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sábado, 17 de outubro de 2026

POMBAL 350 (2016)

 


       Produzido por estudantes do Curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco, “Pombal 350” é um curta de Terror que demonstra como uma narrativa simples pode se tornar extremamente eficiente quando sustentada por atmosfera, ritmo e construção de suspense. Em vez de apostar em sustos constantes ou explicações excessivas, o filme escolhe um caminho mais sutil, permitindo que o mistério se desenvolva gradualmente e envolva o espectador em uma sensação crescente de inquietação.

         A narrativa tem início em um Recife já dominado pela noite. O movimento das ruas diminui, os sons urbanos tornam-se mais discretos e a cidade parece assumir uma personalidade diferente daquela observada durante o dia. É nesse contexto que acompanhamos um motorista de táxi encerrando sua jornada de trabalho. O personagem fuma um cigarro, observa o ambiente ao redor e decide que não aceitará mais corridas. Trata-se de uma decisão comum, quase banal, mas que funciona como um ponto de partida importante para o desenvolvimento da trama.

       Com direção de Paulo Souza, Amanda Melo, Eva Feitosa e Josy Barbosa, sob orientação de Leonardo Castro Gomes, o curta demonstra maturidade ao transformar situações cotidianas em elementos capazes de gerar tensão. O espaço urbano não é apenas um cenário, mas um componente ativo da narrativa, contribuindo para a construção da atmosfera e refletindo o estado emocional do protagonista.

         O trabalho sonoro merece destaque desde os primeiros minutos. Conforme a cidade se esvazia, os ruídos urbanos perdem força e dão espaço a uma trilha sonora discreta, mas constantemente inquietante. Essa combinação produz uma sensação de estranhamento que cresce lentamente, preparando o espectador para os acontecimentos que virão. Quando o motorista retira o luminoso do táxi e inicia seu retorno para casa, já existe a percepção de que aquela viagem será diferente do esperado.

           A chegada da passageira marca uma mudança importante na narrativa. Vestida de branco, a jovem surge de forma aparentemente comum, mas carregando uma presença que desperta curiosidade imediata. O filme não oferece explicações sobre quem ela é ou de onde veio, permitindo que o mistério se estabeleça naturalmente. A normalidade da situação começa a ser questionada quando percebemos que ela entra em um táxi que já não deveria estar disponível para corridas.

         Quando a passageira entrega apenas um papel contendo o endereço Rua Pombal, 350, o filme amplia ainda mais sua atmosfera de suspense. O destino torna-se uma espécie de promessa narrativa, conduzindo protagonista e espectador para um local desconhecido. A partir desse momento, a viagem deixa de ser apenas um deslocamento físico e passa a funcionar como uma jornada rumo ao inexplicável.

        Um dos grandes méritos de “Pombal 350” está na integração harmoniosa entre seus elementos técnicos. A fotografia explora muito bem os contrastes entre os espaços externos e o interior do veículo. Os planos mais abertos reforçam a sensação de isolamento da cidade durante a madrugada, enquanto os enquadramentos fechados aumentam a sensação de confinamento e desconforto. O trabalho realizado por Carlos Sant'Anna e Victoria Correa no elenco também contribui significativamente para essa dinâmica, transmitindo tensão mesmo nos momentos de silêncio.

        A montagem acompanha o ritmo da narrativa com precisão, sem acelerar excessivamente os acontecimentos. O suspense surge justamente da espera, da observação e da sensação de que algo está fora do lugar. A trilha sonora complementa essa construção de forma eficiente, ampliando o desconforto sem jamais se tornar invasiva.

         Com poucos diálogos e uma aposta clara na força das imagens, dos sons e das atmosferas, “Pombal 350” demonstra maturidade narrativa e técnica. Em apenas sete minutos, o curta consegue criar um universo envolvente, onde o medo nasce muito mais da sugestão do que da explicação. O resultado é uma experiência de Terror psicológico eficiente, que valoriza o mistério e comprova como o suspense pode ser construído através de pequenos detalhes cuidadosamente organizados.




domingo, 4 de outubro de 2026

DE UM OUTRO LUGAR (2023)


        O curta-metragem “De um Outro Lugar” é uma envolvente obra de Terror psicológico que mergulha em uma narrativa marcada pelo mistério, pelo sobrenatural e pela curiosidade humana diante do desconhecido. A história acompanha as amigas Regina e Camila, que passam um tempo sozinhas em casa até que um objeto aparentemente inofensivo transforma completamente suas vidas. Regina compra pela internet um misterioso cristal negro, apresentado como uma espécie de ponte entre o mundo físico e o espiritual, e decide reproduzir um ritual aprendido através de tutoriais online. Essa escolha narrativa aproxima o sobrenatural da realidade contemporânea, mostrando como o fácil acesso à informação também pode abrir portas para perigos que vão muito além da compreensão humana.

         A dinâmica entre as protagonistas é um dos grandes acertos do filme. Regina, interpretada por Helena Sá, demonstra uma personalidade curiosa, impulsiva e determinada, sempre disposta a experimentar aquilo que desperta sua atenção. Já Camila, vivida por Thayná Máximo, funciona como o contraponto racional da dupla, demonstrando receio diante das ideias da amiga. Essa diferença de comportamento cria diálogos naturais e momentos leves, que tornam a relação entre as personagens bastante convincente. O humor presente nas primeiras cenas serve para aproximar o público das protagonistas e fazer com que a posterior escalada do horror tenha ainda mais impacto emocional.

        O roteiro e a direção conseguem equilibrar esses instantes descontraídos com a crescente atmosfera de suspense sem comprometer o ritmo da narrativa. Pelo contrário, quanto maior a identificação do espectador com as personagens, mais intensa se torna a sensação de perigo quando o ritual começa a produzir consequências inesperadas. As atuações de Helena Sá e Thayná Máximo reforçam esse processo, transmitindo espontaneidade tanto nas conversas cotidianas quanto nos momentos de medo, tensão e desespero. A naturalidade da dupla contribui significativamente para a credibilidade da experiência sobrenatural apresentada pelo filme.

            Conforme o ritual avança, a narrativa passa por uma transformação gradual bastante eficiente. O ponto de virada acontece quando Regina, já incomodada pelo som insistente de uma torneira pingando, acaba atravessando uma fronteira invisível e sendo transportada para outra dimensão. A escolha desse detalhe aparentemente banal demonstra inteligência narrativa, pois transforma um elemento cotidiano em gatilho para um acontecimento extraordinário. A partir desse momento, o mistério inicial evolui para um Terror psicológico muito mais intenso, conduzindo a protagonista a um espaço dominado por uma entidade conhecida como Oráculo.

        Aprisionada entre o mundo físico e o espiritual, Regina passa a enfrentar uma realidade completamente diferente daquela apresentada no início do filme. Sua luta para escapar desse limbo torna-se o eixo central da narrativa, enquanto o espectador acompanha sua crescente sensação de isolamento e impotência. As cenas ambientadas nessa dimensão paralela são especialmente eficientes por explorarem tanto o espaço reduzido da casa quanto a vastidão indefinida do universo espiritual, criando uma constante sensação de aprisionamento. Essa dualidade espacial contribui para aumentar a tensão e faz com que o público compartilhe a angústia vivida pela protagonista.

         Sob o aspecto técnico, “De um Outro Lugar” apresenta um trabalho bastante refinado. A fotografia utiliza enquadramentos cuidadosamente planejados e uma iluminação que acompanha as mudanças emocionais da história, estabelecendo diferenças claras entre o ambiente cotidiano e a dimensão sobrenatural. A direção de arte também merece reconhecimento por construir cenários ricos em detalhes, capazes de reforçar continuamente o clima de mistério. Cada escolha estética parece contribuir para tornar a transição entre os dois mundos mais convincente e visualmente envolvente.

         O figurino e a maquiagem desempenham papel igualmente importante dentro dessa construção. Em vez de recorrer a caracterizações exageradas, o filme opta por transformações discretas, porém extremamente eficientes. Essa abordagem mais contida torna o horror ainda mais inquietante, pois preserva uma sensação constante de estranhamento sem romper completamente com a realidade apresentada. Muitas vezes, aquilo que apenas é sugerido produz impacto muito maior do que qualquer efeito visual excessivamente explícito.

        A trilha sonora acompanha toda essa construção atmosférica com bastante precisão. Os sons e a música intensificam a sensação de suspense, acompanhando o ritmo da narrativa e ampliando emocionalmente cada momento vivido pelas personagens. O desenho sonoro também colabora para criar uma presença constante do sobrenatural, fazendo com que o espectador permaneça em estado de expectativa mesmo durante os momentos de aparente tranquilidade.

         Entretanto, o aspecto mais interessante de “De um Outro Lugar” talvez esteja em sua leitura contemporânea. Ao utilizar tutoriais encontrados na internet como meio de acesso ao sobrenatural, o filme estabelece uma relação bastante atual entre tecnologia, curiosidade e responsabilidade. Em uma época em que praticamente qualquer informação está disponível a poucos cliques de distância, a narrativa sugere que nem todo conhecimento deveria ser acessado sem reflexão. O ritual aprendido virtualmente funciona como metáfora para os riscos de explorar territórios desconhecidos apenas pela facilidade proporcionada pela tecnologia.

         A direção de Pedro Amaral demonstra sensibilidade ao unir essas questões contemporâneas aos elementos clássicos do Terror psicológico. O resultado é uma obra que não apenas constrói suspense de maneira eficiente, mas também estimula interpretações sobre os limites entre realidade, espiritualidade e percepção humana. “De um Outro Lugar” oferece uma experiência visualmente rica, sustentada por boas atuações, sólida construção técnica e uma atmosfera que permanece inquietante até seus momentos finais. Mais do que provocar sustos, o curta convida o espectador a refletir sobre os perigos da curiosidade excessiva e sobre aquilo que pode existir além daquilo que nossos sentidos conseguem compreender. 




quinta-feira, 16 de julho de 2026

A MANCHA NA PAREDE (2020)

 


Vivendo sozinha há algum tempo em uma casa, uma mulher percebe uma mancha na parede do quarto, ao lado do guarda-roupas. Deitada em sua cama, ela se levanta para observar melhor aquilo que chamou sua atenção. Vai até a cozinha, pega um pano úmido e retorna para limpar a marca. No entanto, quando volta ao local, a mancha simplesmente desapareceu. A partir desse acontecimento aparentemente banal, “A Mancha na Parede” inicia uma escalada de tensão que transforma algo cotidiano em uma experiência profundamente inquietante.

        “A Mancha na Parede” é mais uma excelente produção dirigida por Daniel Pires, o Lenda. Com grande precisão técnica, narrativa e dramática, o diretor constrói uma atmosfera aterrorizante baseada em um suspense psicológico que cresce gradualmente. O resultado é um curta que trabalha a ansiedade do espectador de maneira constante, especialmente pela forma como a entidade passa a interagir com a protagonista, interpretada por Juliana Seabra.

         Uma informação particularmente interessante surgiu em reportagens da época de lançamento. A ideia do filme nasceu quando Daniel Pires encontrou uma mancha atrás de um guarda-roupas em sua própria casa. A partir dessa descoberta simples e cotidiana, convidou Ricardo Martins para desenvolver o roteiro. O filme foi gravado na residência do próprio diretor durante o período inicial da quarentena da pandemia de 2020, circunstância que acaba dialogando de maneira curiosa com o próprio tema do isolamento presente na narrativa.

         Antes mesmo de assistir ao curta, algumas interpretações já se mostram promissoras ao observar sua sinopse e refletir sobre o significado simbólico de uma parede. Uma mancha pode ser resultado de infiltração, umidade, mofo ou qualquer outro problema doméstico comum. Justamente por isso, o filme encontra força em um dos mecanismos mais eficientes do horror: transformar algo familiar em algo assustador. O medo nasce quando aquilo que conhecemos deixa de obedecer às regras que esperamos.

         O fato de a mancha possuir forma humana amplia ainda mais essa sensação. Em um primeiro momento, ela pode ser interpretada apenas como uma coincidência visual provocada pela deterioração da parede. Porém, o filme parece utilizar exatamente essa possibilidade para converter um problema comum em uma presença sobrenatural. Dessa forma, a mancha deixa de representar um defeito da casa e passa a funcionar como uma invasão silenciosa dentro do espaço da protagonista.

        O isolamento da personagem intensifica significativamente o impacto do horror. Tradicionalmente associada à proteção e segurança, a casa passa a assumir também o papel de prisão psicológica. A protagonista está sozinha, sem apoio imediato e sem testemunhas para confirmar aquilo que vê. O horror não está do lado de fora esperando por ela. Ele já ocupa o mesmo espaço em que ela vive, dorme e tenta encontrar tranquilidade.

         Narrativamente, as paredes costumam simbolizar limites e fronteiras. Elas separam o interior do exterior, o conhecido do desconhecido, o seguro do perigoso. Quando a figura abandona a parede e atravessa essa barreira simbólica, ocorre uma ruptura importante dentro da narrativa. Algo que deveria permanecer oculto passa a ocupar diretamente o espaço da personagem, tornando sua experiência cada vez mais perturbadora.

         A silhueta humana é um dos elementos centrais da trama. Não se trata de uma mancha qualquer, mas de uma forma que remete imediatamente à figura humana. Isso ativa um mecanismo psicológico bastante conhecido, no qual o cérebro tenta identificar rostos e corpos em padrões aleatórios. Existe algo naturalmente desconfortável em observar uma forma que parece humana sem ser completamente humana. O filme explora essa sensação com habilidade, potencializando a aflição através de sons de passos e ruídos espalhados pela casa. Nesse contexto, também merece destaque o trabalho de Miguel Theodoro e da equipe de arte, que emprega maquiagem e efeitos de maneira muito eficiente.

         Sobre a entidade, diferentes interpretações permanecem possíveis. Ela pode representar um trauma do passado, uma vítima ligada a algum acontecimento trágico ou simplesmente uma manifestação sobrenatural maligna que escolheu a protagonista como alvo. O curta evita respostas definitivas e encontra força justamente nessa abertura interpretativa.

         “A Mancha na Parede” é um horror de construção psicológica, mas também um terror fantasmagórico que equilibra muito bem a deterioração emocional da protagonista com a presença concreta e ameaçadora da entidade. O filme nunca abandona completamente nenhuma dessas dimensões, fazendo com que ambas se fortaleçam mutuamente.

         A fotografia e a direção de arte possuem papel decisivo no resultado final. A casa realmente transmite a sensação de um ambiente assombrado, seja pelos tons escuros predominantes, seja pela escolha de móveis, quadros e objetos antigos que compõem os cenários. Um detalhe particularmente interessante está na utilização do celular para revelar a presença do menino em áreas escuras que escapam ao olhar da protagonista. O contraste entre tecnologia contemporânea e uma aparição que parece pertencer a outro tempo reforça a sensação de que aquela presença carrega uma história antiga.

        Outro grande acerto está na trilha sonora. Seja nos breves momentos de narração da protagonista ou na utilização dos sons cotidianos da casa, o filme demonstra compreender a importância do silêncio dentro do horror. Em vez de recorrer constantemente a efeitos sonoros exagerados, utiliza recursos mais marcantes apenas quando necessário, aumentando sua eficácia.

         Produzido com impressionante apuro técnico, narrativa instigante e um arco dramático muito bem estabelecido, “A Mancha na Parede” é um curta que prefere insinuar antes de revelar. Quando o caos finalmente se instala, o impacto é ainda maior. Daniel Pires demonstra mais uma vez sua capacidade de construir histórias assustadoras, transformando um elemento banal do cotidiano em uma experiência genuinamente perturbadora.




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

PANDEMÔNIO (2024)

 


Com uma abordagem criativa e muito bem estruturada, “Pandemônio”, escrito e dirigido por Caio dos Santos, se destaca como um Terror sólido e inteligente, que dialoga com o Suspense e outros subgêneros do horror sem jamais perder sua identidade própria. O curta aposta menos em fórmulas prontas e mais na construção gradual de tensão, criando uma experiência incômoda e perturbadora para o espectador desde os primeiros minutos.

Um dos grandes diferenciais de “Pandemônio” está na divisão da narrativa em quatro atos muito bem definidos. O primeiro funciona como uma apresentação clara e objetiva do protagonista, de sua equipe e do tipo de trabalho que realizam. Esse momento inicial é essencial para estabelecer o tom do filme e criar uma relação de confiança com quem assiste. A partir daí, os atos seguintes intensificam progressivamente o impacto da narrativa, combinando escolhas dramáticas precisas com um arco narrativo extremamente bem executado e um uso técnico consciente, que prepara o terreno emocional para cada nova etapa da história.

A obra parte do universo de Phantom, um youtuber especializado em investigar e resolver casos sobrenaturais. Essa escolha é particularmente eficiente, pois utiliza uma linguagem contemporânea e familiar ao público. Logo no início, o personagem explica sua atuação, a dinâmica de sua equipe e apresenta o pedido de ajuda de uma família que vive atormentada por fenômenos paranormais. Essa introdução não apenas contextualiza a trama, como também posiciona o espectador dentro da lógica do filme, quase como se fosse um usuário acompanhando um conteúdo real da plataforma digital.

Caio dos Santos demonstra grande domínio ao inserir o público na narrativa a partir da chamada de Phantom. A imersão se constrói de forma paciente e precisa, sem pressa ou excesso de informações. O protagonista percorre a residência, apresenta os cômodos, descreve objetos comuns e relata o histórico de eventos estranhos. Tudo parece comum à primeira vista, mas essa normalidade aparente é justamente o que potencializa o desconforto, pois o espectador sente que algo está fora do lugar, mesmo quando nada de explícito acontece.

A fotografia é um elemento central na construção do terror do curta. O uso da câmera subjetiva dentro da proposta de found footage aproxima ainda mais o público do protagonista e do seu trabalho. Quem assiste deixa de ocupar uma posição passiva e passa a assumir o papel de alguém que acompanha, em tempo real, aquela investigação. As mudanças sutis de perspectiva ao longo do filme, quando a câmera passa por outras mãos, são decisões extremamente acertadas, pois ampliam a sensação de instabilidade e perda de controle.

“Pandemônio” assusta justamente pelo que escolhe não mostrar. A ausência visual se torna uma poderosa ferramenta narrativa. O silêncio prolongado, aliado à trilha sonora utilizada de forma pontual, constrói uma atmosfera sufocante, marcada pela sensação de aprisionamento e impotência. O uso de jumpscare é restrito a um único momento, o que demonstra maturidade e consciência estética. Em vez de recorrer a sustos constantes, o filme prefere investir na tensão psicológica e no desconforto crescente.

Outro grande mérito da obra está na combinação entre elementos internos do espaço e informações externas que chegam gradualmente ao protagonista. Enquanto o espectador percebe que algo não está certo dentro do apartamento, mensagens enviadas por um membro da equipe revelam coisas cada vez mais perturbadoras. Cada nova informação amplia o horror e reforça a ideia de que a situação é muito mais grave do que parecia inicialmente. O passeio contínuo da câmera pela casa, sem cortes abruptos ou exageros estilísticos, contribui para uma experiência orgânica e profundamente inquietante.

“Pandemônio” escolhe um caminho narrativo claro e segue por ele com convicção. O filme não tenta se impor por meio de excessos, mas se permite existir dentro de sua própria lógica, criando medo a partir de movimentos silenciosos, detalhes sutis e da sensação constante de ameaça invisível. O terror nasce da expectativa, da dúvida e da impossibilidade de compreender plenamente o que está acontecendo naquele espaço.

O medo se torna ainda mais real justamente porque o desconhecido nunca se revela por completo. As mensagens recebidas por Phantom são encaixadas com extrema precisão no ritmo do filme. A cada nova revelação, a tensão aumenta e o espectador se sente cada vez mais preso àquela situação. A história da família que habita a residência é construída de tal forma que o próprio apartamento assume o papel de um personagem vivo, carregado de memórias, dor e violência.

Unindo um texto bem elaborado a escolhas técnicas extremamente conscientes, Caio dos Santos extrai o máximo de cada elemento da narrativa. Fotografia, direção de arte, trilha sonora, montagem e som trabalham em plena sintonia, resultando em um curta de Terror que incomoda, perturba e permanece na memória. “Pandemônio” não apenas assusta, mas provoca, deixando claro que o verdadeiro horror pode estar escondido nos detalhes mais silenciosos.

Merecidamente, “Pandemônio” foi premiado no Festival Internacional de Pernambuco, recebendo menção honrosa na décima edição do Brazil New Visions Film Fest, seleção no Kino Toy Fest e Festival Internacional de Brasília.




domingo, 14 de setembro de 2025

ASTARTE (2017)

 


O curta-metragem "Astarte" mergulha profundamente no Terror sobrenatural e paranormal, abordando uma narrativa envolvente e cheia de tensão. A trama gira em torno de um grupo de amigos que, motivados pela curiosidade e pelo fascínio pelo oculto, decidem utilizar um tabuleiro ouija para tentar se comunicar com os mortos. O que começa como uma tentativa aparentemente inocente de explorar o desconhecido rapidamente sai de controle quando um demônio surge, possuindo cada um dos amigos de forma progressiva.

Com direção e roteiro de Danilo Morales, o curta se destaca não apenas pelo seu enredo, mas também pela sua habilidade em construir uma atmosfera densa e assustadora. Desde os primeiros momentos, "Astarte" usa a estética visual e sonora de forma magistral para intensificar o medo e o suspense. A fotografia do filme é sombria, com tons que alternam entre luzes baixas e sombras profundas, criando um ambiente quase sufocante. Esse trabalho visual é acompanhado por uma direção de arte minuciosa que reforça a sensação de isolamento e perigo iminente, enquanto a trilha sonora inquietante marca cada reviravolta com precisão, intensificando o pavor à medida que os eventos se desenrolam.

O uso de efeitos práticos e maquiagem no filme é outro elemento que merece destaque. O visual das possessões é cuidadosamente trabalhado para transmitir uma sensação de realismo perturbador. Cada transformação dos personagens sob a influência da entidade é marcada por detalhes de maquiagem que reforçam o horror gráfico e psicológico, criando uma conexão visceral com o público. Essas escolhas criativas fazem com que o ambiente de "Astarte" seja sinistro, estabelecendo uma sensação de que o perigo pode surgir a qualquer momento, tornando as possessões ainda mais assustadoras e impactantes.

O elenco, composto por Tamires Osses, Fercho Vilela, Erick Camargo, Stephanie Gomes, André Paixão, Loraine Ribeiro e André Machado, entrega atuações que elevam a qualidade do curta. A química entre os atores e a maneira como eles retratam o desespero e o medo crescente contribuem significativamente para a imersão da narrativa. Cada personagem é explorado de forma a criar uma sensação de proximidade com o espectador, que acompanha sua jornada no terror absoluto à medida que a situação se torna cada vez mais insustentável.

Um dos aspectos mais interessantes de "Astarte" é sua abordagem da mitologia judaico-cristã, trazendo à tona a figura da entidade que dá nome ao curta. Astarte, originalmente uma deusa venerada no antigo Oriente Médio, foi posteriormente associada a forças malignas na tradição cristã, sendo equiparada a Astaroth, um dos grandes demônios da demonologia medieval. Essa reinterpretação da figura mitológica é explorada de forma inteligente no curta, dando à narrativa uma profundidade mitológica e simbólica. A introdução desse demônio não apenas alimenta o horror gráfico, mas também proporciona um forte impacto psicológico nos personagens, pois a presença de Astarte desafia sua compreensão do que é real e do que é sobrenatural.

Além do terror explícito, "Astarte" também aposta em uma carga emocional e psicológica intensa. Conforme os amigos vão sendo possuídos, o curta explora os sinais do desespero e da impotência diante de forças incontroláveis. O uso da câmera próxima aos personagens aumenta a sensação de proximidade com a situação aterradora, causando um incômodo necessário para “sentir” o filme. O curta adota uma técnica de filmagem ágil, com movimentos rápidos, ângulos fechados e cortes repentinos, o que amplifica a tensão e gera uma atmosfera imprevisível. Essa escolha é eficaz para manter o espectador tenso, sentindo-se tão impotente quanto os personagens diante do caos que os envolve.

"Astarte" é, sem dúvida, um curta obrigatório para os fãs do gênero de Terror, especialmente aqueles que apreciam narrativas de possessão demoníaca e terror psicológico. Com uma direção segura e eficiente de Danilo Morales, o filme demonstra que, mesmo com recursos limitados, é possível criar uma obra cinematográfica que assusta e intriga, utilizando-se de recursos técnicos e narrativos com precisão. O filme é um excelente exemplo de como o Terror pode ser construído com base na simplicidade e criatividade, criando uma experiência imersiva e aterrorizante.

Com uma mistura de horror gráfico, possessão e elementos psicológicos, "Astarte" é um curta poderoso que explora os medos primitivos do desconhecido e do sobrenatural de forma muito eficiente.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...