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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TRIPOFOBIA (2019)

 


        Com direção e roteiro de André Juarez Parolin, “Tripofobia” se apresenta como uma obra que ultrapassa os limites convencionais da narrativa de horror para mergulhar em um território marcado pelo simbolismo, pela abstração e pela experiência sensorial. Em vez de organizar seus acontecimentos a partir de uma lógica cronológica tradicional, o curta constrói um universo fragmentado, onde imagens, sons e repetições assumem papel central na produção de significado.

         O filme acompanha dois homens aparentemente desconectados entre si. Um deles permanece isolado em um ambiente escuro, escrevendo compulsivamente a palavra “tripofobia” em uma folha de papel. O outro encontra-se acorrentado e submetido à presença de uma criatura grotesca que parece manipular tanto seu corpo quanto seu sofrimento. Entre esses dois espaços surge uma ampulheta preenchida por areia negra, elemento que funciona como eixo visual, narrativo e simbólico da obra.

        A ausência de diálogos revela uma decisão formal extremamente coerente com a proposta do filme. “Tripofobia” não busca explicar sua realidade por meio da palavra. Pelo contrário, transfere a responsabilidade da construção de sentido para a fotografia, o desenho de som, a montagem e a performance física dos atores. Essa escolha ajuda a compreender os reconhecimentos recebidos pelo curta, vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Som no Curta Suzano e pré-selecionado ao prêmio de Melhor Fotografia da Associação Brasileira de Cinematografia.

         A fotografia de Vitor Meloni desempenha papel fundamental nessa construção. Os espaços escuros e isolados produzem uma sensação constante de confinamento, enquanto a iluminação limitada por velas e pequenas fontes de luz transforma cada ambiente em uma extensão do estado psicológico dos personagens. Não se trata apenas de criar atmosfera. A própria composição visual participa da construção temática do filme, reforçando ideias de aprisionamento, impotência e deterioração.

            Nesse contexto, a criatura surge como um dos elementos mais complexos da narrativa. Embora sua aparência remeta imediatamente ao horror físico, sua função parece ultrapassar a condição de antagonista tradicional. Ela pode ser compreendida como uma manifestação do medo, uma projeção psíquica ou mesmo uma força responsável pela manutenção daquele universo. O fato de controlar a ampulheta e reiniciar continuamente sua contagem sugere uma ligação direta com o tempo, com o destino e com a própria lógica de repetição que estrutura a obra.

         Os agrupamentos de pequenos buracos presentes tanto na criatura quanto nos personagens constituem outro símbolo central. Em vez de servirem apenas como referência visual à tripofobia, eles passam a operar como sinais de uma contaminação progressiva. O horror deixa de ser uma simples reação emocional e adquire materialidade. Os buracos espalham-se, transformam os corpos e estabelecem uma relação física entre vítima e entidade. Nesse sentido, a criatura não apenas provoca a transformação. Ela parece ser a própria origem dela.

         A ampulheta representa talvez a imagem mais poderosa do curta. Inicialmente associada à passagem do tempo, ela gradualmente assume uma função muito mais profunda. Quando a criatura a vira e reinicia sua contagem, a ideia de encerramento desaparece. O tempo deixa de apontar para uma conclusão e passa a representar um mecanismo de aprisionamento. O sofrimento torna-se cíclico. A condenação torna-se permanente. O horror passa a existir dentro de uma estrutura temporal que não oferece saída.

        Essa lógica da repetição atravessa toda a obra. Ela aparece na escrita obsessiva da palavra “tripofobia”, na recorrência dos espaços, na propagação dos buracos e na própria dinâmica temporal estabelecida pela ampulheta. A repetição não funciona apenas como recurso narrativo. Ela constitui o princípio organizador do filme. Tudo retorna. Tudo recomeça. Tudo parece condenado a perpetuar-se indefinidamente.

         A relação entre os dois homens também abre espaço para interpretações particularmente interessantes. Embora o filme os apresente como indivíduos distintos, a narrativa permite enxergá-los como manifestações diferentes de uma mesma condição. O homem que escreve compulsivamente poderia representar a dimensão mental do sofrimento, enquanto o homem acorrentado encarnaria sua manifestação física. O filme jamais confirma essa hipótese, mas também nunca a invalida, preservando sua natureza ambígua e interpretativa.

         A repetição da palavra “tripofobia” merece atenção especial. Mais do que um simples gesto obsessivo, a escrita assume características ritualísticas. O personagem parece tentar compreender aquilo que o atormenta através da linguagem. No entanto, quando o papel é consumido pelo fogo, o filme sugere o fracasso dessa tentativa. Nomear o medo não significa controlá-lo. A palavra desaparece, mas a contaminação permanece.

       Uma das maiores qualidades de “Tripofobia” está justamente em sua recusa em fornecer explicações definitivas. André Juarez Parolin apresenta consequências, mas evita revelar suas causas. O espectador testemunha sofrimento, transformação e deterioração sem jamais receber todas as respostas necessárias para reconstruir completamente sua origem. Essa ausência deliberada de explicações amplia a força do horror, pois transforma o desconhecido em parte essencial da experiência.

         Ao transitar entre Terror, Suspense e Cinema Experimental, “Tripofobia” constrói uma obra que privilegia sensações em detrimento da causalidade tradicional. Sua narrativa opera através de associações entre imagens, sons e símbolos, convidando o espectador a participar ativamente da construção de significado.

         Com fotografia marcante, desenho de som excepcional, direção de arte eficiente, montagem precisa e excelente maquiagem de efeitos, o curta transforma uma fobia em linguagem cinematográfica. Mais do que uma história sobre medo, “Tripofobia” torna-se uma experiência sobre contaminação, repetição e aprisionamento, consolidando-se como uma das propostas mais singulares e interpretativamente ricas do Terror brasileiro em curta-metragem.




sábado, 10 de outubro de 2026

POP RITUAL (2019)

 


     Com direção e roteiro de Mozart Freire, “Pop Ritual” é uma obra de Terror e Mistério profundamente densa, construída de forma sensorial e carregada de simbolismos. Trata-se de um filme que utiliza elementos clássicos do Horror gótico para desenvolver uma narrativa que se abre para inúmeras interpretações, explorando temas ligados ao desejo, à repressão, à fé, ao poder e às transformações que surgem quando diferentes forças entram em conflito.

         Estrelado por Alcântara Costa, no papel de Padre João, e Khalo de Oliveira, interpretando o vampiro Abigail, o curta se distancia rapidamente das histórias convencionais sobre vampiros. Em vez de apostar em confrontos diretos ou em uma disputa simplificada entre bem e mal, a narrativa constrói uma relação complexa entre seus dois personagens centrais. As atuações são um dos grandes destaques da produção. Na ausência de diálogos, os intérpretes precisam transmitir intenções, emoções e conflitos através dos olhares, dos movimentos corporais, das expressões faciais e da ocupação do espaço em cena. O resultado é uma dinâmica envolvente, marcada por tensão, fascínio e curiosidade mútua.

        O sacerdote não apenas aprisiona a criatura. Ele a observa, investiga, analisa e, gradualmente, desenvolve uma relação que ultrapassa a simples condição de carcereiro. Uma das leituras mais evidentes é a do vampiro como representação do desejo reprimido. Historicamente, a figura vampírica sempre esteve associada à sedução, ao erotismo e à quebra de limites morais. Desde a literatura clássica até o cinema moderno, o vampiro costuma simbolizar impulsos que desafiam convenções sociais e religiosas.

         Quando essa figura é colocada diante de um padre, o conflito simbólico se torna ainda mais interessante. Padre João representa disciplina, fé, autocontrole e renúncia. Abigail representa instinto, prazer, desejo e liberdade corporal. O encontro entre essas duas forças cria um embate constante entre o espiritual e o carnal. Mais do que combater a criatura, o padre parece desejar compreendê-la. Em determinados momentos, sua obsessão parece superar qualquer intenção de destruição.

         Outro aspecto particularmente interessante é a presença da experimentação científica dentro da narrativa. Em muitos filmes de vampiro, religião e sobrenatural ocupam posições opostas. Em “Pop Ritual”, surge uma terceira camada. Padre João assume também características de pesquisador. Ele registra, analisa e tenta compreender racionalmente aquilo que desafia qualquer explicação lógica. Essa tentativa de controlar o desconhecido acrescenta novas camadas ao personagem e reforça a sensação de obsessão crescente.

         A relação entre os dois personagens também pode ser interpretada como uma dependência mútua. A dinâmica construída pelo filme sugere que ambos necessitam um do outro por razões diferentes. O padre encontra no vampiro um objeto de estudo, uma missão e talvez até uma justificativa para seus conflitos internos. O vampiro, por sua vez, encontra no sacerdote uma conexão que vai além do simples aprisionamento. Essa proximidade cria uma relação ambígua, desconfortável e fascinante.

            Outro tema recorrente é a importância do corpo. O filme trabalha constantemente o corpo como espaço de transformação, desejo e disputa. O corpo religioso, o corpo vampiresco, o corpo observado, o corpo aprisionado e o corpo modificado coexistem dentro da narrativa. Enquanto Abigail sofre os efeitos das experiências conduzidas por Padre João, o próprio sacerdote passa por mudanças emocionais e psicológicas cada vez mais evidentes.

         Nos aspectos técnicos, “Pop Ritual” impressiona pela sofisticação. A direção de arte cria um ambiente que funciona simultaneamente como residência, laboratório e prisão. Essa indefinição espacial contribui para a atmosfera densa e para a sensação de isolamento compartilhada pelos personagens.

            A fotografia, a montagem e a composição dos enquadramentos trabalham constantemente para influenciar as emoções do espectador. Planos fechados, detalhes corporais e enquadramentos cuidadosamente calculados ajudam a reforçar a intimidade e a tensão existentes entre padre e vampiro. A experiência proposta pelo filme vai além da observação; ela busca provocar sensações fortes ao espectador.

         A trilha sonora minimalista também merece destaque. Priorizando sons ambientes e utilizando a música de maneira econômica, a produção cria uma imersão eficiente. O silêncio, muitas vezes, comunica tanto quanto qualquer diálogo ou composição musical, ampliando o desconforto e a intensidade emocional das cenas.

         “Pop Ritual” é um Horror gótico elegante, provocador e artisticamente refinado. Com uma equipe técnica extremamente competente e um forte domínio de linguagem audiovisual, Mozart Freire constrói uma obra que transforma o vampirismo em ferramenta para discutir desejo, obsessão, identidade e transformação. Mais do que uma história sobre monstros, o filme apresenta personagens que buscam compreender a si mesmos através do outro, resultando numa experiência inquietante, sensorial e profundamente humana.  


Pop Ritual

terça-feira, 4 de novembro de 2025

ANIMANDO (1983)

 


Com muita criatividade e dedicação, Marcos Magalhães dirige e produz uma obra inovadora e cativante, onde seu personagem principal, criado com maestria, precisa enfrentar uma série de situações inusitadas e desafiadoras. O diretor explora com genialidade diversas técnicas de animação, criando um filme que transita com leveza entre diferentes gêneros cinematográficos, como Aventura e Comédia. Ao brincar com essas convenções, Magalhães entrega uma obra que transcende o simples rótulo de Animação, revelando também um caráter experimental e até documental em sua estrutura e narrativa.

O filme, intitulado "Animando", produzido em 1983, é um verdadeiro marco no cinema de Animação brasileiro, produzido em parceria com a agência National Film Board do Canadá. Marcos Magalhães utiliza desde os elementos mais básicos da arte da animação para revelar o complexo e árduo processo de produção por trás de cada movimento e expressão. Ao mesmo tempo em que o personagem é colocado em situações cômicas e surpreendentes, o diretor alterna diversas técnicas de Animação, revelando as dificuldades e desafios enfrentados pelos criadores desse gênero. Com essa abordagem, Magalhães não apenas entretém o público, mas também expõe o caráter profundamente artístico e técnico da Animação, prestando uma homenagem aos animadores e profissionais dessa área.

A obra vai muito além de um simples curta-metragem, conduzindo o espectador por uma jornada visual que começa com os traços mais simples e evolui até as técnicas mais sofisticadas da época. "Animando" é um exemplo atemporal, capaz de nos fazer refletir sobre o desenvolvimento das animações ao longo das décadas. Desde a utilização das técnicas manuais até as inovações mais recentes, como a Animação 3D produzida por computadores, o motion capture e o CGI, o filme nos convida a revisitar o passado e pensar nas transformações que moldaram essa arte.

O aspecto metalinguístico da obra também é fascinante. Enquanto o personagem de "Animando" vive suas aventuras, o filme alterna entre momentos que revelam os bastidores da produção, destacando a interação das mãos do animador com os elementos que estão sendo criados, sugerindo o processo por trás da animação. Esse jogo entre criação e realidade coloca o filme em um patamar único, misturando a magia da ficção com a franqueza do processo criativo, o que enriquece a experiência do espectador.

Além da genialidade técnica e narrativa, "Animando" se destaca também pelo extraordinário trabalho de sua equipe de som e trilha sonora. A música e os efeitos sonoros, produzidos por uma equipe talentosa que inclui Marcos Cabral, Arthur Cabral, Papito, Fernando Miranda, Ricardo Freitas, Sergio Magalhães, Caio Senna, Claudio Wilner, Claudio Valeriano, Sidnei Chagas, Marcos Amirante e a sonoplastia de Leonardo de Souza, complementam de maneira primorosa a Animação, criando uma atmosfera que ora diverte, ora emociona, mas sempre imerge o espectador no universo peculiar do filme.

Marcos Magalhães, com "Animando", não apenas entrega uma Animação tecnicamente brilhante, mas também uma profunda homenagem aos animadores, às técnicas criativas que evoluíram ao longo dos anos, e a todos os profissionais que contribuem para a arte da animação. O filme consegue, em poucos minutos, transmitir a essência dessa forma de arte, mostrando que, por trás de cada movimento fluido e cada cena engraçada ou emocionante, existe uma imensa dedicação e paixão pela criação visual.

"Animando" permanece até hoje como uma das melhores animações já produzidas no Brasil, não apenas por sua inovação técnica e narrativa, mas por sua capacidade de celebrar a própria arte da Animação de maneira tão honesta e envolvente. É uma obra que, mesmo décadas depois de sua criação, continua inspirando novas gerações de animadores e conquistando todos aqueles que têm a oportunidade de assisti-la.




sábado, 20 de setembro de 2025

ZÉZERO (1974)

 


“Zézero”, dirigido por Ozualdo Candeias, é uma obra cinematográfica que se destaca pelo seu caráter contestador, provocador e subversivo, representando um dos maiores exemplos do “Cinema Marginal” brasileiro. A narrativa do filme é uma reflexão crítica e amarga sobre a sociedade e a exploração econômica, abordando o dilema de Zézero, um camponês que, seduzido pela promessa de uma vida melhor, decide abandonar a roça e buscar riqueza na cidade grande. Através dessa trama simples, mas profundamente simbólica, Candeias expõe as mazelas de um sistema que alimenta ilusões de prosperidade e, ao mesmo tempo, mantém as massas aprisionadas em um ciclo de exploração.

O que torna o filme tão impactante é a maneira como ele foge das convenções tradicionais do cinema da época. Em vez de seguir uma narrativa linear e convencional, Candeias aposta em uma linguagem mais livre e experimental, característica do movimento do “Cinema Marginal”. Ao se apropriar de uma estética crua e de recursos técnicos refinados, o diretor reforça a sensação de alienação e desilusão vivida pelos personagens, principalmente o protagonista, Zézero. O nome do personagem, uma fusão de “Zé” com “zero”, já aponta para a falta de individualidade e a insignificância do homem comum dentro das engrenagens de uma sociedade desigual. Zézero é, portanto, o reflexo de uma massa de trabalhadores que, embora busquem algo melhor, são constantemente esmagados pela realidade.

A escolha de Carlos Biondi para interpretar Zézero é extremamente acertada, pois sua atuação transmite com precisão a angústia, a desesperança e os sonhos do personagem. Zézero, influenciado pela fada que lhe mostra as glórias da vida urbana através de jornais e revistas, acredita que a cidade é um local de oportunidades infinitas. Porém, à medida que avança em sua jornada, o protagonista é confrontado com uma realidade cruel, onde a classe dominante manipula as massas e onde sonhos de riqueza fácil se tornam uma armadilha. O filme, ao retratar essa busca incessante por uma vida melhor, coloca o espectador frente à dura realidade de uma sociedade que, através da propaganda e do consumo, alimenta fantasias enquanto mantém os pobres e marginalizados no fundo da pirâmide social.

A montagem de “Zézero” é outro aspecto fundamental que contribui para o tom subversivo da obra. Com cortes rápidos e uma edição fragmentada, o filme transmite uma sensação de desorientação, como se o personagem estivesse perdido tanto no espaço quanto no tempo. A fotografia também é decisiva ao criar um contraste entre a simplicidade do campo e a complexidade caótica da cidade. Além disso, a trilha sonora, composta principalmente por sons ambientais e de rádio, desempenha um papel crucial na construção da atmosfera do filme. Quando o rádio, símbolo dos sonhos de riqueza, transmite sons de lobos e coiotes, a metáfora se torna clara: os poderosos da cidade são os predadores, e os camponeses e pobres como Zézero são suas presas. Esse contraste é fundamental para entender a mensagem central de “Zézero”: a opressão social e econômica que coloca os mais pobres em um ciclo de exploração sem fim.

O filme também faz uma crítica velada àqueles que se iludem com promessas de riquezas rápidas, como a loteria esportiva, tema que aparece em diversos momentos do filme. A fada, ao mostrar para Zézero a vida dos ricos e poderosos através de revistas, oferece-lhe um olhar idealizado da realidade, que dificilmente será alcançado. Este detalhe dialoga fortemente com o presente, em que, como no filme, muitas pessoas se afundam em dívidas enquanto perseguem fantasias de sucesso fácil, seja através de apostas ou jogos de azar online. Assim, “Zézero” continua sendo um filme atual, pois aborda questões perenes sobre a alienação, a exploração e os efeitos das ilusões de riqueza na vida das pessoas.

Os outros membros do elenco também são fundamentais para dar profundidade ao universo de Zézero. Milton Pereira, Izabel Antinópolis, Arnaldo Galvão, Maria das Dores de Oliveira, Maria Gizélia, Maria Nina Ferraz e Pamira Balbina de Almeida são atores que desempenham papéis coadjuvantes que ajudam a construir o ambiente de exploração e ilusão que cerca o protagonista. As suas presenças no filme, embora pontuais, são essenciais para o desenvolvimento do tema e reforçam a ideia de que Zézero não é um caso isolado, mas sim um representante de uma classe que está sendo sistematicamente explorada.

“Zézero” é, portanto, uma obra de crítica social e política, que vai muito além de uma simples história de um camponês buscando riqueza na cidade. O filme expõe algumas das falácias da sociedade capitalista, que ilude seus cidadãos com promessas de prosperidade, mas, na realidade, os aprisiona em um ciclo de exploração e frustração. Ao questionar a busca incessante pelo “ter” em detrimento do “ser”, Candeias cria uma obra que soa como um alerta sobre os perigos de viver em uma sociedade que privilegia o materialismo e a alienação.




quarta-feira, 10 de setembro de 2025

ALMA NO OLHO (1973)

 


          Com forte apelo musical e visual em relação ao corpo negro, o Drama Experimental que se utiliza muito da música da trilha sonora para compor a sua narrativa, “Alma no Olho” é um dos primeiros filmes que coloca a beleza negra em destaque, com suas todas as suas formas, detalhes e contornos.

         O filme destaca como séculos de escravidão resultou num atual estado onde o negro ainda não é totalmente capaz de uma liberdade plena. E essa liberdade vem, primeiramente, com a tomada de consciência da situação e dos atos de resistência.

         Por ter um caráter questionador, Zózimo Bulbul, ator, diretor, roteirista e produtor do curta, foi obrigado a prestar depoimento à Polícia Federal referentes ao filme “Alma no Olho”. Zózimo foi acusado de inserir mensagens subliminares no filme contra o regime militar. Em 1974, o diretor decidiu partir para o exílio, vivendo nos Estados Unidos, Portugal e França.

           A trilha sonora de “Alma no Olho” é composta pela faixa “Kulu Sé Mama” do saxofonista de jazz John Coltrane em parceria com o percussionista Julian Lewis. Com uma fotografia certeira aliada à trilha sonora marcante, o curta de Zózimo é capaz de levar o espectador à uma imersão profunda, onde história, cultura, arte e ancestralidade se despem em tela. “Alma no Olho” é o tipo de filme que precisa ser assistido com o volume alto. Não há diálogos, porém, imagens e sons falam por si só.

         “Alma no Olho” é um monólogo artístico visual que destaca sobre os temas da negritude, da escravidão, da liberdade e emancipação através de uma performance corporal simbólica impressionante. Os elementos técnicos utilizados por Zózimo Bulbul são extremamente eficientes, transmitindo as dores, as marcas e a necessidade de luta e resistência.

            Com um final avassalador, “Alma no Olho” está muito além de um curta de Drama, que mescla música e uma narrativa Experimental. O filme é um verdadeiro manifesto poético sobre a obrigação da sociedade brasileira inteira em lutar contra o racismo estrutural, que infelizmente ainda assola o país, mesmo depois de muito tempo depois do lançamento do filme.




terça-feira, 15 de julho de 2025

ANTES DO CAFÉ (2021)

 


Com produção, roteiro, atuação e direção de Andrea Villela, “Antes do Café” é uma adaptação do monólogo de Eugene O'Neill. A peça escrita por O'Neill apresenta Mrs. Rowland, esposa de Alfred, que precisa lidar com a rotina e “presença” do marido.

         Gravado durante a pandemia de Covid, a adaptação produzida por Andrea consegue, ao mesmo tempo, inserir o espectador naqueles momentos sombrios de isolamento social, na relação conflituosa entre esposa e marido e, por último, mas não menos importante, dentro do psicológico e emocional da protagonista.

         A repetição do nome do marido incomoda. Porém, chamar tantas vezes por Alfredo tem esse objetivo e é primordial para que possamos compreender a raiva, angústia, decepção, ou seja, tudo o que a protagonista sente em relação ao marido, pela situação que vive. O curta não mostra apenas uma mulher aborrecida com o marido; mostra uma relação desgastada e cheia de nuances (algumas mais sutis, outras mais diretas).

          Com fotografia intimista, o filme não fala tanto sobre Alfredo – apesar de seu nome ser dito várias vezes ao longo do curta. Com câmera na mão, colada ao rosto da protagonista, o filme reflete o estado emocional da protagonista, revoltada com o que o marido fez (ou ainda faz). A trilha sonora também é outro ponto de destaque. Nenhum som está fora do lugar, e tudo acontece lentamente, mas de forma impactante.

         Se no início, ao preparar o café, o som ambiente é natural, confortável e rotineiro, o que vem a seguir é uma crescente no som, que começa a preparar o espectador para uma tempestade. As trovoadas, anunciando o temporal, é um espelho do estado mental, emocional e psicológico da protagonista.

         Apesar de contar apenas com uma única personagem (dois, se contarmos com Alfredo, o personagem oculto), Andrea Villela extrai o máximo do texto, seja pela forma como a trama ganha densidade, seja com a sua atuação visceral. É possível perceber desespero quando, ainda no início, ela chama por Alfredo de forma calma e sutil. E é também possível perceber uma certa tranquilidade, mesmo quando ela grita, esbravejando e xingando o marido. Como dizem: “é aquela calma que só o desespero é capaz de dar”. A protagonista mistura calma e agonia, aceitação e negação, força e fraqueza, porém, tudo de forma intensa, onde cada barreira é ultrapassada de um segundo para o outro. Essa ambiguidade mostra como um sentimento pode dar lugar a outro de forma extremamente rápida.

            “Antes do Café” trata de temas densos e pesados, ainda mais quando sabemos o que realmente aconteceu com Alfredo. Aí sim, conseguimos compreender totalmente o comportamento da esposa; sua raiva, sua dor, ou quem sabe, ou o peso de carregar uma culpa, que, talvez, ela nem a tenha, porém, se responsabiliza. A insistência por chamar por Alfredo pode ser interpretada como uma forma de alívio. A impressão que dá é que isso é a única coisa que resta na vida da protagonista: chamar por Alfredo, na esperança que ele possa dar algum sinal. Dessa forma, o filme trata do tema da perda e da solidão, levando o espectador a se perguntar onde está Alfredo e porquê ele não responde. A protagonista mente pra si mesma, vive uma ilusão de forma intencional ou não. Isso porque, estando num estado de confusão mental, não dá para afirmar com certeza o que ela acredita ser verdade ou não, o que ela pensa ou não, o que ela vive como real ou como ilusão.

            Com poucos recursos e com uma limitação física, Andrea Villela consegue entregar uma atuação potente, mostrando a fragilidade de sua personagem. Ela também demonstra muita versatilidade ao roteirizar, dirigir e montar. A limitação física, imposta pela pandemia, dá força ao filme, fazendo o espectador sentir a opressão daquele lugar que, a protagonista se sente incomodada e presa. Isso reforça que ela não está presa apenas ao local, ao imóvel, mas à própria situação de vida. O espaço físico e a trilha sonora, transmitem o estado mental de uma personagem que vive no limite, devido à atitude de Alfredo. E a pergunta que fica é: mesmo que ela não tenha responsabilidade sobre o destino de Alfredo, por que ela se sente tão culpada?

quarta-feira, 18 de junho de 2025

SEM TÍTULO (2004)

O curta-metragem “Sem Título”, com roteiro e direção de Caio Polesi, é uma dessas obras que não se prestam a explicações fáceis e simplistas. Transitando entre a Comédia, o Drama e o Experimental e com uma premissa instigante, o filme apresenta um homem que desperta dentro de um museu e se vê, sem aviso, parte de uma instalação artística. A partir desse momento, inicia-se um percurso que não é apenas narrativo, mas também sensorial, filosófico e político. A narrativa não se resolve em si mesma: ela perturba, provoca, resiste à leitura rápida. E isso, por si só, já é um mérito do roteiro.

Inspirado em uma visita do diretor a uma exposição de arte contemporânea, em especial às obras de Henrique Oliveira, Polesi parte da confusão entre representação e realidade, característica marcante das instalações artísticas, para criar um cenário onde o limite entre o humano e o objeto artístico se dissolve. A ideia, segundo ele, nasce da observação crítica (e um tanto sarcástica) desse tipo de arte: e se alguém acordasse dentro de uma obra e não soubesse se está sendo representado ou exposto?

Essa proposta se concretiza com potência na direção de arte, que é um dos pontos altos do curta. A instalação central, criada por Patricia Osses, é ao mesmo tempo visualmente forte e conceitualmente cruel: um projetor de slides lança incessantemente luzes de recortes de jornal sobre o protagonista, que não consegue ver o conteúdo das imagens, apenas é agredido por elas. A obra se impõe como uma alegoria do excesso de informação, da opressão da imagem, da violência contida na própria ideia de representar o outro sem seu consentimento. O ruído mecânico do projetor torna-se trilha sonora, marca rítmica e linha narrativa do curta. É um som que, como o próprio filme, incomoda, e cumpre bem esse papel.

Mesmo produzido em 2004, bem antes da popularização da internet e das mídias sociais, “Sem Título” consegue dialogar com a atualidade, com exposição excessiva e extrema de pessoas e de como todos podem ser vistos, analisados, rotulados e julgados. Se o protagonista está preso à uma realidade concreta, dentro de um museu, as mídias sociais amplificam muito mais a crítica proposta por Polesi, pois, no atual cenário, a exposição virtual é muito mais acelerada e destrutiva.

A fotografia do filme colabora de maneira decisiva com o estado de desconforto do espectador. A luz ofuscante que atinge o personagem, o uso inteligente dos enquadramentos e a vastidão crua do espaço expositivo, o pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, cedido pelo MAC-USP, acentuam a sensação de solidão e absurdidade da situação. Tudo parece contribuir para a alienação do homem-obra: o espaço não o acolhe, não o explica, não o liberta.

O trabalho do ator Paulo Federal é outro grande acerto. Sem contar com uma direção tradicional, ele foi praticamente deixado livre para construir seu personagem; um risco que, nesse caso, resultou em uma atuação densa, ambígua e sensível. Federal consegue transmitir ao mesmo tempo a perplexidade, o incômodo e a impotência de quem é jogado no meio de um jogo de significações que não controla. Nas palavras do próprio diretor, foi o ator quem acabou dirigindo o filme em muitos momentos, tamanha a entrega e a consciência de cena.

A entrevista de Polesi à RUA (Revista Universitária Audiovisual), criada pelos alunos da turma de 2007 do Curso de Imagem e Som da UFSCar,  revela um diretor ao mesmo tempo consciente e crítico de suas limitações, e talvez seja essa franqueza que dá força ao curta. Ele admite os tropeços da produção, como a precariedade nos ensaios, a inexperiência na direção de atores e até o desabamento parcial do cenário durante as gravações. Mas também revela um entusiasmo genuíno, uma vontade experimental e coletiva de fazer cinema com o que se tem, e esse espírito transborda para o resultado final. A própria criação da “exposição fictícia” envolveu estudantes de artes plásticas, que criaram obras do zero com restos de materiais, conferindo ao projeto um caráter híbrido e quase performático.

Mais do que um exercício estético, “Sem Título” é um gesto político. Quando questionado sobre se o filme é uma afirmação ou uma negação da arte moderna, Polesi responde com sarcasmo e desdém, recusando o papel do artista que precisa “explicar sua obra”. Para ele, o curta é uma crítica feroz a tudo que está aí: ao mercado cultural, à arte esvaziada de sentido, ao cinema domesticado pelas fórmulas. Ele não pretende dialogar com o público; quer incomodar, deslocar, quebrar expectativas. E consegue.

 “Sem Título” é exatamente o que seu nome sugere: uma obra aberta, sem rótulo, sem submissão a categorias pré-determinadas. Um filme para poucos, talvez, mas um filme necessário, que reafirma a arte como lugar de embate, conflito e reflexão. Não é pouco, num tempo em que até a arte muitas vezes se rende à comodidade.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

MERSILDE (2014)





Com uma direção notável e altamente competente, Karin Silva nos entrega em "Mersilde" uma obra envolvente, densa e visualmente impressionante. O curta, protagonizado pela talentosa Vitória Galhardi, explora de forma inventiva o poder sobrenatural do demônio Mersilde, que possui a capacidade de se transportar instantaneamente para onde desejar, manipulando o tempo e o espaço ao seu favor. Através dessa premissa instigante, o filme convida o espectador a questionar a percepção do tempo e da realidade, oferecendo uma experiência sensorial e filosófica única.

O filme foi realizado como parte de um projeto para o laboratório de edição das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), e desde sua concepção técnica até a execução narrativa, demonstra o domínio artístico de Karin Silva e sua equipe. O enredo acompanha a jovem protagonista em um jogo narrativo de múltiplas camadas, onde ela se encontra em diversos locais simultaneamente, como se seu corpo e mente estivessem fragmentados em diferentes realidades. Essa dualidade entre o físico e o metafísico é reforçada pela utilização criativa dos efeitos visuais e sonoros, que elevam a trama ao proporcionar uma atmosfera que se adapta de maneira fluida aos conflitos internos e externos vividos pela protagonista.

A mescla entre fantasia e realidade cria um ambiente que, ao mesmo tempo que desafia a lógica, faz o espectador mergulhar na jornada emocional da personagem. À medida que o filme avança, somos conduzidos por um percurso que ora é leve e contemplativo, ora é caótico e perturbador. Essa alternância é proposital e eficaz, pois reflete a fragilidade da condição humana frente à inconstância da vida. A experiência que o filme oferece transcende o entretenimento, permitindo ao público filosofar sobre como os acontecimentos podem nos tirar de uma zona de conforto para uma espiral de caos, muitas vezes em questão de segundos, assim como o demônio Mersilde faz com sua vítima.

Embora o tema central gire em torno do sobrenatural, “Mersilde” vai muito além de ser um filme sobre um demônio. A narrativa habilmente explora as consequências das escolhas humanas, mostrando que, mesmo sob influência de forças externas, a protagonista ainda mantém sua capacidade de tomar decisões. Ela não é apenas uma peça manipulada pelo demônio, mas uma personagem complexa, que está em constante confronto com seu próprio livre-arbítrio. Essa dimensão psicológica e moral acrescenta camadas profundas à história, transformando o filme em uma reflexão sobre poder, controle e as repercussões de nossos atos.

Outro ponto alto de "Mersilde" é a sua ausência de diálogos. Em vez de depender das palavras, o filme se apoia em uma linguagem cinematográfica rica em imagens e sons para transmitir sua mensagem. Essa escolha estilística aumenta a intensidade da experiência, forçando o espectador a mergulhar nas emoções da personagem e a sentir o peso de cada momento através de suas expressões e das mudanças visuais e sonoras ao seu redor. A ausência de palavras cria uma atmosfera quase poética, onde o suspense é construído de forma silenciosa, mas penetrante.

A trilha sonora e o design de som merecem destaque, pois são peças fundamentais na construção da imersão do filme. As transições entre momentos de calma e desespero são acompanhadas por sons que amplificam o impacto emocional de cada cena, enquanto os efeitos visuais adicionam uma camada de surrealismo que reforça o caráter onírico da narrativa. A montagem é ágil e eficiente, permitindo que o filme mantenha o espectador em um estado constante de alerta e curiosidade.

"Mersilde" se destaca como uma obra-prima do cinema experimental brasileiro, explorando os gêneros de Suspense, Fantasia e Drama psicológico com uma sensibilidade rara. Em poucos minutos, o curta é capaz de transmitir uma variedade de sensações e emoções, indo do sereno ao perturbador com uma fluidez que reflete a natureza imprevisível da vida. O filme sugere que, assim como Mersilde pode distorcer o tempo e o espaço, a vida também pode nos surpreender de maneiras inesperadas, e nem sempre estamos preparados para lidar com as consequências de nossas ações.

Com sua narrativa envolvente e técnica impecável, "Mersilde" é uma verdadeira joia do audiovisual nacional, provando que o cinema independente brasileiro tem o poder de criar experiências profundas e transformadoras. O filme de Karin Silva transcende os limites do sobrenatural e oferece uma reflexão poderosa sobre o ser humano, suas escolhas e o impacto do tempo em nossas vidas.





sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

PEIXE VERMELHO (2009)

 








Com roteiro de Matt Palasz e Andreia Vigo, "Peixe Vermelho" é um curta-metragem de Suspense e Mistério que desafia os sentidos e leva o espectador a uma jornada intensa, onde a apreensão e a angústia estão sempre no ápice. A obra se destaca pela sua narrativa não linear e ousada, conduzida com maestria pela diretora Andreia Vigo, que cria um filme ao mesmo tempo fascinante e profundamente perturbador.

A trama gira em torno da protagonista, vivida por Carina Dias, que entrega uma atuação imersiva e cheia de nuances. A personagem nos conduz por uma trama intrincada e emocionalmente densa, marcada pelo desaparecimento de seu namorado, interpretado por Rafael Sieg. O mistério ao redor desse sumiço é o ponto central da narrativa, mas o verdadeiro destaque do curta é a maneira como a história se desdobra, não apenas através dos eventos concretos, mas também pelos fragmentos da mente atormentada da protagonista.

O filme tem uma atmosfera carregada de tensão, onde a confusão e o desconforto são elementos constantes. A cada cena, somos levados a adentrar os pensamentos fragmentados e as lembranças difusas da protagonista, que luta para entender o que aconteceu com o namorado e com ela própria. No entanto, conforme ela mergulha mais fundo em suas próprias memórias, parece afundar também em uma espiral de loucura, questionando a própria sanidade. A sensação é de estar preso em uma areia movediça mental, onde cada tentativa de compreensão leva a uma maior desorientação.

Com claras influências do cinema de David Lynch, "Peixe Vermelho" abraça o surrealismo e o bizarro de maneira brilhante. A estética visual e a narrativa lembram as obras mais emblemáticas do cineasta, trazendo à tona questionamentos sobre o que é real e o que pode ser fruto da imaginação da protagonista. O próprio Lynch faz uma participação mais do que especial no curta, interpretando o misterioso personagem "The Knowledgeable One", adicionando ainda mais camadas à trama.

Os cenários do filme reforçam a sensação de deslocamento e desconexão da protagonista. Em lugares como um parque de diversões vazio, um trailer, um hotel ou até dentro de um táxi, a personagem nunca parece realmente pertencente a qualquer espaço. É como se ela estivesse presa entre dois mundos, flutuando em uma realidade distorcida e imprevisível, onde o espectador é convidado a se perder junto com ela. Essa ambiguidade narrativa é um dos grandes trunfos do filme, pois levanta a dúvida: até que ponto estamos vendo a realidade? Ou estamos imersos nas alucinações e devaneios da protagonista?

A trilha sonora, a fotografia e a direção de arte de "Peixe Vermelho" trabalham em total sintonia para criar uma experiência visual e sonora impactante. A fotografia parece se comportar de acordo com o local onde a protagonista está; ora com movimentos lentos e contidos, ora com movimentos rápidos e confusos. A montagem fragmentada intensifica a atmosfera onírica, contribuindo para o caráter enigmático do curta. A trilha sonora, por sua vez, pontua os momentos de maior tensão e reforça o sentimento de inquietação que permeia o filme.

Com sua abordagem inovadora e envolvente, "Peixe Vermelho" é uma obra que não só entretém, mas também provoca reflexão. Ao manter o espectador sempre no limite entre o real e o imaginário, o filme cria uma experiência profundamente imersiva, onde as respostas não são entregues de maneira fácil. Ao contrário, cabe ao público questionar e especular sobre os mistérios apresentados, mergulhando nas múltiplas camadas dessa narrativa complexa.

O resultado é um curta provocador e instigante, que desperta sensações viscerais e permanece com o espectador por muito tempo. Com elementos técnicos impecáveis e uma história que desafia as convenções do gênero, "Peixe Vermelho" se estabelece como uma obra essencial para os amantes do cinema de Mistério e Suspense, oferecendo uma experiência única e inesquecível.




quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

ARABESCO (1990)

 


O premiado curta “Arabesco”, com roteiro e direção de Eliane Caffé, apresenta dois ladrões que invadem uma casa com a intenção de roubar objetos valiosos. Logo de cara, eles percebem que a casa guarda muito mais segredos do que artigos de luxo.

“Arabesco” conta com as ótimas atuações de Alfredo Damiano e Jonas Bloch, que se surpreendem com tudo o que há dentro do cômodo da casa e como coisas estranhas passam a acontecer. Se, de início, eles se surpreendem de forma positiva diante do desconhecido, logo eles passam a questionar a sanidade mental, com o desespero batendo na cabeça deles. Citando o caso de um conhecido que enlouqueceu, pensando que havia se tornado um paralelepípedo, eles temem que o mesmo possa acontecer com eles, sendo influenciados de alguma maneira pela casa.

O que eles têm de informações sobre a casa é que a mesma pertence a uma senhora de idade. Ao invadirem um dos cômodos da casa, se surpreendem com objetos, obras de artes, quadros, livros, que, provavelmente têm um elevado valor. Porém, tudo o que existe dentro daquele cômodo parece estranho e surreal, aparentemente, não havendo uma saída.

O curta aborda como cada um reage diferente das coisas inusitadas que acontecem no local. Num momento, enquanto um está enfeitiçado por algum objeto, o outro está no desespero para sair do local. E essa situação se inverte em várias oportunidades.

Com muita competência, as equipes de arte, fotografia e trilha sonora constroem um universo que desafia o mundo real, com situações absurdas e que fogem da realidade material da forma como conhecemos. O curta tem um lado lúdico, mas também, uma atmosfera de mistério e suspense. O texto oferece todos esses elementos que são explorados de forma muito eficiente por Eliana Caffé.

O toque surreal e experimental do curta traz a reflexão de como lidamos com situações, aparentemente sem explicação. Em resumo, como lidamos com o desconhecido e com o que nos parece estranho à primeira vista.

“Arabesco” deixa uma série de dúvidas para que o espectador especulo sobre o local e as atitudes da dupla de assaltantes. Será que aquele local é real? Será que eles realmente estão onde acham que estão? E, como sair dali?

Eliana Caffé demonstra muita qualidade em aliar elementos narrativos e técnicos, criando a tensão que envolve os personagens e explorando muito bem os elementos psicológico e emocionais da dupla de assaltantes.




quinta-feira, 31 de outubro de 2024

SUPERBARROCO (2008)

 

O Drama Experimental da diretora Renata Pinheiro e estrelado pelo ator paraibano Everaldo Pontes, não é simplesmente um filme onde o espectador somente vê e ouve. “Superbarroco” é um filme para ser experimentado, apreciado e sentido. Com elementos do surrealismo, o curta de 17 minutos, leva o espectador para uma abordagem artística, filosófica-existencialista e totalmente imersiva, se quem assiste se permitir viajar pela mente do protagonista.

Pode até haver um estranhamento sobre a narrativa, o personagem e o arco dramático do filme. E, de forma magistral, a equipe criativa consegue nos atrair para aquele universo, que aprofunda em questões relativas à identidade pessoal, memórias, lembranças, pertencimento, com técnicas de filmagem aparentemente simples, mas hipnotizantes. A arte visual, envolta no protagonista, permite sentir os sentimentos dele. A obra permite ao espectador se aprofundar ao máximo numa realidade onírica e introspectiva.

“Superbarroco” é arte no estado mais puro, refinado e autêntico. É certo que demorar um pouco até compreendermos as imagens das projeções. Mas, quando percebemos do que se trata, passamos a participar do filme. Não há quarta parede para ser quebrada. Simplesmente, quem assiste é introduzido dentro do universo do personagem principal.

E a arqueologia da mente do protagonista mistura realidade, sonhos e memórias. A narrativa é lenta e imersiva, justamente para que tudo passe a fazer sentido. Ou nem tudo possa fazer sentido, porque ninguém é capaz de conhecer totalmente o que uma pessoa carrega na sua bagagem de vivências, memórias, sonhos e ilusões.

O uso de flashbacks com projeções nas paredes da casa do protagonista demonstra uma execução técnica sublime. Ao abrir mão de flashbacks convencionais e utilizar projeções nas paredes, o filme transforma a memória em algo vivo, visual e interativo dentro do cenário. Essa abordagem não apenas comunica informações sobre o passado, mas também reflete o estado mental e emocional do protagonista. Essa ruptura com os padrões permite que o público experimente o passado de uma maneira sensorial, fundindo-o com o presente de forma mais fluida e poética, tornando a própria casa um personagem que "guarda" essas lembranças.

Assistir a “Superbarroco” é uma experiência única. O filme traz várias sensações e sentimentos, dentro de sua proposta narrativa e aspectos técnicos, que desconstroem a linearidade da narrativa tradicional. Através de uma linguagem visual poética e simbólica, a obra nos transporta para um universo em que o passado e o presente se entrelaçam, convidando o espectador a uma reflexão profunda sobre suas próprias memórias e experiências. A imersão nas nuances da história e a originalidade na construção das cenas fazem do filme uma obra marcante que desafia nossas percepções e expectativas.


Assista "Superbarroco" no Embaúba Play: https://embaubaplay.com/catalogo/superbarroco/ ou pelo canal Programa Curta Pernambuco, com uma entrevista com a diretora.





SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...