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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SETE VIDAS (2007)

 


        Com roteiro de Zé Mucinho e direção dele junto com Marcelo Spomberg, “Sete Vidas” é um Drama que utiliza o humor para apresentar a vida de um gato. Mas não um gato comum. Tchê, narrado por Selton Mello, é um escritor que morreu e acordou no corpo de um gato, passando a observar o mundo humano a partir de uma perspectiva completamente diferente.

         Tendo ainda no elenco nomes como Ariel Moshe, Christiane Tricerri, Etty Fraser, Jayro Fagundes, Luisa Mell, Mairun Sevá e Marcelo Mansfield, Tchê circula pela Freguesia do Ó e conhece diferentes personagens, suas casas, suas vidas, seus anseios, suas alegrias, dificuldades e incertezas.

      O curioso é que Tchê não é apenas o protagonista da história, mas também uma espécie de observador da humanidade. Ao passar de uma casa para outra, ele conhece diferentes pessoas e diferentes formas de viver. Cada uma delas acredita possuir o mesmo gato e, consequentemente, estabelece com ele uma relação própria. O animal recebe diferentes nomes, tratamentos e demonstrações de afeto, de acordo com a personalidade e as necessidades de cada pessoa.

         É justamente aí que o filme encontra uma de suas maiores forças. O gato acaba funcionando como um espelho de seus donos. Mais do que conhecer Tchê, conhecemos as pessoas através da maneira como elas se relacionam com ele. O animal recebe projeções, expectativas, manias e carências. Cada dono parece enxergar no gato aquilo que gostaria que ele fosse, transformando uma relação aparentemente simples entre pessoa e animal em um retrato das necessidades humanas.

         A condição de escritor de Tchê acrescenta ainda outra camada interessante à narrativa. Ele não observa aquelas pessoas como um animal qualquer. Existe nele uma consciência humana que permite narrar aquilo que vê e estabelecer relações entre os diferentes personagens. O gato ocupa, assim, uma posição privilegiada: pertence à vida de todos, mas não pertence completamente a ninguém.

        E essa ideia conversa diretamente com o título. As “sete vidas” não pertencem somente ao gato. São também as vidas das pessoas que ele encontra. São histórias diferentes, com problemas diferentes, mas que têm em comum a necessidade de afeto, companhia e algum tipo de pertencimento. Tchê passa de uma casa para outra e, de certa maneira, vai acumulando experiências que pertencem a cada um daqueles personagens.

         A narrativa consegue ainda brincar com a ideia de propriedade. As pessoas acreditam que o gato é delas, mas o espectador sabe que existe uma circulação permanente. Tchê pertence a todos e, ao mesmo tempo, não pertence a ninguém. Essa situação cria momentos de humor, mas também permite uma reflexão sobre a própria necessidade humana de possuir aquilo que ama. O afeto, muitas vezes, acaba acompanhado pelo desejo de dizer “isso é meu”.

       O humor é utilizado de maneira bastante eficiente justamente porque não transforma os personagens em simples caricaturas. Existe graça nas situações e na forma como Tchê observa os humanos, mas por trás delas existem pessoas solitárias, frustradas e tentando encontrar alguma forma de conexão. O riso, portanto, frequentemente vem acompanhado de uma certa melancolia.

         A narração de Selton Mello contribui muito para esse equilíbrio. Sua voz dá personalidade ao gato e estabelece uma relação de cumplicidade com o espectador. Tchê parece estar contando aquelas histórias diretamente para nós, permitindo que acompanhemos suas observações sobre os humanos. Existe uma ironia nessa perspectiva: um gato observa pessoas que acreditam conhecê-lo, enquanto ele próprio parece conhecer muito mais sobre elas do que elas imaginam.

         A Freguesia do Ó também ganha importância nesse processo. O filme não precisa transformar seus personagens em grandes figuras extraordinárias. São pessoas comuns, vivendo em um bairro comum, com suas casas, seus hábitos e suas pequenas histórias. É justamente essa proximidade com o cotidiano que permite que o espectador reconheça algumas dessas características em pessoas que conhece ou até em si próprio.

         Com bons recursos técnicos, narrativos e dramáticos, “Sete Vidas” é um Drama sensível que utiliza o humor para apresentar a si mesmo através de Tchê, um escritor transformado em gato, suas vontades e preferências, mas também os pontos sensíveis de pessoas comuns, que vivem em bairros comuns e enfrentam sentimentos que estão longe de ser incomuns.

        No fim, a grande questão talvez nem seja descobrir quem é o verdadeiro dono de Tchê. O mais interessante é perceber por que tantas pessoas precisam acreditar que aquele gato pertence a elas. Cada uma encontra no animal uma companhia, uma projeção ou uma possibilidade de afeto. E talvez seja justamente por isso que o gato tenha tantas vidas: porque, ao passar pela vida de cada pessoa, ele assume um significado diferente.

         “Sete Vidas” transforma uma situação curiosa e bem-humorada em uma observação delicada sobre solidão, afeto, pertencimento e relações humanas. É um filme que consegue falar de pessoas através de um gato e, principalmente, utilizar um personagem aparentemente simples para mostrar que, por trás das pequenas histórias do cotidiano, existem sempre desejos, carências e necessidades muito maiores.




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ANACHRONIQUE (2011)

        Com roteiro e direção de Mário Masetti, “Anachronique” é um delicioso curta de Romance que apresenta o encontro de uma mulher que trabalha sozinha numa floricultura sem clientes e um homem que entra no estabelecimento comercial sem muitos motivos. No entanto, a partir desse encontro, há uma interação muito interessante entre os personagens, magistralmente interpretados por Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos.

         Eles se conhecem, porém têm dificuldades em se apresentar. Surge um sentimento. No entanto, esse sentimento não pode ser apresentado por eles, justamente pelo fato de não terem se apresentado. Assim, na opinião dos protagonistas, eles ainda não se conhecem. Existe uma situação quase infantil nessa lógica, mas é justamente essa ingenuidade que torna o relacionamento entre os dois tão interessante.

         Existe uma possibilidade de encontro amoroso. O problema é que eles não conseguem transformar essa possibilidade em encontro de verdade. É justamente aí que o nonsense entra. Em vez de utilizar o absurdo para criar uma situação grandiosa ou surrealista, Mário Masetti parte de uma situação cotidiana e faz com que ela gradualmente se torne estranha. O espectador reconhece aquela dificuldade. São duas pessoas tímidas que poderiam se aproximar, mas não conseguem. O que muda é a maneira como essa dificuldade é apresentada.

         Baseado no texto “A Florista e o Visitante”, de Vera Karam, a própria divulgação do filme destaca a influência de Samuel Beckett. Entretanto, essa influência é importante, mas não deve ser vista como simples imitação. O que ocorre em “Anachronique” é uma situação que nasce da espera, da repetição, da dificuldade de comunicação e da sensação de que alguma coisa deveria acontecer, mas não acontece. Os personagens estão diante da possibilidade de uma aproximação, mas permanecem presos à própria incapacidade de agir. Só que Vera Karam acrescenta uma camada de humor brasileiro que impede que a situação fique excessivamente filosófica ou sombria.

         A escolha da floricultura como ambiente narrativo não parece casual. Flores estão associadas ao amor, ao desejo, ao namoro, à declaração e ao romance. É quase irônico colocar uma mulher que vende flores, objetos tradicionalmente associados à aproximação amorosa, em uma situação em que ela própria não consegue estabelecer uma aproximação. A loja está cheia de símbolos do romance, mas o romance não consegue acontecer. Isso cria uma espécie de paradoxo visual. Há flores por toda parte, mas falta justamente aquilo que elas normalmente representam.

        A floricultura sem clientes também pode representar a própria vendedora. A floricultura está sem compradores. A mulher está ali, esperando, e o lugar parece parado. Ela também parece parada. O estabelecimento pode ser interpretado quase como uma extensão psicológica da personagem. Ela não está apenas trabalhando em uma loja sem movimento. Ela própria parece incapaz de fazer sua vida avançar. Quando o homem entra, surge uma possibilidade de mudança. Mas a timidez impede que essa possibilidade se concretize. Assim, o filme transforma uma situação amorosa em uma pequena reflexão sobre inércia e oportunidade.

         Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos têm atuações sublimes. A química entre os atores eleva a produção a um patamar que impressiona. “Anachronique” marcou a estreia de Mário Masetti em direção cinematográfica. Masetti tem uma trajetória extensa no teatro, e as atuações dos protagonistas, interpretadas teatralmente, criam uma experiência extremamente profunda, acentuando o poder dramático e narrativo da obra. O filme ainda conta com uma participação especial de “Taubaté” Lisboa.

        Outro detalhe pertinente e acertado por parte dos realizadores é a quebra da quarta parede. O homem interage com o espectador, e isso dá ainda mais qualidade à obra, porque o público simplesmente não assiste a um curta, ele participa do filme. Essa interação também contribui para o tom de humor e para a construção de cumplicidade com quem está acompanhando a história. O espectador passa a compreender a situação de uma maneira diferente, como se recebesse informações que o aproximam ainda mais do personagem.

         Apesar de o gênero de “Anachronique” ser Romance, o filme se destaca pela maneira como o humor nasce do desconforto. O filme trabalha com um tipo de humor que não depende de uma piada tradicional. É o humor do constrangimento, da demora e do absurdo da situação. O espectador percebe que existe uma possibilidade romântica entre aquelas pessoas e justamente por isso começa a esperar que algo aconteça. Quando os personagens não conseguem avançar, a expectativa se transforma em humor. Em muitos pontos, a interação do homem com o espectador aprofunda ainda mais esses alívios cômicos.

        Esse mecanismo é muito próximo do teatro do absurdo. A situação se prolonga, a comunicação se torna estranha e aquilo que deveria ser simples se torna extraordinariamente complicado. A graça nasce justamente da dificuldade de fazer algo que, para qualquer outra pessoa, pareceria extremamente fácil.

         “Anachronique” recebeu com méritos o prêmio de Melhor Direção de Arte no VIII Curta Canoa. Isso reforça a importância da floricultura como espaço dramático. A direção de arte não serve apenas para tornar o cenário bonito. Num filme tão dependente de um único ambiente, o espaço precisa ajudar a construir a atmosfera. Flores, objetos, disposição do estabelecimento e o próprio aspecto da loja podem reforçar a sensação de um mundo ligeiramente deslocado da realidade. Cenário, objetos, figurino e maquiagem têm parcelas substanciais na qualidade da obra, com um trabalho primoroso.

         Outros elementos técnicos, como fotografia, montagem e trilha sonora, também são fundamentais. A fotografia se concentra em capturas pontuais de movimentos, ações e expressões, enquanto a trilha sonora dá suporte às atuações dos personagens. Os aspectos técnicos servem como alicerce para que os atores brilhem, sem retirar deles a responsabilidade de conduzir a maior parte da experiência dramática.

         “Anachronique” é uma pequena história sobre duas pessoas que estão diante da possibilidade de mudar suas vidas, mas não conseguem sair da própria inércia. A floricultura representa o amor. O homem que chega representa a possibilidade. A mulher representa a espera. Porém, a timidez representa aquilo que impede a transformação da possibilidade em acontecimento.

        O mais interessante é que o filme transforma essa situação potencialmente melancólica em comédia. Nós rimos porque o comportamento dos personagens é absurdo. Mas, por baixo do absurdo, existe uma situação bastante humana. Quantas vezes duas pessoas poderiam ter se aproximado se simplesmente tivessem conseguido dizer ou fazer aquilo que sentiam? E talvez o “anacronismo” esteja justamente aí: pessoas que vivem em um mundo moderno, mas emocionalmente parecem presas a um tempo em que não conseguem avançar.

         “Anachronique” não deve ser tratado apenas como uma comédia nonsense ou como uma adaptação cinematográfica de Vera Karam. Há um amor puro, genuíno e, podemos dizer, até mesmo infantil. O filme parece usar o absurdo para ampliar uma situação cotidiana até o ponto em que ela se torna reveladora. Duas pessoas tímidas diante de uma possibilidade amorosa deixam de ser apenas duas pessoas tímidas. Elas passam a representar todos aqueles momentos em que esperamos uma iniciativa do outro, enquanto o outro espera a nossa.

         A floricultura está cheia de flores, mas o romance não floresce. E essa talvez seja a melhor ironia do curta: em um lugar destinado a vender símbolos de amor, duas pessoas não conseguem sequer encontrar coragem para começar uma história de amor. É uma conclusão simples, mas que resume perfeitamente o humor, a delicadeza e a melancolia escondida por trás do nonsense de Mário Masetti.




        

sábado, 28 de março de 2026

MEU AMIGO NIETZSCHE (2012)

 


Produzido com muita sensibilidade, “Meu Amigo Nietzsche” apresenta Lucas, um garoto que enfrenta dificuldades dentro do sistema de aprendizagem formal. Logo na sequência inicial, vemos uma conversa entre ele e sua professora, que lhe cobra melhores notas, estabelecendo desde o começo um conflito que vai muito além do desempenho escolar.

         Ao sair da escola, Lucas tenta ler o mundo ao seu redor. Ele se esforça para decifrar palavras em anúncios, postes e fachadas, como se estivesse tentando, pouco a pouco, compreender uma realidade que ainda lhe escapa. Esse movimento revela algo importante: sua dificuldade não é falta de interesse, mas sim uma forma diferente de se relacionar com o conhecimento.

         O acaso muda completamente o rumo da sua trajetória quando, ao correr com outras crianças até um lixão em busca de uma pipa, ele encontra um exemplar de “Assim Falou Zaratustra”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. O encontro entre o garoto e o livro carrega um simbolismo forte, quase como se o conhecimento surgisse de um lugar inesperado, fora das estruturas tradicionais de ensino.

        Inicialmente, Lucas não consegue sequer pronunciar o nome do autor e desiste da leitura. No entanto, ao tentar descartar o livro no carrinho de um catador de recicláveis, é interrompido. O homem não apenas ensina a pronúncia correta, mas também oferece uma orientação simples e poderosa: sempre que não souber o significado de uma palavra, deve perguntar a alguém.

        A partir desse momento, o filme ganha uma nova energia. Lucas passa a seguir esse conselho com dedicação, perguntando, ouvindo, interpretando. O aprendizado deixa de ser algo imposto e passa a ser construído coletivamente, através de trocas com diferentes pessoas. O conhecimento surge da curiosidade, do diálogo e da experiência.

         Com argumento de Tatianne da Silva e roteiro e direção de Fáuston da Silva, o curta constrói uma narrativa que transita com leveza entre o drama e a comédia. Lucas, interpretado por André Araújo Bezerra, não se limita a compreender as ideias de Nietzsche. Ele passa a incorporá-las em sua forma de enxergar o mundo, o que transforma não apenas sua percepção, mas também sua maneira de se relacionar com os outros.

         O filme levanta uma reflexão importante sobre o papel do pensamento crítico. Em vez de oferecer respostas prontas, ele estimula questionamentos. Ao mostrar Lucas perguntando o significado de palavras para diferentes pessoas, a narrativa evidencia que o conhecimento pode surgir de qualquer lugar, independentemente de idade, classe social ou formação.

         Mesmo sendo uma obra de 2012, “Meu Amigo Nietzsche” permanece extremamente atual. A defesa do livre pensamento e da busca por conhecimento continua sendo essencial. O filme reforça que aprender não é apenas acumular informações, mas desenvolver a capacidade de interpretar o mundo de forma autônoma.

        No entanto, essa transformação tem consequências. Ler e interpretar Nietzsche não é algo neutro dentro do universo do filme. A mudança de Lucas começa a incomodar tanto sua professora quanto sua mãe. Aquilo que inicialmente era visto como uma dificuldade passa a se transformar em algo considerado excessivo, fora do padrão esperado.

         Esse conflito revela uma das camadas mais interessantes da obra. A escola, que deveria estimular o aprendizado, passa a estabelecer limites para ele. Quando Lucas ultrapassa esses limites, deixa de ser visto como um aluno em desenvolvimento e passa a ser percebido como um problema.

         A fala da professora, ao dizer que Lucas se tornou uma dinamite, é especialmente simbólica. Ele não representa uma ameaça física ou direta, mas sim uma ameaça ao controle do conhecimento. Ao pensar por conta própria e influenciar outras crianças, Lucas rompe com a lógica de um aprendizado limitado.

         A reação da mãe também é significativa. Sem buscar compreender o conteúdo do livro, ela toma uma decisão extrema. Sua postura pode ser interpretada como uma representação de forças que resistem ao pensamento crítico, não por discordarem dele, mas por desconhecê-lo.

         O elenco, liderado por André Araújo Bezerra, entrega atuações naturais e consistentes. Juliana Drummond, Simone Marcelo e os demais atores contribuem para a construção de um universo que se mantém crível e próximo da realidade.

         Tecnicamente, o filme também se destaca. A fotografia de André Lavenère constrói contrastes interessantes entre o mundo externo e o universo interno de Lucas. A montagem, a direção de arte e a trilha sonora trabalham de forma integrada, reforçando o tom da narrativa.

        A referência a “2001: Uma Odisseia no Espaço” é um dos momentos mais marcantes do curta. Ela reforça a ideia de descoberta e transformação, associando o contato de Lucas com o livro a um verdadeiro salto de consciência.

         “Meu Amigo Nietzsche” é um filme cativante, que transforma a busca por conhecimento em uma jornada leve, divertida e profundamente significativa. Ao acompanhar Lucas, o espectador também aprende. Aprende que o conhecimento nasce da curiosidade, cresce no diálogo e se fortalece na liberdade de pensar.




terça-feira, 10 de março de 2026

TERESA – UMA COMÉDIA ANTROPOFÁGICA (2017)

 


Com roteiro e direção de Raphael Janeiro, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se destaca pela impressionante fusão entre elementos da Comédia, do Policial e da Fantasia. Com um humor ácido e referências muito bem encaixadas, o curta combina de forma extremamente eficiente elementos narrativos, dramáticos e técnicos, construindo uma experiência que mistura absurdo, ironia e criatividade. Desde os primeiros minutos, o espectador percebe que está diante de uma obra que se permite brincar com diferentes linguagens e estilos, transitando entre o cotidiano e o inesperado com grande naturalidade.

         Marlon e James, interpretados por Raphael Janeiro e Vitor Peres, respectivamente, demonstram uma química que funciona de maneira brilhante. A relação entre os dois é um dos grandes motores da narrativa. Eles conversam sobre um pouco de tudo, concordam em algumas coisas e discordam em outras, sempre com um tom descontraído que aproxima o público de suas personalidades. Apesar de serem assassinos de aluguel, enxergam o mundo como pessoas comuns, com gostos, preferências e opiniões bastante particulares. Em meio a conversas aparentemente banais, revelam interesses curiosos, discutindo desde tipos físicos femininos até estilos musicais, o que cria um contraste curioso entre a violência da profissão e a leveza de suas interações.

         Um dos elementos centrais do curta é a discussão acerca das performances de Elvis Presley no palco. Marlon desenvolve uma teoria divertida para explicar o fato de, provavelmente, o cantor norte-americano ter sido uma das figuras do Ocidente que mais se relacionou com mulheres ao longo da vida. Segundo ele, isso estaria diretamente ligado à maneira como Elvis se movimentava no palco, com sua famosa dança que enfatizava o quadril, o que lhe rendeu o apelido “Elvis The Pelvis”. A conversa, aparentemente trivial, ganha um tom quase filosófico dentro da lógica peculiar dos personagens, demonstrando como o roteiro encontra humor em situações inesperadas.

         É justamente em um bar, durante essa discussão animada, que os dois parceiros conhecem Robson, um homem que demonstra interesse em se juntar à dupla. A princípio, sua presença parece apenas mais um encontro casual na trajetória dos personagens. No entanto, pouco a pouco, Robson assume um papel fundamental dentro da trama, sendo o responsável por conduzir James até uma figura envolta em mistério e poder dentro do universo criminal: o temido líder conhecido como “Americano”.

         Neste ponto, merece destaque o trabalho de Vinícius Marins, no papel de Robson, e de Marcos Caruso, interpretando o Americano. Ambos entregam atuações marcantes que ampliam ainda mais a força do filme. A presença de Caruso em cena carrega uma autoridade natural que ajuda a construir a aura quase mítica do personagem. Já Robson funciona como uma espécie de elo narrativo entre diferentes momentos da história, contribuindo para que os acontecimentos se conectem de maneira orgânica.

         As interações entre os personagens se desenvolvem com fluidez e naturalidade, revelando a qualidade do texto e a segurança da direção. Raphael Janeiro demonstra domínio na condução das cenas, permitindo que o humor surja tanto das falas quanto das situações. O ritmo narrativo é bem dosado e mantém o espectador constantemente envolvido, sempre curioso para descobrir quais serão os próximos acontecimentos dentro daquele universo peculiar.

               O Americano surge como uma figura que desperta fascínio tanto em James quanto em Marlon. A reputação do personagem, construída por meio de relatos e expectativas, cria uma curiosidade crescente. No entanto, o destino altera o rumo dos acontecimentos. Após a morte de Marlon, apenas James acaba sendo conduzido até o encontro com o criminoso. Esse momento representa uma mudança significativa na trajetória da narrativa, pois abre espaço para novas possibilidades dentro da história e aprofunda ainda mais a dimensão dramática do personagem.

         “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” transita com grande habilidade entre diferentes gêneros para construir uma trama sólida, coerente e extremamente divertida. Os personagens são bem delineados e possuem características próprias que os tornam memoráveis. Cada figura que surge na história acrescenta uma camada nova ao universo apresentado, fazendo com que as situações, por mais absurdas que pareçam, encontrem uma lógica interna convincente.

         Os acontecimentos do filme carregam um tom surreal que dialoga diretamente com a proposta antropofágica sugerida pelo título. O absurdo aparece não apenas como recurso humorístico, mas também como ferramenta narrativa para ampliar o impacto dramático de determinadas situações. Essa combinação entre humor, estranheza e criatividade resulta em momentos inesperados que surpreendem e divertem o espectador.

            Nada parece fora de lugar dentro da estrutura do curta. Cada detalhe narrativo encontra uma função ao longo da história, inclusive no desfecho, que surge como consequência natural dos acontecimentos apresentados anteriormente. Muito dessa eficiência se deve à maneira como os elementos técnicos se integram à narrativa. Fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora trabalham em perfeita sintonia, ampliando a identidade visual e sonora do filme.

         A qualidade do trabalho técnico é perceptível em diversos momentos. A fotografia contribui para criar atmosferas distintas conforme a narrativa avança, enquanto a montagem mantém um ritmo dinâmico que valoriza tanto o humor quanto a tensão das situações. A trilha sonora também exerce um papel importante ao reforçar o tom irreverente e imprevisível da obra, acompanhando as mudanças de energia entre as cenas.

         Repleto de referências à cultura pop, ao cinema e a artistas importantes, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se apresenta como uma obra inventiva e cheia de personalidade. Essas referências surgem de maneira orgânica dentro da narrativa, dialogando com o humor e com a proposta estética do filme. O resultado é um curta criativo, que diverte e entretém ao mesmo tempo em que demonstra um cuidado evidente em sua construção.

         Ao manter uma coesão narrativa consistente do primeiro ao último minuto, o filme prova que é possível combinar gêneros, ideias e referências sem perder o foco da história. “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” é uma comédia ousada, inteligente e extremamente envolvente, capaz de conquistar o espectador com seu humor peculiar, suas situações inesperadas e a energia criativa que atravessa toda a obra.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A VELHA A FIAR (1964)

 


Com direção de Humberto Mauro, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, “A Velha a Fiar” é um delicioso curta-metragem que conduz o espectador a uma viagem por um universo próprio, onde o sentimento mais presente e marcante é a nostalgia. Trata-se de uma obra simples em aparência, mas extremamente rica em sensações, memórias e significados, capaz de atravessar gerações com a mesma força afetiva.

Humberto Mauro nos apresenta um ambiente rural que se constrói de maneira orgânica, acompanhado por uma música que imediatamente nos situa naquele espaço e naquele tempo. A música incidental, calma e cadenciada, funciona como um convite à contemplação. Ela introduz o lugar, os personagens e o ritmo da vida no campo, retratada de forma genuína, harmoniosa e serena. Tudo ali parece seguir um fluxo natural, distante da pressa urbana, permitindo que o espectador observe cada detalhe com atenção e afeto.

O cotidiano apresentado na primeira parte do curta, com homens, mulheres, animais e insetos compartilhando o mesmo espaço, prepara cuidadosamente o terreno para o que vem a seguir. Esse registro quase observacional, que acompanha gestos simples e rotinas básicas, cria uma atmosfera de intimidade e pertencimento. É a partir dessa construção que o filme transita para a segunda parte, marcada pela canção infantil que dá nome à obra e que passa a conduzir toda a narrativa.

Humberto Mauro trata cada elemento com extremo cuidado e sensibilidade. A introdução não é gratuita, mas uma preparação essencial para a imersão musical que se segue, fazendo com que o espectador, quase involuntariamente, tente acompanhar ou cantar a canção junto com o filme. Os arranjos musicais, de Aldo Taranto, e a interpretação do Trio Irakitã são fundamentais para o impacto da obra, conferindo ritmo, leveza e um caráter lúdico que dialoga diretamente com a memória afetiva do público.

Após longos planos abertos que revelam riachos, tanques, bois, cães e o carro de bois, elementos que povoam o imaginário da cultura caipira brasileira, somos finalmente apresentados à velha que dá título ao filme. A câmera observa com atenção esse universo, valorizando não apenas a personagem central, mas todo o contexto que a cerca, como se cada imagem fosse uma extensão da canção que está por vir.

Em sua máquina de costura, a velha tenta realizar o seu trabalho, sendo constantemente atrapalhada por uma mosca. Mateus Colaço, vivendo a velha a fiar, constrói sua atuação de maneira sensível e cômica, mesmo sem o uso de diálogos. A expressividade corporal e o timing preciso permitem que o espectador compreenda emoções, intenções e situações apenas pelo gesto e pelo olhar. O ator acaba por imortalizar não apenas uma canção, mas uma obra cinematográfica de valor inestimável.

Muita gente considera “A Velha a Fiar” o primeiro videoclipe brasileiro. No entanto, ao observar o filme como um todo, é possível perceber que sua primeira parte se aproxima de um registro documental, enquanto a segunda assume plenamente o caráter musical. A genialidade de Humberto Mauro está justamente nessa fusão, conseguindo, em pouco mais de seis minutos, apresentar um universo rural completo e evocar uma canção que independe de localidade, funcionando tanto no campo quanto na cidade.

A sequência musical é uma verdadeira obra de arte, marcada por uma montagem inventiva e extremamente precisa. A cada novo personagem que surge em cena, guiado pela letra da canção, o ritmo da edição se intensifica. Ainda assim, esse aumento não cansa nem dispersa, pelo contrário, acrescenta dinamismo e mantém a empolgação do espectador até o último minuto.

Mesmo com as diversas variações que a canção ganhou ao longo do tempo, é quase impossível não se identificar com o filme, especialmente para quem viveu a infância nos anos oitenta ou antes. “A Velha a Fiar” é uma obra atemporal, que atravessa épocas sem perder sua força, seu humor e sua ternura. É uma joia do cinema brasileiro, um clássico absoluto que merece todos os elogios. Ao assistir a esse curta de Humberto Mauro, a sensação final é a de um profundo e doce gosto de nostalgia, daqueles que permanecem na memória por muito tempo.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

RÓTULO (2013)

 


        É manhã. Fernando e Carol acordam na cama da casa dele e tudo indica que aquele será apenas mais um dia comum, sem grandes acontecimentos. O ambiente é íntimo, tranquilo e cotidiano, até que uma conversa aparentemente banal começa a ganhar corpo. Entre comentários despretensiosos, os dois iniciam um debate sobre beijos. O que começa como uma troca leve de lembranças; beijos bons, ruins, estranhos ou inesquecíveis, rapidamente se transforma em algo muito maior, conduzindo a narrativa para um rumo surpreendente, provocador e extremamente divertido.

“Rótulo” é aquele tipo de curta extremamente eficiente, que demonstra como a combinação precisa entre elementos narrativos, dramáticos e técnicos pode potencializar um texto aparentemente simples. Toda a ação se passa em um único ambiente – o quarto – o que reforça ainda mais a qualidade do roteiro e, sobretudo, a competência de Felipe Cabral, responsável por direção e roteiro. Trabalhar em um espaço limitado exige domínio absoluto de ritmo, diálogos e encenação. E o filme tira o máximo proveito dessa escolha, transformando a limitação espacial em força criativa.

Com Felipe Cabral no papel de Fernando e Julia Stockler interpretando Carol, acompanhamos um debate tão íntimo quanto universal. A conversa sobre beijos se expande e passa a incluir terceiros: ex-namorados, ex-namoradas, casos passageiros e relações que, à primeira vista, pareciam pouco relevantes. Essas lembranças vão sendo usadas como argumentos em uma disputa quase lúdica, mas carregada de implicações, em que cada um tenta provar seu ponto de vista com convicção e ironia.

“Rótulo” trabalha de forma muito inteligente com a ideia de que a orientação sexual de uma pessoa pode, erroneamente, ser definida a partir de experiências pontuais. Na tentativa de “ganhar” o debate, tanto Carol quanto Fernando passam a determinar quem pode ficar com quem e o que cada um é, baseando-se apenas no sexo das pessoas com quem se relacionaram. As conclusões surgem de maneira cada vez mais exagerada, revelando o absurdo dessas categorizações. Se a explicação parecer confusa no papel, o filme “tenta resolver” isso com extrema clareza em cena e, acima de tudo, com muito humor. Mais do que entender racionalmente, o convite aqui é se deixar levar pela lógica torta e pelas provocações do casal.

A química entre Felipe Cabral e Julia Stockler é impressionante. Ambos entregam atuações grandes, cheias de nuances, que transitam com naturalidade entre a brincadeira, o incômodo, a provocação e a irritação genuína. Os diálogos fluem de acordo com o estado emocional de cada personagem, criando uma dinâmica viva e orgânica. Eles se provocam, se desafiam, perdem a paciência e retomam a conversa com ironia e afeto. Carol tenta impor rótulos a Fernando, delimitando o que ele pode ou não ser, enquanto ele oscila entre aceitar o jogo e questionar suas regras. Porém, as “regras criadas” por Carol podem valer para ela também. O grande carisma de “Rótulo” está justamente na forma natural e desarmada com que o filme aborda um tema tão sensível quanto a sexualidade.

Indo além do que se vê em cena, o curta propõe uma reflexão direta e necessária: não existem regras fixas que determinem quem uma pessoa é a partir de suas experiências afetivas ou sexuais. O filme evidencia que rótulos simplificam realidades complexas e ignoram a pluralidade do desejo humano. Em última instância, o que sustenta qualquer relação, afetiva ou social, é o respeito à diversidade. Embora “Rótulo” trate especificamente da sexualidade, sua mensagem se estende a outros campos fundamentais da vida em sociedade: liberdade de pensamento, expressão, crença religiosa e identidade individual. Cada pessoa tem o direito de ser quem é, sem precisar se encaixar em categorias impostas.

Tecnicamente, “Rótulo” é um curta muito bem produzido. A trilha sonora aparece de forma pontual, empolgando nos momentos de maior leveza e cedendo espaço ao silêncio do quarto quando a conversa exige mais intimidade e atenção. Isso permite que os diálogos ganhem ainda mais força. Fotografia, direção de arte e montagem trabalham em perfeita sintonia, sustentando a coesão narrativa e dramática sem jamais chamar mais atenção do que o necessário. Tudo funciona em favor da história e dos personagens.

O resultado final é uma obra divertida, provocadora e extremamente cativante, que prende o espectador do início ao fim. “Rótulo” diverte, faz rir, incomoda na medida certa e convida à reflexão, mostrando que, às vezes, uma simples conversa de manhã pode revelar muito mais sobre quem somos do que imaginamos.




sexta-feira, 28 de novembro de 2025

NARCOLEPSIA (2009)

 


Júlio tem um problema. Júlio sofre de narcolepsia. A narcolepsia é um distúrbio neurológico crônico caracterizado por sonolência diurna excessiva e ataques de sono incontroláveis. O filme, com roteiro e direção de Walfried Weissmann, narra uma entrevista com Júlio.

         “Narcolepsia” tem em sua essência a produção de um documentário sobre Júlio e os desafios do distúrbio que tem e as complicações do dia a dia. A sacada de mesclar o gênero Comédia ao pseudodocumentário é um acerto em cheio para trazer um humor muito bem produzido para o espectador.

         O depoimento de Júlio se alterna com imagens do local onde cede a entrevista, mesclando com narrações em off, diante de situações constrangedoras e hilárias por parte do protagonista. Seja na faculdade, em pontos de ônibus, em confraternizações, ou ainda em momentos íntimos, a criatividade dos realizadores se apresenta com um humor único.

          Gilberto Scarpa é o motor da trama, com tudo girando ao redor de seu personagem e das situações enfrentadas por ele. Seja narrando ou dormindo, Gilberto demonstra uma enorme capacidade de transmitir as frustrações impostas pela narcolepsia. O elenco, que conta ainda com Izzabela Andrade, Leonardo Souza, Gustavo Campos, André Andruxa, Carlos Cadu, Mariana Freitas, Rachel Garcia, Jose Texera e Robson Rio de Janeiro, Luis Jack, Conrado Almada, Fabio Borges, Carlos Paulino, Santusa Prado, Paulo Sergio e Carolina Correa, consegue imergir o espectador, seja na locação onde as filmagens do documentário acontece, seja no cotidiano de Júlio.

         “Narcolepsia” aposta na simplicidade visual, em sua parte documental, alternando cenas em locações mais movimentadas e onde uma preparação de set necessitou do emprego de mais recursos. Mas a potência humorística de “Narcolepsia” reside na potência de seu texto e na competência de Walfried Weissmann, na condução da direção.

           “Narcolepsia” tem elementos técnicos impecáveis; fotografia, arte, trilha sonora e montagem, que dão vida à entrevista com Júlio e também nos flashbacks da vida do protagonista. O resultado é uma combinação perfeita de elementos técnicos, dramáticos e narrativos que extrai o máximo do projeto, entregando um ótimo filme de comédia, super inventivo e carismático.   




sábado, 15 de novembro de 2025

RESSACA (2012)

 


“Ressaca” é uma deliciosa comédia que acompanha o dia seguinte de Bia e Renato, após uma noite de farra. Ao mesmo tempo em que vivem uma situação hilária, convivem com o receio do fim da república onde moram.

         O filme, com roteiro de Pedro Aguilera e direção de Mabel Lopes, tem muita qualidade, tanto nos aspectos narrativos quanto nos dramáticos e técnicos. Fotografia, arte e trilha sonora combinam perfeitamente, dando ainda mais luz ao filme, seja através dos efeitos visuais ou da extração do máximo do texto que, praticamente é rodado, em grande parte, num único ambiente. Eu sempre considero que gravar num único ambiente sempre é um desafio. E aqui, a equipe técnica e criativa tira de letra.

        Um dos grandes acertos do curta é a química entre a dupla de protagonistas, Bia e Renato, interpretados por Rita Batata e Paulo Maeda. Os dois jovens vampiros, brincam com a noite anterior e da ressaca atual, mas demonstram preocupação com o risco de serem despejados. Com o elenco de apoio, formado por Daniel Kronenberg, Cesar Gouvea, Pedro Costa, Henrique Schafer, Neyde Marchi, Carolina Capacle, Vera Maria Vieira da Silva, Helder da Rocha, Ângela Ribeiro e Caio Zam, “Ressaca” ganha substância e mais e mais situações bizarras e engraçadíssimas.

        Outro ponto forte do filme é trabalhar com a imprevisibilidade do absurdo; seja com o celular dentro de uma gelatina ou com alguns personagens que são inseridos na trama, trazendo profundidade narrativa e outro tanto de situações hilárias.

         “Ressaca”, definitivamente, não é um filme mais do mesmo. Por se tratar de um filme que envolve vampiros, em um ou outro momento, ele usa alguns elementos da trama para encaixar os personagens dentro da sua realidade, fazendo referências a outros filmes, mas mais como homenagens, mas sempre de forma criativa e inventiva. A equipe de produção não usou clichês do gênero como muleta, apostando na própria capacidade para criar um filme divertido, ousado e extremamente competente.

        “Ressaca” é uma maravilhosa comédia, com um enredo muito bem desenvolvido, personagens cativantes, sequências muito divertidas e uma resolução final perfeita. É o filme para ser visto e recomendados a todos que gostam de uma boa comédia com um toque de sangue.



sábado, 8 de novembro de 2025

A PEDRA DO TESOURO (1965)

 


Com roteiro e direção de Roberto Farias, “A Pedra do Tesouro” é um curta-metragem que mescla com inteligência e espontaneidade os gêneros Comédia, Aventura e Faroeste, resgatando o espírito das tradicionais chanchadas brasileiras. A narrativa parte de uma premissa simples e envolvente: a descoberta de uma enorme pedra que guarda sob si um tesouro misterioso e supostamente valioso, capaz de despertar a ambição, e a trapalhada, de quem chega ao local.

Produzido pela Produções Cinematográficas R. F. Farias, o filme marca um momento histórico no audiovisual brasileiro: é a estreia de Renato Aragão e Dedé Santana no cinema. Mais tarde, com a chegada de Zacarias e Mussum, essa parceria daria origem ao fenômeno cultural “Os Trapalhões”, um grupo que influenciaria o humor e o entretenimento no país por décadas. Aqui, vemos os alicerces do que viria a ser o estilo inconfundível do quarteto: inocência, humor físico, improviso e uma energia quase cartunesca.

A trama se desenvolve com a chegada dos dois protagonistas ao local onde a pedra está enterrada. Porém, o clima de aventura aumenta quando outro grupo, igualmente interessado no tesouro, surge na região. O resultado é um divertido confronto à moda antiga, com tiros, perseguições e uma dinâmica quase pantomímica, reforçada pela ausência de diálogos. A escolha de trabalhar apenas com trilha sonora e efeitos sonoros, sem falas, não apenas presta homenagem ao cinema mudo e às comédias físicas do passado, como também destaca a expressividade corporal dos atores. Tombos, corridas, escorregões, caretas e exageros performáticos evidenciam a vocação nata de Renato e Dedé para o humor físico.

O diretor acerta ao mesclar aventura e humor com um toque de mistério. Além da disputa pelo tesouro, a pedra em si ganha caráter quase mítico: é gigantesca, resistente a explosivos e extremamente pesada, mesmo com o auxílio de um jipe para removê-la. Esse elemento repetido gera expectativa cômica e reforça a narrativa baseada em gags visuais, algo que seria amplamente explorado posteriormente pelo grupo na televisão e no cinema.

Tecnicamente, “A Pedra do Tesouro” demonstra um belo equilíbrio entre simplicidade e inventividade. O uso criativo da fotografia, da direção de arte e do figurino contribui para situar o público naquele universo rústico, ao mesmo tempo em que deixa espaço para o humor emergir naturalmente das situações. A ausência de diálogos exige precisão no timing cômico, na montagem e no trabalho dos atores, e todos esses elementos funcionam com fluidez e eficiência.

Mais do que um curta divertido, “A Pedra do Tesouro” é um documento histórico do cinema brasileiro e um prenúncio de uma parceria artística que marcaria gerações. É claramente uma obra que vai além da função de entreter; ela apresenta ao público o embrião de uma das duplas cômicas mais queridas do país, revelando desde cedo o carisma, o talento físico e a química que fariam de Renato Aragão e Dedé Santana ícones do humor nacional.

Um curta que diverte, encanta e, principalmente, registra o início de uma jornada que se tornaria inesquecível para grande parte dos brasileiros.




terça-feira, 28 de outubro de 2025

ISSO DÁ UM CURTA (2025)

 


Com roteiro e direção de Felipe Siqueira, “Isso Dá um Curta” acompanha uma tarde descontraída de André e Luíza, moradores de uma república que, por conta das férias, está praticamente vazia. Entre goles de cerveja, risadas e conversas improvisadas, os dois começam a projetar ideias para a produção de um curta-metragem. O filme consegue capturar com perfeição aquela energia espontânea, típica de quem cria algo do zero, e transforma um ambiente limitado em um verdadeiro palco de imaginação.

O charme da obra está na forma como ela transforma limitações em força narrativa. Filmado quase inteiramente em um único espaço, o curta explora o ambiente como extensão da mente criativa dos personagens. Cada objeto, canto da sala e detalhe visual é aproveitado para materializar as ideias que surgem na cabeça de André e Luíza. Entre as propostas, o filme brinca com diferentes gêneros: o suspense de um assassino em série, o drama delicado de um romance improvável durante a busca por um cachorro perdido, e o drama tocante de um último encontro entre duas amigas, em que uma delas lida com uma doença terminal. Essa alternância de estilos, misturando o improvável e o clichê com inteligência e pontualidade, permite que o espectador se envolva profundamente na narrativa e viva as ideias como se fossem suas próprias criações.

As interpretações de Izzy e Matheus Faria são outro ponto alto do curta. Eles conseguem equilibrar naturalidade, intensidade e timing cômico, tornando seus personagens vivos, genuínos e extremamente cativantes. A química entre os dois contribui para que o público se sinta parte da criação, rindo e torcendo a cada nova ideia surgida. A espontaneidade da atuação é um convite para que o espectador compartilhe o entusiasmo e a diversão de planejar um curta de maneira despretensiosa, mas incrivelmente inventiva.

O elenco de apoio complementa de forma brilhante a narrativa, mesmo com participações curtas. Personagens como o assassino acima do peso, o cachorrinho vestido com tutu, ou outras figuras que surgem rapidamente na trama, contribuem para a riqueza cômica e absurda do curta. Nomes como Rafael Brandão, Mantega, Maravilha, José Carlos de Siqueira, Felipe Siqueira, Letícia Mirelly, Eriberto Silva, Ana Carolina da Silva e Mariane Cintra dão profundidade e completam o universo criado pelos protagonistas, mostrando que mesmo aparições breves podem gerar impacto e humor.

Outro ponto que se destaca em “Isso Dá um Curta” é o trabalho técnico primoroso. A direção de arte de Karol Rocha e a fotografia de Rafael Brandão são fundamentais para diferenciar (e aproximar) os dois mundos que coexistem na narrativa: o real, que se passa na sala da república, e a fantasia, materializada nas ideias criativas dos personagens. Cada mudança de cenário, cada objeto, cada escolha de luz e cor ajuda a criar a sensação de que os universos imaginados estão, de fato, tomando vida diante dos olhos do público. Essa fusão entre técnica e narrativa fortalece a imersão, permitindo que o espectador sinta que está dentro da sala junto com André e Luíza, participando de cada descoberta, tropeço ou insight.

O curta também se destaca por refletir de forma bem-humorada as dificuldades do audiovisual independente. Limitações orçamentárias, falta de recursos para transporte e locações, burocracia de editais e restrições logísticas são apresentadas de maneira leve, mas sem perder a crítica. Essa abordagem traz autenticidade à narrativa, evidenciando os desafios que muitos realizadores enfrentam na produção de curtas-metragens, e reforça a criatividade como solução diante das adversidades.

Em sua essência, “Isso Dá um Curta” é uma comédia leve, divertida e inventiva, que consegue transportar o espectador para o universo de criação dos protagonistas. O filme celebra a capacidade de transformar ideias simples em experiências cômicas e envolventes, mostrando que, no fim, o mais importante na criação artística não é o recurso disponível, mas a imaginação, a colaboração e a energia que se coloca no projeto. Entre risadas, absurdos e momentos de ternura, o curta reforça que a criatividade é o motor que move a realização de qualquer obra, e que o entusiasmo e a empolgação podem ser tão cativantes quanto o resultado final.

Com sua combinação de roteiro ágil, atuações carismáticas e direção técnica precisa, “Isso Dá um Curta” não é apenas uma história sobre a criação de um filme dentro de um filme. É uma obra que celebra a criatividade, a amizade e a magia de transformar o cotidiano em pura diversão cinematográfica, deixando o espectador inspirado, entretido e com vontade de criar suas próprias histórias.




terça-feira, 14 de outubro de 2025

A MENINA ESPANTALHO (2008)

 


Luzia é uma menina que vive no campo, com seu irmão Pedro, e com os pais. Quando Pedro começa a frequentar a escola, a garotinha demonstra vontade de também aprender a ler e escrever. Porém, segundo o pai, ela não deve ir à escola, mas sim, “aprender tarefas domésticas” em casa.

         “A Menina Espantalho” é uma Comédia dramática leve, para todas as idades e públicos. É um filme extremamente sensível, comovente e com uma delicadeza narrativa que transforma temas simples em reflexões universais sobre infância, identidade e a busca por conhecimento.

        No curta, podemos experimentar a vida na roça e a inocência infantil dos dois irmãos. Nesse ponto, Luzia abre espaço para que o irmão a ajude em sua alfabetização. Mesmo com um tom cômico, a cumplicidade entre os irmãos é bela e genuína. Impossível não se encantar com as atuações de Pâmela Silva e Otávio Santiago. Nem por isso, os personagens dos pais perdem profundidade. Vinícius Ferreira e Jane Santos representam a composição padrão familiar, onde homens e mulheres têm funções e objetivos diferentes.

         A plantação de arroz funciona como um pano de fundo muito bem encaixado, pois, estando ali para espantar as aves, Luzia tem tempo e disposição para aprender cada vez mais.

         Um ponto importantíssimo para o impacto do curta se dá ao ótimo trabalho de arte, fotografia e trilha sonora, que transmitem a sensação nostálgica da vida no campo, do período de infância e sonhos, e a sensação de acolhimento, mesmo numa casa onde há uma certa carência financeira e, talvez, a única esperança de mudança seja através da educação do filho.

        Com roteiro e direção de Cássio Pereira Dos Santos, “A Menina Espantalho” é um filme que abraça o espectador e o conduz por uma narrativa coesa, natural e aconchegante. A composição entre narrativa, arco dramático, um elenco competente e elementos técnicos executados com muita competência, faz do curta uma maravilha do cinema brasileiro.

         “A Menina Espantalho” é daqueles filmes que marca e fica guardado no coração. A produção exalta a simplicidade e utiliza isso como ferramenta de ligação entre o espectador e a família, principalmente com Luzia. E esse é um dos grandes méritos do diretor, que consegue transformar a simplicidade em imersão, unindo quem assiste ao filme com os personagens em tela. É um filme para ser visto e revisto muitas vezes.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...