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sábado, 17 de outubro de 2026

CONTOS DA MARÉ (2013)

 


        Dirigido por Douglas Soares, “Contos da Maré” é um Documentário que mergulha nas raízes do Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, e revela, por meio de histórias e lendas, como essa área da cidade foi se formando e ganhando vida ao longo das décadas. Antes da construção da Avenida Brasil, o local era ainda mais isolado do restante da capital fluminense, e esse distanciamento físico contribuiu para a formação de uma identidade própria, rica em narrativas populares e tradições que ajudaram a moldar o imaginário coletivo de seus moradores.

Com um roteiro elaborado por Douglas Soares e Allan Ribeiro, “Contos da Maré” utiliza uma narrativa fluida e cativante, intercalando imagens e depoimentos de antigos moradores da comunidade. Esses depoimentos não apenas relatam como o Complexo da Maré se desenvolveu em termos de infraestrutura e população, mas também revelam o lado mais mágico e misterioso da região. À medida que a urbanização avançava, histórias e lendas locais começaram a surgir, criando um tecido cultural que uniu a população. O Documentário explora essas narrativas com sensibilidade, abordando lendas que incluem figuras como o lobisomem, a mulher-cobra e o bebê-porco, mitos que até hoje ecoam na memória coletiva do lugar.

Dividido em segmentos, “Contos da Maré” se destaca por seu uso da oralidade, que dá vida a essas lendas e faz com que o espectador compreenda o poder das histórias transmitidas de boca em boca. Através das vozes dos moradores, o filme resgata a importância dessas tradições e seu papel na construção de um senso de pertencimento à comunidade. O medo e o fascínio provocados por essas lendas não apenas entretêm, mas também criam laços entre os habitantes, fortalecendo o tecido social. Independentemente de serem verdadeiras ou não, essas histórias foram transmitidas de geração em geração, funcionando como uma espécie de elo entre os mais velhos e os mais jovens.

O Documentário também aborda a dicotomia entre passado e presente, destacando a gradual perda de interesse dos mais jovens por essas tradições orais. A percepção de que, ao deixar de acreditar nessas histórias, elas começam a desaparecer, traz um tom nostálgico e até romântico aos depoimentos dos moradores mais antigos. O filme trata essa transição com delicadeza, mostrando que as lendas, outrora tão vivas no imaginário da comunidade, estão desaparecendo conforme novas gerações se afastam dessas tradições.

No entanto, “Contos da Maré” vai além de um simples registro folclórico. O trabalho de pesquisa é extremamente cuidadoso, permitindo que o Documentário capture não apenas a essência das lendas, mas também o contexto geográfico e social da Maré. A câmera de Soares percorre cada canto da comunidade, revelando os detalhes da vida cotidiana no Complexo e ao mesmo tempo oferecendo uma visão mais ampla de como ele se insere na cidade do Rio de Janeiro. A montagem e a direção de fotografia contribuem significativamente para criar uma atmosfera que mistura o real e o mítico, enquanto a trilha sonora evoca o clima de mistério e nostalgia que permeia as histórias contadas.

Do ponto de vista técnico, “Contos da Maré” se destaca pela excelência em diversos aspectos. A fotografia, em especial, captura não apenas as paisagens e o cenário urbano da Maré, mas também os rostos e expressões de seus habitantes, imersos em suas lembranças e histórias. A montagem hábil, porém contemplativa, permite que o filme flua de forma orgânica, conectando as diferentes partes do Complexo, seus moradores e o espectador. A trilha sonora, discreta, mas eficaz, reforça a atmosfera de mistério que cerca as lendas, enquanto o design de som insere o espectador no ambiente sonoro da comunidade, tornando a experiência ainda mais imersiva.

“Contos da Maré” é mais do que um simples Documentário. Ele é uma homenagem ao sentimento popular, uma celebração da cultura local e um registro valioso de histórias que, embora possam estar desaparecendo, fazem parte da história viva do Complexo da Maré. Com muito carinho, respeito e sensibilidade, o filme trata cada história e depoimento com o devido cuidado, reconhecendo o valor cultural e histórico dessas narrativas. Ao assistir ao curta, o espectador é convidado a mergulhar nesse mundo de lendas e memórias, percebendo que, por trás de cada relato, há um pedaço da identidade de um povo que lutou para construir sua própria história em meio às dificuldades e desafios de uma vida à margem da cidade grande.

 “Contos da Maré” é uma obra indispensável para quem busca entender não apenas o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, mas também as histórias e tradições que moldaram o coração de uma das comunidades mais emblemáticas da cidade.


"Contos da Maré" está disponível no Canal Curta!

terça-feira, 19 de novembro de 2024

O SELVAGEM (2016)

 


Em seus quase cinco minutos, “O Selvagem” é um curta que tem um ritmo narrativo muito bem produzido. E o filme supera expectativas, justamente por mostrar pouco, porém, com intensidade. Talvez o maior medo que alguém que esteja numa mata possa sentir é o perigo que ronda. E o diretor Lucas Piaceski faz isso de forma muito consciente, precisa e certeira no curta que mescla Fantasia e Terror.

Embora o homem que entra na mata, à procura de água, esteja armado, o Saci não é a maior ameaça. Andar por um lugar desconhecido se torna o maior perigo, ainda mais quando o personagem se fere gravemente.

Por se tratar de uma figura mítica, o filme pode considerar o Saci como uma figura que se materializa frente o caçador, mas também se pode considerar o fato do personagem principal estar perdendo sangue. Se quisermos fazer uma abordagem mais metafísica, o filme gera um impacto muito interessante. Mas também, se a pessoa decidir por uma abordagem mais materialista, o impacto também é bastante forte. E estar aberto para esses tipos de abordagens é por mérito do texto e da direção.

Wagner Piaceski interpreta o jovem caçador que deixa o carro na beira da estrada e se aventura na mata, enquanto que Henrique Bressan está na pele da lendária criatura do folclore brasileiro.

Apesar do filme ter o idioma inglês, isso não interfere na essência da lenda e da proposta do filme. O principal fator do filme é a situação do protagonista e, sendo estrangeiro ou brasileiro, há justificativas para a ação dele logo após o surgimento do Saci. O medo impulsiona a atitude tomada pelo caçador.

Ao propor um encontro entre a vida ou morte, o bem ou mal, ou selvagem ou civilizado, a trama nos faz refletir sobre quem é bom ou mau, quem escolhe a vida ou a morte e quem é selvagem ou civilizado. E esses questionamentos são feitos porque talvez a ameaça seja um e não o outro. “O Selvagem” articula muito bem essas relações de confronto e o filme deixa em aberto o que cada um escolhe. É um filme muito bem produzido, com uma resolução final totalmente surpreendente e aterrorizante.




 

SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...