Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O RETRATO DA LUA (2013)

 


            Com roteiro de Mike Ale e direção de Claudio Bitencourt e Diego Lopes, “O Retrato da Lua” é um Drama que mescla os gêneros Fantasia e Aventura, tendo como motor narrativo o luto de um garotinho em relação à perda de sua mãe.

         Nicolas perde a mãe, recebe da tia a informação de que ela está na lua e decide construir um foguete para visitá-la. Depois de concluir sua nave improvisada, viaja pelo espaço, enfrenta desafios e finalmente encontra a mãe.

         Essa estrutura sugere algumas leituras muito interessantes, como o luto visto pelos olhos de uma criança. A interpretação mais evidente é a do processo de elaboração do luto. Adultos costumam compreender a morte como ausência definitiva. Crianças pequenas frequentemente transformam essa ausência em imagens concretas. Quando a tia diz que a mãe está na lua, Nicolas não interpreta aquilo como metáfora. Ele aceita literalmente a informação. Essa escolha narrativa é um dos grandes acertos do filme, pois respeita a lógica infantil sem tratá-la de forma simplista ou ingênua.

        Narrativamente, o curta parece seguir uma estrutura clássica de jornada. O protagonista recebe uma missão, constrói um meio para realizá-la, enfrenta obstáculos, alcança aquilo que procura e retorna transformado. Mas a transformação não parece ser física, mas sim emocional. O encontro com a mãe funciona menos como um reencontro literal e mais como uma despedida simbólica. O que Nicolas busca durante toda a aventura não é apenas encontrar sua mãe, mas compreender sua ausência.

         Outro ponto bastante interessante está relacionado ao retrato dentro da trama. Ele é o objeto simbólico mais importante da narrativa. Fotografias costumam representar memória, permanência e vínculo afetivo. O fato de Nicolas entregar o retrato à mãe durante o sonho e depois acordar sem ele sugere uma possível interpretação: ele não está esquecendo a mãe, mas aprendendo a viver sem precisar se agarrar materialmente à sua presença. O sentimento continua existindo, mas passa a ocupar um espaço diferente dentro de sua vida.

        A própria lua também possui uma função simbólica importante. Frequentemente associada aos sonhos, à imaginação e ao mistério, ela se transforma no destino ideal para uma criança que procura respostas para uma perda que ainda não consegue processar completamente. O filme utiliza esse elemento de maneira bastante sensível, transformando a fantasia em uma ferramenta para abordar emoções reais.

         Com Patrick Gessé, Lívia Castanheira, Fábio Pholman, Viviane Gazotto, Raphael Rocha e Diego Duda, “O Retrato da Lua” se destaca por suas atuações convincentes e maduras, o que aumenta significativamente a qualidade do curta. Patrick Gessé, em especial, sustenta boa parte da carga emocional da narrativa, transmitindo tristeza, esperança e curiosidade de forma bastante natural.

         A fotografia desempenha um papel importante, principalmente pelo uso da câmera subjetiva durante praticamente todo o primeiro ato, o que possibilita uma aproximação natural do espectador ao protagonista, Nicolas, interpretado por Patrick Gessé. No restante da obra, a fotografia continua utilizando elementos muito interessantes, confirmando a competência da equipe e contribuindo para a construção do universo fantástico apresentado pela narrativa.

        Os efeitos visuais impressionam pela qualidade. Eles dão suporte para sequências lúdicas e visões infantis de maneira perfeita. Assim como a trilha sonora e o desenho de som, que trabalham em conjunto com direção de arte, figurino, maquiagem e montagem para a construção de uma obra tecnicamente muito rica. Todos esses elementos colaboram para tornar a jornada de Nicolas emocionalmente envolvente e visualmente encantadora.

        Com o uso simbólico da lua, do retrato e da fantasia como ferramenta dramática, “O Retrato da Lua” é uma excelente reflexão sobre o luto infantil. Os realizadores construíram uma obra sensível, com arco dramático extremamente comovente e com uma mensagem muito bonita. Unindo elementos narrativos, dramáticos e técnicos, “O Retrato da Lua” não fala somente de falecimentos, mas de como pessoas importantes podem continuar vivas dentro da memória. É um curta delicado que encontra na imaginação infantil uma forma tocante de falar sobre perda, saudade e aceitação.




sábado, 8 de agosto de 2026

FOME (2019)

 

        Com uma circulação considerável em festivais e premiações, como a 20ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o Circuito Penedo de Cinema 2020, o Cinefest Gato Preto 2020, a Mostra Paulista de Curtas-Metragens e o 21º NOIA, em 2023, "Fome" saiu vencedor na categoria Júri da Crítica no V Festival de Cinema Estudantil Você na Tela, em 2020. O reconhecimento ajuda a dimensionar a força de uma obra que, mesmo voltada ao público infantil, consegue abordar questões sociais e humanas com bastante sensibilidade.

         Com direção e roteiro de Felipe Fré, o curta conduz um Drama sensível, comovente e extremamente cativante. A trama apresenta Lia e sua mãe, interpretadas por Sara Santarém e Tati Keplmair, respectivamente. Vivendo no campo, as duas dependem das vendas de doces produzidos por Fátima em uma pequena cidade, construindo uma rotina simples, marcada pelo trabalho e pelas dificuldades.

          Uma das chaves principais do curta está em seu próprio título: fome. "Fome" não significa apenas fome. A chegada de uma dupla de saltimbancos eleva o termo para outras dimensões, transformando não só a vida de mãe e filha, mas também a maneira como o espectador passa a enxergar as protagonistas.

         Mãe e filha compreendem que não é somente o corpo que necessita de alimento, e isso muda bastante a leitura do filme. A fome física é obviamente a primeira camada. Fátima trabalha para colocar comida na mesa. Lia vive em um ambiente rural simples, onde as possibilidades são limitadas. Mas existe uma segunda fome: a fome de imaginação, de experiência, de descoberta, de fantasia e talvez de uma vida diferente.

         É nesse ponto que a chegada de Ciço e Carmela, os artistas itinerantes, deixa de ser apenas um acontecimento narrativo. Eles levam para aquele vilarejo alguma coisa que não pode ser comprada na venda de doces. Eles levam imaginação. Levam histórias, personagens e possibilidades. E a capacidade de criar, inventar e contar histórias muda a forma como Lia interage com o mundo, com a mãe e com as pessoas da cidade.

            A equipe criativa exerce uma importância primordial na construção da relação entre mãe e filha. Fátima está preocupada com a sobrevivência concreta. Lia está preocupada com uma sobrevivência imaginativa. Uma luta contra a fome e a outra luta contra os limites da realidade. Talvez o filme esteja dizendo que as duas coisas são necessárias. Uma criança precisa de comida, evidentemente, mas também precisa de imaginação, brincadeira, histórias e possibilidade de sonhar. Isso explica por que a presença dos saltimbancos é tão importante para a transformação de Lia.

       "Fome" é apresentado como filme infantil, mas não trata a infância como um mundo completamente protegido dos problemas adultos. O filme aborda temas e aspectos difíceis da vida, e isso é significativo. Lia brinca, imagina, vê dragões e princesas. Mas existe uma mãe trabalhando para garantir que haja comida. Portanto, a fantasia infantil convive com a realidade econômica. Essa é uma das grandes qualidades do filme: não é necessário retirar a criança da realidade para permitir que ela sonhe.

         Felipe Fré conduz com muita competência uma trama envolvente, utilizando muito bem os elementos técnicos de produção. A trilha sonora faz uso de sons diegéticos para destacar o trabalho de mãe e filha, a produção dos doces, os sons domésticos, crus e ambientais. Porém, nos momentos de leveza, o filme se permite sons mais agradáveis, que elevam as sensações do espectador e acompanham a transformação provocada pela chegada dos artistas.

         Fotografia e direção de arte também merecem destaque, seja na construção familiar da residência ou na praça onde são vendidos os doces produzidos. Tanto em planos e ângulos mais fechados, destacando potes, legumes, verduras, mãos e movimentos, quanto em sequências mais abertas, o filme amplia sua perspectiva após a chegada, apresentação e legado deixado pelos saltimbancos.

         A partir desse momento, os elementos técnicos trabalham para trazer maior leveza ao curta, mostrando como o impacto da apresentação deixou marcas em Lia, alterando sua visão de mundo e a maneira como os problemas podem ser encarados com mais otimismo. A atuação de Sara Santarém transborda simpatia e encanta. Além dela e de Tati Keplmair, o elenco conta com Sofia Morás e Luiz Xavier nos papéis dos artistas itinerantes.

       "Fome" talvez seja justamente sobre aquilo que não conseguimos enxergar quando pensamos apenas na necessidade de alimentar o corpo. Existe a fome de conhecer, de imaginar, de criar e de descobrir que existe um mundo muito maior do que aquele que conhecemos. A fantasia, nesse sentido, não aparece como fuga da realidade, mas como uma maneira de ampliar a realidade.

         Felipe Fré constrói essa ideia sem transformar o curta em uma lição de moral, permitindo que Lia descubra, através dos saltimbancos, que a imaginação também pode ser uma forma de resistência diante das limitações da vida. Entre doces, dificuldades, histórias e fantasias, "Fome" encontra sua maior força ao mostrar que sobreviver não significa apenas permanecer vivo. Também é preciso encontrar motivos para sonhar.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A VELHA A FIAR (1964)

 


Com direção de Humberto Mauro, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, “A Velha a Fiar” é um delicioso curta-metragem que conduz o espectador a uma viagem por um universo próprio, onde o sentimento mais presente e marcante é a nostalgia. Trata-se de uma obra simples em aparência, mas extremamente rica em sensações, memórias e significados, capaz de atravessar gerações com a mesma força afetiva.

Humberto Mauro nos apresenta um ambiente rural que se constrói de maneira orgânica, acompanhado por uma música que imediatamente nos situa naquele espaço e naquele tempo. A música incidental, calma e cadenciada, funciona como um convite à contemplação. Ela introduz o lugar, os personagens e o ritmo da vida no campo, retratada de forma genuína, harmoniosa e serena. Tudo ali parece seguir um fluxo natural, distante da pressa urbana, permitindo que o espectador observe cada detalhe com atenção e afeto.

O cotidiano apresentado na primeira parte do curta, com homens, mulheres, animais e insetos compartilhando o mesmo espaço, prepara cuidadosamente o terreno para o que vem a seguir. Esse registro quase observacional, que acompanha gestos simples e rotinas básicas, cria uma atmosfera de intimidade e pertencimento. É a partir dessa construção que o filme transita para a segunda parte, marcada pela canção infantil que dá nome à obra e que passa a conduzir toda a narrativa.

Humberto Mauro trata cada elemento com extremo cuidado e sensibilidade. A introdução não é gratuita, mas uma preparação essencial para a imersão musical que se segue, fazendo com que o espectador, quase involuntariamente, tente acompanhar ou cantar a canção junto com o filme. Os arranjos musicais, de Aldo Taranto, e a interpretação do Trio Irakitã são fundamentais para o impacto da obra, conferindo ritmo, leveza e um caráter lúdico que dialoga diretamente com a memória afetiva do público.

Após longos planos abertos que revelam riachos, tanques, bois, cães e o carro de bois, elementos que povoam o imaginário da cultura caipira brasileira, somos finalmente apresentados à velha que dá título ao filme. A câmera observa com atenção esse universo, valorizando não apenas a personagem central, mas todo o contexto que a cerca, como se cada imagem fosse uma extensão da canção que está por vir.

Em sua máquina de costura, a velha tenta realizar o seu trabalho, sendo constantemente atrapalhada por uma mosca. Mateus Colaço, vivendo a velha a fiar, constrói sua atuação de maneira sensível e cômica, mesmo sem o uso de diálogos. A expressividade corporal e o timing preciso permitem que o espectador compreenda emoções, intenções e situações apenas pelo gesto e pelo olhar. O ator acaba por imortalizar não apenas uma canção, mas uma obra cinematográfica de valor inestimável.

Muita gente considera “A Velha a Fiar” o primeiro videoclipe brasileiro. No entanto, ao observar o filme como um todo, é possível perceber que sua primeira parte se aproxima de um registro documental, enquanto a segunda assume plenamente o caráter musical. A genialidade de Humberto Mauro está justamente nessa fusão, conseguindo, em pouco mais de seis minutos, apresentar um universo rural completo e evocar uma canção que independe de localidade, funcionando tanto no campo quanto na cidade.

A sequência musical é uma verdadeira obra de arte, marcada por uma montagem inventiva e extremamente precisa. A cada novo personagem que surge em cena, guiado pela letra da canção, o ritmo da edição se intensifica. Ainda assim, esse aumento não cansa nem dispersa, pelo contrário, acrescenta dinamismo e mantém a empolgação do espectador até o último minuto.

Mesmo com as diversas variações que a canção ganhou ao longo do tempo, é quase impossível não se identificar com o filme, especialmente para quem viveu a infância nos anos oitenta ou antes. “A Velha a Fiar” é uma obra atemporal, que atravessa épocas sem perder sua força, seu humor e sua ternura. É uma joia do cinema brasileiro, um clássico absoluto que merece todos os elogios. Ao assistir a esse curta de Humberto Mauro, a sensação final é a de um profundo e doce gosto de nostalgia, daqueles que permanecem na memória por muito tempo.




terça-feira, 14 de outubro de 2025

A MENINA ESPANTALHO (2008)

 


Luzia é uma menina que vive no campo, com seu irmão Pedro, e com os pais. Quando Pedro começa a frequentar a escola, a garotinha demonstra vontade de também aprender a ler e escrever. Porém, segundo o pai, ela não deve ir à escola, mas sim, “aprender tarefas domésticas” em casa.

         “A Menina Espantalho” é uma Comédia dramática leve, para todas as idades e públicos. É um filme extremamente sensível, comovente e com uma delicadeza narrativa que transforma temas simples em reflexões universais sobre infância, identidade e a busca por conhecimento.

        No curta, podemos experimentar a vida na roça e a inocência infantil dos dois irmãos. Nesse ponto, Luzia abre espaço para que o irmão a ajude em sua alfabetização. Mesmo com um tom cômico, a cumplicidade entre os irmãos é bela e genuína. Impossível não se encantar com as atuações de Pâmela Silva e Otávio Santiago. Nem por isso, os personagens dos pais perdem profundidade. Vinícius Ferreira e Jane Santos representam a composição padrão familiar, onde homens e mulheres têm funções e objetivos diferentes.

         A plantação de arroz funciona como um pano de fundo muito bem encaixado, pois, estando ali para espantar as aves, Luzia tem tempo e disposição para aprender cada vez mais.

         Um ponto importantíssimo para o impacto do curta se dá ao ótimo trabalho de arte, fotografia e trilha sonora, que transmitem a sensação nostálgica da vida no campo, do período de infância e sonhos, e a sensação de acolhimento, mesmo numa casa onde há uma certa carência financeira e, talvez, a única esperança de mudança seja através da educação do filho.

        Com roteiro e direção de Cássio Pereira Dos Santos, “A Menina Espantalho” é um filme que abraça o espectador e o conduz por uma narrativa coesa, natural e aconchegante. A composição entre narrativa, arco dramático, um elenco competente e elementos técnicos executados com muita competência, faz do curta uma maravilha do cinema brasileiro.

         “A Menina Espantalho” é daqueles filmes que marca e fica guardado no coração. A produção exalta a simplicidade e utiliza isso como ferramenta de ligação entre o espectador e a família, principalmente com Luzia. E esse é um dos grandes méritos do diretor, que consegue transformar a simplicidade em imersão, unindo quem assiste ao filme com os personagens em tela. É um filme para ser visto e revisto muitas vezes.




segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O PLANTADO DE QUIABOS (2010)



       Com realização do Coletivo Santa Madeira em parceria com a Associação de Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, o curta-metragem “O Plantador de Quiabos” é dirigido coletivamente por Jair S. Molina Jr., Luiz Romero de Araujo Lacerda, Renato Helena Jr., Aline Marques, Andrei Moyssiadis e Caio Silva Ferraz. A força da coletividade se reflete diretamente na riqueza estética, na sensibilidade narrativa e na atmosfera calorosa que envolvem o filme do início ao fim.

A história acompanha o cotidiano de uma família que vive na zona rural do interior do estado de São Paulo. O pai, João, interpretado com grande naturalidade por Divino Silva, é um homem simples, trabalhador, que cultiva quiabos em sua pequena propriedade, onde vive com sua esposa e filha, interpretadas por Marcia Martins e Vitória Souza. O cultivo, embora honesto e digno, impõe desafios práticos: João precisa escoar sua produção com mais agilidade, e para isso, vê na compra de uma bicicleta de carga a possibilidade de aliviar seu esforço físico e aumentar sua produtividade. No entanto, ao decidir ir até a cidade com sua esposa e sua filha, João se vê diante de um dilema que atravessa o filme com sutileza e emoção: escolher entre sua necessidade como provedor e o desejo singelo de sua filha.

“O Plantador de Quiabos” se desenha como uma Comédia dramática, mas é, sobretudo, um filme encantador em sua simplicidade, com uma atmosfera nostálgica, acolhedora e profundamente humana. A construção dessa sensação se deve à soma de elementos técnicos de altíssimo nível: a fotografia primorosa, que capta com delicadeza a luz do campo e a beleza dos gestos cotidianos; a montagem fluida, que permite à narrativa respirar no tempo da roça; a direção de arte sensível, que valoriza os pequenos detalhes da vida rural; e a trilha sonora encantadora, ancorada na viola caipira, que atua como fio condutor emocional da história.

O espectador é convidado a mergulhar naquele universo rural, a vivenciar o dia a dia da família, a acompanhar João ordenhando a vaca, colhendo quiabos ou simplesmente sonhando com uma bicicleta ou moto. A coesão narrativa e dramática é um dos grandes méritos do curta. A jornada da família até a cidade evidencia o quão distantes estão do centro urbano e de suas facilidades. Enquanto a televisão, presente no lar, mostra o caos da capital paulista, a viagem na carroceria de uma caminhonete materializa a transição entre dois mundos: do ambiente calmo, onde o trabalho é manual e familiar, ao cenário das grandes fazendas mecanizadas, dominadas por colheitadeiras e pela eficiência impessoal.

Essa viagem não é apenas geográfica, mas simbólica. Ela escancara as transformações no campo e os desafios impostos à pequena produção familiar. O filme questiona, com sutileza, a pressão por adaptação que recai sobre João. A bicicleta de carga surge como uma possível solução, permitindo transportar mais caixas, alcançar mais clientes, competir melhor. Porém, ao lado disso, está o sonho infantil da filha, que deseja algo mais leve, lúdico, adequado à sua idade. O curta, então, contrapõe dois desejos legítimos: o do adulto, movido por necessidade, e o da criança, movido por pureza. A resolução final, tratada com profunda delicadeza, emociona sem forçar, e consegue arrancar um sorriso sincero do espectador.

O roteiro de Jair S. Molina Jr. é coeso, maduro e afetuoso. Ele conduz a história com simplicidade e precisão, permitindo que cada cena seja carregada de humanidade e empatia. Não há sobras no texto: cada diálogo é significativo, cada ação é pensada para transmitir a ternura e a força daquelas relações familiares. A dinâmica entre pai, mãe e filha revela um modo de vida próprio, onde o afeto se expressa em silêncios, gestos e olhares. É uma família que sonha com dias melhores, sim, mas que também sabe valorizar a beleza da vida que leva.

“O Plantador de Quiabos” se revela como uma bela joia do cinema brasileiro em curta-metragem. Uma obra que, com recursos modestos e muito talento, entrega ao público uma experiência envolvente, poética e cheia de significado. Um filme que, com seu charme singelo, nos leva a repensar o que realmente importa.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...