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terça-feira, 10 de março de 2026

TERESA – UMA COMÉDIA ANTROPOFÁGICA (2017)

 


Com roteiro e direção de Raphael Janeiro, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se destaca pela impressionante fusão entre elementos da Comédia, do Policial e da Fantasia. Com um humor ácido e referências muito bem encaixadas, o curta combina de forma extremamente eficiente elementos narrativos, dramáticos e técnicos, construindo uma experiência que mistura absurdo, ironia e criatividade. Desde os primeiros minutos, o espectador percebe que está diante de uma obra que se permite brincar com diferentes linguagens e estilos, transitando entre o cotidiano e o inesperado com grande naturalidade.

         Marlon e James, interpretados por Raphael Janeiro e Vitor Peres, respectivamente, demonstram uma química que funciona de maneira brilhante. A relação entre os dois é um dos grandes motores da narrativa. Eles conversam sobre um pouco de tudo, concordam em algumas coisas e discordam em outras, sempre com um tom descontraído que aproxima o público de suas personalidades. Apesar de serem assassinos de aluguel, enxergam o mundo como pessoas comuns, com gostos, preferências e opiniões bastante particulares. Em meio a conversas aparentemente banais, revelam interesses curiosos, discutindo desde tipos físicos femininos até estilos musicais, o que cria um contraste curioso entre a violência da profissão e a leveza de suas interações.

         Um dos elementos centrais do curta é a discussão acerca das performances de Elvis Presley no palco. Marlon desenvolve uma teoria divertida para explicar o fato de, provavelmente, o cantor norte-americano ter sido uma das figuras do Ocidente que mais se relacionou com mulheres ao longo da vida. Segundo ele, isso estaria diretamente ligado à maneira como Elvis se movimentava no palco, com sua famosa dança que enfatizava o quadril, o que lhe rendeu o apelido “Elvis The Pelvis”. A conversa, aparentemente trivial, ganha um tom quase filosófico dentro da lógica peculiar dos personagens, demonstrando como o roteiro encontra humor em situações inesperadas.

         É justamente em um bar, durante essa discussão animada, que os dois parceiros conhecem Robson, um homem que demonstra interesse em se juntar à dupla. A princípio, sua presença parece apenas mais um encontro casual na trajetória dos personagens. No entanto, pouco a pouco, Robson assume um papel fundamental dentro da trama, sendo o responsável por conduzir James até uma figura envolta em mistério e poder dentro do universo criminal: o temido líder conhecido como “Americano”.

         Neste ponto, merece destaque o trabalho de Vinícius Marins, no papel de Robson, e de Marcos Caruso, interpretando o Americano. Ambos entregam atuações marcantes que ampliam ainda mais a força do filme. A presença de Caruso em cena carrega uma autoridade natural que ajuda a construir a aura quase mítica do personagem. Já Robson funciona como uma espécie de elo narrativo entre diferentes momentos da história, contribuindo para que os acontecimentos se conectem de maneira orgânica.

         As interações entre os personagens se desenvolvem com fluidez e naturalidade, revelando a qualidade do texto e a segurança da direção. Raphael Janeiro demonstra domínio na condução das cenas, permitindo que o humor surja tanto das falas quanto das situações. O ritmo narrativo é bem dosado e mantém o espectador constantemente envolvido, sempre curioso para descobrir quais serão os próximos acontecimentos dentro daquele universo peculiar.

               O Americano surge como uma figura que desperta fascínio tanto em James quanto em Marlon. A reputação do personagem, construída por meio de relatos e expectativas, cria uma curiosidade crescente. No entanto, o destino altera o rumo dos acontecimentos. Após a morte de Marlon, apenas James acaba sendo conduzido até o encontro com o criminoso. Esse momento representa uma mudança significativa na trajetória da narrativa, pois abre espaço para novas possibilidades dentro da história e aprofunda ainda mais a dimensão dramática do personagem.

         “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” transita com grande habilidade entre diferentes gêneros para construir uma trama sólida, coerente e extremamente divertida. Os personagens são bem delineados e possuem características próprias que os tornam memoráveis. Cada figura que surge na história acrescenta uma camada nova ao universo apresentado, fazendo com que as situações, por mais absurdas que pareçam, encontrem uma lógica interna convincente.

         Os acontecimentos do filme carregam um tom surreal que dialoga diretamente com a proposta antropofágica sugerida pelo título. O absurdo aparece não apenas como recurso humorístico, mas também como ferramenta narrativa para ampliar o impacto dramático de determinadas situações. Essa combinação entre humor, estranheza e criatividade resulta em momentos inesperados que surpreendem e divertem o espectador.

            Nada parece fora de lugar dentro da estrutura do curta. Cada detalhe narrativo encontra uma função ao longo da história, inclusive no desfecho, que surge como consequência natural dos acontecimentos apresentados anteriormente. Muito dessa eficiência se deve à maneira como os elementos técnicos se integram à narrativa. Fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora trabalham em perfeita sintonia, ampliando a identidade visual e sonora do filme.

         A qualidade do trabalho técnico é perceptível em diversos momentos. A fotografia contribui para criar atmosferas distintas conforme a narrativa avança, enquanto a montagem mantém um ritmo dinâmico que valoriza tanto o humor quanto a tensão das situações. A trilha sonora também exerce um papel importante ao reforçar o tom irreverente e imprevisível da obra, acompanhando as mudanças de energia entre as cenas.

         Repleto de referências à cultura pop, ao cinema e a artistas importantes, “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” se apresenta como uma obra inventiva e cheia de personalidade. Essas referências surgem de maneira orgânica dentro da narrativa, dialogando com o humor e com a proposta estética do filme. O resultado é um curta criativo, que diverte e entretém ao mesmo tempo em que demonstra um cuidado evidente em sua construção.

         Ao manter uma coesão narrativa consistente do primeiro ao último minuto, o filme prova que é possível combinar gêneros, ideias e referências sem perder o foco da história. “Teresa – Uma Comédia Antropofágica” é uma comédia ousada, inteligente e extremamente envolvente, capaz de conquistar o espectador com seu humor peculiar, suas situações inesperadas e a energia criativa que atravessa toda a obra.




quinta-feira, 9 de outubro de 2025

PROGRAMA DE PROTEÇÃO À CARREIRA ARTÍSTICA, EM QUE POSSO AJUDAR? (2023)

 


“Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” é um curta-metragem que mistura, de forma habilidosa e provocativa, Drama, Comédia e Suspense, conduzindo o espectador por uma narrativa marcada pelo humor ácido e por uma crítica cortante à indústria cultural contemporânea. Com direção de Manu Gavassi e Gabriel Dietrich, o filme apresenta uma artista que, cansada de seu afastamento do cenário musical, procura o misterioso serviço do chamado “Programa de Proteção à Carreira Artística”, acreditando que ali encontrará a chance de retomar sua trajetória.

O roteiro, da própria Manu Gavassi, é uma peça afiada, inteligente e ousada, que revela os sintomas de um modelo de arte cada vez mais padronizado, em que a autenticidade e a originalidade de um artista são frequentemente sufocadas por exigências de mercado. A narrativa desconstrói o glamour superficial da indústria cultural e evidencia a lógica perversa que transforma a expressão artística em produto, expondo a forma como a arte, em nome da popularidade, é desfigurada e moldada ao gosto das massas.

Manu Gavassi entrega uma atuação dupla impecável, interpretando tanto a cantora que deseja reencontrar sua voz quanto a atendente impassível da empresa. As duas personagens são antagônicas e, ao mesmo tempo, complementares. De um lado, há o desejo genuíno de criar, cantar e ser ouvida. Do outro, o sistema impessoal, frio e calculista, que dita tendências, impõe estéticas e define o que é “vendável”. A atendente, com sua voz robótica e seus pacotes absurdos de “reabilitação artística”, representa o poder desumanizador da indústria, que transforma artistas em marionetes de algoritmos e estratégias de marketing.

A tensão cresce à medida que a artista tenta resistir, mas suas tentativas são esmagadas por um discurso padronizado. O filme acerta em cheio ao evidenciar o absurdo travestido de normalidade, como se fosse natural que um artista precisasse se enquadrar em moldes que anulam sua própria identidade. É nesse ponto que o curta brilha: o que poderia facilmente se tornar uma paródia ou uma comédia de esquetes, nas mãos de outro diretor, aqui ganha profundidade, ironia e uma crítica mordaz, equilibrando perfeitamente humor e desconforto.

As atuações são intensas, e a química entre as duas “versões” da própria Manu potencializa a força dramática da obra. A atendente jamais perde a compostura, suas falas são precisas, calculadas, robóticas, enquanto a artista, aos poucos, se fragmenta emocionalmente diante da impossibilidade de conciliar autenticidade e aceitação. Essa dualidade é uma metáfora poderosa do conflito que tantos criadores vivem: a arte como necessidade versus a arte como produto.

A direção de Gabriel Dietrich e Manu Gavassi imprime ritmo e sofisticação à narrativa, apoiada por uma produção visual impecável. A fotografia reforça o clima opressivo com tons frios e iluminação controlada, que ressaltam o contraste entre o artificial e o humano. A montagem, com seus cortes secos e às vezes abruptos, intensifica a sensação de claustrofobia e submissão, interrompendo falas da artista e acentuando sua impotência diante da máquina cultural.

A trilha sonora desempenha um papel essencial: um ruído constante e incômodo permanece ao fundo, funcionando quase como a materialização do desconforto interno da protagonista. Esse som, que parece vir de dentro da própria estrutura da empresa, é ao mesmo tempo moderno e perturbador, marcando o compasso da decadência emocional da artista até o desfecho, um final que é, ao mesmo tempo, simbólico, crítico, profundamente poético e perturbador.

Com apenas sete minutos, “Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” consegue condensar uma crítica feroz à engrenagem cultural contemporânea, em que a individualidade é sacrificada em nome de números, engajamento e estética. O curta transcende a crítica à música pop e alcança outras esferas da arte, incluindo o cinema, a televisão e as redes sociais, espaços em que a linha entre expressão e mercadoria se torna cada vez mais tênue.

O resultado é uma obra densamente simbólica e surpreendentemente madura, que faz refletir e desconcertar na mesma medida. Com roteiro afiado, atuações inspiradas e uma direção de arte impecável, o curta reafirma Manu Gavassi como uma artista consciente e criativa, capaz de ironizar a um tipo de indústria que engole artistas e entrega enlatados com rótulos. “Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” é um espelho, ácido, sarcástico e necessário, sobre o preço da autenticidade em tempos de padronização.




quarta-feira, 24 de setembro de 2025

MARIANE COM E (2015)

 


Tinha tudo para ser apenas mais um dia normal de testes para seleção de atriz para um comercial. Eis que chega Mariana... ops, Mariane. Já no local, Mariane, interpretada de forma magistral por Antoniela Canto, nota que, talvez ela não esteja apta para a vaga, mesmo antes do início da gravação do teste. Mesmo assim, Mariane dá o seu melhor, na intenção de reverter uma situação adversa. E quando ela percebe que não funcionou, a sua reação é extrema, insana e totalmente surpreendente.

O cinegrafista faz o seu papel, a responsável pelos contatos com as atrizes não dá tanta importância para atrizes que não têm o perfil desejado. A explosão de Mariane arranca risos, porque ela quer muito fazer aquele papel, ela quer muito participar daquele comercial.

“Mariane com E” tem roteiro de Antoniela Canto e Fernando Sanches, sendo ele o responsável pela direção. O curta consegue prender a atenção do espectador e surpreender a cada sequência. O filme tem muitos momentos tensos, mas também cômicos. Fernando Sanches extrai o máximo do texto, com cada ação produzida de forma pontual. Enquanto isso, Antoniela entrega uma atuação perfeita, densa e inesquecível. Juntando às outras atuações e aos elementos técnicos, como fotografia, arte, montagem e trilha sonora, “Mariane com E” torna-se uma das melhores comédias brasileiras em curta-metragem.

Todos os personagens têm suas motivações. Se os responsáveis pelo comercial veem que Mariane não tem o perfil desejado, Mariane, num ato de desespero, enxerga que não pode perder aquela oportunidade; e ela fará o possível e impossível para não perder aquela vaga. O curta faz uso de uma comédia extremamente inteligente, que consegue transmitir as sensações dos personagens de maneira leve e engraçada.

Mas “Mariane com E” não é apenas um curta-metragem de comédia que mostra uma atriz que deseja profundamente a aprovação para um comercial. O curta traz uma crítica importante de como, a partir de certa idade, profissionais são descartados e passam a ser rejeitados reiteradamente. A má vontade da assistente de direção, interpretada brilhantemente por Gabriela Fortanell, demonstra o quanto uma atitude pode afetar alguém que está desesperado por um emprego. E essa dinâmica entre as personagens de Antoniela e Gabriela é um dos pontos mais fortes do curta, pois expõe os dois opostos dentro da trama. Uma tem o poder de escolher ou não, enquanto a outra, praticamente, precisa se humilhar. Não que a atitude de Mariane seja correta, mas é até certo ponto compreensível. E lógico, que dentro de uma obra audiovisual de comédia, o absurdo se torna engraçado e divertido.

“Mariane com E” conta ainda com Fernando Rios, Fábio Acorsi, Pablo Perosa, Simonia Queiroz, Paulo Passaro, Mauricio Bittencourt, Leticia Rossetti, Mari Kato e Carol Mendes. E todos os personagens, desde os que estão do início ao fim, e os que têm apenas uma fala, funcionam perfeitamente.

Fernando Sanches demonstra uma habilidade impressionante ao conduzir uma trama densa e cheia de camadas que se passa em um único ambiente. Em nenhum momento, o filme entra no marasmo ou demonstra alguma queda. Pelo contrário, até seu último segundo, “Mariane com E” se mostra como uma comédia potente, forte e instigante. É aquele filme que pede para ser revisitado de tempos em tempos. O filme tem seu lado cômico, divertido, que entretém, mas também é uma forte crítica ao mercado, que, com suas demandas, desumaniza pessoas conforme seus interesses.




quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONTRA-FILÉ (2019)

 

                Produzido com muita eficiência e competência, “Contra-Filé” é uma excelente Animação que mescla com os gêneros Suspense e Thriller. Com direção, roteiro, produção, fotografia e montagem de Pedro Iuá, o curta tem uma atmosfera densa e tensa que sintonizam perfeitamente com o humor ácido e mórbido.

         A trama utiliza uma quebra narrativa, apresentando primeiramente um homem amarrado e ensanguentado. Posteriormente, o curta apresenta o protagonista em sua residência, sendo acordado pelo toque do telefone e um aviso para que fugisse do local, pois pessoas estariam a caminho e ele iria sofrer as consequências. A voz ao telefone lhe aconselha a comprar 60 ou 70 quilos de carne no açougue em frente à sua casa, colocar dentro de seu carro, espalhar alguns fios de cabelos, tocar fogo no local e desaparecer o quanto.

         Ele corre ao açougue, porém a fila cresce rapidamente. Um dos principais acertos de “Contra-Filé” é aliar o sentimento de desespero do protagonista com os diálogos e a forma como Seu Leitão (dono do açougue), Zé Tripa e Valdecir conversam sobre os tipos de carnes e as formas como manusear instrumentos de cortes. Os personagens ganham voz de Almir Martins, Antonio Perez Gonzalez e Gustavo Ottoni, respectivamente. O curta conta ainda com Otto Júnior como a voz ao telefone. A lentidão do atendimento contrapõe com o senso de urgência do protagonista, que precisa o mais rápido possível de carne.

          Os realizadores acertaram em cheio em deixar no ar o porquê da situação, de homens estarem atrás do personagem principal. O que sabemos é que são pessoas violentas e que chegam ao local, quando ele ainda está na fila do açougue.

         Não tendo escapatória, termina sendo agredido violentamente por um homem, enquanto outro, que manuseia algumas bolinhas nas mãos, ordena por mais agressões. Certo é que o protagonista tem algum tipo de acerto de conta com aquele homem, que aparenta ser chefe de um grupo criminoso. O protagonista fica totalmente exposto para a morte, estando nas mãos dele.

         Com cortes rápidos em alguns momentos, “Contra-Filé” tem uma montagem muito bem elaborada que combina com os sensos de perigo e urgência do personagem. Outro elemento técnico muito bem executado é som e trilha sonora, que transmite as sensações de suspense e acidez de um curta com uma narrativa extremamente fluida e surpreendente.

         A direção de animação é de Pedro Iuá, com cenários de Alessandra Vilela, Roberto Custódio, Pâmela Peregrino, Antonia Muniz e do próprio Iuá, assim como na concepção e modelagem de bonecos e objetos, que contam com o trabalho de Antonia Muniz, Miguel Martins e Beatriz Lima.

            “Contra-Filé” é uma Animação que trabalha em sua narrativa com o subgênero de Crime e tem uma produção muito caprichada, combinando muito bem os elementos narrativos e dramáticos aos elementos técnicos. É um curta que extrai o máximo do que tem à disposição, demonstrando a incrível competência dos envolvidos no projeto.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

EM CIMA DO MURO (2019)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
Neste excelente curta conhecemos Amélia, uma solitária mulher que encontra refúgio na internet e nas redes sociais para diminuir a sua sensação de solidão. Amélia é interpretada de forma magistral por Nayara Homem.

         A sequência inicial, com Amélia avisando as pessoas de que ela está indo para uma “baladinha top” já revela como muitas pessoas, assim como Amélia, precisam usar as redes sociais para mostrarem uma vida que não têm, uma felicidade inexistente e uma realização ilusória.

         “Em Cima do Muro” demonstra com perfeição, através de um Musical muito bem inserido na trama, que Amélia tenta trazer a sua suposta felicidade do mundo virtual para o mundo real. O Musical traz leveza e fluidez para a trama, à medida que dá uma dimensão do buraco em que Amélia vive.

         “Em Cima do Muro” trabalha através da perspectiva da necessária aprovação que muitas pessoas desejam ter o tempo todo, através de likes, comentários e reações. Porém, o mundo virtual pode ser (e é) bem perigoso, onde um simples comentário pode gerar uma situação de conflito extremamente desgastante. Infelizmente, ainda hoje, muitos campos nas redes sociais costumam ser “terra sem lei”, onde agressões, ofensas e ameaças rolam soltas.

         O “bom dia” de Amélia logo dá lugar a uma enxurrada de comentários ofensivos, após ela ser vítima de um cancelamento virtual. O perigo desse tipo de situação é que o mesmo é executado em “efeito manada”, o que pode atingir diretamente uma pessoa, o seu emocional e o seu psicológico. O curta mostra como Amélia ingere todos os ataques contra si e, num determinado momento, é necessário vomitar tudo o que terminou a atingindo e a corroendo por dentro.

        Com elementos técnicos e narrativos refinados, a diretora e roteirista Hilda Lopes Pontes se destaca pela ótima condução de “Em Cima do Muro”. A narrativa é fluida e muito bem pontuada por uma fotografia, arte, trilha sonora, figurino e maquiagem que constroem de forma perfeita o universo de Amélia. O arco dramático funciona como o espelho dos sentimentos, desejos e frustrações da protagonista. O filme tem ainda em seu elenco, Enoe Lopes Pontes, Karol Senna, Luisa Prosérpio, Paula Lice, Marcelo Praddo, Vinícius Bustani.

         “Em Cima do Muro” traz à tona um debate atual e necessário, que afeta as relações sociais e, em grande parte, contribui para muitos problemas de ordem psicológica e psiquiatra um grande número de pessoas. De forma inteligente e criativa, os realizadores fazem uma crítica pontual e urgente sobre os malefícios que a necessidade extrema que as mídias sociais podem causar.


"Em Cima do Muro" está disponível no perfil da Olho de Vidro Produções no Vimeo: https://vimeo.com/334181012/99a2b1c6c6

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

OS IRMÃOS WILLIANS (2000)

 







A Comédia em Animação narra a história dos irmãos gêmeos Willians. Era meia-noite e cinco, quando os treze filhos nasceram numa humilde comunidade paulistana, causando confusão entre a mãe, que tinha contado 13, mas só encontrou 12, e o pai, que, quando chegou em casa e viu os filhos, achou que uma ratazana tinha dado cria novamente.

         “Os Irmãos Willians” é uma Animação hilária, que narra o destino de cada um dos irmãos, até sobrarem quatro, que decidiram criar uma banda de pagode. Tendo Lucifério como empresário, a banda dos irmãos idênticos explodiu com o primeiro sucesso “Campainha da Vizinha”. Porém, cada um dos irmãos teve um fim triste e trágico, deixando uma legião de fãs órfãos.

        O curta tem ótimos elementos narrativos e dramáticos. A ambientação num contexto de pseudodocumentário é uma sacada excelente, propondo uma narrativa divertida, engraçada e dinâmica. O texto é muito bem explorado pelo diretor Ricardo Dantas, que também é roteirista do curta.

         Com uma ótima técnica de animação stop-motion, fotografia e trilha sonora, “Os Irmãos Willians” se apresenta como uma Animação de Comédia, com inúmeras referências a bandas de pagode que fizeram sucesso e com algumas críticas à forma como empresários e gravadoras mantinham relações com artistas.

        Com direção de dublagem de Marcelo Campos, o filme conta com as vozes de Cadu, Carlos Campanile, Daoiz, Eleu Salvador, Helena Samara, Jonas Mello, Marcelo Campos, Raquel Marinho, Roberto Rocha, Sérgio Moreno, Walter Breda e Zayra Zordan para dar vida aos personagens, construindo de forma primorosa o ambiente, os contextos e as personalidades dos personagens.

         Com ironia, sarcasmo e humor mórbido, a equipe criativa é responsável pela produção de um curta que entretém e diverte o espectador do início ao fim.




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

CAÍDO (2023)

O curta independente, com roteiro, direção, montagem e produção de Alexandre Estevanato, traz a história de um homem isolado e recluso em sua pequena tapera. Mesmo distante de tudo e de todos, o homem costuma ser visitado por pessoas que o cobram e o agridem, o culpando pela maioria dos erros e problemas existentes.

“Caído” é um curta que mescla o Drama, a Fantasia e o Suspense e humor ácido. No primeiro ato são apresentados a vida do protagonista, os seus pensamentos e os incômodos por ser responsabilizado por erros de terceiros.

As ações do homem, interpretado de forma brilhante por Sérgio Pardal, deixa uma dúvida sobre a sua origem. O que é explicitado ao longo do curta. O comportamento do protagonista alterna irritação, impaciência e sonhos de luxúria e hedonismo.

De forma muito interessante o diretor-roteirista, deu alguns toques cômicos ao seu filme, tanto para o homem se proteger de pessoas que são ruins e o atacam, como na sequência final pós-créditos.

“Caído” tem uma trama muito bem elaborada e conduzida por Alexandre Estevanato. A qualidade do texto e as atuações, tanto de Sérgio Pardal quanto de Roberto Borenstein, trazem uma reflexão interessante sobre a natureza do comportamento humano. Os elementos técnicos como fotografia, arte, maquiagem e figurino, compõem muito bem o personagem. A paleta de cores mistura e funde personagem, tapera e terra, como uma coisa só.

 


O nome do curta e a sinopse são bastantes sugestivos sobre a natureza do personagem. Gradativamente, a sua personalidade é revelada e o contexto é inserido.

“Caído” é um filme para quem tem a mente aberta ou procura enxergar a crítica proposta pelo diretor através de uma perspectiva diferente. O curta não nega a existência de Satanás, mas procura dialogar com a ideia de que nem tudo o que acontece no mundo é responsabilidade dele. Vale muito a pena ler a entrevista do portal “Diário da Região” com Alexandre Estevanato: https://www.diariodaregiao.com.br/cultura/diretor-rio-pretense-alexandre-estevanato-divulga-novo-curta-1.1237209. E não há como discordar de que muitas pessoas estão dispostas a culpar, ou o Diabo ou outras pessoas, pelos seus fracassos ou frustrações.

Com um apego filosófico e metafórico, o curta personifica o “bode expiatório” da cosmologia moral humana, onde o mal é constantemente projetado em uma entidade mitológica. O filme tem como ponto central, não o Diabo em si, mas o mal humano que habita a Terra e como muitos se esquivam das consequências de seus atos.

Quando Deus, interpretado por Roberto Borenstein, surge e inicia uma interação com o Diabo, aí sim, o curta é mais direto sobre a forma como o “criador” enxerga a natureza humana e o desvio feito pela humanidade. E essa interação reflete uma cosmologia metafórica na qual a imperfeição humana, a negligência de responsabilidade e a ambiguidade moral são os temas centrais do curta, como crítica às ações dos homens.

Sem ver outra saída, Deus decide que é hora de acabar com tudo e dar um novo início. O filme assume um tom irônico e com uma forte pegada de humor ácido, onde o Diabo terá a infelicidade de fazer o que Noé fez, de acordo com o Gênesis.

“Caído” aborda, com muito bom humor, uma crítica pertinente sobre a dualidade humana e a quebra de expectativa que reflete sobre o papel das figuras mitológicas e a maneira como os humanos interpretam o bem e o mal.









PASSAGEIROS (1987)

  “Passageiros” é um curta que funciona em várias camadas ao mesmo tempo. Na superfície, temos uma situação simples e direta: um taxista rec...