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sábado, 31 de outubro de 2026

SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

 


     Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem que tinha aproximadamente 120 minutos e foi realizado em sete partes, mas a cópia integral desapareceu. A versão atualmente acessível tem cerca de 24 minutos. A identificação desse material na Cinemateca Brasileira ocorreu apenas em 1988. Portanto, um aspecto fundamental é que o filme precisa ser analisado simultaneamente como obra cinematográfica e como documento histórico.

         A grande intenção de Walfredo Rodrigues era mostrar um Nordeste diferente daquele imaginado pelo restante do país. As cartelas do filme deixam isso bastante evidente. O Nordeste aparece como território de riqueza natural, atividade econômica, cidades, costumes e diversidade. Não se trata apenas de registrar paisagens, mas de apresentar uma região que possui uma identidade própria e múltiplas formas de vida.

         “Sob o Céu Nordestino” pode ser visto como um dos primeiros grandes esforços cinematográficos para construir uma imagem da Paraíba através do próprio cinema. Walfredo percorre cidades, paisagens, estradas, apresenta atividades econômicas e manifestações culturais, criando uma espécie de inventário visual do estado.

         A diversidade das localidades como Umbuzeiro, Borborema, Bananeiras, Araruna, Campina Grande, Patos, Santa Luzia e Cabedelo impede que o Nordeste seja apresentado como um espaço homogêneo. Há, portanto, uma relação interessante entre cinema e identidade regional: filmar esses lugares também significa afirmar que eles merecem ser vistos, registrados e lembrados.

         O Nordeste tradicionalmente foi representado por determinados elementos, como seca, pobreza, sertão e sofrimento. Walfredo, porém, constrói uma visão muito mais ampla. O filme mostra cidades, comércio, agricultura, vaquejada, feiras, litoral e pesca da baleia. A própria variedade geográfica já funciona como resposta ao estereótipo.

         É interessante perceber que isso não significa que o filme ignore as dificuldades da região. A questão é outra: ele se recusa a transformar a dificuldade em definição absoluta do Nordeste. Nesse sentido, existe uma outra dimensão no ato de filmar. Registrar uma região também é disputar a maneira como ela será lembrada e imaginada.

        Do ponto de vista histórico da linguagem, vale observar que estamos diante de um documentário dos anos 1920, quando as possibilidades do gênero ainda eram bastante diferentes das que conhecemos hoje. Não há entrevistas ou depoimentos no sentido contemporâneo. A informação é organizada pelo próprio filme. Walfredo não está tentando apenas observar. Ele permite que o espectador veja e conheça a cultura, a tradição e a história.

         Um aspecto técnico que merece atenção é o uso de cartelas, mapas e informações geográficas. Elas não funcionam apenas como legendas explicativas. Ajudam a organizar o enorme território percorrido pelo filme e transformam o espaço em elemento narrativo. Uma leitura contemporânea pode até achar algumas dessas explicações excessivamente didáticas, mas é preciso considerar sua função naquele contexto: o filme precisava apresentar uma região ao público na década de 1920. Por isso, os mapas e textos fazem parte da própria estratégia de construção do Nordeste que Walfredo pretendia realizar.

         A presença do comércio de algodão, da feira de Campina Grande e da pesca da baleia é particularmente significativa. Walfredo não olha apenas para paisagens ou costumes. Ele registra atividades econômicas, mostrando circulação de mercadorias, trabalho e formas de produção. Isso fortalece a ideia de um Nordeste economicamente ativo e conectado.

        Há algo quase aventureiro no projeto. Walfredo percorreu a Paraíba durante anos, em condições bastante precárias, utilizando diferentes meios de transporte e buscando registrar localidades que ainda estavam longe de possuir uma representação cinematográfica sistemática. Isso dá às imagens um valor particular. Hoje podemos simplesmente viajar para uma cidade e fotografá-la. Na década de 1920, colocar uma câmera em determinados lugares e produzir uma documentação cinematográfica era uma operação muito mais complexa. Assim, existe uma espécie de gesto de descoberta no filme: a câmera está descobrindo lugares para o próprio cinema brasileiro.

         Um elemento que se perdeu foi a mistura de documentário e ficção. A obra original possuía um prólogo ficcional, com Braz Cantizani e Eleonora Cantizani, embora o restante fosse essencialmente documental. Isso quebra a ideia de que o documentário de Walfredo seria apenas um registro objetivo. A ficção aparece associada à própria ideia de formação histórica, incluindo a presença indígena, segundo a descrição da obra. Portanto, o diretor mistura reconstrução, encenação e observação documental. Isso também mostra que a fronteira entre documentário e ficção já era mais fluida do que às vezes imaginamos quando pensamos no cinema dos anos 1920.

         “Sob o Céu Nordestino” é evidentemente um documento histórico, mas reduzi-lo a isso seria perder parte de sua força. Walfredo Rodrigues estava fazendo algo bastante ambicioso: usar o cinema para construir uma memória visual de sua terra. Ele queria mostrar o Nordeste, mas também queria que determinadas imagens permanecessem.

          E existe uma ironia poderosa no fato de que o filme tenha sobrevivido apenas parcialmente. A obra que pretendia preservar cidades, pessoas, paisagens e costumes acabou precisando, ela mesma, ser preservada. Por isso, talvez o que mais impressione hoje não seja apenas aquilo que vemos, mas a consciência de tudo aquilo que não podemos mais ver.

         O fragmento de 24 minutos funciona, então, em duas direções: é uma janela para a Paraíba dos anos 1920 e, simultaneamente, uma lembrança da fragilidade da própria memória cinematográfica. E talvez seja justamente aí que “Sob o Céu Nordestino” adquira sua maior importância: Walfredo Rodrigues não apenas registrou um Nordeste que existia. Ele deixou para o futuro vestígios de um Nordeste que já não existe exatamente daquela maneira.




sexta-feira, 23 de outubro de 2026

MAUÁ – LUZ AO REDOR (2012)

 


        Com direção e roteiro de Juliana Vicente, “Mauá – Luz ao Redor” apresenta a ocupação da comunidade Mauá, no centro de São Paulo. No entorno da Rua Mauá encontra-se a vida das 230 famílias que habitam a ocupação de um prédio que estava abandonado. Mais do que apresentar simplesmente um espaço ocupado, o documentário registra pessoas que transformaram aquele edifício em lugar de moradia, convivência e construção de uma nova rotina.

         O ponto central do curta gira em torno da ocupação como lugar de moradia, não simplesmente como “prédio ocupado”. O documentário desloca o olhar da palavra “ocupação”. O termo frequentemente faz pensar apenas no ato de tomar um imóvel, mas o filme apresenta aquilo que foi construído dentro dele: relações, rotina, trabalho, estudo, convivência e pertencimento. Pesquisas posteriores sobre a Mauá mostram justamente essa transformação do antigo Hotel Santos Dumont em espaço habitacional e comunitário. Isso abre uma questão interessante: quando um prédio deixa de ser apenas propriedade e passa a ser casa? A resposta não está somente na estrutura física, mas na vida que passa a existir dentro daquele espaço.

        A vida dos moradores não está confinada ao edifício. A localização central interfere diretamente na existência dessas pessoas. A câmera pode ser pensada, portanto, não apenas como observadora da ocupação, mas como instrumento que mostra a relação entre moradia e cidade. A Mauá não é um lugar isolado: está diante da Estação da Luz, cercada por transporte, comércio, serviços e outras instituições. Estar ali significa ter acesso a uma parte da cidade que muitas vezes permanece distante para populações que precisam morar nas regiões periféricas.

         Daí surge uma questão maior: quem pode morar no centro de São Paulo? O documentário permite pensar a cidade não somente como espaço físico, mas como espaço de disputa. Há imóveis abandonados e, simultaneamente, pessoas sem moradia. A ocupação cria justamente esse choque entre propriedade, abandono, necessidade e função social. Estudos sobre a Mauá tratam a experiência como parte de uma disputa mais ampla pelo direito à cidade e pela habitação de interesse social. O filme transforma essa discussão abstrata em uma realidade concreta, formada por famílias que vivem naquele espaço.

        Tanto os depoimentos de moradores quanto de Mano Brown trazem a reflexão de que o desejo dos que detêm o poder financeiro e político é manter os que não têm direitos longe do centro, do trabalho, de hospitais e, automaticamente, longe de ter dignidade. A questão habitacional aparece, assim, ligada a outras formas de desigualdade. Morar longe significa também enfrentar maiores deslocamentos e dificuldades para acessar serviços e oportunidades.

         O filme mostra como a ameaça de despejo muda o significado de tudo. A ameaça não precisa ser apresentada apenas como um acontecimento futuro. Ela contamina aquilo que já foi conquistado. Uma família que conseguiu estabelecer uma rotina pode perder não apenas quatro paredes, mas escola, trabalho, vizinhança, amizades e referências. É interessante observar como o filme trabalha essa ideia de deslocamento como destruição de uma rede de vida, e não simplesmente como mudança de endereço.

         Merece destaque um trecho da sinopse: “Pessoas que não querem retornar à condição de sem-tetos”. Existe uma diferença entre estar sem moradia e ter conquistado uma moradia, mesmo quando essa moradia está dentro de uma ocupação. A resistência dos moradores não se resume à defesa de um imóvel específico, mas também envolve a recusa de voltar a uma condição anterior. O próprio contexto posterior da Mauá mostra moradores realizando reformas e melhorias no edifício, transformando progressivamente o espaço. Essas mudanças reforçam a ideia de que o local deixou de ser apenas uma estrutura abandonada e passou a carregar marcas de quem vive ali.

         Vale observar a trajetória de Juliana Vicente. Antes e depois desse trabalho, ela realizou outros documentários ligados a questões sociais e, especialmente, ao cotidiano de comunidades e grupos historicamente marginalizados. “Leva”, dirigido por ela e Luiza Marques, também acompanha a vida em uma ocupação no centro de São Paulo.

        Isso permite refletir sobre a maneira como Juliana constrói um cinema interessado não apenas em denunciar uma situação, mas em dar visibilidade à vida existente dentro dela. Juliana dá voz a populações excluídas e marginalizadas. Um exemplo é “Vaca Profana”, que tem direção de René Guerra e Juliana como produtora. No belíssimo Drama, a abordagem reflete sobre a maternidade por parte de uma mulher trans. Em trabalhos diferentes, existe esse interesse por personagens e grupos que muitas vezes permanecem fora das representações mais convencionais.

         Com elementos técnicos muito bem empregados, Juliana Vicente constrói um filme rico para reflexões sobre a questão habitacional no Brasil. Montagem, fotografia e trilha sonora trabalham para mover um tema profundo em poucos minutos. A linguagem cinematográfica contribui para aproximar o espectador da realidade dos moradores sem transformar a questão em uma discussão puramente abstrata.

         O filme registra a Mauá em determinado momento de sua história, quando as famílias passaram a ocupar o edifício. Mas a história da ocupação continuou. Anos depois, a Mauá ainda era habitada por centenas de famílias e continuava envolvida em disputas relacionadas à regularização e à habitação. Essa continuidade dá ao curta uma dimensão ainda maior: aquilo que vemos não é uma história encerrada, mas um momento do início de uma luta que ainda continua viva.



       

sábado, 17 de outubro de 2026

CONTOS DA MARÉ (2013)

 


        Dirigido por Douglas Soares, “Contos da Maré” é um Documentário que mergulha nas raízes do Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, e revela, por meio de histórias e lendas, como essa área da cidade foi se formando e ganhando vida ao longo das décadas. Antes da construção da Avenida Brasil, o local era ainda mais isolado do restante da capital fluminense, e esse distanciamento físico contribuiu para a formação de uma identidade própria, rica em narrativas populares e tradições que ajudaram a moldar o imaginário coletivo de seus moradores.

Com um roteiro elaborado por Douglas Soares e Allan Ribeiro, “Contos da Maré” utiliza uma narrativa fluida e cativante, intercalando imagens e depoimentos de antigos moradores da comunidade. Esses depoimentos não apenas relatam como o Complexo da Maré se desenvolveu em termos de infraestrutura e população, mas também revelam o lado mais mágico e misterioso da região. À medida que a urbanização avançava, histórias e lendas locais começaram a surgir, criando um tecido cultural que uniu a população. O Documentário explora essas narrativas com sensibilidade, abordando lendas que incluem figuras como o lobisomem, a mulher-cobra e o bebê-porco, mitos que até hoje ecoam na memória coletiva do lugar.

Dividido em segmentos, “Contos da Maré” se destaca por seu uso da oralidade, que dá vida a essas lendas e faz com que o espectador compreenda o poder das histórias transmitidas de boca em boca. Através das vozes dos moradores, o filme resgata a importância dessas tradições e seu papel na construção de um senso de pertencimento à comunidade. O medo e o fascínio provocados por essas lendas não apenas entretêm, mas também criam laços entre os habitantes, fortalecendo o tecido social. Independentemente de serem verdadeiras ou não, essas histórias foram transmitidas de geração em geração, funcionando como uma espécie de elo entre os mais velhos e os mais jovens.

O Documentário também aborda a dicotomia entre passado e presente, destacando a gradual perda de interesse dos mais jovens por essas tradições orais. A percepção de que, ao deixar de acreditar nessas histórias, elas começam a desaparecer, traz um tom nostálgico e até romântico aos depoimentos dos moradores mais antigos. O filme trata essa transição com delicadeza, mostrando que as lendas, outrora tão vivas no imaginário da comunidade, estão desaparecendo conforme novas gerações se afastam dessas tradições.

No entanto, “Contos da Maré” vai além de um simples registro folclórico. O trabalho de pesquisa é extremamente cuidadoso, permitindo que o Documentário capture não apenas a essência das lendas, mas também o contexto geográfico e social da Maré. A câmera de Soares percorre cada canto da comunidade, revelando os detalhes da vida cotidiana no Complexo e ao mesmo tempo oferecendo uma visão mais ampla de como ele se insere na cidade do Rio de Janeiro. A montagem e a direção de fotografia contribuem significativamente para criar uma atmosfera que mistura o real e o mítico, enquanto a trilha sonora evoca o clima de mistério e nostalgia que permeia as histórias contadas.

Do ponto de vista técnico, “Contos da Maré” se destaca pela excelência em diversos aspectos. A fotografia, em especial, captura não apenas as paisagens e o cenário urbano da Maré, mas também os rostos e expressões de seus habitantes, imersos em suas lembranças e histórias. A montagem hábil, porém contemplativa, permite que o filme flua de forma orgânica, conectando as diferentes partes do Complexo, seus moradores e o espectador. A trilha sonora, discreta, mas eficaz, reforça a atmosfera de mistério que cerca as lendas, enquanto o design de som insere o espectador no ambiente sonoro da comunidade, tornando a experiência ainda mais imersiva.

“Contos da Maré” é mais do que um simples Documentário. Ele é uma homenagem ao sentimento popular, uma celebração da cultura local e um registro valioso de histórias que, embora possam estar desaparecendo, fazem parte da história viva do Complexo da Maré. Com muito carinho, respeito e sensibilidade, o filme trata cada história e depoimento com o devido cuidado, reconhecendo o valor cultural e histórico dessas narrativas. Ao assistir ao curta, o espectador é convidado a mergulhar nesse mundo de lendas e memórias, percebendo que, por trás de cada relato, há um pedaço da identidade de um povo que lutou para construir sua própria história em meio às dificuldades e desafios de uma vida à margem da cidade grande.

 “Contos da Maré” é uma obra indispensável para quem busca entender não apenas o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, mas também as histórias e tradições que moldaram o coração de uma das comunidades mais emblemáticas da cidade.


"Contos da Maré" está disponível no Canal Curta!

domingo, 14 de junho de 2026

DEZ BONEQUINHOS PEDREIROS DE DEZENOVE E NOVENTA E NOVE (2011)

 


Com direção de André Miranda e Gui Campos, o curta-metragem de Drama e Fantasia “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” parte de uma premissa simples, mas extremamente criativa: um homem compra um pacote com dez bonequinhos pedreiros por R$ 19,99 e os coloca em uma maquete. A partir desse ponto aparentemente banal, o filme desenvolve uma reflexão surpreendentemente profunda sobre comportamento humano, organização social e a forma como as sociedades se estruturam ao longo do tempo.

         Com narração de Sérgio Sartório, a narrativa acompanha as transformações da maquete conforme os bonequinhos passam a interferir diretamente no ambiente onde vivem. O criador da pequena cidade continua expandindo aquele universo, adquirindo novos pacotes com personagens e veículos. Homens, mulheres e crianças passam a ocupar o espaço ao lado de carros, caminhões, barcos e aviões, criando uma sociedade cada vez mais complexa.

        O fascínio inicial do narrador logo dá lugar ao espanto. Os bonequinhos não apenas se multiplicam, mas também desenvolvem comportamentos coletivos que lembram muito a vida real. Aos poucos, surgem hierarquias, rotinas, burocracias e formas de organização que passam a definir a existência daquela população em miniatura. O curta utiliza essa construção para questionar diversos aspectos da sociedade contemporânea, especialmente a maneira como os indivíduos se adaptam às estruturas sociais que eles próprios ajudam a criar.

         A alegoria é extremamente eficiente. Conforme a cidade cresce, elementos como trabalho, trânsito, compromissos diários, previsibilidade e isolamento passam a fazer parte da vida dos bonequinhos. O progresso material acontece de forma constante, mas ele parece vir acompanhado de uma perda gradual da espontaneidade e da liberdade individual. O que antes era um espaço aberto a inúmeras possibilidades passa a funcionar segundo padrões rígidos e repetitivos.

         Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é que o criador da maquete não impõe regras nem limitações. Os bonequinhos possuem liberdade para construir suas próprias trajetórias. Ainda assim, a sociedade criada por eles segue um caminho marcado por excesso de trabalho, repetição e conformismo. O curta sugere que determinadas estruturas acabam surgindo naturalmente quando grupos humanos passam a viver em coletividade, levantando questionamentos sobre o próprio desejo humano por ordem e estabilidade.

         A rotina dos bonequinhos assume um caráter mecânico. Eles parecem cada vez mais distantes de sua própria essência, presos a uma lógica produtiva que ocupa praticamente toda a sua existência. Essa alienação pode ser relacionada às reflexões de Karl Marx sobre trabalho e sociedade, mas também dialoga com referências culturais importantes, como “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, e a canção “Construção”, de Chico Buarque. Em todos esses casos, surge a ideia de indivíduos transformados em peças de uma engrenagem maior, subordinados a sistemas que parecem funcionar independentemente de suas vontades.

         A pergunta central do curta permanece ecoando durante toda a projeção: o ser humano realmente deseja liberdade ou prefere a segurança oferecida pela ordem e pela previsibilidade? O criador da maquete não interfere diretamente na vida dos bonequinhos. Ele apenas observa, tentando compreender por que eles insistem em reproduzir determinados comportamentos e estruturas.

         Outro aspecto importante é a forma como a cidade se transforma em um organismo autônomo. Os bonequinhos não reproduzem apenas indivíduos, mas também relações sociais, modelos de produção e formas de convivência. Construções e fábricas se multiplicam continuamente, enquanto a expansão urbana parece nunca encontrar limites. O crescimento se torna um objetivo em si mesmo, muitas vezes sem uma finalidade clara.

        Com roteiro de André Miranda, “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” demonstra enorme eficiência ao combinar elementos narrativos, dramáticos e visuais. A fotografia, a direção de arte, a montagem e a trilha sonora ampliam o significado das imagens e transformam uma ideia simples em uma reflexão bastante abrangente sobre sociedade, trabalho e vida urbana.

         Produzido com criatividade e precisão, o curta impressiona pela capacidade de abordar tantos temas em apenas três minutos. É uma obra que convida tanto à reflexão individual quanto ao debate coletivo, demonstrando como o cinema de curta duração pode ser extremamente poderoso quando utiliza seus recursos de forma inteligente.




terça-feira, 16 de dezembro de 2025

MUSEU NACIONAL (1960)

 


Com uma versatilidade narrativa, que acompanha o professor Victor Stawiarski, o Documentário “Museu Nacional” percorre diversos setores do edifício, apresentando a riqueza material do local.

         “Museu Nacional” tem o apoio da narração que explica sobre importantes detalhes do local, como os profissionais, materiais e as áreas onde atuam. A narração inicial explica sobre a construção do imponente prédio na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

         O curta de 16 minutos faz um minucioso trabalho de divulgação das riquezas guardadas no museu. De crânios dos mais antigos Homo sapiens à catalogação de insetos e minerais, “Museu Nacional” faz uma viagem através da paleontologia, história, arqueologia, botânica, geologia, linguística, etc. De simples pedras minerais até múmias egípcias, o Documentário dirigido por Geraldo Santos Pereira, trata todos os exemplares com a mesma importância.

            Ao explicar sobre os trabalhos dos profissionais, o curta apresenta máquinas e aparelhos e o funcionamento de cada um, somados ao rigoroso trabalho de preservação e restauração de muitos objetos que estão no museu.

           Apesar da demonstração sobre a importância do Museu Nacional, a história foi marcada por faltas de investimentos ao longo do tempo. Provavelmente, nem o professor Victor Stawiarski ou o diretor Geraldo Santos Pereira, poderiam imaginar que, após quase 60 anos após as filmagens do curta, um incêndio destruiria grande parte do acervo do Museu Nacional.

            Em 2 de setembro de 2018, um grande incêndio devastou o local e destruiu uma grande parte do acervo da instituição. Grande parte de fósseis da megafauna brasileira, coleções antropológicas e arqueológicas, acervos etnológicos, documentos históricos, coleção zoológica e botânica foram destruídos pelas chamas. Alguns objetos foram recuperados dos escombros, como fragmentos de "Luzia" e peças da coleção egípcia, mas a vasta maioria dos itens foi perdida de forma irreparável. Desde o incêndio, o Museu Nacional está em processo de recuperação, com esforços para restaurar o edifício e catalogar as peças resgatadas, enquanto busca-se recriar e preservar digitalmente o que for possível. Essa perda é considerada uma das maiores tragédias culturais da história do Brasil, dada a importância e raridade do acervo do Museu Nacional para a ciência e a história mundial.

            Assistir a “Museu Nacional” traz um misto de sentimentos, pois o filme, produzido com grande entusiasmo e orgulho, contrasta com as lembranças do incêndio e a tristeza de saber que muitos dos itens apresentados no curta de Geraldo Santos Pereira não existem mais.




quarta-feira, 12 de novembro de 2025

BRASIL PITORESCO – AS VIAGENS DE CORNÉLIO PIRES (1925)

 


Cornélio Pires, um dos mais importantes etnólogos do Brasil, foi um escritor, jornalista, folclorista, empresário e ativista cultural. Nascido em 1884, na cidade de Tietê, interior de São Paulo, Cornélio dedicou sua vida à valorização e preservação das tradições populares brasileiras, e sua obra atravessou diversas áreas da cultura. Ele faleceu em janeiro de 1958, em São Paulo, mas deixou um legado inestimável, que é amplamente explorado no Documentário “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires”. Este filme é um verdadeiro mergulho na história do Brasil, guiado pelos olhos de Cornélio, revelando um país de 100 anos atrás, com todas as suas nuances culturais, sociais e econômicas.

O Documentário acompanha as viagens de Cornélio por diversos pontos do Brasil, e é através dessas viagens que somos transportados para uma época remota, onde a vida urbana e rural coexistiam de maneiras que hoje parecem distantes. “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” apresenta um retrato vivo e autêntico do Brasil do início do século XX, permitindo ao espectador uma visão rara de como era o cotidiano de várias regiões do país naquela época. Embora grande parte do filme se concentre no estado da Bahia, Cornélio Pires inicia sua jornada em Santos, no litoral paulista, destacando a Bolsa de Café, que, na época, era o principal centro de negociação do café brasileiro, produto que dominava a economia nacional. O porto de Santos desempenhava um papel crucial no escoamento do café para o exterior, e Cornélio capta a importância desse local em suas filmagens.

Além de retratar pontos icônicos de Santos e da Baixada Santista, Cornélio nos leva ao Rio de Janeiro, com imagens deslumbrantes da entrada pela Baía de Guanabara, cenário que até hoje encanta os visitantes da cidade. O filme, sendo mudo, utiliza legendas informativas que enriquecem a experiência visual, permitindo que o espectador compreenda a relevância dos locais mostrados. Cornélio não se limita apenas a pontos turísticos; ele explora o contexto político, cultural, administrativo e religioso de cada localidade, oferecendo uma visão abrangente do Brasil da época.

Ao chegar à Bahia, o Documentário ganha novos contornos, com Cornélio Pires apresentando a cidade de Salvador de 1925, revelando um tempo em que a capital baiana já era uma mistura de tradição e modernidade. Locais como o Forte de São Marcelo, o Farol da Barra e o mercado público são explorados com detalhes minuciosos, transportando o espectador para o coração da cidade. Além disso, Cornélio explora as paisagens do Recôncavo Baiano, destacando a produção de fumo e cacau, e as vastas plantações de cana-de-açúcar na zona canavieira, essenciais para a economia regional.

O olhar de Cornélio Pires não se restringe apenas ao registro visual, mas também à compreensão profunda da essência da sociedade que ele retrata. Em Feira de Santana, ele nos mostra a feira de gado, um importante evento comercial da região, e através dessas imagens, conseguimos sentir a vida pulsante da sociedade local. O Documentário vai além de mostrar simples paisagens ou práticas econômicas; ele capta a alma das pessoas e dos lugares, oferecendo uma imersão histórica, cultural e social que faz o espectador se sentir presente naquela época e envolvido com as histórias das pessoas retratadas.

À medida que o filme se aproxima de sua conclusão, Cornélio nos apresenta Aracaju, em Sergipe, com um foco especial na cultura pesqueira dos mangues da cidade. Esse olhar sobre a economia e a vida cotidiana da região é mais uma amostra do quão completo e abrangente é o Documentário. Cornélio Pires conseguiu, com simplicidade e precisão, capturar a riqueza e a diversidade cultural do Brasil em uma época de grandes transformações.

“Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é mais do que um Documentário; é um registro histórico de valor inestimável, que permite às novas gerações conhecerem o Brasil de um século atrás. O dinamismo das imagens, o cuidado com as legendas explicativas e a capacidade de Cornélio em trazer à tona a essência dos lugares e das pessoas tornam este filme uma obra única. Com seu olhar perspicaz, Cornélio Pires criou um legado audiovisual que serve não apenas como um testemunho de sua época, mas como um fio condutor para compreendermos a evolução do país ao longo do tempo.

Este Documentário é uma verdadeira viagem no tempo, e sua importância vai além de meramente mostrar paisagens ou costumes. Ele nos lembra da importância de preservar a memória de um país em constante transformação, e de valorizar as histórias das pessoas que, muitas vezes, ficam à margem dos grandes relatos históricos. “Brasil Pitoresco – As Viagens de Cornélio Pires” é uma obra fundamental para quem deseja entender o Brasil sob uma ótica cultural e antropológica, e o filme se mantém como um tributo duradouro ao legado de Cornélio Pires e à rica diversidade do nosso país.




quinta-feira, 2 de outubro de 2025

NUNCA É NOITE NO MAPA (2016)


Com uma linguagem poética e sensível, Ernesto de Carvalho dirige com maestria o Documentário “Nunca é Noite no Mapa”. Utilizando apenas imagens do Google Maps e Google Street View, ele narra com muita assertividade alguns dos problemas sociais flagrados pelas lentes da big tech. O Google Street View é uma ferramenta do Google Maps que permite explorar virtualmente ruas e avenidas em todo o mundo. Ele oferece imagens panorâmicas de 360° em horizontal.

         O diretor, que também narra o Documentário, divaga sobre as ferramentas disponibilizadas pelo Google e pelo fato dele ter conseguido fotografar a viatura da empresa que captura imagens de cidades e ruas pelo mundo.

         O curta, porém, vai muito além de imagens de ruas, prédios históricos e monumentos importantes. Os realizadores demonstram como a viatura do Google pode apresentar uma triste realidade, especialmente nas periferias das grandes cidades. Os flagrantes registrados de viaturas policiais abordando jovens é frequente. Como também é comum imagens de moradores de rua.

         A linguagem poética dá uma enorme força na capacidade de absorção do espectador, que passa a refletir sobre como muitas coisas mudam no ambiente e, muitas vezes, não damos conta. As datas de imagens revelam essas mudanças e, muitas delas, são difíceis de digerir. Portanto, “Nunca é Noite no Mapa” mostra que essas reflexões são necessárias.

        Nas mudanças de datas feitas pelo diretor, uma mesma área onde pequenas e humildes casa estavam localizadas, foram sendo, ao longo do tempo, derrubadas para uma construção de um edifício usado nas Olimpíadas. Para muito além das imagens e de sua passagem no tempo, passamos a perceber que famílias foram desalojadas. E onde elas estariam nesse momento?

         “Nunca é Noite no Mapa” tem elementos técnicos extremamente importantes para a construção da narrativa. Mesmo com a curta duração de seis minutos, o curta é de uma profundidade impressionante, refletindo sobre cada pessoa flagrada no Google Street View tem uma vida, dificuldades e personalidade. Uma pessoa alcoolizada que dorme num beco, provavelmente não queria ser fotografada pela viatura do Google. Mas, infelizmente, a câmera fez esse registro. E por que essa pessoa estaria alcoolizada? Quais os problemas que ela enfrenta.

          De forma magistral, os realizadores apresentam muitos dos problemas da sociedade atual, com a existência de outras viaturas, que modificam o ambiente ou representam a opressão de parte da população periférica e pobre. A viatura do Google escolheu capturar essas imagens? O profissional que dirige a viatura tinha esse objetivo? O funcionário da empresa de segurança privada que trabalha para o Google tinha isso em mente?

         O Google Street View mostra casas, pontos turísticos, prédios históricos, praças arborizadas, praias ensolaradas, mas, infelizmente não tem a capacidade de ignorar a pobreza, a repressão policial, o desprezo governamental. “Nunca é Noite no Mapa” convida o espectador para essas reflexões. Tudo isso acontece no mesmo mapa que mostra a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade. 




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...