às atuações dos personagens. Os aspectos técnicos servem como alicerce para que os atores brilhem, sem retirar deles a responsabilidade de conduzir a maior parte da experiência dramática.

         “Anachronique” é uma pequena história sobre duas pessoas que estão diante da possibilidade de mudar suas vidas, mas não conseguem sair da própria inércia. A floricultura representa o amor. O homem que chega representa a possibilidade. A mulher representa a espera. Porém, a timidez representa aquilo que impede a transformação da possibilidade em acontecimento.

        O mais interessante é que o filme transforma essa situação potencialmente melancólica em comédia. Nós rimos porque o comportamento dos personagens é absurdo. Mas, por baixo do absurdo, existe uma situação bastante humana. Quantas vezes duas pessoas poderiam ter se aproximado se simplesmente tivessem conseguido dizer ou fazer aquilo que sentiam? E talvez o “anacronismo” esteja justamente aí: pessoas que vivem em um mundo moderno, mas emocionalmente parecem presas a um tempo em que não conseguem avançar.

         “Anachronique” não deve ser tratado apenas como uma comédia nonsense ou como uma adaptação cinematográfica de Vera Karam. Há um amor puro, genuíno e, podemos dizer, até mesmo infantil. O filme parece usar o absurdo para ampliar uma situação cotidiana até o ponto em que ela se torna reveladora. Duas pessoas tímidas diante de uma possibilidade amorosa deixam de ser apenas duas pessoas tímidas. Elas passam a representar todos aqueles momentos em que esperamos uma iniciativa do outro, enquanto o outro espera a nossa.

         A floricultura está cheia de flores, mas o romance não floresce. E essa talvez seja a melhor ironia do curta: em um lugar destinado a vender símbolos de amor, duas pessoas não conseguem sequer encontrar coragem para começar uma história de amor. É uma conclusão simples, mas que resume perfeitamente o humor, a delicadeza e a melancolia escondida por trás do nonsense de Mário Masetti.




        

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

RÓTULO (2013)

 


        É manhã. Fernando e Carol acordam na cama da casa dele e tudo indica que aquele será apenas mais um dia comum, sem grandes acontecimentos. O ambiente é íntimo, tranquilo e cotidiano, até que uma conversa aparentemente banal começa a ganhar corpo. Entre comentários despretensiosos, os dois iniciam um debate sobre beijos. O que começa como uma troca leve de lembranças; beijos bons, ruins, estranhos ou inesquecíveis, rapidamente se transforma em algo muito maior, conduzindo a narrativa para um rumo surpreendente, provocador e extremamente divertido.

“Rótulo” é aquele tipo de curta extremamente eficiente, que demonstra como a combinação precisa entre elementos narrativos, dramáticos e técnicos pode potencializar um texto aparentemente simples. Toda a ação se passa em um único ambiente – o quarto – o que reforça ainda mais a qualidade do roteiro e, sobretudo, a competência de Felipe Cabral, responsável por direção e roteiro. Trabalhar em um espaço limitado exige domínio absoluto de ritmo, diálogos e encenação. E o filme tira o máximo proveito dessa escolha, transformando a limitação espacial em força criativa.

Com Felipe Cabral no papel de Fernando e Julia Stockler interpretando Carol, acompanhamos um debate tão íntimo quanto universal. A conversa sobre beijos se expande e passa a incluir terceiros: ex-namorados, ex-namoradas, casos passageiros e relações que, à primeira vista, pareciam pouco relevantes. Essas lembranças vão sendo usadas como argumentos em uma disputa quase lúdica, mas carregada de implicações, em que cada um tenta provar seu ponto de vista com convicção e ironia.

“Rótulo” trabalha de forma muito inteligente com a ideia de que a orientação sexual de uma pessoa pode, erroneamente, ser definida a partir de experiências pontuais. Na tentativa de “ganhar” o debate, tanto Carol quanto Fernando passam a determinar quem pode ficar com quem e o que cada um é, baseando-se apenas no sexo das pessoas com quem se relacionaram. As conclusões surgem de maneira cada vez mais exagerada, revelando o absurdo dessas categorizações. Se a explicação parecer confusa no papel, o filme “tenta resolver” isso com extrema clareza em cena e, acima de tudo, com muito humor. Mais do que entender racionalmente, o convite aqui é se deixar levar pela lógica torta e pelas provocações do casal.

A química entre Felipe Cabral e Julia Stockler é impressionante. Ambos entregam atuações grandes, cheias de nuances, que transitam com naturalidade entre a brincadeira, o incômodo, a provocação e a irritação genuína. Os diálogos fluem de acordo com o estado emocional de cada personagem, criando uma dinâmica viva e orgânica. Eles se provocam, se desafiam, perdem a paciência e retomam a conversa com ironia e afeto. Carol tenta impor rótulos a Fernando, delimitando o que ele pode ou não ser, enquanto ele oscila entre aceitar o jogo e questionar suas regras. Porém, as “regras criadas” por Carol podem valer para ela também. O grande carisma de “Rótulo” está justamente na forma natural e desarmada com que o filme aborda um tema tão sensível quanto a sexualidade.

Indo além do que se vê em cena, o curta propõe uma reflexão direta e necessária: não existem regras fixas que determinem quem uma pessoa é a partir de suas experiências afetivas ou sexuais. O filme evidencia que rótulos simplificam realidades complexas e ignoram a pluralidade do desejo humano. Em última instância, o que sustenta qualquer relação, afetiva ou social, é o respeito à diversidade. Embora “Rótulo” trate especificamente da sexualidade, sua mensagem se estende a outros campos fundamentais da vida em sociedade: liberdade de pensamento, expressão, crença religiosa e identidade individual. Cada pessoa tem o direito de ser quem é, sem precisar se encaixar em categorias impostas.

Tecnicamente, “Rótulo” é um curta muito bem produzido. A trilha sonora aparece de forma pontual, empolgando nos momentos de maior leveza e cedendo espaço ao silêncio do quarto quando a conversa exige mais intimidade e atenção. Isso permite que os diálogos ganhem ainda mais força. Fotografia, direção de arte e montagem trabalham em perfeita sintonia, sustentando a coesão narrativa e dramática sem jamais chamar mais atenção do que o necessário. Tudo funciona em favor da história e dos personagens.

O resultado final é uma obra divertida, provocadora e extremamente cativante, que prende o espectador do início ao fim. “Rótulo” diverte, faz rir, incomoda na medida certa e convida à reflexão, mostrando que, às vezes, uma simples conversa de manhã pode revelar muito mais sobre quem somos do que imaginamos.




sábado, 16 de agosto de 2025

LIXO (2023)

 

O que se vê em cena provavelmente não é a primeira discussão sobre o assunto entre Guta e Ernesto, mas, provavelmente será a última. Há algo de cíclico nesse embate, como se fosse um capítulo recorrente na vida conjugal do casal. Sob a direção segura de Renato Simões e com roteiro de Cadu Pereiva, “Lixo” nos apresenta esses dois personagens interpretados com naturalidade e presença por Rebecca Carvalho e Ben Gomes, mergulhando o espectador, já no início, em uma situação íntima que equilibra descontração e franqueza.

A comédia, de imediato, encontra seu ponto de partida no cansaço de Ernesto, mais uma vez abordado por Guta no momento em que ela busca intimidade. O texto, longe de adotar um tom vulgar, opta por brincar com a forma como o sexo é representado em tela, refletindo, com sutileza, sobre a função que o desejo e o contato físico exercem dentro de uma relação. Há humor, mas também existe um subtexto sobre expectativas, rotina e a capacidade (ou incapacidade) de comunicação entre parceiros.

À medida que a narrativa avança, novas camadas se revelam. A recusa de Ernesto não é mero desinteresse, há uma motivação curiosa e inesperada, construída de maneira hilária, que envolve desejos adormecidos, vontades inesperadas e a tentação de experimentar algo novo. O ponto alto da trama ocorre quando Ernesto revela ter encontrado, no lixo do condomínio, um antigo diário pertencente a outro morador. Ao folhear as páginas, ele se aproxima emocionalmente do autor anônimo, numa conexão silenciosa que contrasta com o distanciamento de sua própria esposa.

“Lixo” transcende a comédia romântica ao explorar tabus de forma desarmada. Guta, jovem, atraente e confiante, não consegue compreender como o marido poderia voltar suas atenções para outra pessoa. Mas o roteiro subverte as expectativas: o interesse de Ernesto não se traduz numa traição convencional, e sim numa forma alternativa de intimidade e identificação. Essa descoberta é tanto um choque para ele quanto para o público, pois o obriga a questionar seus próprios limites e o medo de revelar sentimentos que podem não ser correspondidos.

Rebecca Carvalho e Ben Gomes entregam atuações cheias de carisma e sintonia, com um timing cômico preciso e uma energia que mantém a narrativa agradável. A química entre eles é convincente o suficiente para que o espectador acredite tanto no desgaste da relação quanto no vínculo afetivo que ainda os une. A presença de Giulia Tolezzani, numa participação especial, ainda que breve, ajuda a ampliar a percepção do espectador sobre o segredo de Ernesto.

O roteiro é ágil e bem amarrado, evitando dispersões e conduzindo a história de forma fluida até uma resolução final espirituosa, que combina a leveza da comédia com a doçura de um olhar compreensivo sobre as falhas humanas. A direção de Renato Simões demonstra precisão na gestão do ritmo e na harmonização dos elementos narrativos, potencializada por uma fotografia funcional e uma direção de arte que não se impõe, mas constrói um cenário cotidiano verossímil. A trilha sonora, pontual e bem inserida, reforça a pegada cômica sem sobrecarregar as cenas.

“Lixo” é mais que uma comédia de DR’s e desencontros conjugais; é um retrato espirituoso sobre afetividade, comunicação e aceitação das diferenças, seja de idade, orientação sexual ou expectativas emocionais. Um curta que diverte, provoca reflexões leves e, acima de tudo, humaniza seus personagens, lembrando-nos de que nem todo conflito precisa ser resolvido com grandes gestos, às vezes, basta rir junto.




sábado, 31 de maio de 2025

INSPIRAÇÃO (2012)


           Vencedor do "Make it Short", festival internacional de curtas-metragens destinados a jovens diretores, realizado pelo ator e produtor Antonio Banderas em busca dos melhores roteiros para suas fragrâncias, “Inspiração” narra parte da vida de Maria, quando ela passa a demonstrar interesse por uma pessoa que encontra no elevador do prédio onde trabalha.

Em meio a agitação da cidade e o vai e vem no saguão do prédio, Maria se vê sozinha com Carlos dentro do elevador. A narração em Voice-over é essencial para a condução da trama, transmitindo os sentimentos, expectativas e indagações da nossa protagonista, muito bem interpretada por Isabella Lemos. O elenco ainda conta com Roberto Lacava, no papel de Carlos, e André Santi, num papel secundário, mas não menos importante para o desenvolvimento da trama.

         Maria passa por uma transformação, na tentativa de ser notada por Carlos. Porém, ela desperta a atenção de outros homens e não conseguindo atingir seu objetivo.

         A carga de humor do filme é muito bem dosada, tanto através da narração da protagonista quanto pelos eventos que ocorrem no decorrer do curta. O diretor e roteirista Vitor Coldibelli, consegue extrair o máximo do texto, contribuindo para a afinidade criada entre personagens e público. O argumento é de Vitor Coldibelli e Roberto Lacava.

         Apesar de ser uma Comédia Romântica, o filme levanta questões importantes sobre aceitação e a forma como algumas relações podem se iniciar, não por uma mudança física no visual, mas por uma atitude. Maria se questionou sobre vários pontos que podem trazer inseguranças para algumas pessoas quando o assunto é demonstrar interesse por alguém e esperar que esse interesse seja correspondido. Porém, são outros atributos que podem decidir sobre o destino.

             Com elementos técnicos de produção muito bem executados, “Inspiração” conta com uma ótima direção de fotografia, arte e trilha sonora na medida certa. Tudo contribui para a construção de um universo real e natural, apresentado em cena. Tanto em relação a elementos técnicos, narrativos e dramáticos, “Inspiração” tem uma qualidade inquestionável, tendo em seus pouco menos de 8 minutos, um desenvolvimento gradual e que agrada pela sua eficiência e dinamismo.

         “Inspiração” é um ótimo exemplo de como roteiro e elementos técnicos podem resultar numa excelente experiência no audiovisual em curta-metragem. É um filme leve, com camadas importantes e que fascina ao mesmo tempo que diverte.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...