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segunda-feira, 30 de junho de 2025

TRÊS CORTES PARA GLAUBER (2009)

            Mesclando habilmente imagens de obras de Glauber Rocha, registros de arquivo e cenas emblemáticas do contexto histórico, o diretor Gabriel Dib constrói uma profunda radiografia do cinema brasileiro a partir da visão artística e intelectual de Glauber. O Documentário “Três Cortes Para Glauber” não se limita a ser uma simples homenagem: é uma imersão densa na mente criativa de Glauber, inspirada nas estéticas que ele tanto explorou em sua obra, como a fome, o sonho e a violência, pilares conceituais que moldaram seu legado. Esses três elementos não só refletem as questões políticas e sociais da época, mas também o desejo de um cinema que falasse diretamente à realidade do Brasil.

Com uma montagem precisa, de Pedro Gorender, Pedro Bento e Gabriel Dib, o curta-metragem estabelece um jogo entre som e imagem que resulta em uma experiência sensorial instigante. A trilha sonora, utilizada de maneira cirúrgica, intensifica a narrativa, criando uma atmosfera imersiva que conecta o espectador ao universo glauberiano. Os elementos técnicos e narrativos se destacam ao amplificar a dialética proposta por Glauber em seus filmes: uma constante tensão entre o poético e o brutal, o sonho e o pesadelo, a fome e a resistência.

O Documentário reflete sobre a missão central de Glauber Rocha: a criação de um cinema autenticamente brasileiro, feito por brasileiros e para brasileiros. Glauber acreditava que a produção cinematográfica nacional deveria se libertar das fórmulas enlatadas de Hollywood e buscar uma narrativa própria, que falasse sobre a realidade social e cultural do Brasil. Em "Três Cortes Para Glauber", essa busca por um cinema original é explorada através de cenas que revelam como Glauber olhava para as múltiplas facetas do Brasil; suas paisagens, sua cultura e suas contradições.

Glauber não apenas rejeitava a fantasia escapista proposta pelo cinema comercial, mas abraçava uma estética da realidade, onde a simplicidade, a verdade e a resistência ocupavam o centro de sua criação artística. O curta revela o quanto o cineasta foi influenciado pelo Neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa, mas sempre com os pés fincados no solo brasileiro. Sua obra é um espelho da luta por um cinema político, uma arte que falasse de forma direta com o povo e sobre o povo, revelando suas angústias, suas lutas e suas esperanças.

Em “Três Cortes Para Glauber”, a estética do Cinema Novo é explorada com profundidade. O movimento, do qual Glauber foi um dos principais expoentes, buscava retratar o Brasil de forma fiel, abordando o Brasil profundo, com suas desigualdades e complexidades. Esse cinema se afastava das fantasias importadas, preferindo uma abordagem que desnudava as mazelas sociais, trazendo à tona a violência estrutural, a fome, e o sofrimento dos marginalizados. O Documentário destaca essa missão de Glauber, de construir uma arte que fosse não só cinematográfica, mas também política e socialmente comprometida. Essa estética da resistência é um dos temas centrais de "Três Cortes Para Glauber", e é evidenciada de forma brilhante ao longo de toda a obra.

A narrativa não linear do curta, inspirada na própria estrutura dos filmes de Glauber, permite que o espectador entre no fluxo de pensamentos do cineasta. Não há uma cronologia rígida, assim como nas lembranças e nos sonhos, temas recorrentes na filmografia de Glauber. Esse rompimento com a narrativa tradicional faz com que o filme se aproxime mais da obra glauberiana, onde o tempo, assim como a realidade, é fragmentado. “Três Cortes Para Glauber” abraça essa fragmentação, permitindo ao espectador vivenciar não apenas a trajetória de Glauber Rocha, mas também a profundidade de suas reflexões sobre o cinema e o Brasil.

O filme conta com a participação de Bastïen Viltart, Barbara Vida, Pedro Bento, Gabriel Dib e Pedro Gorender, que ajudam a dar vida a essa reflexão multifacetada sobre o cinema glauberiano. A presença de tantos colaboradores reflete o caráter coletivo do Cinema Novo, um movimento que sempre buscou a cooperação e o engajamento de diversos artistas na luta por um cinema que fosse não apenas estético, mas revolucionário em essência.

“Três Cortes Para Glauber” é, portanto, mais do que uma simples análise de uma carreira cinematográfica. É uma viagem intelectual e sensorial que explora a mente de Glauber Rocha, seus desafios e suas conquistas. É um convite para entender a importância de Glauber não apenas como cineasta, mas como pensador e crítico da sociedade brasileira. Ao assistir o Documentário, somos levados a refletir sobre o papel do cinema como ferramenta de mudança social e cultural, e sobre o legado imortal de Glauber Rocha, que continua a influenciar gerações de cineastas no Brasil e no mundo.




quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

QUIROPTEROFOBIA (2009)

 

        O excelente curta de Terror, bebe da fonte dos subgêneros Trash e Gore, para apresentar uma história envolvente, inquietante e perturbadora.

         Com roteiro de Tiago Rezende e direção de Fernando Mantelli, “Quiropterofobia” tem em sua trama um casal de amantes que pega um taxi. Porém, logo o casal e o motorista se veem num verdadeiro pesadelo, quando são sequestrados e se tornam vítimas de um maníaco. Ali, presenciam todas as barbaridades que o sádico sequestrador é capaz, desde a forma como mata suas vítimas até beber o sangue delas.

         “Quiropterofobia” tem uma estrutura narrativa extremamente eficiente ao abordar a premissa de um transtorno psiquiátrico grave por parte do agressor e mesclar com elementos da literatura fantástica do Conde de Lautréamont, com trechos de sua obra “Os Cantos de Maldoror”.

         Com muita tortura e sangue, a trama, que se desenvolve em grande parte num cômodo sujo e aterrorizante, mostra a personalidade do maníaco e como cada um dos sequestrados reage. Cada um encarnado em seu personagem, Nélson Diniz, Aline Jones, Álvaro Rosacosta, Amanda Ogando e Marcos Verza mandam muito bem, com atuações maravilhosas.

            Um ponto forte é a trilha sonora que, em alguns momentos, apenas usa o som para sugerir aos personagens e espectador o que ocorre com outras vítimas no cômodo ao lado onde estão presos. “Quiropterofobia” tem fotografia e arte eficientes, que transmitem muito bem a atmosfera densa e pesada do local. E outro elemento técnico de destaque é a montagem.

         Gradualmente, a trama se desenvolve, primeiro nas tentativas desesperadas de fugir dali, até quando o jogo começa a virar e o maníaco percebe que sequestrou alguém que não deveria.

         “Quiropterofobia” é um Terror denso, com uma narrativa densa e pesada, sendo uma ótima opção para quem curte os subgêneros de Gore e Trash. A trama é muito bem conduzida e o final é extremamente surpreendente.




quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

BOSQUE VERMELHO (2014)

 

“Bosque Vermelho” começa com imagens e narrações de um estranho temporal ocorrido na cidade de Londrina. Se concentrando em apenas um bosque da cidade de Londrina, enquanto os outros lugares estavam com céu azul e sol brilhante, a chuva criou um estranho evento sobrenatural, fazendo com quem estava dentro do bosque se tornasse uma ameaça para quem se atrevesse a entrar no local.

         O curta, com roteiro de Carlos Fofaun Fortes e Edu Reginato, e direção da dupla, juntamente com Adriano Gouvella, Clodoaldo de Almeida "Billy Monster", Danilo Hokama e Renato Lopes, tem uma narrativa coesa, que explora muito bem o efeito da tempestade paranormal, o despertar dos mortos-vivos e os ataques que ocorrem. A escolha da equipe de som e trilha sonora foi excelente ao mesclar músicas de Punk Rock, Metal e Death Metal em meio aos ataques e muito sangue.

      A trama ocorre com muitos elementos do Trash, mas também com muitas sacadas irônicas. Juntando as escolhas da trilha sonora, com uma narrativa fluida, fotografia eficiente e efeitos práticos muito bem encaixados e executados, “Bosque Vermelho” tem uma atmosfera macabra e sinistra, mas também traz uma sensação de nostalgia, relembrando e homenageando filmes oitentistas do gênero.

         O elenco de “Bosque Vermelho” conta com Adriano Gouvella, Arthur Ribeiro, Guilherme Ausec, João Iramina Neto, Mário Fragoso, Nagomi Kishimo, Vitor Maçarico Inacio, André Duarte, Dilan Duarte, José Augusto Araújo, Manuela Manhães Slonski, Marcely Saes, Odair Gonçalves e Rodolfo Barroso. De michês até vigilante e bêbado, os zumbis não poupam ninguém e atacam quem podem.

         “Bosque Vermelho” é um curta de Terror pra se divertir, tendo ótimos elementos técnicos na sua produção. Com acertos pontuais da direção de fotografia e arte, o curta tem uma montagem bem estruturada, fazendo do curta uma ótima opção para quem é fã do subgênero Trash.

         E, é bom destacar que o que acontece no curta é apenas o início de um apocalipse zumbi. Se o espectador pensar sobre os dias seguintes, a população da cidade do interior do Paraná está em maus lençóis.





domingo, 8 de dezembro de 2024

DURMA BEM (2019)

Sara é a nova babá de uma garotinha. Em sua primeira noite de trabalho, uma forte tempestade atinge a cidade. A mãe, que vai encontrar com o marido, deixa filha e babá sozinhas.
            “Durma Bem” tem um filtro de cor que acentua o tom da noite, da escuridão e da tensão que é estabelecida logo que a babá e a menina ficam sozinhas na casa. A tonalidade azul escura transmite a sensação de isolamento e medo. A atmosfera pesada e densa se acentua mais ainda quando Sara encontra um boneco de palhaço muito esquisito.

         O uso da câmera subjetiva, logo que Sara cobre o palhaço, aumenta ainda mais o clima de mistério e o horror que ronda a babá e a criança. A trilha sonora com uma chuva incessante e vibrações de suspense, ajudam muito na imersão do espectador no universo misterioso e onde o perigo está à espreita.

             Após colocar a menina para dormir, Sara ainda sente que algo estranho acontece dentro da casa. E, após um telefonema para a Senhora Castro, mãe da menina, o terror é plenamente estabelecido.

         Bruna Brito, que interpreta a protagonista Sara, tem uma atuação impecável, conseguindo encarnar muito bem todos os sentimentos de acordo com o que o ambiente exige. O elenco ainda conta com Júlia França, Angela Valentin e Max Moreira.

         “Durma Bem” tem elementos técnicos muito bem explorados pelo diretor Weslei Mata, que também é responsável pelo roteiro e montagem. Ele consegue reunir fotografia e trilha sonora de forma muito eficiente, causando a curiosidade e o medo em relação ao boneco encontrado por Sara. Suenya Generoso, responsável pela fotografia, executa um trabalho primoroso, aproveitando cada detalhe que aumenta a intensidade da imersão do espectador com a trama e com os personagens.

         “Durma Bem” é um Terror inquietante e perturbador. A forma como o filme se desenvolve e finaliza, faz dele uma ótima opção para os fãs de Terror, Suspense e Mistério.




        

sábado, 7 de dezembro de 2024

O SINO DE MONTEBELLO (2016)

 

O curta-metragem dirigido por Fernando Ferreira Garróz é baseado na crônica “O Sino de Natal”, publicado em 1951 e escrito por R. F. Lucchetti.

Apesar de ter o Natal como pano de fundo, o tom sombrio e a narração bem elaborada ditam o ritmo sombrio e obscuro da Animação, que tem ainda a adaptação, roteiro, produção e a própria locução de Fernando Ferreira Garróz.

O personagem-narrador revela a sua história de ferreiro e a produção do sino da igreja de Montebello. O personagem relata sobre como o espírito do Natal altera a vida na comunidade, com festividades, presentes, encontros, reencontros e os presentes que marcam a data e trazem alegria para muitas pessoas.

O insistente badalar do sino faz o ferreiro lembrar de sua amada Gina. Porém, a ligação de Gina com o sino é tenebrosa, arrepiante e apavorante. A trama envolve tudo num contexto mórbido e aterrorizante.

“O Sino de Montebello” se destaca pela capacidade de imergir o espectador na história, se envolvendo com as cenas de caridade, festividade e com o sinistro badalar do sino. O excelente trabalho de locução, som e trilha sonora compõem o clima denso, pesado e intrigante de Montebello. A voz marcante do narrador dá ainda mais força para a trama.

A lembrança de Gina, traz as memórias mais importantes da vida do ferreiro, mas também deixa explícito que as memórias fazem parte de um passado e que não tem mais volta.

“O Sino de Montebello” tem uma narrativa meticulosamente construída, fazendo com que o espectador se aprofunde na mente do ferreiro e ouça cada palavra como parte de um pensamento conjunto. A união da fotografia e da trilha sonora, juntamente com a arte, conseguem, de forma monumental criar essa ligação entre personagem e público. E tudo isso torna “O Sino de Montebello” surpreendente e genial.

O curta tem um ar sombrio e incômodo. E esse é um dos grandes méritos da fotografia e da competente equipe de animação, que conta com Marcos Spineli, Arthur F. Padua e Guilherme Guidetti.

“O Sino de Montebello” é curta de Animação, mas que aborda os gêneros Suspense, Mistério e Terror em suas formas mais cruas, sinistras e pavorosas.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

DIVERSÕES SOLITÁRIAS (1983)

           “Diversões Solitárias” apresenta um jovem que, de patins e de walkman, percorre por vários pontos da cidade de São Paulo, transitando entre várias pessoas e vendo muitas coisas em meio ao caos e ao barulho da metrópole.



           Luiz Nascimento interpreta o protagonista, que é muito mais do que apenas um jovem que transita pelas ruas, cruzando com as pessoas e deixando de as ouvir devido à música que escuta através do fone de ouvido. Entre o personagem que se prepara para sair e o que retorna para casa, há muitas camadas sobre ele, que servem para se refletir.

         Mesmo estando num lugar movimentado, com pessoas que procuram interagir, o universo do personagem não é o mesmo da maioria das pessoas. O seu mundo é diferente, fazendo com que ele seja diferente, pense diferente e deseje coisas diferentes. Por mais que a cidade insista em igualar as pessoas como meras peças de um imenso quebra-cabeças, as pessoas são únicas, com suas personalidades e identidades.

         O filme tem uma carga dramática bastante impactante pela forma como o protagonista se relaciona. Apesar de ser um filme lançado em 1983, incrivelmente, ele consegue dialogar com a realidade atual, demonstrando o quão difícil é estabelecer e manter vínculos. O isolamento e a solidão não é um mal dos nossos tempos; ele parece estar impregnado na sociedade, criando universos próprios onde muitas pessoas se satisfazem sozinhas.



         “Diversões Solitárias” é um Drama produzido com muita profundidade. O diretor Wilson Barros, que também é o responsável pelo roteiro, extrai o máximo do que o texto tem a oferecer. E os elementos técnicos de produção, como trilha sonora, fotografia e arte, constroem com muita precisão o mundo do protagonista e como ele lida com as suas ambições, prazeres e pensamentos.

         “Diversões Solitárias” é um filme que explora o emocional e o psicológico de uma forma sensível, profunda, pontuando que a complexidade da mente humana não é algo programado ou pré-definido, mas algo que é inerente ao temperamento e personalidade de cada um.




terça-feira, 3 de dezembro de 2024

A COISA NA FLORESTA (2020)

 

Com apenas 4 minutos de duração, “A Coisa na Floresta” é extremamente imersivo e assustador. A produção utiliza de forma muito eficiente elementos simples, mas com uma qualidade gigante por parte de Jeziel Bueno, que, além da direção, é responsável pelo roteiro, produção, trilha sonora, fotografia e arte.

Jeziel demonstra toda a sua competência para criar um clima denso, pesado e totalmente perturbador. O que era para ser apenas uma brincadeira se torna num pesadelo sem volta.

“A Coisa na Floresta” tem seu início quando uma garotinha encontra outra que brinca com uma boneca numa praça. Cada uma com uma boneca, elas iniciam uma interação e logo decidem adentrar para uma floresta próxima.

Sem diálogos audíveis, as duas garotas caminham em meio a mata e o trabalho de som é fundamental para criar o ambiente de perigo. Os sons do vento e dos passos na mata transmitem o realismo e também o perigo que se aproxima.

Logo, a garota que foi convencida a entrar na mata se vê em grande perigo, quando encontram com um homem, próximo a um prédio velho e abandonado. A esquisitice do personagem é tão grande quanto a ameaça que ele representa.

A atmosfera sobrenatural do curta, nos faz pensar sobre os personagens em si, e em como e por que agem daquela forma. O que sabemos é que são personagens assustadores e que estão à espreita para fazer mais vítimas. O filme conta com as atuações de Lara Cristina, Larissa Xavier, Milton Toledo e Rebeka Sousa.

“A Coisa na Floresta” tem ótimos elementos narrativos e dramáticos. Os elementos técnicos da produção potencializam o texto, fazendo desse curta mais um excelente filme de Terror e Suspense na carreira de Jeziel Bueno, que é um dos grandes nomes do Terror nacional.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

DEPOIS DO FIM DO MUNDO (2011)


“Depois do Fim do Mundo” é um trabalho de conclusão de curso da UEMG em 2010, com produção, roteiro e direção de Flávio R. Moura e orientação de Leonardo Dutra.

Mesclando os gêneros Ficção Científica e Comédia, a Animação em curta-metragem narra a rotina de dois mercenários que vivem num mundo pós-apocalipse zumbi e que estão em meio a mais um trabalho.

“Depois do Fim do Mundo” é um filme cativante, divertido e muito bem produzido. O filme tem qualidades técnicas, narrativas e dramáticas extremamente eficientes. O texto é excelente, resultando em um contexto que atrai a curiosidade do espectador e em personagens que é impossível não simpatizar.

A dupla de mercenários tem as vozes de Affonso Amajones, como o Escocês, e Nelson Machado como o alienígena Kroax. O elenco conta ainda com a voz de Mauro Castro.

“Depois do Fim do Mundo” impressiona pela fluidez narrativa e dramática, com diálogos ácidos cheios de referências. A conversa dos protagonistas vai desde nomes de filmes do Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone, até os tipos de zumbis existentes. Em meio ao bate-papo dos personagens, ainda há também referências à cultura nerd, alguns elementos “tarantinescos” e um easter egg surpresa que surpreende muito.

O curta de Flávio R. Moura é uma animação adulta extremamente competente, com uma fusão perfeita entre forma, conteúdo e essência, com um arco dramático bem estruturado que prende a atenção do espectador. À medida que a história se desenvolve, a tensão cresce de maneira gradual, intercalada por momentos de humor ácido e ironia, trazendo à tona questões existenciais em um cenário de apocalipse zumbi. A estética visual é outro ponto de destaque, misturando elementos da cultura pop e referências cinematográficas de forma habilidosa, o que contribui para uma atmosfera única. O tom sarcástico da trama, reforça o ritmo leve, cômico e dinâmico da narrativa.

No decorrer da história, a interação entre os protagonistas revela camadas mais profundas sobre o que significa sobreviver em um mundo devastado, questionando até onde vai a humanidade em situações extremas. Ao misturar ação, diálogos afiados e nostalgia, "Depois do Fim do Mundo" consegue criar uma obra que transcende o gênero de Animação e proporciona uma deliciosa e divertida experiência. 




quinta-feira, 21 de novembro de 2024

EFEITO CASIMIRO (2013)

 


Edílcio Barbosa foi o homem que anunciou que uma espaçonave vinda de Júpiter iria pousar numa fazenda localizada na cidade de Casimiro de Abreu, no interior do estado do Rio de Janeiro, no dia 8 de março de 1980, 05h20min da manhã.

O anúncio feito por Barbosa tinha tudo para não dar em nada, porém, o que aconteceu posteriormente foi uma curiosidade em massa, tanto por ufólogos, imprensa e curiosos, de que uma nave pousaria no local indicado pelo enigmático homem.

O Documentário “Efeito Casimiro” retorna ao ano de 1980 e explorar, desde o contexto sócio-político da época, até a forma como Casimiro de Abreu se tornou uma espécie de “Woodstock brasileira”.

Com depoimentos de pessoas que presenciaram toda a movimentação na cidade e na fazenda, imagens de arquivos em fotos, vídeos e páginas de jornais da época, se tem a noção do evento e como milhares de pessoas de vários locais do Brasil e de outros países se reuniram.

Num Brasil policiado pelos militares, o encontro em Casimiro de Abreu representou um grande encontro e uma enorme festa de vários tipos de pessoas e de várias origens. Em meio à multidão, havia os que beberam, fumaram maconha, ouviram música e muito mais do que poderia ser feito durante uma festa.

Com um rico trabalho de pesquisa, a diretora Clarice Saliby, detalhou perfeitamente todo o frenesi vivido pelas pessoas na época. Responsável também pelo argumento, roteiro e montagem, a diretora e as equipes criativa e técnicas entregaram um trabalho perfeito. Um curta que mantém o nível de atenção alto, desde o início até o final. Mesmo com a ausência dos jupiterianos, o curta consegue manter a curiosidade, ainda mais pelo que é relatado sobre o personagem principal, Edílcio Barbosa.

“Efeito Casimiro” é um Documentário que mescla com a Ficção Científica e aguça a curiosidade por um dos fatos mais marcantes da ufologia brasileira. Apesar da mancada dos extraterrestres que não apareceram naquela manhã de março de 1980, Barbosa deixou uma nova mensagem e que faz crer que ele sabia muito sobre os visitantes jupiterianos.




quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A VALSA DO PÓDIO (2013)

 


O documentário acompanha a trajetória da vitoriosa paratleta Terezinha Guilhermina e seu guia Guilherme Santana nos Jogos Paralímpicos de Londres em 2012.

Através de imagens de arquivos, depoimentos e animações, o curta aborda a infância pobre na região metropolitana de Belo Horizonte, a entrada do esporte em sua vida e as conquistas das medalhas de ouro nos 100 e 200 metros rasos para cegos (T11).

É muito interessante como Terezinha e Guilherme se complementam e em como essa união culminou com as vitórias em Londres. Tanto Terezinha quanto Guilherme detalham como os dois atletas precisam estar em perfeita harmonia nos movimentos de pernas e braços.

O roteiro de “A Valsa do Pódio” é muito bem desenvolvido pelos diretores Bruno Carneiro e Daniel Hanai, com uma perfeição técnica das equipes de fotografia, som, produção e com uma montagem extremamente pontual, intercalando as narrações com imagens de arquivos e animações.

É impressionante a determinação e foco que Terezinha Guilhermina tem e a sua importância para o esporte brasileiro. Fez história e isso jamais será apagado. “A Valsa do Pódio” só reforça o orgulho de termos uma atleta como Terezinha e a inspiração que ela propicia para muitos atletas e paratletas brasileiros.




OK, KAREN (2022)

 


O curta, com roteiro e direção de Hugo L.V. e Oliveira, apresenta Camila Ferrazzano no papel de Letícia. Vivendo em sua residência durante o início da pandemia de Covid-19, mantém contato diário com Karen, uma assistente virtual.

Já no início, Letícia se vê numa situação devastadora, recebendo a notícia do falecimento de uma pessoa próxima e a difícil decisão de retirar ou não o nome da pessoa da agenda virtual.

Produzido em 2022, “Ok, Karen” descreve com precisão as tristezas, medos e angústias de um período tão difícil. Karen reproduz várias opiniões sobre o vírus, desde orientações sanitárias até fake News relacionadas à origem do vírus. “Ok, Karen” é um Drama extremamente realista, pois retrata fielmente o que muitas pessoas vivenciaram na pele. E, quase três anos após o início da disseminação do vírus, o curta ainda é impactante, tanto por fazer o espectador relembrar do começo, como pelo trauma coletivo, que afetará toda a geração que precisou enfrentar a pandemia.

O curta usa ainda as vozes de Lays Bezerra, como Karen, e Mirella Queiroz, no papel da mãe de Letícia, para construir o universo sufocante, melancólico e sombrio da casa de Letícia. Os aspectos técnicos também são extremamente eficientes para trabalhar na construção desse ambiente de aflição e medo, ao qual a protagonista vive.

Com o aumento no número de mortes e o risco de contaminação, Letícia é afetada intensamente emocional e psicologicamente. Saber a porcentagem de risco de contaminação passa a ser uma constante na vida dela, ao ponto de viver sempre no limite mental.

“Ok, Karen” tem uma narrativa muito interessante e um arco dramático angustiante e triste. O filme reflete sobre como, num momento de obrigatoriedade de distanciamento social, a solidão e o luto são elementos que afetam de forma implacável uma pessoa.




terça-feira, 19 de novembro de 2024

O SELVAGEM (2016)

 


Em seus quase cinco minutos, “O Selvagem” é um curta que tem um ritmo narrativo muito bem produzido. E o filme supera expectativas, justamente por mostrar pouco, porém, com intensidade. Talvez o maior medo que alguém que esteja numa mata possa sentir é o perigo que ronda. E o diretor Lucas Piaceski faz isso de forma muito consciente, precisa e certeira no curta que mescla Fantasia e Terror.

Embora o homem que entra na mata, à procura de água, esteja armado, o Saci não é a maior ameaça. Andar por um lugar desconhecido se torna o maior perigo, ainda mais quando o personagem se fere gravemente.

Por se tratar de uma figura mítica, o filme pode considerar o Saci como uma figura que se materializa frente o caçador, mas também se pode considerar o fato do personagem principal estar perdendo sangue. Se quisermos fazer uma abordagem mais metafísica, o filme gera um impacto muito interessante. Mas também, se a pessoa decidir por uma abordagem mais materialista, o impacto também é bastante forte. E estar aberto para esses tipos de abordagens é por mérito do texto e da direção.

Wagner Piaceski interpreta o jovem caçador que deixa o carro na beira da estrada e se aventura na mata, enquanto que Henrique Bressan está na pele da lendária criatura do folclore brasileiro.

Apesar do filme ter o idioma inglês, isso não interfere na essência da lenda e da proposta do filme. O principal fator do filme é a situação do protagonista e, sendo estrangeiro ou brasileiro, há justificativas para a ação dele logo após o surgimento do Saci. O medo impulsiona a atitude tomada pelo caçador.

Ao propor um encontro entre a vida ou morte, o bem ou mal, ou selvagem ou civilizado, a trama nos faz refletir sobre quem é bom ou mau, quem escolhe a vida ou a morte e quem é selvagem ou civilizado. E esses questionamentos são feitos porque talvez a ameaça seja um e não o outro. “O Selvagem” articula muito bem essas relações de confronto e o filme deixa em aberto o que cada um escolhe. É um filme muito bem produzido, com uma resolução final totalmente surpreendente e aterrorizante.




 

FUI COMPRAR CIGARROS (2012)

 


Entre cigarros e um clima poético, “Fui Comprar Cigarros” narra os pensamentos de um homem que vive intensamente uma relação. Provavelmente este seja o momento mais marcante de sua vida e é muito interessante como a narrativa o coloca na situação entre o “porquê” de uma coisa demorar a acontecer ou simplesmente acontecer somente após a conjugação de vários eventos.

O filme transita muito bem na combinação do Drama e do Romance, conduzindo o espectador para o universo dos protagonistas, de como se conheceram, de tudo o que viveram e como cada um tem muito a conhecer um do outro.

A vida é assim: a gente não conhece nem a nossa própria vida em sua totalidade, quanto mais a de outra pessoa? O homem, interpretado por Laerte Késsimos, levanta os questionamentos de como a vida pode surpreender quando deixamos as coisas acontecerem. O que ele vive com a mulher, interpretada por Laryssa Dias é uma paixão de uma vida. Cada toque, cada olhar, cada palavra, tudo está acontecendo ali naquele momento, e é tudo real.

“Fui Comprar Cigarros” fala de maneira poética de como o protagonista lida com seus conflitos internos e de como o tempo influencia as coisas que acontecem. Uma única noite pode dar sentido a uma vida inteira e realizar um sonho de muito tempo.

Com um belo roteiro de Leo Castelo e Rose Calza e direção refinada de Marcel Mallio, “Fui Comprar Cigarros” foi produzido de forma muito sensível. A narrativa em off, coloca o espectador lado a lado com o personagem masculino, criando um vínculo e facilitando a imersão. Trilha sonora, fotografia e arte justificam ainda mais a qualidade do filme que, ao mesmo tempo tem um ar vibrante e libertador, mas também é muito sensível.




OS ÓCULOS DO VOVÔ (1913)

 


A comédia filmada na cidade de Pelota (RS) é o filme brasileiro de ficção mais antigo e ainda preservado. Embora, seja o filme mais antigo com registro físico, do seu original com 15 minutos, restaram apenas fragmentos que totalizam quase 5 minutos, resgatados na década de 1970.

Os poucos minutos que guardam parte de “Os Óculos do Vovô”, apresentam um garoto que pinta os óculos do avô, enquanto ele dorme. Ao acordar, o idoso pensa estar cego.

A trama se desenrola com a mãe tentando fazer o menino ficar quieto, diante das traquinagens que ele apronta. E, diante da possível cegueira, o pai liga para um médico.

“Os Óculos do Vovô” traz um retrato do Brasil do início do século 20. As imagens do figurino da época, dos aparelhos telefônicos e da caleça que transporta o médico até a residência da família, demonstram um pouco da realidade em que o filme foi produzido.

O elenco do filme tem, além do diretor e roteirista Francisco Santos, que interpretou o avô, Mário Ferreira Neto, Graziela Costa, Jaime Cardoso, Jorge Diniz e Óscar Araujo. O garoto, causador das confusões, interpretado por Mário Ferreira Neto, que posteriormente ficou famoso como filósofo e escritor, era neto do diretor, e contava cerca de 6 anos durante as gravações.

“Os Óculos do Vovô” tem uma importância histórica e cultural enorme, principalmente por ser a obra audiovisual mais antiga ainda preservada. Qualquer pessoa que se interesse pela história do cinema brasileiro, precisa iniciar sua pesquisa pelos resquícios guardados nos 4 minutos e 34 segundos do filme “Os Óculos do Vovô”.






segunda-feira, 18 de novembro de 2024

CASA DO CAPETA (2010)

 


É quarta-feira de cinzas e um grupo de foliões decide entrar numa mansão abandonada. O que era para ser apenas uma brincadeira, se torna uma situação de medo e pavor, quando os jovens descobrem o mal que há no lugar.

Falar da competência de Rodrigo Aragão como roteirista e diretor de Terror é chover no molhado. Praticamente, ele nasceu para produzir filmes do gênero. E com “Casa do Capeta” não é diferente. O filme tem uma identidade única, que homenageia as produções mudas em preto e branco, mas com uma identidade bem atual. Falando em identidade, o curta tem uma identidade visual e sonora muito autêntica. Os movimentos da câmera e a trilha sonora que relembra um disco girando ao contrário, dão muito mais substância para a trama e para o morador da residência.

A equipe criativa e técnica entrega um ótimo filme que causa um desconforto. Como a trama se desenrola e com cada personagem tem um fim é narrativamente e visualmente apavorante. Quando os personagens percebem que não há saída e que estão presos no local, é muito desesperador.

E a forma como tudo acontece, após o segundo ponto de virada, é muito surpreendente. O mesmo ritual que, aparentemente, trouxe a criatura para aquela casa é feito, só que nem tudo sai como o esperado. E isso é um ponto muito interessante, porque o diretor usa a imprevisibilidade como ótima ferramenta. Quando o espectador pensa uma coisa, acontece outra. E essa quebra de expectativa é muito legal.

Como não poderia deixar de ser, o filme tem figurino e maquiagem de primeira. Os efeitos práticos também são outro ponto de destaque na produção do curta.

“Casa do Capeta” é um filme com uma identidade especial, produzido com muita criatividade e eficiência dos meios técnicos. O filme cumpre muito bem o papel de ser um bom entretenimento para os fãs de Terror. E tudo com uma qualidade inquestionável.




 

sábado, 16 de novembro de 2024

PAJERAMA (2008)


 No idioma Tupi, Pajerama significa “futuro pajé”. Para os nativos do tronco Tupi no Brasil, o pajé é a liderança que tem funções importantes no seu grupo, na sua aldeia. Dentre as atribuições do pajé, está a ligação espiritual do mundo material com a espiritualidade, a cura de doenças, preparação de ritos tradicionais, transmissão de sabedoria antepassada, etc.

Na Animação “Pajerama”, acompanhamos um jovem indígena que está caçando e se depara com uma situação caótica. Numa alusão a “2001: Uma Odisseia no Espaço”, o jovem índio se vê diante de um monolito, tocando-o e entrando num frenético universo, envolvendo estradas, veículos, metrôs, sinais de rádio, pontes, viadutos, sinais de trânsito, outdoor, etc. É uma experiência surreal e assustadora.

O jovem indígena se vê numa situação perigosa em meio a tantas coisas desconhecidas. E, geralmente, o desconhecido assusta. E aí que o monolito cumpre sua função, tal qual em “2001”. Ao tocar o monolito, um novo universo se abre. E não é porque somente isso, que o novo universo será melhor.

“Pajerama” trabalha com a ideia de como uma cultura pode impactar outras. O filme aborda a reflexão das diferenças entre indígenas e não-indígenas e como as expansões dos não indígenas podem interferir no modo de vida, nas relações sociais, nas tradições dos povos originários. Desde o século XVI, os nativos das Américas passaram a sofrer uma imposição no seu modo de vida, porém, “Pajerama” mostra essa imposição cultural, social, étnica econômica, política, nos tempos atuais.

Uma das dúvidas que fica é se realmente o jovem indígena se tornará um pajé algum dia. E aí, pode-se fazer um paralelo com o ótimo filme do diretor Luiz Bolognesi, “Ex-Pajé”. Tanto o filme de Luiz Bolognesi quanto o filme do diretor Leonardo Cadaval se complementam. Além da direção, Cadaval é responsável pelo roteiro e storyboard do Drama em Animação.

“Pajerama” é um filme profundo que aborda importantes questões sobre a avanço da população não-indígena e como os contatos podem ser (e foram) traumáticos e prejudiciais para os indígenas do que hoje conhecemos como Brasil.




sexta-feira, 15 de novembro de 2024

AS MÃOS DE LAURA (2011)

 

O curta de Suspense, que mescla Romance e Terror, apresenta um homem que questiona as dificuldades em se relacionar com as mulheres. As suas dificuldades se dão pelo fato de procurar pela mulher perfeita. Ele relembra os olhos de uma garota com quem teve um relacionamento. Relembra a barriga perfeita de outra. Porém, ele sonha em encontrar a perfeição numa única pessoa.

Aparentemente, o protagonista de “As Mãos de Laura” é um homem normal, que vive uma vida normal e reflete sobre coisas normais. Ao mesmo tempo em que se questiona sobre as mulheres, reflete também sobre a sociedade atual. O sujeito questiona a decadência moral e a falta de relacionamentos mais diretos, sinceros e leais. Assim como ele não encontra respostas sobre a “mulher perfeita” fica evidenciado posteriormente a contradição de seus pensamentos em relação às mulheres e também sobre a sociedade.

O nosso protagonista questiona a sociedade a partir de sua perspectiva e de sua mentalidade. E é interessante que ele se considera uma pessoa normal, mesmo diante da realidade concreta de sua vida.

A direção de Maurício Carvalho é consistente e profunda sobre a complexidade do personagem. O filme se permite a narração em off, porque, com o roteiro do próprio Maurício e Joaquim Ghirotti, nós precisamos saber mais sobre o que está na cabeça do protagonista do que no seu entorno. Destaque positivo também para a fotografia de Rafael Ruzene, som de Ronaldo Gomes, Tiago Ramos e Caetano Cotrim, e maquiagem de Sara Pires.

“As Mãos de Laura” é um Suspense com S maiúsculo, com uma qualidade criativa e técnica muito grande. É um filme que impressiona positivamente, sendo um prato cheio para quem curte uma abordagem psicológica de um personagem que pode se comportar de maneira normal ou totalmente bizarra.




PASSAGEIROS (1987)

  “Passageiros” é um curta que funciona em várias camadas ao mesmo tempo. Na superfície, temos uma situação simples e direta: um taxista rec...