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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O RETRATO DA LUA (2013)

 


            Com roteiro de Mike Ale e direção de Claudio Bitencourt e Diego Lopes, “O Retrato da Lua” é um Drama que mescla os gêneros Fantasia e Aventura, tendo como motor narrativo o luto de um garotinho em relação à perda de sua mãe.

         Nicolas perde a mãe, recebe da tia a informação de que ela está na lua e decide construir um foguete para visitá-la. Depois de concluir sua nave improvisada, viaja pelo espaço, enfrenta desafios e finalmente encontra a mãe.

         Essa estrutura sugere algumas leituras muito interessantes, como o luto visto pelos olhos de uma criança. A interpretação mais evidente é a do processo de elaboração do luto. Adultos costumam compreender a morte como ausência definitiva. Crianças pequenas frequentemente transformam essa ausência em imagens concretas. Quando a tia diz que a mãe está na lua, Nicolas não interpreta aquilo como metáfora. Ele aceita literalmente a informação. Essa escolha narrativa é um dos grandes acertos do filme, pois respeita a lógica infantil sem tratá-la de forma simplista ou ingênua.

        Narrativamente, o curta parece seguir uma estrutura clássica de jornada. O protagonista recebe uma missão, constrói um meio para realizá-la, enfrenta obstáculos, alcança aquilo que procura e retorna transformado. Mas a transformação não parece ser física, mas sim emocional. O encontro com a mãe funciona menos como um reencontro literal e mais como uma despedida simbólica. O que Nicolas busca durante toda a aventura não é apenas encontrar sua mãe, mas compreender sua ausência.

         Outro ponto bastante interessante está relacionado ao retrato dentro da trama. Ele é o objeto simbólico mais importante da narrativa. Fotografias costumam representar memória, permanência e vínculo afetivo. O fato de Nicolas entregar o retrato à mãe durante o sonho e depois acordar sem ele sugere uma possível interpretação: ele não está esquecendo a mãe, mas aprendendo a viver sem precisar se agarrar materialmente à sua presença. O sentimento continua existindo, mas passa a ocupar um espaço diferente dentro de sua vida.

        A própria lua também possui uma função simbólica importante. Frequentemente associada aos sonhos, à imaginação e ao mistério, ela se transforma no destino ideal para uma criança que procura respostas para uma perda que ainda não consegue processar completamente. O filme utiliza esse elemento de maneira bastante sensível, transformando a fantasia em uma ferramenta para abordar emoções reais.

         Com Patrick Gessé, Lívia Castanheira, Fábio Pholman, Viviane Gazotto, Raphael Rocha e Diego Duda, “O Retrato da Lua” se destaca por suas atuações convincentes e maduras, o que aumenta significativamente a qualidade do curta. Patrick Gessé, em especial, sustenta boa parte da carga emocional da narrativa, transmitindo tristeza, esperança e curiosidade de forma bastante natural.

         A fotografia desempenha um papel importante, principalmente pelo uso da câmera subjetiva durante praticamente todo o primeiro ato, o que possibilita uma aproximação natural do espectador ao protagonista, Nicolas, interpretado por Patrick Gessé. No restante da obra, a fotografia continua utilizando elementos muito interessantes, confirmando a competência da equipe e contribuindo para a construção do universo fantástico apresentado pela narrativa.

        Os efeitos visuais impressionam pela qualidade. Eles dão suporte para sequências lúdicas e visões infantis de maneira perfeita. Assim como a trilha sonora e o desenho de som, que trabalham em conjunto com direção de arte, figurino, maquiagem e montagem para a construção de uma obra tecnicamente muito rica. Todos esses elementos colaboram para tornar a jornada de Nicolas emocionalmente envolvente e visualmente encantadora.

        Com o uso simbólico da lua, do retrato e da fantasia como ferramenta dramática, “O Retrato da Lua” é uma excelente reflexão sobre o luto infantil. Os realizadores construíram uma obra sensível, com arco dramático extremamente comovente e com uma mensagem muito bonita. Unindo elementos narrativos, dramáticos e técnicos, “O Retrato da Lua” não fala somente de falecimentos, mas de como pessoas importantes podem continuar vivas dentro da memória. É um curta delicado que encontra na imaginação infantil uma forma tocante de falar sobre perda, saudade e aceitação.




domingo, 14 de junho de 2026

DEZ BONEQUINHOS PEDREIROS DE DEZENOVE E NOVENTA E NOVE (2011)

 


Com direção de André Miranda e Gui Campos, o curta-metragem de Drama e Fantasia “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” parte de uma premissa simples, mas extremamente criativa: um homem compra um pacote com dez bonequinhos pedreiros por R$ 19,99 e os coloca em uma maquete. A partir desse ponto aparentemente banal, o filme desenvolve uma reflexão surpreendentemente profunda sobre comportamento humano, organização social e a forma como as sociedades se estruturam ao longo do tempo.

         Com narração de Sérgio Sartório, a narrativa acompanha as transformações da maquete conforme os bonequinhos passam a interferir diretamente no ambiente onde vivem. O criador da pequena cidade continua expandindo aquele universo, adquirindo novos pacotes com personagens e veículos. Homens, mulheres e crianças passam a ocupar o espaço ao lado de carros, caminhões, barcos e aviões, criando uma sociedade cada vez mais complexa.

        O fascínio inicial do narrador logo dá lugar ao espanto. Os bonequinhos não apenas se multiplicam, mas também desenvolvem comportamentos coletivos que lembram muito a vida real. Aos poucos, surgem hierarquias, rotinas, burocracias e formas de organização que passam a definir a existência daquela população em miniatura. O curta utiliza essa construção para questionar diversos aspectos da sociedade contemporânea, especialmente a maneira como os indivíduos se adaptam às estruturas sociais que eles próprios ajudam a criar.

         A alegoria é extremamente eficiente. Conforme a cidade cresce, elementos como trabalho, trânsito, compromissos diários, previsibilidade e isolamento passam a fazer parte da vida dos bonequinhos. O progresso material acontece de forma constante, mas ele parece vir acompanhado de uma perda gradual da espontaneidade e da liberdade individual. O que antes era um espaço aberto a inúmeras possibilidades passa a funcionar segundo padrões rígidos e repetitivos.

         Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é que o criador da maquete não impõe regras nem limitações. Os bonequinhos possuem liberdade para construir suas próprias trajetórias. Ainda assim, a sociedade criada por eles segue um caminho marcado por excesso de trabalho, repetição e conformismo. O curta sugere que determinadas estruturas acabam surgindo naturalmente quando grupos humanos passam a viver em coletividade, levantando questionamentos sobre o próprio desejo humano por ordem e estabilidade.

         A rotina dos bonequinhos assume um caráter mecânico. Eles parecem cada vez mais distantes de sua própria essência, presos a uma lógica produtiva que ocupa praticamente toda a sua existência. Essa alienação pode ser relacionada às reflexões de Karl Marx sobre trabalho e sociedade, mas também dialoga com referências culturais importantes, como “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, e a canção “Construção”, de Chico Buarque. Em todos esses casos, surge a ideia de indivíduos transformados em peças de uma engrenagem maior, subordinados a sistemas que parecem funcionar independentemente de suas vontades.

         A pergunta central do curta permanece ecoando durante toda a projeção: o ser humano realmente deseja liberdade ou prefere a segurança oferecida pela ordem e pela previsibilidade? O criador da maquete não interfere diretamente na vida dos bonequinhos. Ele apenas observa, tentando compreender por que eles insistem em reproduzir determinados comportamentos e estruturas.

         Outro aspecto importante é a forma como a cidade se transforma em um organismo autônomo. Os bonequinhos não reproduzem apenas indivíduos, mas também relações sociais, modelos de produção e formas de convivência. Construções e fábricas se multiplicam continuamente, enquanto a expansão urbana parece nunca encontrar limites. O crescimento se torna um objetivo em si mesmo, muitas vezes sem uma finalidade clara.

        Com roteiro de André Miranda, “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” demonstra enorme eficiência ao combinar elementos narrativos, dramáticos e visuais. A fotografia, a direção de arte, a montagem e a trilha sonora ampliam o significado das imagens e transformam uma ideia simples em uma reflexão bastante abrangente sobre sociedade, trabalho e vida urbana.

         Produzido com criatividade e precisão, o curta impressiona pela capacidade de abordar tantos temas em apenas três minutos. É uma obra que convida tanto à reflexão individual quanto ao debate coletivo, demonstrando como o cinema de curta duração pode ser extremamente poderoso quando utiliza seus recursos de forma inteligente.




domingo, 6 de julho de 2025

ANTES QUE VENHAM ESTOURAR OS NOSSOS MIOLOS (2016) - CONTÉM SPOILERS

 

O encontro entre um garoto e o chefe de um grupo criminoso marca o ponto de partida de "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos"; uma obra que transcende as expectativas de um simples acerto de contas no mundo do crime. No passado, o chefe foi acolhido pelo pai do garoto, e agora, ele decide que chegou a hora do menino ser introduzido aos meandros violentos e impiedosos da vida criminosa. A primeira lição? Executar um homem. A vítima, amarrada e imobilizada em uma cadeira, luta desesperadamente para negociar sua sobrevivência, numa tentativa frenética de escapar da morte iminente.

Dirigido por Tiago Picado e com um roteiro afiado de Pedro Murad, o curta "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é uma joia rara do cinema nacional. Ele se destaca por navegar entre diferentes gêneros, pegando o espectador de surpresa e entregando uma obra cheia de camadas e reviravoltas inesperadas. O que começa como uma tensa negociação entre um criminoso e sua vítima logo se transforma em uma trama de Suspense psicológico e até mesmo de Horror, envolvendo elementos sobrenaturais. O filme quebra expectativas ao ir além do clichê do acerto de contas, criando uma narrativa rica em tensão e mistério.

O elenco é composto por Alan Pellegrino, André Soares, André Tavares e Cridemar Aquino, todos entregando performances de alta qualidade que elevam a densidade dramática da trama. Cada um traz uma intensidade visceral às suas cenas, destacando o peso moral e emocional da situação em que seus personagens estão envolvidos. Em especial, a interação entre o garoto e o chefe do grupo criminoso é carregada de uma dualidade perturbadora: de um lado, a figura paternal distorcida do chefe, ensinando o menino a matar; do outro, a resistência silenciosa do garoto, que enfrenta o dilema de seguir adiante com a execução.

O enredo nos coloca nos momentos finais da vida de um homem desesperado. A primeira parte de sua negociação é com o chefe do grupo, que, sem hesitar, entrega uma pistola nas mãos do garoto, o deixando encarregado de realizar a execução. Não sabemos exatamente o que o homem fez para acabar ali, mas essa ausência de explicação é proposital, deixando espaço para que o público especule sobre o passado da vítima. Esse mistério dá profundidade à trama, enquanto o roteiro, sabiamente, mantém o foco na tensão presente.

O que inicialmente parece ser apenas uma execução no submundo do crime ganha uma dimensão inesperada após o disparo fatal. O homem, agora à beira da morte, é conduzido a uma experiência sobrenatural, onde se vê frente a frente com a personificação da Morte. Esta segunda negociação, entre ele e a Morte, insere um novo nível de complexidade na narrativa, pois revela que, assim como ele devia algo aos criminosos em vida, também deve algo à Morte. O filme surpreende o espectador ao transformar a trama em um Suspense metafísico, onde o homem é pressionado a revelar um segredo crucial que, até então, ele e seus irmãos mantinham. No entanto, seus irmãos já se foram, e ele é a última chance da Morte de descobrir esse segredo.

A dinâmica entre o homem e a Morte é magistralmente construída. Enquanto ele tentava negociar com os criminosos sua vida, agora sua barganha é com a própria entidade da Morte, o que amplia ainda mais o clima de desespero e tensão. A Morte não é simplesmente uma figura passiva à espera; ela tem um interesse próprio e impõe sua vontade, buscando respostas que só o homem pode fornecer. Esse toque sobrenatural não apenas eleva a história, mas também a torna mais instigante e rica em possibilidades interpretativas.

A direção de Tiago Picado é notável por conseguir manter o suspense elevado ao longo de todo o curta, mesmo com poucos cenários e uma trama essencialmente centrada em diálogos e negociações. Ele consegue extrair o máximo de cada cena, criando uma atmosfera sufocante que prende a atenção do espectador do início ao fim. A fotografia, arte e montagem trabalham em perfeita harmonia para criar um ambiente perturbador e sombrio, refletindo o desespero do homem e a implacabilidade dos criminosos. Já os efeitos visuais, muito bem elaborados, dão vida à aparição da Morte, sem exageros, mas com impacto visual suficiente para marcar a sequência sobrenatural.

A escolha de não explicar o passado do homem e o motivo pelo qual ele está naquela situação é uma jogada inteligente do roteiro, pois permite que a trama se concentre mais no presente e no que está em jogo naquele momento decisivo. Essa omissão deliberada também contribui para o ar de mistério que permeia o filme, fazendo com que o espectador fique imerso na tensão do agora, ao invés de se perder em explicações sobre o passado. A resolução final é chocante, tanto em termos narrativos quanto dramáticos, deixando o público refletindo sobre as escolhas que foram feitas e as implicações que elas trazem.

"Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é um filme que desafia expectativas, mesclando Suspense, Drama e Thriller com uma pitada de sobrenatural de maneira hábil e original. Sua atmosfera densa e seu ritmo bem conduzido fazem dele uma experiência única e envolvente. É um curta que nos deixa com a sensação de que, no universo do crime, assim como na vida e na morte, nada é tão simples quanto parece.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

MERSILDE (2014)





Com uma direção notável e altamente competente, Karin Silva nos entrega em "Mersilde" uma obra envolvente, densa e visualmente impressionante. O curta, protagonizado pela talentosa Vitória Galhardi, explora de forma inventiva o poder sobrenatural do demônio Mersilde, que possui a capacidade de se transportar instantaneamente para onde desejar, manipulando o tempo e o espaço ao seu favor. Através dessa premissa instigante, o filme convida o espectador a questionar a percepção do tempo e da realidade, oferecendo uma experiência sensorial e filosófica única.

O filme foi realizado como parte de um projeto para o laboratório de edição das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), e desde sua concepção técnica até a execução narrativa, demonstra o domínio artístico de Karin Silva e sua equipe. O enredo acompanha a jovem protagonista em um jogo narrativo de múltiplas camadas, onde ela se encontra em diversos locais simultaneamente, como se seu corpo e mente estivessem fragmentados em diferentes realidades. Essa dualidade entre o físico e o metafísico é reforçada pela utilização criativa dos efeitos visuais e sonoros, que elevam a trama ao proporcionar uma atmosfera que se adapta de maneira fluida aos conflitos internos e externos vividos pela protagonista.

A mescla entre fantasia e realidade cria um ambiente que, ao mesmo tempo que desafia a lógica, faz o espectador mergulhar na jornada emocional da personagem. À medida que o filme avança, somos conduzidos por um percurso que ora é leve e contemplativo, ora é caótico e perturbador. Essa alternância é proposital e eficaz, pois reflete a fragilidade da condição humana frente à inconstância da vida. A experiência que o filme oferece transcende o entretenimento, permitindo ao público filosofar sobre como os acontecimentos podem nos tirar de uma zona de conforto para uma espiral de caos, muitas vezes em questão de segundos, assim como o demônio Mersilde faz com sua vítima.

Embora o tema central gire em torno do sobrenatural, “Mersilde” vai muito além de ser um filme sobre um demônio. A narrativa habilmente explora as consequências das escolhas humanas, mostrando que, mesmo sob influência de forças externas, a protagonista ainda mantém sua capacidade de tomar decisões. Ela não é apenas uma peça manipulada pelo demônio, mas uma personagem complexa, que está em constante confronto com seu próprio livre-arbítrio. Essa dimensão psicológica e moral acrescenta camadas profundas à história, transformando o filme em uma reflexão sobre poder, controle e as repercussões de nossos atos.

Outro ponto alto de "Mersilde" é a sua ausência de diálogos. Em vez de depender das palavras, o filme se apoia em uma linguagem cinematográfica rica em imagens e sons para transmitir sua mensagem. Essa escolha estilística aumenta a intensidade da experiência, forçando o espectador a mergulhar nas emoções da personagem e a sentir o peso de cada momento através de suas expressões e das mudanças visuais e sonoras ao seu redor. A ausência de palavras cria uma atmosfera quase poética, onde o suspense é construído de forma silenciosa, mas penetrante.

A trilha sonora e o design de som merecem destaque, pois são peças fundamentais na construção da imersão do filme. As transições entre momentos de calma e desespero são acompanhadas por sons que amplificam o impacto emocional de cada cena, enquanto os efeitos visuais adicionam uma camada de surrealismo que reforça o caráter onírico da narrativa. A montagem é ágil e eficiente, permitindo que o filme mantenha o espectador em um estado constante de alerta e curiosidade.

"Mersilde" se destaca como uma obra-prima do cinema experimental brasileiro, explorando os gêneros de Suspense, Fantasia e Drama psicológico com uma sensibilidade rara. Em poucos minutos, o curta é capaz de transmitir uma variedade de sensações e emoções, indo do sereno ao perturbador com uma fluidez que reflete a natureza imprevisível da vida. O filme sugere que, assim como Mersilde pode distorcer o tempo e o espaço, a vida também pode nos surpreender de maneiras inesperadas, e nem sempre estamos preparados para lidar com as consequências de nossas ações.

Com sua narrativa envolvente e técnica impecável, "Mersilde" é uma verdadeira joia do audiovisual nacional, provando que o cinema independente brasileiro tem o poder de criar experiências profundas e transformadoras. O filme de Karin Silva transcende os limites do sobrenatural e oferece uma reflexão poderosa sobre o ser humano, suas escolhas e o impacto do tempo em nossas vidas.





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A ILHA (2007)

 









“A Ilha”, produzida por Mário Lellis e Roger Burdino e com roteiro e direção de Alê Camargo, narra a impressionante história de um jovem que anda pelo centro de uma grande cidade e, de repente, se vê preso a uma situação inusitada.

         Entre o movimento de pessoas e carros, o jovem protagonista percebe que seu celular está com a bateria prestes a descarregar. Observa que, do outro lado de uma avenida, há um telefone público. A sua aventura começa ao atravessar a, até então, pouco movimentada avenida, que se transforma num caos de veículos em alta velocidade. O jovem pula e consegue alcançar uma ilha de trânsito que divide a enorme avenida.

         O jovem tenta escapar da ilha, porém, suas tentativas são frustradas por velozes e perigosos veículos que transitam nos dois sentidos.

            Com uma narrativa fluida e divertida, dividida em capítulos, “A Ilha” mostra a adaptação do jovem naquele espaço restrito, onde é completamente ignorado por motoristas que vem e vão. O filme faz uma crítica de como a cidade, com seus fluxos e movimentos, engolem as cidades e transformam pessoas em seres invisíveis em meio à multidão. O jovem está ali, precisando sair da ilha, mas todos estão muito ocupados consigo mesmos, dirigindo os seus carros e ignorando a existência do jovem. O isolamento do jovem transmite a sensação que, mesmo numa cidade grande, ele está desconectado do todo. E isso ocorre também com os motoristas, que apenas seguem o fluxo, indo ou voltando do trabalho, tendo como objetivo apenas chegar o mais rápido possível em seus destinos. O trânsito caótico contrasta com a “vida” do jovem, preso e sem alternativas.

         Uma das grandes críticas contida em “A Ilha” reside também ao individualismo exacerbado da sociedade moderna. Quantas vezes o protagonista já deve ter passado pelo local e nunca prestou atenção em alguém que estivesse preso na ilha? Quantas vezes ignoramos os problemas visíveis de pessoas no centro da cidade e ignoramos, ou porque não temos tempo ou simplesmente porque a vida alheia não é da nossa conta?

         “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós”. A citação inicial do conto de José Saramago deve ser refletida junto com a imersão do espectador nesse curta-metragem. Muitas vezes só damos importância aos problemas de outras pessoas após passarmos por algum problema parecido. Ao conseguir sair da ilha, o jovem sai transformado e passa a ter uma nova percepção de si, e também, um novo entendimento sobre o mundo. Passados alguns dias na ilha, agora ele tem como enxergar coisas que não eram possíveis, justamente pelo fato de até então ter tido uma vida limitada somente ao seu mundo. Entrar e sair da ilha fazem parte de um aprendizado de autoconhecimento e compreensão do mundo.

         “A Ilha” tem elementos técnicos perfeitos, contribuindo para uma narrativa coesa e intensa. O filme tem todos os predicados necessários para uma obra que puxa o espectador pelo braço para uma reflexão de muito mais do que aparece em tela. “A Ilha” é um filme que alterna cenas de humor, num cenário dramático e de aflição. É uma animação de alto nível e que merece ser vista e revista muitas vezes.

           "A Ilha" está disponível no Porta Curtas

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM (2010)

 









Baseado no conto homônimo de Yves Robert, “Traz Outro Amigo Também” narra a história de um detetive com muita experiência e que é contratado para uma investigação um tanto incomum.

A narração em primeira pessoa do protagonista ajuda muito a situar e contextualizar o espectador, bem como causar o impacto do pedido do cliente Artur. Interpretado por Clemente Viscaíno, Artur é um idoso que procura o escritório do detetive, em busca de seu amigo imaginário que viu pela última vez quando contava 5 anos de idade. O detetive se espanta com a proposta de trabalho, porém, Artur estava determinado a encontrar o seu antigo amigo, pagando 5 mil reais no ato e outros 50 mil seriam pagos quando o detetive encontrasse a pessoa.

Felipe Mônaco faz um trabalho brilhante em sua atuação como o detetive. Ele descreve muito bem sobre o seu trabalho, sobre a procura de Artur e desenvolve muito bem seu personagem dentro da narrativa.  As únicas informações a respeito do amigo imaginário de Artur são de que se trata de um palhaço de nome Cornelius, com cabelos encaracolados, que usa um chapéu feito de jornal e toca sanfona.

Ao aceitar o trabalho, o detetive não tem ideia por onde começar. Ele decide continuar com outros trabalhos, imaginando que o trabalho contratado por Artur poderia ser resolvido com mais tranquilidade.

O curta tem uma mensagem belíssima sobre encontrar a nossa criança interior, e consequentemente, a felicidade dos tempos de infância. Ao ter a ajuda de crianças para localizar Cornelius, o detetive também passa por uma transformação. E o filme é muito enfático ao afirmar que, sim, precisamos pagar contas e ter outras responsabilidades, mas também precisamos da alegria e momentos que vivemos durante a infância, com sonhos e imaginações sem limites.

Com roteiro adaptado pelo diretor Frederico Cabral, “Traz Outro Amigo Também” é um Drama, indicado para toda a família. A trama é leve e descontraído. A trama se desenrola de uma forma muito sensível e emocionante. E não há como não relembrar a nossa infância.

“Traz Outro Amigo Também” tem uma qualidade técnica impressionante. O início, com uma atmosfera film-noir sugere um filme mais sério. Porém, o espectador entra na brincadeira para descobrir o paradeiro de Cornelius. Aí, a qualidade do texto, da fotografia, arte, trilha sonora e animação fazem o restante do filme ser uma delícia de ser ver.

“Traz Outro Amigo Também” é um curta muito bem produzido, com uma trama fluida, cativante e carinhosa.




quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

LUZ, SOMBRA E MEDO (2014)

 


          Com apenas pouco mais de 3 minutos, “Luz, Sombra e Medo” narra o medo de um homem diante de seus medos quando é perseguido por lobos ferozes. Ele se refugia num ser muito maior e que emana luz, fazendo com que os animais se mantenham afastados.

         Com uma identidade visual extremamente bem elaborada, o diretor Mauricio Bartok mescla os gêneros Aventura, Drama e Fantasia nesta Animação. Os efeitos sonoros, de Daniel Figueiredo e José Miguel Enriquez, dão intensidade à trama, variando dentro da narrativa. O resultado é um curta produzido com perfeição e com uma mensagem muito bem definida.

         O filme traz a pertinente reflexão sobre a vida, os problemas, os medos e como enfrentamos tudo isso. A versatilidade de “Luz, Sombra e Medo” permite que as reflexões possam se dar através de um viés religioso ou por uma perspectiva filosófica. A mensagem é igualmente positiva.

         Seja se escondendo dos lobos ou procurando alguma proteção, o homem tem ações racionais, afinal, é muito difícil enfrentar os medos de peito aberto. Geralmente, isso é feito quando não há mais opções para se evitar e o enfrentamento dos medos se faz obrigatório.

         Agarrado ao gigante de luz, o homem permanece seguro e livre dos ataques dos lobos. Porém, quando ele entra num lago e, com certeza, irá sumir, o homem precisa lidar novamente com a falta de luz e segurança. A mensagem é direta e certeira; muitas vezes, os nossos medos, são motivados por nós mesmos. E isso serve para várias situações e vai de acordo com as nossas experiências de vida.

           Eu não posso chegar para uma pessoa e tentar minimizar os anseios, medos e frustrações dela, de acordo com a minha perspectiva. Da mesma maneira, nenhuma pessoa pode usar as suas experiências e visões de mundo para querer determinar como eu devo lidar para vencer os meus anseios, os meus medos e minhas frustrações. Com muita inteligência, a equipe criativa propõe que a vitória diante de medos, anseios e frustrações é uma coisa pessoal, particular e intransferível.

         Quando o gigante de luz começa a sumir, o que sobra para o homem é a sua sombra. E quando ele percebe a origem do que lhe amedronta, ele toma consciência de onde vem os lobos e como ele deve lidar com a presença deles. Talvez, conhecendo a verdade sobre eles, o homem pode descartá-los e seguir com a sua vida de uma maneira mais livre, leve e com muito mais clareza para enfrentar outros problemas e medos que podem surgir ao longo da vida.

        “Luz, Sombra e Medo” é um curta com elementos técnicos muito bem empregados na sua produção, com uma narrativa muito bem definida e um arco dramático sólido e eficaz. O filme é uma Animação com várias camadas e que pode trazer inúmeras reflexões ao expectador.




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

CAÍDO (2023)

O curta independente, com roteiro, direção, montagem e produção de Alexandre Estevanato, traz a história de um homem isolado e recluso em sua pequena tapera. Mesmo distante de tudo e de todos, o homem costuma ser visitado por pessoas que o cobram e o agridem, o culpando pela maioria dos erros e problemas existentes.

“Caído” é um curta que mescla o Drama, a Fantasia e o Suspense e humor ácido. No primeiro ato são apresentados a vida do protagonista, os seus pensamentos e os incômodos por ser responsabilizado por erros de terceiros.

As ações do homem, interpretado de forma brilhante por Sérgio Pardal, deixa uma dúvida sobre a sua origem. O que é explicitado ao longo do curta. O comportamento do protagonista alterna irritação, impaciência e sonhos de luxúria e hedonismo.

De forma muito interessante o diretor-roteirista, deu alguns toques cômicos ao seu filme, tanto para o homem se proteger de pessoas que são ruins e o atacam, como na sequência final pós-créditos.

“Caído” tem uma trama muito bem elaborada e conduzida por Alexandre Estevanato. A qualidade do texto e as atuações, tanto de Sérgio Pardal quanto de Roberto Borenstein, trazem uma reflexão interessante sobre a natureza do comportamento humano. Os elementos técnicos como fotografia, arte, maquiagem e figurino, compõem muito bem o personagem. A paleta de cores mistura e funde personagem, tapera e terra, como uma coisa só.

 


O nome do curta e a sinopse são bastantes sugestivos sobre a natureza do personagem. Gradativamente, a sua personalidade é revelada e o contexto é inserido.

“Caído” é um filme para quem tem a mente aberta ou procura enxergar a crítica proposta pelo diretor através de uma perspectiva diferente. O curta não nega a existência de Satanás, mas procura dialogar com a ideia de que nem tudo o que acontece no mundo é responsabilidade dele. Vale muito a pena ler a entrevista do portal “Diário da Região” com Alexandre Estevanato: https://www.diariodaregiao.com.br/cultura/diretor-rio-pretense-alexandre-estevanato-divulga-novo-curta-1.1237209. E não há como discordar de que muitas pessoas estão dispostas a culpar, ou o Diabo ou outras pessoas, pelos seus fracassos ou frustrações.

Com um apego filosófico e metafórico, o curta personifica o “bode expiatório” da cosmologia moral humana, onde o mal é constantemente projetado em uma entidade mitológica. O filme tem como ponto central, não o Diabo em si, mas o mal humano que habita a Terra e como muitos se esquivam das consequências de seus atos.

Quando Deus, interpretado por Roberto Borenstein, surge e inicia uma interação com o Diabo, aí sim, o curta é mais direto sobre a forma como o “criador” enxerga a natureza humana e o desvio feito pela humanidade. E essa interação reflete uma cosmologia metafórica na qual a imperfeição humana, a negligência de responsabilidade e a ambiguidade moral são os temas centrais do curta, como crítica às ações dos homens.

Sem ver outra saída, Deus decide que é hora de acabar com tudo e dar um novo início. O filme assume um tom irônico e com uma forte pegada de humor ácido, onde o Diabo terá a infelicidade de fazer o que Noé fez, de acordo com o Gênesis.

“Caído” aborda, com muito bom humor, uma crítica pertinente sobre a dualidade humana e a quebra de expectativa que reflete sobre o papel das figuras mitológicas e a maneira como os humanos interpretam o bem e o mal.









SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...