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terça-feira, 10 de março de 2026

TERESA – UMA COMÉDIA ANTROPOFÁGICA (2017)

 


Com roteiro e direção de Raphael Janeiro, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se destaca pela impressionante fusão entre elementos da Comédia, do Policial e da Fantasia. Com um humor ácido e referências muito bem encaixadas, o curta combina de forma extremamente eficiente elementos narrativos, dramáticos e técnicos, construindo uma experiência que mistura absurdo, ironia e criatividade. Desde os primeiros minutos, o espectador percebe que está diante de uma obra que se permite brincar com diferentes linguagens e estilos, transitando entre o cotidiano e o inesperado com grande naturalidade.

         Marlon e James, interpretados por Raphael Janeiro e Vitor Peres, respectivamente, demonstram uma química que funciona de maneira brilhante. A relação entre os dois é um dos grandes motores da narrativa. Eles conversam sobre um pouco de tudo, concordam em algumas coisas e discordam em outras, sempre com um tom descontraído que aproxima o público de suas personalidades. Apesar de serem assassinos de aluguel, enxergam o mundo como pessoas comuns, com gostos, preferências e opiniões bastante particulares. Em meio a conversas aparentemente banais, revelam interesses curiosos, discutindo desde tipos físicos femininos até estilos musicais, o que cria um contraste curioso entre a violência da profissão e a leveza de suas interações.

         Um dos elementos centrais do curta é a discussão acerca das performances de Elvis Presley no palco. Marlon desenvolve uma teoria divertida para explicar o fato de, provavelmente, o cantor norte-americano ter sido uma das figuras do Ocidente que mais se relacionou com mulheres ao longo da vida. Segundo ele, isso estaria diretamente ligado à maneira como Elvis se movimentava no palco, com sua famosa dança que enfatizava o quadril, o que lhe rendeu o apelido “Elvis The Pelvis”. A conversa, aparentemente trivial, ganha um tom quase filosófico dentro da lógica peculiar dos personagens, demonstrando como o roteiro encontra humor em situações inesperadas.

         É justamente em um bar, durante essa discussão animada, que os dois parceiros conhecem Robson, um homem que demonstra interesse em se juntar à dupla. A princípio, sua presença parece apenas mais um encontro casual na trajetória dos personagens. No entanto, pouco a pouco, Robson assume um papel fundamental dentro da trama, sendo o responsável por conduzir James até uma figura envolta em mistério e poder dentro do universo criminal: o temido líder conhecido como “Americano”.

         Neste ponto, merece destaque o trabalho de Vinícius Marins, no papel de Robson, e de Marcos Caruso, interpretando o Americano. Ambos entregam atuações marcantes que ampliam ainda mais a força do filme. A presença de Caruso em cena carrega uma autoridade natural que ajuda a construir a aura quase mítica do personagem. Já Robson funciona como uma espécie de elo narrativo entre diferentes momentos da história, contribuindo para que os acontecimentos se conectem de maneira orgânica.

         As interações entre os personagens se desenvolvem com fluidez e naturalidade, revelando a qualidade do texto e a segurança da direção. Raphael Janeiro demonstra domínio na condução das cenas, permitindo que o humor surja tanto das falas quanto das situações. O ritmo narrativo é bem dosado e mantém o espectador constantemente envolvido, sempre curioso para descobrir quais serão os próximos acontecimentos dentro daquele universo peculiar.

               O Americano surge como uma figura que desperta fascínio tanto em James quanto em Marlon. A reputação do personagem, construída por meio de relatos e expectativas, cria uma curiosidade crescente. No entanto, o destino altera o rumo dos acontecimentos. Após a morte de Marlon, apenas James acaba sendo conduzido até o encontro com o criminoso. Esse momento representa uma mudança significativa na trajetória da narrativa, pois abre espaço para novas possibilidades dentro da história e aprofunda ainda mais a dimensão dramática do personagem.

         “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” transita com grande habilidade entre diferentes gêneros para construir uma trama sólida, coerente e extremamente divertida. Os personagens são bem delineados e possuem características próprias que os tornam memoráveis. Cada figura que surge na história acrescenta uma camada nova ao universo apresentado, fazendo com que as situações, por mais absurdas que pareçam, encontrem uma lógica interna convincente.

         Os acontecimentos do filme carregam um tom surreal que dialoga diretamente com a proposta antropofágica sugerida pelo título. O absurdo aparece não apenas como recurso humorístico, mas também como ferramenta narrativa para ampliar o impacto dramático de determinadas situações. Essa combinação entre humor, estranheza e criatividade resulta em momentos inesperados que surpreendem e divertem o espectador.

            Nada parece fora de lugar dentro da estrutura do curta. Cada detalhe narrativo encontra uma função ao longo da história, inclusive no desfecho, que surge como consequência natural dos acontecimentos apresentados anteriormente. Muito dessa eficiência se deve à maneira como os elementos técnicos se integram à narrativa. Fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora trabalham em perfeita sintonia, ampliando a identidade visual e sonora do filme.

         A qualidade do trabalho técnico é perceptível em diversos momentos. A fotografia contribui para criar atmosferas distintas conforme a narrativa avança, enquanto a montagem mantém um ritmo dinâmico que valoriza tanto o humor quanto a tensão das situações. A trilha sonora também exerce um papel importante ao reforçar o tom irreverente e imprevisível da obra, acompanhando as mudanças de energia entre as cenas.

         Repleto de referências à cultura pop, ao cinema e a artistas importantes, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se apresenta como uma obra inventiva e cheia de personalidade. Essas referências surgem de maneira orgânica dentro da narrativa, dialogando com o humor e com a proposta estética do filme. O resultado é um curta criativo, que diverte e entretém ao mesmo tempo em que demonstra um cuidado evidente em sua construção.

         Ao manter uma coesão narrativa consistente do primeiro ao último minuto, o filme prova que é possível combinar gêneros, ideias e referências sem perder o foco da história. “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” é uma comédia ousada, inteligente e extremamente envolvente, capaz de conquistar o espectador com seu humor peculiar, suas situações inesperadas e a energia criativa que atravessa toda a obra.




quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONTRA-FILÉ (2019)

 

                Produzido com muita eficiência e competência, “Contra-Filé” é uma excelente Animação que mescla com os gêneros Suspense e Thriller. Com direção, roteiro, produção, fotografia e montagem de Pedro Iuá, o curta tem uma atmosfera densa e tensa que sintonizam perfeitamente com o humor ácido e mórbido.

         A trama utiliza uma quebra narrativa, apresentando primeiramente um homem amarrado e ensanguentado. Posteriormente, o curta apresenta o protagonista em sua residência, sendo acordado pelo toque do telefone e um aviso para que fugisse do local, pois pessoas estariam a caminho e ele iria sofrer as consequências. A voz ao telefone lhe aconselha a comprar 60 ou 70 quilos de carne no açougue em frente à sua casa, colocar dentro de seu carro, espalhar alguns fios de cabelos, tocar fogo no local e desaparecer o quanto.

         Ele corre ao açougue, porém a fila cresce rapidamente. Um dos principais acertos de “Contra-Filé” é aliar o sentimento de desespero do protagonista com os diálogos e a forma como Seu Leitão (dono do açougue), Zé Tripa e Valdecir conversam sobre os tipos de carnes e as formas como manusear instrumentos de cortes. Os personagens ganham voz de Almir Martins, Antonio Perez Gonzalez e Gustavo Ottoni, respectivamente. O curta conta ainda com Otto Júnior como a voz ao telefone. A lentidão do atendimento contrapõe com o senso de urgência do protagonista, que precisa o mais rápido possível de carne.

          Os realizadores acertaram em cheio em deixar no ar o porquê da situação, de homens estarem atrás do personagem principal. O que sabemos é que são pessoas violentas e que chegam ao local, quando ele ainda está na fila do açougue.

         Não tendo escapatória, termina sendo agredido violentamente por um homem, enquanto outro, que manuseia algumas bolinhas nas mãos, ordena por mais agressões. Certo é que o protagonista tem algum tipo de acerto de conta com aquele homem, que aparenta ser chefe de um grupo criminoso. O protagonista fica totalmente exposto para a morte, estando nas mãos dele.

         Com cortes rápidos em alguns momentos, “Contra-Filé” tem uma montagem muito bem elaborada que combina com os sensos de perigo e urgência do personagem. Outro elemento técnico muito bem executado é som e trilha sonora, que transmite as sensações de suspense e acidez de um curta com uma narrativa extremamente fluida e surpreendente.

         A direção de animação é de Pedro Iuá, com cenários de Alessandra Vilela, Roberto Custódio, Pâmela Peregrino, Antonia Muniz e do próprio Iuá, assim como na concepção e modelagem de bonecos e objetos, que contam com o trabalho de Antonia Muniz, Miguel Martins e Beatriz Lima.

            “Contra-Filé” é uma Animação que trabalha em sua narrativa com o subgênero de Crime e tem uma produção muito caprichada, combinando muito bem os elementos narrativos e dramáticos aos elementos técnicos. É um curta que extrai o máximo do que tem à disposição, demonstrando a incrível competência dos envolvidos no projeto.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...