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sexta-feira, 31 de julho de 2026

PASSAGEIROS (1987)

 


“Passageiros” é um curta que funciona em várias camadas ao mesmo tempo. Na superfície, temos uma situação simples e direta: um taxista recebe um passageiro que anuncia um assalto durante a corrida. Porém, Carlos Gerbase e Glênio Póvoas transformam essa premissa aparentemente banal em uma reflexão sobre violência urbana, criminalidade, poder, identidade e sobrevivência no Brasil dos anos 1980.

         O contexto histórico é importante. O filme foi realizado durante o período de redemocratização do país, poucos anos após o fim da ditadura militar. A presença das falas do então ministro da Justiça, Paulo Brossard, no início e no final da narrativa não parece acidental. Elas funcionam como um enquadramento político para a história. Enquanto o discurso institucional fala sobre ordem, segurança e legalidade, o curta mergulha numa realidade onde essas estruturas parecem incapazes de resolver os conflitos cotidianos. Existe uma sensação constante de distância entre o discurso oficial e a experiência vivida pelas pessoas comuns, algo que fortalece ainda mais a crítica proposta pela obra.

        A referência a Rubem Fonseca é particularmente significativa. A literatura de Fonseca frequentemente apresenta personagens moralmente ambíguos, ambientes urbanos degradados e uma violência que surge não apenas dos criminosos, mas da própria sociedade. Quando o taxista passa a confrontar verbalmente o assaltante, o filme parece dialogar diretamente com esse universo. A criminalidade deixa de ser apenas um ato isolado e passa a integrar uma lógica social mais ampla. O curta sugere que a violência não nasce do nada, mas faz parte de um contexto social complexo que afeta todos os personagens.

        A influência de Martin Scorsese também merece atenção. Dependendo das cenas que você identificou, especialmente se a referência for a “Taxi Driver” (1976), existe uma conexão interessante. O protagonista de Scorsese é um homem comum que gradualmente revela uma dimensão psicológica muito mais complexa do que aparenta. Em “Passageiros”, algo semelhante acontece. O taxista inicialmente ocupa o papel clássico da vítima, mas a narrativa vai desconstruindo essa posição à medida que ele assume o controle da situação. Aos poucos, o espectador percebe que conhece muito menos sobre aquele personagem do que imaginava.

         Esse talvez seja o aspecto mais interessante do curta. A história trabalha constantemente com a inversão de expectativas. O espectador acredita entender quem possui o poder naquela situação, mas o filme gradualmente questiona essa percepção. A relação entre vítima e agressor torna-se cada vez menos simples. A tensão não nasce apenas da ameaça física, mas da descoberta de quem realmente está diante de quem. O que parecia uma situação previsível passa a assumir contornos cada vez mais incômodos.

         Também é possível interpretar o curta como uma discussão sobre aparências. O passageiro acredita controlar a situação porque possui uma arma. O taxista, por outro lado, demonstra conhecer aspectos da violência e da marginalidade que ultrapassam aquilo que o assaltante imaginava encontrar. O filme sugere que as identidades sociais nem sempre correspondem à realidade dos indivíduos. E, neste quesito, destacam-se as excelentes atuações de Zé Adão Barbosa e Marcos Carbonell. As primeiras impressões revelam-se insuficientes para compreender a complexidade das pessoas.

        A participação dos Replicantes e de Wander Wildner reforça ainda mais o espírito da produção. O punk gaúcho dos anos 1980 carregava forte crítica social, contestação e uma postura antiestablishment. Essa energia combina perfeitamente com a proposta do filme, que constantemente desafia expectativas e coloca em dúvida discursos oficiais sobre criminalidade e ordem pública. Não se trata apenas de um detalhe musical ou cultural, mas de um elemento que ajuda a definir a identidade da obra.

         Do ponto de vista técnico, a fotografia de Alex Sernambi contribui para construir uma atmosfera urbana seca e realista. O espaço limitado do táxi transforma-se num palco de confronto psicológico, enquanto a montagem de Giba Assis Brasil e do próprio Sernambi mantém o ritmo da tensão crescente. A direção de arte de Marta Almeida trabalha discretamente, mas ajuda a reforçar a sensação de cotidiano e autenticidade que sustenta toda a narrativa. O filme compreende muito bem como utilizar um espaço reduzido para potencializar a sensação de pressão e confinamento.

         Outro aspecto interessante é a economia narrativa. Com apenas oito minutos, Gerbase e Póvoas conseguem desenvolver personagens, estabelecer um conflito, inserir referências culturais e construir um desfecho impactante sem desperdiçar uma única cena. É um exemplo de como o curta-metragem pode atingir enorme eficiência dramática através da concisão. Cada diálogo, cada reação e cada mudança na dinâmica entre os personagens possui uma função clara dentro da narrativa.

         Talvez a maior força de “Passageiros” esteja justamente em sua capacidade de utilizar uma situação aparentemente simples para discutir temas muito maiores. O curta fala sobre violência urbana, mas também sobre preconceitos, sobre a fragilidade das aparências e sobre a dificuldade de distinguir claramente inocentes e culpados em uma sociedade marcada por desigualdades e tensões permanentes. O resultado é uma obra inteligente, provocativa e surpreendentemente atual, cuja força permanece intacta décadas após sua realização. Mesmo passados muitos anos de seu lançamento, as questões levantadas pelo filme continuam relevantes e ajudam a explicar por que o curta ainda provoca reflexão e desconforto em quem o assiste.




quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONTRA-FILÉ (2019)

 

                Produzido com muita eficiência e competência, “Contra-Filé” é uma excelente Animação que mescla com os gêneros Suspense e Thriller. Com direção, roteiro, produção, fotografia e montagem de Pedro Iuá, o curta tem uma atmosfera densa e tensa que sintonizam perfeitamente com o humor ácido e mórbido.

         A trama utiliza uma quebra narrativa, apresentando primeiramente um homem amarrado e ensanguentado. Posteriormente, o curta apresenta o protagonista em sua residência, sendo acordado pelo toque do telefone e um aviso para que fugisse do local, pois pessoas estariam a caminho e ele iria sofrer as consequências. A voz ao telefone lhe aconselha a comprar 60 ou 70 quilos de carne no açougue em frente à sua casa, colocar dentro de seu carro, espalhar alguns fios de cabelos, tocar fogo no local e desaparecer o quanto.

         Ele corre ao açougue, porém a fila cresce rapidamente. Um dos principais acertos de “Contra-Filé” é aliar o sentimento de desespero do protagonista com os diálogos e a forma como Seu Leitão (dono do açougue), Zé Tripa e Valdecir conversam sobre os tipos de carnes e as formas como manusear instrumentos de cortes. Os personagens ganham voz de Almir Martins, Antonio Perez Gonzalez e Gustavo Ottoni, respectivamente. O curta conta ainda com Otto Júnior como a voz ao telefone. A lentidão do atendimento contrapõe com o senso de urgência do protagonista, que precisa o mais rápido possível de carne.

          Os realizadores acertaram em cheio em deixar no ar o porquê da situação, de homens estarem atrás do personagem principal. O que sabemos é que são pessoas violentas e que chegam ao local, quando ele ainda está na fila do açougue.

         Não tendo escapatória, termina sendo agredido violentamente por um homem, enquanto outro, que manuseia algumas bolinhas nas mãos, ordena por mais agressões. Certo é que o protagonista tem algum tipo de acerto de conta com aquele homem, que aparenta ser chefe de um grupo criminoso. O protagonista fica totalmente exposto para a morte, estando nas mãos dele.

         Com cortes rápidos em alguns momentos, “Contra-Filé” tem uma montagem muito bem elaborada que combina com os sensos de perigo e urgência do personagem. Outro elemento técnico muito bem executado é som e trilha sonora, que transmite as sensações de suspense e acidez de um curta com uma narrativa extremamente fluida e surpreendente.

         A direção de animação é de Pedro Iuá, com cenários de Alessandra Vilela, Roberto Custódio, Pâmela Peregrino, Antonia Muniz e do próprio Iuá, assim como na concepção e modelagem de bonecos e objetos, que contam com o trabalho de Antonia Muniz, Miguel Martins e Beatriz Lima.

            “Contra-Filé” é uma Animação que trabalha em sua narrativa com o subgênero de Crime e tem uma produção muito caprichada, combinando muito bem os elementos narrativos e dramáticos aos elementos técnicos. É um curta que extrai o máximo do que tem à disposição, demonstrando a incrível competência dos envolvidos no projeto.




domingo, 6 de julho de 2025

ANTES QUE VENHAM ESTOURAR OS NOSSOS MIOLOS (2016) - CONTÉM SPOILERS

 

O encontro entre um garoto e o chefe de um grupo criminoso marca o ponto de partida de "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos"; uma obra que transcende as expectativas de um simples acerto de contas no mundo do crime. No passado, o chefe foi acolhido pelo pai do garoto, e agora, ele decide que chegou a hora do menino ser introduzido aos meandros violentos e impiedosos da vida criminosa. A primeira lição? Executar um homem. A vítima, amarrada e imobilizada em uma cadeira, luta desesperadamente para negociar sua sobrevivência, numa tentativa frenética de escapar da morte iminente.

Dirigido por Tiago Picado e com um roteiro afiado de Pedro Murad, o curta "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é uma joia rara do cinema nacional. Ele se destaca por navegar entre diferentes gêneros, pegando o espectador de surpresa e entregando uma obra cheia de camadas e reviravoltas inesperadas. O que começa como uma tensa negociação entre um criminoso e sua vítima logo se transforma em uma trama de Suspense psicológico e até mesmo de Horror, envolvendo elementos sobrenaturais. O filme quebra expectativas ao ir além do clichê do acerto de contas, criando uma narrativa rica em tensão e mistério.

O elenco é composto por Alan Pellegrino, André Soares, André Tavares e Cridemar Aquino, todos entregando performances de alta qualidade que elevam a densidade dramática da trama. Cada um traz uma intensidade visceral às suas cenas, destacando o peso moral e emocional da situação em que seus personagens estão envolvidos. Em especial, a interação entre o garoto e o chefe do grupo criminoso é carregada de uma dualidade perturbadora: de um lado, a figura paternal distorcida do chefe, ensinando o menino a matar; do outro, a resistência silenciosa do garoto, que enfrenta o dilema de seguir adiante com a execução.

O enredo nos coloca nos momentos finais da vida de um homem desesperado. A primeira parte de sua negociação é com o chefe do grupo, que, sem hesitar, entrega uma pistola nas mãos do garoto, o deixando encarregado de realizar a execução. Não sabemos exatamente o que o homem fez para acabar ali, mas essa ausência de explicação é proposital, deixando espaço para que o público especule sobre o passado da vítima. Esse mistério dá profundidade à trama, enquanto o roteiro, sabiamente, mantém o foco na tensão presente.

O que inicialmente parece ser apenas uma execução no submundo do crime ganha uma dimensão inesperada após o disparo fatal. O homem, agora à beira da morte, é conduzido a uma experiência sobrenatural, onde se vê frente a frente com a personificação da Morte. Esta segunda negociação, entre ele e a Morte, insere um novo nível de complexidade na narrativa, pois revela que, assim como ele devia algo aos criminosos em vida, também deve algo à Morte. O filme surpreende o espectador ao transformar a trama em um Suspense metafísico, onde o homem é pressionado a revelar um segredo crucial que, até então, ele e seus irmãos mantinham. No entanto, seus irmãos já se foram, e ele é a última chance da Morte de descobrir esse segredo.

A dinâmica entre o homem e a Morte é magistralmente construída. Enquanto ele tentava negociar com os criminosos sua vida, agora sua barganha é com a própria entidade da Morte, o que amplia ainda mais o clima de desespero e tensão. A Morte não é simplesmente uma figura passiva à espera; ela tem um interesse próprio e impõe sua vontade, buscando respostas que só o homem pode fornecer. Esse toque sobrenatural não apenas eleva a história, mas também a torna mais instigante e rica em possibilidades interpretativas.

A direção de Tiago Picado é notável por conseguir manter o suspense elevado ao longo de todo o curta, mesmo com poucos cenários e uma trama essencialmente centrada em diálogos e negociações. Ele consegue extrair o máximo de cada cena, criando uma atmosfera sufocante que prende a atenção do espectador do início ao fim. A fotografia, arte e montagem trabalham em perfeita harmonia para criar um ambiente perturbador e sombrio, refletindo o desespero do homem e a implacabilidade dos criminosos. Já os efeitos visuais, muito bem elaborados, dão vida à aparição da Morte, sem exageros, mas com impacto visual suficiente para marcar a sequência sobrenatural.

A escolha de não explicar o passado do homem e o motivo pelo qual ele está naquela situação é uma jogada inteligente do roteiro, pois permite que a trama se concentre mais no presente e no que está em jogo naquele momento decisivo. Essa omissão deliberada também contribui para o ar de mistério que permeia o filme, fazendo com que o espectador fique imerso na tensão do agora, ao invés de se perder em explicações sobre o passado. A resolução final é chocante, tanto em termos narrativos quanto dramáticos, deixando o público refletindo sobre as escolhas que foram feitas e as implicações que elas trazem.

"Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é um filme que desafia expectativas, mesclando Suspense, Drama e Thriller com uma pitada de sobrenatural de maneira hábil e original. Sua atmosfera densa e seu ritmo bem conduzido fazem dele uma experiência única e envolvente. É um curta que nos deixa com a sensação de que, no universo do crime, assim como na vida e na morte, nada é tão simples quanto parece.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...