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sábado, 17 de outubro de 2026

POMBAL 350 (2016)

 


       Produzido por estudantes do Curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco, “Pombal 350” é um curta de Terror que demonstra como uma narrativa simples pode se tornar extremamente eficiente quando sustentada por atmosfera, ritmo e construção de suspense. Em vez de apostar em sustos constantes ou explicações excessivas, o filme escolhe um caminho mais sutil, permitindo que o mistério se desenvolva gradualmente e envolva o espectador em uma sensação crescente de inquietação.

         A narrativa tem início em um Recife já dominado pela noite. O movimento das ruas diminui, os sons urbanos tornam-se mais discretos e a cidade parece assumir uma personalidade diferente daquela observada durante o dia. É nesse contexto que acompanhamos um motorista de táxi encerrando sua jornada de trabalho. O personagem fuma um cigarro, observa o ambiente ao redor e decide que não aceitará mais corridas. Trata-se de uma decisão comum, quase banal, mas que funciona como um ponto de partida importante para o desenvolvimento da trama.

       Com direção de Paulo Souza, Amanda Melo, Eva Feitosa e Josy Barbosa, sob orientação de Leonardo Castro Gomes, o curta demonstra maturidade ao transformar situações cotidianas em elementos capazes de gerar tensão. O espaço urbano não é apenas um cenário, mas um componente ativo da narrativa, contribuindo para a construção da atmosfera e refletindo o estado emocional do protagonista.

         O trabalho sonoro merece destaque desde os primeiros minutos. Conforme a cidade se esvazia, os ruídos urbanos perdem força e dão espaço a uma trilha sonora discreta, mas constantemente inquietante. Essa combinação produz uma sensação de estranhamento que cresce lentamente, preparando o espectador para os acontecimentos que virão. Quando o motorista retira o luminoso do táxi e inicia seu retorno para casa, já existe a percepção de que aquela viagem será diferente do esperado.

           A chegada da passageira marca uma mudança importante na narrativa. Vestida de branco, a jovem surge de forma aparentemente comum, mas carregando uma presença que desperta curiosidade imediata. O filme não oferece explicações sobre quem ela é ou de onde veio, permitindo que o mistério se estabeleça naturalmente. A normalidade da situação começa a ser questionada quando percebemos que ela entra em um táxi que já não deveria estar disponível para corridas.

         Quando a passageira entrega apenas um papel contendo o endereço Rua Pombal, 350, o filme amplia ainda mais sua atmosfera de suspense. O destino torna-se uma espécie de promessa narrativa, conduzindo protagonista e espectador para um local desconhecido. A partir desse momento, a viagem deixa de ser apenas um deslocamento físico e passa a funcionar como uma jornada rumo ao inexplicável.

        Um dos grandes méritos de “Pombal 350” está na integração harmoniosa entre seus elementos técnicos. A fotografia explora muito bem os contrastes entre os espaços externos e o interior do veículo. Os planos mais abertos reforçam a sensação de isolamento da cidade durante a madrugada, enquanto os enquadramentos fechados aumentam a sensação de confinamento e desconforto. O trabalho realizado por Carlos Sant'Anna e Victoria Correa no elenco também contribui significativamente para essa dinâmica, transmitindo tensão mesmo nos momentos de silêncio.

        A montagem acompanha o ritmo da narrativa com precisão, sem acelerar excessivamente os acontecimentos. O suspense surge justamente da espera, da observação e da sensação de que algo está fora do lugar. A trilha sonora complementa essa construção de forma eficiente, ampliando o desconforto sem jamais se tornar invasiva.

         Com poucos diálogos e uma aposta clara na força das imagens, dos sons e das atmosferas, “Pombal 350” demonstra maturidade narrativa e técnica. Em apenas sete minutos, o curta consegue criar um universo envolvente, onde o medo nasce muito mais da sugestão do que da explicação. O resultado é uma experiência de Terror psicológico eficiente, que valoriza o mistério e comprova como o suspense pode ser construído através de pequenos detalhes cuidadosamente organizados.




quinta-feira, 8 de outubro de 2026

EVA (2020)

 


            Produzido pela Friends Group Entertainment, com roteiro e direção de Daniela Gonçalves, “Eva” é uma obra que chama atenção pela ambição de sua proposta. Em um cenário onde boa parte da produção independente precisa lidar com limitações orçamentárias, o filme escolhe justamente o caminho mais difícil: construir um universo próprio, com mitologia, atmosfera, linguagem particular e uma narrativa que exige participação ativa do espectador. O resultado é um curta que demonstra ousadia, personalidade e disposição para correr riscos criativos, algo cada vez mais raro em produções que optam por caminhos mais seguros.

         A trama acompanha um sacerdote e seu guardião durante uma jornada missionária. Ao atravessarem a província de Eva, o caminho dos dois é interrompido quando encontram uma jovem misteriosa ferida. A partir desse encontro, a narrativa passa a desenvolver uma sucessão de acontecimentos estranhos que transformam completamente o rumo da viagem. O filme utiliza elementos do Suspense, do Terror e do Mistério para construir uma experiência que vai muito além de sustos ou da simples expectativa pelo desconhecido. O interesse da obra está menos em revelar respostas e mais em alimentar dúvidas.

            Uma das características mais interessantes do curta é a maneira como ele trabalha a sugestão. Em vez de explicar tudo ao espectador, Daniela Gonçalves prefere criar perguntas e permitir que determinados elementos sejam interpretados de formas diferentes. Isso faz com que “Eva” funcione não apenas como uma história fantástica, mas também como uma alegoria aberta a múltiplas leituras. O filme confia na inteligência do público e evita transformar seus mistérios em explicações excessivamente didáticas.

         Uma dessas interpretações passa pela relação entre humanidade e natureza. Ao longo da narrativa, surge a sensação de que a violência exercida pelos seres humanos contra o ambiente natural não é apenas pano de fundo para os acontecimentos. O filme parece sugerir uma ruptura de equilíbrio. A natureza deixa de ser apenas cenário e passa a ocupar um papel ativo dentro da narrativa. Sob essa perspectiva, os eventos sobrenaturais funcionam como manifestação de algo maior, uma reação a agressões constantes praticadas pelo próprio homem. Essa leitura acrescenta uma camada ecológica bastante interessante à experiência.

        O personagem do guardião, interpretado por David Mello, cumpre papel fundamental nessa construção. É através de seu olhar que o espectador descobre aquele universo e acompanha o crescimento gradual da tensão. Sua atuação contribui para transmitir medo, dúvida, inquietação e vulnerabilidade diante de acontecimentos que escapam à compreensão racional. A jornada do personagem também funciona como uma espécie de travessia emocional, conduzindo o público por uma experiência cada vez mais angustiante.

         O elenco entrega interpretações comprometidas com a proposta do filme e ajuda a tornar crível um universo que poderia facilmente soar artificial. O elenco como um todo contribui para a credibilidade da narrativa. Além de David Mello, Allan Gonçalves, Carolini Camini, Felipe Guilherme Paixão, Mayara Silva e Vitor Renan aprofundam os personagens numa narrativa que trabalha constantemente com o desconhecido. As atuações possuem a responsabilidade de manter o espectador emocionalmente conectado aos personagens, algo que o filme consegue realizar com competência.

            Outro aspecto extremamente interessante é a escolha do Esperanto como idioma principal. Trata-se de uma decisão incomum dentro do audiovisual brasileiro e que acrescenta uma camada extra de estranhamento à narrativa. Criado por Ludwik Lejzer Zamenhof no século XIX com a proposta de facilitar a comunicação entre diferentes povos, o Esperanto carrega uma forte carga simbólica ligada à ideia de aproximação cultural e universalidade. Em “Eva”, sua utilização ajuda a construir a sensação de que a história acontece em um espaço que não pertence exatamente a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, pode pertencer a qualquer lugar.

         Essa escolha também contribui para fortalecer o caráter mítico da narrativa. O filme não parece interessado em situar seus personagens em uma realidade específica. O idioma reforça justamente essa atmosfera de lenda, fábula ou parábola sombria, aproximando a obra de narrativas fantásticas que dialogam mais com símbolos do que com acontecimentos concretos.

        Tecnicamente, “Eva” impressiona pela maturidade. A direção de arte demonstra enorme preocupação com composição visual e construção de atmosfera. Os cenários, figurinos e elementos de cena ajudam a criar um universo coerente e visualmente rico. A fotografia trabalha muito bem a relação entre luz e escuridão, contribuindo para a sensação permanente de inquietação. Em diversos momentos, a imagem parece comunicar tanto quanto os diálogos. Há um cuidado evidente na composição dos enquadramentos e na utilização dos espaços naturais para reforçar a sensação de mistério.

         O trabalho de som também merece destaque. Os efeitos sonoros e a trilha são utilizados de maneira estratégica para ampliar a tensão dramática. Em vez de depender exclusivamente de imagens impactantes, o filme constrói boa parte de seu desconforto através da sonoridade. O resultado é uma experiência imersiva que envolve o espectador e reforça o clima de ameaça constante.

          Outro mérito está no ritmo narrativo. O primeiro ato é deliberadamente mais lento, permitindo que o público conheça aquele universo e seus personagens. Essa construção gradual exige paciência, mas se mostra recompensadora quando a narrativa acelera. À medida que os acontecimentos se tornam mais intensos, o filme ganha velocidade e conduz o espectador para uma conclusão marcada por tensão, angústia e sensação de inevitabilidade.

         Filmado em Mogi das Cruzes e lançado em 2020, “Eva” demonstra que o cinema independente brasileiro continua produzindo obras capazes de surpreender pela criatividade e pela coragem de experimentar. Mais do que um exercício de gênero, o curta constrói uma experiência que combina fantasia, horror e reflexão ambiental de maneira bastante particular. É um filme que aposta na atmosfera, nos símbolos e na participação ativa do espectador, revelando uma produção ambiciosa, madura e tecnicamente competente. “Eva” não se limita ao que mostra na tela. É uma obra que continua provocando interpretações e reflexões, característica comum aos trabalhos que encontram força justamente no mistério e na abertura para diferentes leituras.




domingo, 27 de setembro de 2026

A MORTE & VIDA DE ANA BELSHOFF (2015)

 


          Com roteiro e direção de Pedro Foss, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um tenso e inquietante curta que mescla de maneira brilhante os gêneros de Suspense, Mistério e Terror, com foco principalmente no Horror psicológico.

         A trama se concentra em Ana, interpretada com muita intensidade e profundidade por Carol Castro. A nadadora, que está prestes a disputar uma olimpíada, tem uma vida quase perfeita com seu marido, dentro de uma rotina que inicialmente transmite estabilidade e segurança.

           No entanto, a normalidade vivida por Ana começa a abalar sua vida, seu casamento e sua própria existência. O diretor trabalha a incerteza sobre aquilo que Ana está realmente vivendo. O curta começa apresentando uma situação aparentemente normal, mas rapidamente introduz elementos que quebram essa normalidade: visões, pesadelos, alucinações e aparições.

         Ana Belshoff começa a perceber acontecimentos que não consegue explicar. Entre eles está a presença recorrente do personagem de Luciano Szafir no elevador, cuja primeira aparição já provoca receio e desconforto. O suspense psicológico nasce justamente dessa impossibilidade de Ana, e do espectador, compreender imediatamente o que está acontecendo. A protagonista tenta racionalizar aquilo que vê, mas cada nova manifestação aumenta sua insegurança, fazendo a própria mulher questionar sua sanidade mental.

            A presença de uma mulher loira vista por Ana também amplia essa sensação de ameaça e faz com que o próprio espaço doméstico, que deveria representar segurança, se transforme em um lugar de inquietação. O filme consegue, assim, fazer a transição gradual do Suspense psicológico para o Terror psicológico. O terror não está presente apenas nos sustos, mas na perda progressiva da confiança naquilo que Ana enxerga e entende como realidade.

         “A Morte & Vida de Ana Belshoff” não apresenta simplesmente duas possibilidades opostas. Morte e vida funcionam como duas condições que coexistem na experiência da personagem. A ideia de “morte” pode ser física, mas também existe uma dimensão relacionada à negação da morte e à dificuldade de aceitar que determinada vida chegou ao fim. Da mesma maneira, “vida” não significa apenas estar biologicamente vivo. O filme trabalha com a ideia de uma personagem que continua experimentando uma existência, relacionamentos e situações que pertencem a uma vida que já não corresponde à realidade.

         Isso aproxima o título da ideia de limbo: Ana permanece entre a vida que teve, a vida que gostaria de ter tido e a condição que não consegue reconhecer. Essa posição intermediária reforça o desconforto da narrativa, porque a personagem não consegue compreender plenamente o lugar em que se encontra.

        O filme permite contrastar a vida que Ana acredita ter sob vários aspectos, conforme a trama avança e a protagonista descobre mais sobre si e sua vida. Elementos sobre a condição de sua mãe e atitudes tomadas por ela ganham sentido. A fragilidade psicológica de Ana permite compreender a vida idealizada por ela como uma espécie de refúgio psicológico, uma realidade na qual ela consegue permanecer enquanto não enfrenta aquilo que aconteceu.

         O personagem interpretado por Luciano Szafir ganha corpo conforme seus encontros com Ana no elevador se tornam mais frequentes. Sentindo receio do personagem, a mulher evita usar o mesmo elevador. Ele parece saber mais sobre a situação de Ana do que ela própria. Sua presença pode ser interpretada como a de uma entidade ligada à morte, ou como um intermediário entre dois estados de existência. O elevador, nesse contexto, ganha um significado simbólico muito forte como passagem, transição ou deslocamento. A recusa em entrar no elevador pode estar relacionada à própria resistência da personagem em aceitar aquilo que aconteceu com ela.

            Além de Carol e Luciano, o elenco do curta ainda conta com Bruno Gissoni no papel do marido, Bia Oliveira, Bárbara Brígido e Juan C. Reis, que ajudam a sustentar o arco narrativo.

         Os elementos técnicos também se destacam na construção da atmosfera do curta. A fotografia é clara e ampla, mesmo quando a narrativa já apresenta acontecimentos sobrenaturais. Ela também consegue trabalhar detalhes menores e microdetalhes dentro dos espaços, mas nunca utiliza a imagem para denunciar antecipadamente a condição de Ana. Ou seja: a fotografia não entrega visualmente que existe algo errado com a vida da personagem.

         Isso é importante porque seria muito fácil utilizar uma fotografia escura, sombria ou carregada de filtros para sugerir imediatamente uma dimensão sobrenatural. Pedro Foss faz o contrário: mantém a imagem relativamente limpa e clara e deixa o estranhamento surgir principalmente através do psicológico da protagonista e da narrativa. Isso cria um contraste interessante: a imagem parece normal enquanto a experiência de Ana se torna cada vez mais anormal.

         A direção de arte também contribui para construir essa realidade aparentemente cotidiana. A montagem tem papel fundamental na organização das informações e na revelação gradual dos acontecimentos, evitando que o curta entregue cedo demais aquilo que pretende revelar. A trilha sonora de Tales Rubens contribui para a tensão e para os momentos de susto, incluindo os jumpscares utilizados nos momentos adequados.

         O resultado é uma combinação de Suspense e Terror em que os recursos técnicos não existem apenas para assustar, mas para controlar aquilo que o espectador sabe e aquilo que ele ainda não consegue compreender.

          Produzido com muita competência e qualidade, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um Suspense psicológico que gradualmente incorpora o Terror para contar a história de uma personagem presa entre aquilo que acredita estar vivendo e aquilo que realmente aconteceu. O suspense cria a pergunta: o que está acontecendo com Ana? Mas a camada psicológica acrescenta: por que Ana não consegue enxergar o que está acontecendo? E a dimensão existencial acrescenta uma terceira: o que significa continuar vivendo quando já não conseguimos aceitar a realidade?

         A força técnica do curta está justamente em não precisar anunciar essas respostas pela imagem. A fotografia clara, a direção de arte, a montagem, a trilha sonora e principalmente a atuação de Carol Castro colocam o espectador dentro da experiência de Ana sem entregar imediatamente a sua condição. O resultado é um filme que tem na imprevisibilidade a potência para um final chocante e perturbador.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

A BELEZA LHE CAI BEM (2022)

 


        Realizado pelos alunos da oficina de cinema do 14 CineFantasy em 2022, “A Beleza Lhe Cai Bem” se revela um intrigante curta-metragem que explora com precisão o horror visceral, construindo sua atmosfera de forma gradual, sem pressa e com notável competência por parte da equipe envolvida.     

         Com direção coletiva de Dante Barão, Fábio Martins, Fabrício Nunes, Helena Valentine, Henrique Nuzzi, Oberdan Quintino, Patrick Morelli, Renan Kikuche, Victor Gamarra Gaette e Wesley Brito, o filme apresenta uma mulher idosa que encontra um artefato misterioso capaz de devolver sua juventude. A premissa, embora simples à primeira vista, se desdobra em camadas simbólicas que sustentam o impacto emocional da narrativa.

         Em seus instantes iniciais, “A Beleza Lhe Cai Bem” já oferece sinais importantes sobre a protagonista, seu estado emocional e sua condição de vida. São elementos discretos, mas cuidadosamente inseridos, que indicam ao espectador que o que será visto adiante pode ser interpretado para além do literal, abrindo espaço para diferentes leituras da trajetória da personagem.

        Diante do espelho do banheiro, a idosa interpretada por Vera Luz enfrenta o peso da velhice. Os porta-retratos espalhados pela sala e a trilha sonora contribuem para reforçar a sensação de melancolia, apontando tanto para o que ela já foi quanto para o que ela se tornou. Nesse ponto, o curta também abre espaço para uma crítica social importante, especialmente sobre a maneira como artistas, sobretudo mulheres, são frequentemente descartadas pelo público e mídia quando atingem determinada idade. O filme sugere, de forma sutil, o envelhecimento feminino como um processo de exclusão social, marcado pela pressão estética e pela invisibilização progressiva da velhice.

         A presença de vultos e a sensação de ser chamada para fora do banheiro conduzem a protagonista até a sala, onde ela encontra um recipiente contendo um creme misterioso. Ao aplicar o produto em seu rosto, sua fisionomia se transforma de maneira imediata. A velhice cede lugar à juventude. As rugas desaparecem, os traços se suavizam e o corpo recupera movimentos antes limitados. Nesse momento, Ananda Scaravelli assume a versão jovem da protagonista, dando continuidade à transformação com uma performance que reforça a ruptura entre as duas identidades.

        No entanto, essa mudança não ocorre sem consequências. O retorno à juventude tem um custo, e aquilo ou quem proporcionou essa transformação parece disposto a cobrar esse preço. É justamente nesse ponto que o curta intensifica sua dimensão de horror, sugerindo que a solução encontrada pela personagem pode estar diretamente ligada aos sinais sutis apresentados no início da narrativa. Dor, sofrimento e desconforto emergem como possíveis desdobramentos inevitáveis dessa escolha.

         “A Beleza Lhe Cai Bem” também se destaca pelo domínio técnico de sua realização. A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora trabalham em conjunto para ampliar a sensação de desconforto, fazendo com que o horror se instale de forma progressiva no universo da personagem. Nada parece gratuito, e cada elemento visual ou sonoro contribui para a construção da atmosfera opressiva.

         A maquiagem e os efeitos práticos merecem destaque especial, funcionando como verdadeiros catalisadores da imersão no filme. O cuidado com os detalhes reforça a verossimilhança da transformação e intensifica o impacto emocional do processo, colocando o espectador em contato direto com a degradação e reconstrução da identidade da personagem.

         As atuações de Vera Luz e Ananda Scaravelli são fundamentais para sustentar o curta. Ambas as performances se apoiam fortemente na expressividade corporal e facial, especialmente diante da ausência de diálogos. Essa escolha valoriza ainda mais o trabalho das atrizes, que constroem a personagem em dois estados completamente distintos. Há ainda um terceiro elemento narrativo importante, invisível em cena, mas essencial para a compreensão do desfecho: o próprio recipiente, que retorna com força simbólica na resolução da história.

          A fotografia desempenha um papel decisivo na condução da narrativa, alternando entre paletas mais opacas, enquadramentos fechados e uma estética mais sufocante durante a fase inicial da protagonista. Após a transformação, a luz ganha intensidade, os espaços parecem mais amplos e a composição visual se abre, reforçando a mudança de estado físico e psicológico.

         Com argumento de Ananda Scaravelli e roteiro de Helena Valentine, Victor Gamarra Gaette, Oberdan Quintino, Fábio Martins, Patrick Morelli, Cláudio Marcio Fernandes e Wesley Brito, sob coordenação de projeto de Marcos DeBrito, “A Beleza Lhe Cai Bem” se consolida como um curta de horror muito bem executado. O resultado final vai além do susto, construindo um desconforto persistente através de elementos narrativos, dramáticos e técnicos cuidadosamente integrados, capazes de incomodar o espectador de maneira profunda e chocante.




sábado, 12 de setembro de 2026

FRAGMA (2013)

 


        Com direção, roteiro e produção executiva de Eduardo Moraes, “Fragma” é um curta de Drama que explora de maneira sensível e emocionante temas como memória, passagem do tempo, perda, abandono e permanência afetiva. Os realizadores exploram os gêneros Mistério e Romance. No entanto, o conflito central abarca temas que vão para muito além dessas classificações.

         O ponto de partida de “Fragma” é simples, mas carregado de possibilidades: um homem entra em um campus universitário e encontra um rapaz, inicialmente arredio e hostil. Ele diz que tem algo para mostrar e entrega o pequeno monóculo que permite observar uma fotografia ampliada.

        A partir desse objeto, o filme abre uma janela para uma história muito maior. O monóculo funciona como gatilho da memória. Ao olhar através dele, o rapaz não vê simplesmente uma fotografia: ele mergulha em uma sequência de lembranças. A narrativa passa a mostrar a relação dele com uma mulher: aproximação, paixão, convivência e, posteriormente, a ausência dela.

         O filme não explica imediatamente por que essa mulher desapareceu da vida dele. O mistério está menos em “descobrir um segredo” e mais em entender a história emocional que conecta aquelas pessoas. O encontro no campus funciona como ponto de partida para uma viagem pelo passado, na qual cada lembrança acrescenta uma nova peça à história.

         A memória é provavelmente um dos elementos mais importantes de “Fragma”. A estrutura visual identifica isso: no presente há campus, biblioteca, encontro. O passado se divide em dois. O do rapaz que entrega o monóculo e o do que recebe. Para um, o passado representa um intenso relacionamento amoroso. Para o outro, infância e amor. Diferentes momentos das vidas aparecem como fragmentos que precisam ser conectados.

      A narrativa não entrega uma biografia completa dos personagens. Ela oferece momentos significativos. E são esses momentos que permitem ao espectador reconstruir a história. A memória também não aparece como algo neutro. Ela está ligada à emoção, e aquilo que permanece na lembrança é justamente aquilo que teve importância afetiva. O filme transforma, assim, a lembrança em uma forma de reconstrução do passado.

         O contraste visual entre presente e passado é explorado de maneira genial pela fotografia. No tempo presente, quando os personagens estão no campus e na biblioteca, predominam filtros de tonalidades cinzentas e azuladas. A fotografia trabalha cores frias, transmitindo uma sensação mais distante e melancólica. Dessa forma, o presente parece emocionalmente esvaziado.

        Nas lembranças do relacionamento amoroso surgem cores vibrantes, maior luminosidade, tons mais claros, sensação de calor e vitalidade. A imagem transmite uma existência emocionalmente mais intensa. E isso também acontece nas lembranças relacionadas ao homem que entrou no campus, quando suas lembranças de infância vêm à tona.

         Essa diferença cromática pode ser interpretada como uma maneira de transformar visualmente a memória em um espaço de vida. O passado é colorido não necessariamente porque tudo tenha sido perfeito, mas porque foi vivido intensamente. O presente, por outro lado, é frio porque carrega as consequências daquilo que aconteceu. A fotografia transforma essa oposição emocional em uma experiência visual muito clara.

           No início, quando entramos junto com o personagem no campus, encontramos um jovem em uma mesa. Depois que ele observa pelo monóculo e mergulha na sequência de lembranças, o filme apresenta uma passagem temporal enorme. Voltando ao presente, vemos o mesmo homem, mas agora muito mais velho e grisalho. Isso pode ser interpretado de maneira bastante simbólica. Fisicamente, o tempo passou. Emocionalmente, talvez ele tenha permanecido preso àquele momento. A sensação é de que a vida continuou, o corpo envelheceu, os anos passaram, mas aquele amor permaneceu congelado dentro dele. O passado não é apenas algo que ele recorda. É algo que continua vivendo dentro dele.

         Apesar dos poucos diálogos, o elenco entrega atuações fantásticas. Rafael Primot é o nosso condutor pela jornada. Ele entra no campus, percorre corredores e escadas. Encontra o jovem, interpretado por Eduardo Moraes, que, inicialmente, o trata mal. Juliana Ianina domina ações, interações e o motor dramático da vida daqueles dois homens. Primeiramente em sua relação com o jovem homem e, posteriormente, com o bebê, interpretado por Otto Sanches. Luiz Carlos Vasconcelos surge em tela, num final extremamente emocionante e avassalador.

         Um aspecto interessante é que o filme não explica imediatamente por que a mulher desaparece da vida do homem. Essa ausência pode ser mais importante do que uma explicação objetiva. O guarda-roupa vazio, os cabides sem roupas. É uma imagem simples, mas representa concretamente a ausência. A pessoa desapareceu, e aquilo que resta é o espaço que ela ocupava. O vazio físico passa a representar também o vazio emocional deixado por sua partida.

         “Fragma” tem elementos técnicos muito bem utilizados para criar uma atmosfera vibrante, mas, instantes depois, melancólica e triste. As idas e voltas nestes dois mundos representam como lembramos de momentos felizes e marcantes e como lidamos com um presente frio e vazio. A montagem é executada de maneira primorosa, reconstruindo aos dois protagonistas um passado que pertence a eles dois.

         Direção de arte, figurino, maquiagem e trilha sonora também merecem destaque. Tudo funciona como base para as atuações e sensações que a obra transmite ao espectador. Os elementos técnicos não se sobrepõem às atuações, mas servem como bases de sustentação narrativa e dramática, ajudando a estabelecer as diferentes temporalidades e atmosferas.

            Um dos grandes acertos de “Fragma” é apresentar duas vidas, duas perspectivas e uma possível relação entre pai e filho. A presença do rapaz no campus ganha importância porque descobrimos depois que ele não é simplesmente um estranho. A estrutura do filme começa a revelar que existem duas vidas ligadas por uma mesma mulher. Isso cria um interessante paralelismo: o homem carrega a memória da mulher como companheira, o rapaz carrega a memória dela como mãe. Ambos possuem relações diferentes com a mesma pessoa. Ambos foram marcados pela ausência dela. O filme não está interessado apenas na história entre um homem e uma mulher, mas nas diferentes formas pelas quais uma mesma pessoa pode permanecer na memória daqueles que a amaram.

         “Fragma” pode ser entendido como uma narrativa construída a partir de fragmentos de vidas e memórias, em que o espectador precisa reunir essas partes para compreender não apenas o que aconteceu, mas o que aquele passado significou para quem ficou e como o presente pode ser ressignificado.




segunda-feira, 22 de junho de 2026

DUAS COXINHAS (2021)

 


Com roteiro e direção de Leo Miguel, “Duas Coxinhas” apresenta um bar no centro do Rio de Janeiro durante o fim do expediente, mas rapidamente deixa claro que aquele espaço é muito mais do que um simples cenário. Desde os primeiros minutos, o curta constrói uma atmosfera pesada e desconfortável, sustentada principalmente pelos grandes acertos da direção de fotografia e da direção de arte. O ambiente decadente do bar não serve apenas como pano de fundo: ele reflete diretamente o estado emocional e psicológico dos personagens que ocupam aquele espaço.

         Leo Miguel demonstra paciência e habilidade ao conduzir a narrativa. “Duas Coxinhas” não entrega suas intenções logo de início. O filme prefere mergulhar o espectador naquele ambiente para, aos poucos, revelar quem são aquelas pessoas e quais histórias carregam. Essa construção gradual é um dos maiores méritos do curta, pois cria tensão constante e faz com que a curiosidade aumente a cada nova cena. Desde cedo, percebe-se que há algo errado naquele lugar, mas o filme evita explicações imediatas, trabalhando o mistério de forma eficiente.

        A degradação física do espaço e a degradação humana dos personagens caminham juntas. Inácio, dono do bar, e Armandinho, um morador de rua, não estão ali por acaso. O encontro entre os dois é carregado de significados e de um passado que o filme revela em camadas. O curta entende que suas personagens são resultado de trajetórias difíceis e marcadas por perdas, dores e cicatrizes emocionais.

         Henrique Brito e Sidney Guedes entregam atuações intensas e extremamente viscerais. A relação que inicialmente parece simples, entre um dono de bar e um homem em situação de rua, ganha complexidade à medida que o roteiro avança. O que surge na tela é uma dinâmica atravessada por ressentimentos, memórias dolorosas e feridas que jamais foram completamente cicatrizadas. Essa construção emocional fortalece muito o impacto do filme.

        O roteiro é um dos pontos mais fortes da obra. Leo Miguel demonstra domínio no roteiro e na direção, conduzindo o arco dramático com segurança e equilíbrio. O curta sabe dosar silêncio, tensão e revelação, sem apressar os acontecimentos. Essa condução faz com que cada descoberta ou dúvida tenha peso e transforme a percepção do espectador sobre os personagens.

         A fotografia exerce papel fundamental na construção desse universo. A escuridão constante, o filtro acinzentado e a escolha de ângulos específicos ajudam a criar uma sensação de claustrofobia e desconforto. Conforme os segredos são revelados, a câmera se aproxima mais dos personagens, intensificando a carga dramática e emocional da trama.

         Outro grande destaque é a direção de arte, acompanhada pelo cuidadoso trabalho com objetos, figurinos e maquiagem. Tudo no ambiente parece desgastado, sujo e decadente. Essa estética não é gratuita: ela reforça a trajetória de desgaste daqueles personagens e ajuda a tornar o universo do filme mais convincente. Os efeitos práticos também merecem elogios, especialmente por serem usados de forma precisa e impactante.

         O restante do elenco, formado por David Wilson, Edilson Salles e Marcos Alfa, contribui de maneira importante para sustentar a narrativa. Cada um, dentro de suas funções, ajuda a ampliar o contexto da história e fortalecer a jornada dos protagonistas.

          Mesclando Suspense, Thriller e Drama, “Duas Coxinhas” é um filme que não se limita a um único gênero. A trama aborda perdas, lutos, culpa e vingança, sentimentos que movem os personagens e dão profundidade ao conflito central. Isso torna a experiência ainda mais complexa, pois em certos momentos é difícil para o espectador julgar moralmente as ações dos personagens.

         O bar, no fim das contas, é apenas o ponto final de uma história muito mais antiga. É ali que segredos enterrados finalmente emergem e exigem confronto. Inácio administra um lugar aparentemente sem importância social, mas como o próprio filme sugere, certos espaços guardam marcas e memórias difíceis de apagar.

         “Duas Coxinhas” é um curta denso, maduro e profundamente incômodo. Leo Miguel constrói uma narrativa que começa explorando a degradação física e social, mas termina mergulhando em níveis ainda mais profundos de violência emocional e humana. É uma obra forte do cinema brasileiro em curta-metragem, sustentada por um excelente roteiro, atuações marcantes e um uso técnico extremamente eficiente.




segunda-feira, 20 de outubro de 2025

DOMINGOS (2015)

 


O curta-metragem “Domingos” oferece uma imersão perturbadora na vida de um homem aparentemente comum, cuja rotina meticulosamente repetida esconde segredos macabros. O filme, dirigido e roteirizado por Jota Bosco, tem início com a apresentação de Domingos, um sujeito que acorda sempre no mesmo horário, segue os mesmos rituais ao longo do dia, e cumpre com precisão cada etapa de seu cotidiano. Desde a preparação matinal até o momento em que, ao fim do expediente, relaxa em frente à TV comendo pipoca, a vida do protagonista parece rotineira e inofensiva.

No trabalho, Domingos é visto ao lado de sua colega Rosinha, interpretada por Raíza Cardoso, e do chefe, o desprezível Seu Francisco, vivido por Chico Nóbrega. Ambos os personagens orbitam ao redor de Domingos sem perceber o abismo que se esconde por trás de sua fachada pacata. A interação entre os três aparenta ser a de qualquer escritório normal, sem desconfiança alguma de que algo de sombrio possa acontecer. No entanto, Bosco constrói cuidadosamente uma atmosfera de crescente tensão, com pistas sutis de que nem tudo é o que parece ser. À medida que o enredo se desenvolve, o espectador é levado a questionar se Domingos é realmente tão normal quanto sua rotina faz parecer.

A repetição intencional das ações do protagonista tem um efeito quase hipnótico, conduzindo o público a se sentir parte daquela vida monótona e, ao mesmo tempo, deixando uma sensação incômoda de que algo está fora do lugar. Jota Bosco, que também interpreta o protagonista, entrega uma atuação contida, mas que carrega uma inquietante dualidade: por um lado, ele transmite a calma e a ordem de um homem que vive no piloto automático; por outro, há pequenos detalhes em seu comportamento que sugerem que essa rotina meticulosa pode estar ocultando algo muito mais sinistro.

Rosinha, sua colega de trabalho, é a chave para a descoberta dessa faceta obscura. Quando ela encontra os documentos de Domingos no chão da empresa, isso desperta uma série de questionamentos. Ele deixou os papéis ali de propósito, como uma espécie de teste ou armadilha? Ou foi um acidente, fruto de sua distração? Esses momentos em que o filme sugere possibilidades sem entregar respostas definitivas enriquecem o suspense, permitindo ao público interpretar a cena de diferentes maneiras. Ao seguir para a casa de Domingos com a intenção de devolver os documentos, Rosinha se depara com a face oculta do colega da pior maneira possível. Quando ele abre a porta e, de forma seca, tenta encerrar a interação, nos perguntamos se ele está lutando contra seus impulsos, porque tem algum pequeno sentimento de compaixão pela colega de trabalho.

O clímax da trama é assustador e sinistro. No dia seguinte ao ocorrido, Domingos segue sua rotina exatamente como qualquer outro dia, reforçando a ideia de que, para ele, nada mudou. Isso levanta questões sobre quantas outras pessoas como ele podem existir, escondendo segredos sombrios sob uma fachada de normalidade. A vida de Domingos continua, imutável, como se os acontecimentos recentes não tivessem impacto sobre ele. Essa indiferença perante o horror vivido é o que torna o personagem ainda mais assustador.

A atmosfera de “Domingos” é habilmente construída pela equipe técnica. A fotografia, inicialmente simples e estática, vai ganhando tons mais sombrios à medida que a trama avança, refletindo a mudança na percepção que o público tem do protagonista. A trilha sonora acompanha essa transformação, começando de forma sutil e gradualmente tornando-se mais intensa, aumentando a sensação de desconforto. O uso de planos e ângulos que inicialmente parecem banais acaba sendo uma ferramenta eficaz para destacar a normalidade do cenário, mas que, com o passar do tempo, se transformam em uma representação visual do aprisionamento psicológico de Domingos dentro de sua própria rotina e de sua mente.

“Domingos” é um Terror psicológico que dialoga com a ideia de que a verdadeira ameaça muitas vezes não está à espreita em locais escuros ou em personagens excêntricos, mas em figuras cotidianas, aquelas que vemos todos os dias e que não chamam atenção. O curta faz referência a clássicos do gênero que exploram a mente humana e o perigo que ela pode representar, onde o terror emerge de dentro, de uma mente comum que, lentamente, se revela monstruosa.

Além disso, o filme oferece uma reflexão sobre a rotina e o quanto ela pode ser uma armadilha psicológica. Domingos é um personagem que encontra segurança na repetição de suas atividades, mas essa rotina também serve para esconder suas inclinações mais sombrias. É como se, por trás da tranquilidade de cada dia, houvesse uma fenda pela qual ele permite que sua verdadeira natureza escape, de forma calculada e controlada.

         “Domingos” é um curta-metragem impactante, que utiliza de forma inteligente os recursos do Terror psicológico para construir um personagem complexo, cuja aparente normalidade esconde segredos perturbadores. Com uma direção precisa e atuações envolventes, o filme prende a atenção do público até o último momento, deixando uma marca bastante forte ao levantar questionamentos sobre o que realmente sabemos sobre aqueles com quem convivemos diariamente.




segunda-feira, 29 de setembro de 2025

NÁUSEA (2019)

 


O curta-metragem de terror "Náusea", dirigido e roteirizado por Thomas Webber, é uma verdadeira obra de intensidade, horror e mistério. Com uma narrativa envolvente e angustiante, o filme nos leva ao sombrio universo de Ana, uma jovem mulher atormentada por pesadelos e alucinações que, pouco a pouco, revelam um trauma profundamente enraizado. "Náusea" vai além de um simples filme de Terror psicológico; ele se destaca pela maneira como explora o surrealismo que habita a mente da protagonista, criando uma atmosfera de tensão constante, onde realidade e delírio se entrelaçam de forma indistinguível.

Ana é uma personagem que carrega em si o peso de um passado doloroso, mas, como tantas vítimas de traumas, luta para lidar com suas lembranças perturbadoras. A mãe de Ana, interpretada por Ana Paula Taques, parece ciente de algo, mas prefere manter o silêncio, evitando confrontar o que há de mais sombrio em sua filha e, talvez, em si mesma. Essa escolha narrativa mantém o espectador em suspense, pois o filme se recusa a revelar, de imediato, o segredo que atormenta as duas personagens. Essa dinâmica entre mãe e filha adiciona uma camada de mistério ao enredo, fazendo com que o público se questione não apenas sobre o passado de Ana, mas também sobre o que a mãe estaria preferindo ignorar.

A atmosfera de "Náusea" é sufocante e imersiva, construída com maestria pela direção de fotografia, que desempenha um papel crucial na criação do ambiente. A fotografia ajuda a transmitir o estado emocional e psicológico deteriorado da protagonista, utilizando sombras, tons escuros e composições visuais perturbadoras para refletir o caos interno de Ana. A trilha sonora, por sua vez, complementa essa imersão, com sons que intensificam a sensação de angústia e paranoia, fazendo com que o espectador mergulhe ainda mais profundamente na mente da personagem.

O roteiro de Webber é eficiente ao fornecer informações de maneira gradual, criando uma tensão crescente à medida que detalhes sobre o passado de Ana são revelados. Esse ritmo lento, porém constante, mantém o espectador intrigado, ansioso para entender o que desencadeou os pesadelos e alucinações da protagonista. Embora, em muitos momentos, Ana pareça apenas uma adolescente comum, seu sofrimento silencioso revela a profundidade de seu trauma. Ela vive em um universo mental obscuro, sufocante e permeado por visões terríveis, e o filme faz questão de nos fazer sentir essa sensação.

A atuação de Larissa Merlo como Ana é um dos pontos altos de "Náusea". Ela entrega uma atuação comovente e poderosa, capturando de maneira precisa o tormento psicológico e emocional que a personagem enfrenta. Seu olhar vazio e expressões contidas comunicam mais do que palavras poderiam, deixando claro o turbilhão de sentimentos que ela tenta, em vão, controlar. Ao lado de Merlo, Ana Paula Taques, principalmente, e Helder Clayton (no papel do pai) oferecem suporte sólido para construir a complexidade emocional que permeia o filme.

Um dos aspectos mais marcantes de "Náusea" é o uso simbólico dos insetos ao longo da trama. Eles surgem como uma metáfora poderosa para o estado emocional de Ana, representando a invasão constante de lembranças e traumas que ela não consegue afastar. Associados à decomposição e à sujeira, os insetos refletem o colapso psicológico da protagonista, à medida que suas memórias se tornam insuportáveis e sua mente começa a se fragmentar. As visões desses insetos, seja em seus pesadelos ou no ambiente ao seu redor, aumentam a sensação de desconforto e repulsa, reforçando a ideia de que algo está irremediavelmente corrompido em seu psicológico.

Além da riqueza simbólica, "Náusea" brilha nos aspectos técnicos, como fotografia, trilha sonora, direção de arte e maquiagem, que colaboram para criar uma experiência visualmente impactante e emocionalmente angustiante. Cada detalhe, desde o uso das sombras até o design dos ambientes, contribui para intensificar a sensação de isolamento e horror psicológico que define o filme e a protagonista.

Em resumo, "Náusea" é um curta-metragem impressionante que mergulha profundamente nas águas turvas do trauma e do terror psicológico. A combinação de uma atmosfera opressiva, uma narrativa misteriosa e atuações marcantes faz deste filme uma experiência imperdível para os fãs de Terror que buscam algo mais do que apenas sustos convencionais do gênero.




sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O MAL DE SANDERPYL (2003)

 


Com roteiro e direção de Pedro Foss, “O Mal de Sanderpyl” oferece uma experiência cinematográfica imersiva e profundamente envolvente, mergulhando o espectador em um suspense psicológico denso e repleto de mistério. O curta-metragem constrói sua narrativa com grande maestria, equilibrando tensão e surpresa em uma trama que mantém o público preso do início ao fim.

A história gira em torno de Laura, uma jovem estudante de Psicologia, que se vê diante de uma situação assustadora e perturbadora quando vê sua mãe cuidando de uma antiga boneca como se fosse um bebê real. Esse comportamento bizarro e inexplicável desperta em Laura um temor crescente pela sanidade mental da mãe, levando-a a procurar ajuda. Ela recorre a um de seus professores para relatar o problema, acreditando que está diante de uma crise psicológica. No entanto, quanto mais Laura investiga a origem desse comportamento inquietante, mais segredos sombrios e revelações devastadoras começam a surgir, transformando sua busca por respostas em uma jornada cada vez mais perigosa.

O filme se destaca pela maneira com que trabalha a tensão em níveis altíssimos, sem perder o ritmo ou a cadência da narrativa. Cada momento é meticulosamente construído, com um arco dramático afiado que acompanha o desenvolvimento dos personagens e dos eventos. Veridiana Guterres, que interpreta Laura, oferece uma atuação impressionante, trazendo à tona a complexidade emocional da personagem enquanto ela lida com o terror crescente e as revelações chocantes que vai encontrando ao longo do caminho. O elenco, composto ainda por grandes nomes como Oscar Simch, Werner Schünemann, Suzana G. Foss, Duca Leindecker, Jarelina Petró e Félix H. Krebs, contribui de maneira essencial para o sucesso do curta, com performances que agregam camadas de profundidade e mistério à trama.


Tecnicamente, “O Mal de Sanderpyl” se destaca pelos seus elementos visuais e sonoros. A fotografia cria uma atmosfera pesada e opressora, onde enquadramentos, ângulos e iluminação reforçam o sentimento de que há algo errado, mesmo nos momentos mais calmos. A montagem, cuidadosamente editada, mantém o ritmo tenso e sufocante, enquanto a trilha sonora contribui para a criação de uma atmosfera carregada de suspense. Todos esses elementos guiam o espectador em uma experiência sensorial que intensifica o horror psicológico que permeia a história. Todos esses elementos trabalham em conjunto para criar uma atmosfera de crescente desconforto e tensão.

À medida que Laura se aprofunda em sua investigação, as descobertas feitas por ela afetam não apenas sua percepção da realidade, mas também a maneira como o espectador vivencia o filme. O mistério é construído lentamente, revelando segredos do passado e traumas enterrados que ressurgem de maneiras aterrorizantes. Cada nova revelação é como uma peça de um quebra-cabeça macabro, que vai sendo montado aos poucos, entrelaçando o presente com o passado de maneira que os eventos atuais se tornam reflexos distorcidos de acontecimentos antigos.

O filme aborda com sensibilidade a questão dos traumas e como eles podem moldar o psicológico e o emocional de uma pessoa. O relacionamento entre Laura e sua mãe, no centro da trama, é marcado por uma história de dor e perda que vai sendo revelada aos poucos, com a boneca — o elemento chave da narrativa — simbolizando mais do que um simples objeto. Ela representa um elo sombrio entre o passado e o presente, um catalisador que desencadeia o despertar de antigos medos e culpas, e que acaba envolvendo todos os personagens em sua aura perturbadora. A justificativa para o comportamento da mãe em relação à boneca é dolorosamente compreensível quando o espectador finalmente descobre o trauma que a originou. Poucos poderiam manter a sanidade após vivenciar tal evento, e isso se torna o centro emocional que move a trama.

“O Mal de Sanderpyl” não é apenas um filme de Suspense, mas um estudo profundo sobre a fragilidade da mente humana e os impactos devastadores do luto, do trauma e da culpa. Cada personagem carrega segredos que, quando revelados, afetam profundamente todos à sua volta, criando uma teia de eventos que culminam em um clímax intenso e imprevisível. O filme manipula habilmente a imprevisibilidade, jogando com as expectativas do público e subvertendo-as a cada nova descoberta de Laura. A atmosfera densa e sombria mantém o espectador em constante estado de alerta, enquanto as reviravoltas revelam a verdadeira face de cada personagem, mostrando como segredos ocultos e dores antigas podem corromper até as relações mais próximas.

Com um texto criativo, envolvente e repleto de camadas, “O Mal de Sanderpyl” oferece um final que, embora resolva algumas das questões centrais, deixa espaço para especulações e reflexões por parte do público. O filme não entrega todas as respostas de forma direta, mas convida o espectador a montar seu próprio entendimento dos eventos e das motivações dos personagens, o que só aumenta o impacto da experiência. É um filme que, além de entreter, faz pensar e questionar as complexidades emocionais e psicológicas que moldam o comportamento humano.

Com sua carga elevada de tensão e sua atmosfera envolvente, “O Mal de Sanderpyl” é uma obra que se destaca no gênero do Suspense psicológico, capaz de surpreender e inquietar o espectador a cada minuto, e certamente deixará uma marca em quem o assiste.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...