sábado, 10 de outubro de 2026

UM SAMPAIO TEIMOSO (2011)

 


        Com roteiro de Nayara Tognere e Stéfano Fabris, “Um Sampaio Teimoso” tem como principal objetivo recuperar Sérgio Sampaio e sua obra. O primeiro caminho é justamente aquele anunciado pelo próprio filme: impedir que Sérgio Sampaio seja lembrado apenas por “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. A música foi importante para sua trajetória, mas não consegue representar toda a dimensão de um compositor que construiu uma obra muito mais ampla, complexa e particular.

         Essa música se tornou tão associada ao compositor que existe o risco de ela funcionar como uma espécie de resumo de toda a sua carreira. O documentário rompe essa redução e apresenta Sampaio como um artista muito mais complexo. Ao recuperar diferentes momentos de sua vida e ouvir pessoas que conviveram com ele, o filme procura ampliar a imagem que permaneceu no imaginário popular.

         Com depoimentos de artistas, amigos e companheiras, a diretora Nayara Tognere procura retratar o artista, o homem, seus pensamentos e afastá-lo de rótulos negativos. O documentário não pretende esconder as dificuldades de sua personalidade ou de sua trajetória. O objetivo é mostrar que essas características não podem ser usadas para definir sozinhas quem foi Sérgio Sampaio.

        Sérgio Sampaio frequentemente aparece associado à chamada geração dos “malditos” da música brasileira. O termo pode sugerir marginalidade, comportamento difícil ou uma carreira distante do grande mercado, mas também acaba escondendo a riqueza de sua produção artística. Dessa forma, podemos nos questionar: quanto um rótulo ajuda a compreender um artista e quanto ele acaba aprisionando esse artista? “Um Sampaio Teimoso” parece interessado justamente nessa segunda possibilidade.

         A declaração de Maria Verônica Martins é uma das chaves mais importantes do filme: “A obra do Sérgio não é alegre. A obra do Sérgio é dramática.” A canção “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” pode induzir a uma percepção festiva de Sampaio, mas sua produção possui uma dimensão muito mais melancólica, amarga, irônica e existencial. O documentário procura justamente olhar para o homem e para o compositor por trás do sucesso mais conhecido.

         O filme utiliza as próprias músicas de Sérgio junto a depoimentos seus e imagens de arquivo. Isso é importante porque, em um documentário musical, a obra do personagem não deveria aparecer apenas como ilustração. As canções ajudam a construir a própria personalidade artística de Sampaio. É através delas que podemos perceber seu humor, sua melancolia, sua inquietação e sua maneira particular de observar o mundo.

        Nayara Tognere e Stéfano Fabris escolheram não construir o documentário exclusivamente através de uma narração biográfica. São amigos, parceiros, familiares e admiradores que ajudam a reconstruir Sampaio. Cada pessoa acrescenta uma camada diferente ao retrato e contribui para que o artista não seja apresentado de maneira única ou definitiva.

         Zeca Baleiro, Luiz Melodia, Jards Macalé, Tatá Aeroplano, Sérgio Natureza, Renato Piau, Ângela Breitschaft e Maria Verônica não estão presentes apenas para contar fatos. Cada depoimento acrescenta uma percepção diferente sobre o artista. O resultado é uma espécie de retrato coletivo, formado por lembranças que se complementam e também ajudam a revelar as contradições de Sampaio.

         “Um Sampaio Teimoso” também apresenta o contraste entre memória íntima e reconhecimento público. A presença das ex-companheiras Ângela Breitschaft e Maria Verônica Martins acrescenta uma dimensão diferente dos depoimentos dos músicos. Os parceiros conhecem o artista profissionalmente. As companheiras conheceram também o homem. Essa combinação ajuda o documentário a escapar da simples análise da carreira e aproximá-lo de uma personalidade com suas contradições e particularidades.

        O título é muito feliz porque “teimoso” pode ser entendido de várias maneiras. Pode significar alguém que insiste em seguir seu próprio caminho mesmo quando ele não parece ser o mais fácil. Pode também representar a persistência de uma obra que, apesar de ter sido parcialmente esquecida ou reduzida a um único sucesso, continua sendo redescoberta por novas gerações. Há uma espécie de ironia no título: o artista que insistiu em permanecer fiel à sua maneira de fazer música continua insistindo em permanecer na memória brasileira.

         Nayara Tognere apresenta grande domínio narrativo e técnico para conseguir causar impacto diante da vida e obra de Sérgio Sampaio. Trilha sonora, fotografia e montagem trabalham de forma harmônica, intercalando depoimentos e imagens de arquivo. Os realizadores apresentam um artista genial, propondo reflexões acerca de sua obra e sua vida e dando voz a ele, seja indiretamente através de outras pessoas ou por meio de suas próprias palavras. O curta procura despertar no espectador o interesse pela arte de Sérgio Sampaio.

         Outro detalhe extremamente importante é que o documentário foi realizado justamente para combater o esquecimento de Sérgio Sampaio. A existência de novas gerações de artistas e ouvintes que continuam recuperando sua obra mostra que esse esforço não foi inútil. Isso reforça o caráter atemporal de uma obra criada por um compositor e cantor que continua encontrando novos ouvintes.

         Sérgio Sampaio não é exatamente um desconhecido. Seu nome está associado a uma música que atravessou décadas. Mas isso não significa que sua obra seja realmente conhecida em toda a sua dimensão. “Um Sampaio Teimoso” tenta corrigir essa distorção ao apresentar um artista que merece ser descoberto para além de seu maior sucesso.

        O filme apresenta um artista que não pode ser resumido ao “bloco na rua”, nem ao rótulo de “maldito”, nem à imagem de personalidade difícil. Existe ali um compositor de grande riqueza poética, cuja obra possui uma dimensão profundamente dramática. Talvez a maior qualidade do documentário seja justamente fazer do esquecimento o seu adversário.

       Sampaio morreu jovem, em 1994, mas suas canções continuaram circulando e sendo redescobertas. O documentário registra depoimentos de pessoas que conviveram com ele e, ao mesmo tempo, participa de um processo maior de transmissão de sua obra para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo.

         “Um Sampaio Teimoso” não pretende apenas contar quem foi Sérgio Sampaio. O curta pretende impedir que ele seja reduzido àquilo que o público já conhece. Ao fazer isso, o documentário acaba cumprindo uma função essencial: lembrar que, por trás de uma música famosa, existe toda uma obra esperando para ser descoberta.    




O CÃO SILENCIOSO (2020)

 


            Com direção, roteiro e produção de Thed Oliveira, “O Cão Silencioso” é um terror psicológico denso, profundo e construído a partir de uma atmosfera constantemente perturbadora. A obra mergulha em temas como trauma, herança emocional, medo e percepção da realidade, desenvolvendo uma narrativa que encontra força justamente naquilo que não explica completamente. Ao combinar elementos de Suspense, Mistério e Drama psicológico, o curta conduz o espectador por uma experiência inquietante que permanece ecoando mesmo após seu encerramento.

         Estrelado por Mara Carvalho, Michel Joelsas, Augusto Trainotti e Donizeti Mazonas, o filme acompanha uma família marcada pela ausência do pai falecido. No entanto, sua morte não significa desaparecimento. Pelo contrário. Sua influência continua presente em cada cômodo da casa, no piano, em cada diálogo e em cada decisão tomada pelos personagens. “O Cão Silencioso” é um mergulho profundo em um trauma coletivo que afeta mãe e filhos de maneiras diferentes, revelando como uma perda pode continuar moldando vidas muito tempo depois de acontecer.

        A narrativa trabalha de maneira bastante interessante com a ideia da loucura como herança. O filme se posiciona dentro de um território do terror psicológico que dialoga diretamente com temas como hereditariedade, trauma familiar e medo da repetição. Existe uma sensação constante de que algo inevitável está se aproximando, como se o passado estivesse destinado a se repetir independentemente da vontade dos personagens.

         Ao longo da trama, a dúvida entre doença mental, maldição familiar e percepção distorcida da realidade se torna um dos motores da narrativa. A questão central não parece ser simplesmente se o filho ficará louco. O verdadeiro conflito está em saber se ele realmente está desenvolvendo algum transtorno ou se passou a vida inteira sendo condicionado a acreditar que esse destino o aguarda. Essa diferença altera completamente a interpretação da história.

        Se a mãe dedicou anos tentando proteger um dos filhos do mesmo caminho percorrido pelo pai, talvez também tenha contribuído para criar nele um medo permanente da própria mente. Nesse sentido, o terror nasce não necessariamente da loucura em si, mas da expectativa constante de enlouquecer. O medo se transforma em uma presença permanente. A ansiedade de repetir um destino familiar passa a influenciar pensamentos, comportamentos e percepções. É justamente nessa camada psicológica que o filme demonstra grande maturidade narrativa.

         Outro aspecto fundamental para o sucesso da obra são as atuações. Mara Carvalho, Michel Joelsas e Augusto Trainotti entregam interpretações extremamente intensas e viscerais, transmitindo de forma convincente medos, inseguranças, angústias e conflitos emocionais. Existe uma sensação de desgaste constante nos personagens, como se todos carregassem um peso invisível que influencia suas ações e seus relacionamentos.

         Donizeti Mazonas, responsável por interpretar o pai, aparece de forma mais comedida. Essa escolha é particularmente eficiente porque preserva o mistério em torno da figura paterna. O espectador nunca conhece verdadeiramente esse homem. Tudo o que sabemos sobre ele chega através dos relatos da mãe e dos filhos. Isso faz com que sua imagem seja construída por lembranças, interpretações e medos, tornando-o ainda mais intrigante.

         O pai ausente funciona como um verdadeiro fantasma narrativo. Não necessariamente um fantasma sobrenatural, mas uma presença psicológica constante. Tudo gira em torno dele. O medo da mãe, as dúvidas do filho e até mesmo a identidade da família parecem definidos por sua existência passada. Esse recurso é muito comum em histórias sobre traumas geracionais, mas aqui é utilizado com enorme eficiência. Mesmo morto, ele continua influenciando pensamentos, decisões e comportamentos dos vivos.

        O próprio título do curta é extremamente sugestivo. Um cão costuma representar proteção, lealdade, amizade e companheirismo. Porém, também pode simbolizar agressividade, instinto e violência. O elemento mais importante está justamente no adjetivo escolhido. Ele é silencioso. Um cão que não late não avisa sobre sua presença. Não anuncia perigo. Não oferece sinais claros de ameaça. Essa característica transforma o título em uma poderosa metáfora para a própria loucura ou para os traumas que se instalam de forma gradual e quase imperceptível.

         Nesse contexto, um dos diálogos entre a mãe e o filho Pedro ganha importância especial. A história sobre cães violentos criados por sua família durante a infância da personagem não serve apenas como lembrança do passado. Ela funciona como uma espécie de espelho do presente. Ao narrar acontecimentos antigos, a mãe acaba revelando muito sobre sua própria condição emocional, seus medos e a forma como enxerga a realidade.

         Outro dos grandes méritos do roteiro está na construção ambígua da figura materna. A mãe é protetora ou controladora? Está tentando salvar os filhos ou alimentando seus medos? Sua preocupação é legítima ou ela própria se tornou parte do problema? Essas perguntas enriquecem profundamente a narrativa porque impedem interpretações simplistas. A personagem funciona simultaneamente como vítima e agente de um processo de deterioração psicológica.

         Além da força dramática, “O Cão Silencioso” apresenta uma execução técnica extremamente competente. A direção de fotografia utiliza ambientes escuros, sombras densas e filtros frios para reforçar o estado emocional dos personagens. Os espaços da casa deixam de funcionar apenas como cenários e passam a refletir a própria condição psicológica da família, numa densa escuridão.

         Os closes aproximam o espectador das emoções dos personagens, permitindo observar detalhes de seus rostos e reações. Já os planos mais abertos, frequentemente dominados pela escuridão, ampliam a sensação de vulnerabilidade e incerteza. Existe sempre a impressão de que algo está escondido além do campo de visão.

         A trilha sonora merece destaque especial. Grande parte do impacto do filme nasce justamente da utilização do silêncio. Ao privilegiar vozes, pequenos ou grandes ruídos domésticos e sons naturais do ambiente, a obra cria uma sensação de realismo que torna o desconforto ainda mais intenso. Quando sons não-diegéticos surgem, eles aparecem em momentos específicos, ampliando a tensão de forma extremamente eficaz.

        A direção de arte também contribui significativamente para a atmosfera construída. Objetos, figurinos e maquiagem ajudam a criar um ambiente que deveria transmitir segurança e acolhimento, mas que acaba se tornando perturbador e inquietante. A montagem, por sua vez, explora o subjetivo e reforça a instabilidade emocional dos personagens.

         Com uma combinação eficiente entre roteiro, direção, atuações e recursos técnicos, “O Cão Silencioso” constrói uma narrativa sobre o medo da herança psicológica. Não apenas uma herança genética, mas principalmente emocional e comportamental. Ao explorar como traumas podem atravessar gerações e moldar identidades, o curta apresenta um terror psicológico maduro, perturbador e profundamente humano.




 

POP RITUAL (2019)

 


     Com direção e roteiro de Mozart Freire, “Pop Ritual” é uma obra de Terror e Mistério profundamente densa, construída de forma sensorial e carregada de simbolismos. Trata-se de um filme que utiliza elementos clássicos do Horror gótico para desenvolver uma narrativa que se abre para inúmeras interpretações, explorando temas ligados ao desejo, à repressão, à fé, ao poder e às transformações que surgem quando diferentes forças entram em conflito.

         Estrelado por Alcântara Costa, no papel de Padre João, e Khalo de Oliveira, interpretando o vampiro Abigail, o curta se distancia rapidamente das histórias convencionais sobre vampiros. Em vez de apostar em confrontos diretos ou em uma disputa simplificada entre bem e mal, a narrativa constrói uma relação complexa entre seus dois personagens centrais. As atuações são um dos grandes destaques da produção. Na ausência de diálogos, os intérpretes precisam transmitir intenções, emoções e conflitos através dos olhares, dos movimentos corporais, das expressões faciais e da ocupação do espaço em cena. O resultado é uma dinâmica envolvente, marcada por tensão, fascínio e curiosidade mútua.

        O sacerdote não apenas aprisiona a criatura. Ele a observa, investiga, analisa e, gradualmente, desenvolve uma relação que ultrapassa a simples condição de carcereiro. Uma das leituras mais evidentes é a do vampiro como representação do desejo reprimido. Historicamente, a figura vampírica sempre esteve associada à sedução, ao erotismo e à quebra de limites morais. Desde a literatura clássica até o cinema moderno, o vampiro costuma simbolizar impulsos que desafiam convenções sociais e religiosas.

         Quando essa figura é colocada diante de um padre, o conflito simbólico se torna ainda mais interessante. Padre João representa disciplina, fé, autocontrole e renúncia. Abigail representa instinto, prazer, desejo e liberdade corporal. O encontro entre essas duas forças cria um embate constante entre o espiritual e o carnal. Mais do que combater a criatura, o padre parece desejar compreendê-la. Em determinados momentos, sua obsessão parece superar qualquer intenção de destruição.

         Outro aspecto particularmente interessante é a presença da experimentação científica dentro da narrativa. Em muitos filmes de vampiro, religião e sobrenatural ocupam posições opostas. Em “Pop Ritual”, surge uma terceira camada. Padre João assume também características de pesquisador. Ele registra, analisa e tenta compreender racionalmente aquilo que desafia qualquer explicação lógica. Essa tentativa de controlar o desconhecido acrescenta novas camadas ao personagem e reforça a sensação de obsessão crescente.

         A relação entre os dois personagens também pode ser interpretada como uma dependência mútua. A dinâmica construída pelo filme sugere que ambos necessitam um do outro por razões diferentes. O padre encontra no vampiro um objeto de estudo, uma missão e talvez até uma justificativa para seus conflitos internos. O vampiro, por sua vez, encontra no sacerdote uma conexão que vai além do simples aprisionamento. Essa proximidade cria uma relação ambígua, desconfortável e fascinante.

            Outro tema recorrente é a importância do corpo. O filme trabalha constantemente o corpo como espaço de transformação, desejo e disputa. O corpo religioso, o corpo vampiresco, o corpo observado, o corpo aprisionado e o corpo modificado coexistem dentro da narrativa. Enquanto Abigail sofre os efeitos das experiências conduzidas por Padre João, o próprio sacerdote passa por mudanças emocionais e psicológicas cada vez mais evidentes.

         Nos aspectos técnicos, “Pop Ritual” impressiona pela sofisticação. A direção de arte cria um ambiente que funciona simultaneamente como residência, laboratório e prisão. Essa indefinição espacial contribui para a atmosfera densa e para a sensação de isolamento compartilhada pelos personagens.

            A fotografia, a montagem e a composição dos enquadramentos trabalham constantemente para influenciar as emoções do espectador. Planos fechados, detalhes corporais e enquadramentos cuidadosamente calculados ajudam a reforçar a intimidade e a tensão existentes entre padre e vampiro. A experiência proposta pelo filme vai além da observação; ela busca provocar sensações fortes ao espectador.

         A trilha sonora minimalista também merece destaque. Priorizando sons ambientes e utilizando a música de maneira econômica, a produção cria uma imersão eficiente. O silêncio, muitas vezes, comunica tanto quanto qualquer diálogo ou composição musical, ampliando o desconforto e a intensidade emocional das cenas.

         “Pop Ritual” é um Horror gótico elegante, provocador e artisticamente refinado. Com uma equipe técnica extremamente competente e um forte domínio de linguagem audiovisual, Mozart Freire constrói uma obra que transforma o vampirismo em ferramenta para discutir desejo, obsessão, identidade e transformação. Mais do que uma história sobre monstros, o filme apresenta personagens que buscam compreender a si mesmos através do outro, resultando numa experiência inquietante, sensorial e profundamente humana.  


Pop Ritual

MANHÃ CINZENTA (1969)

 


        “Manhã Cinzenta” foi realizado por Olney São Paulo entre 1968 e 1969, a partir de um conto homônimo escrito pelo próprio cineasta em 1966. A história acontece em um país fictício da América Latina, onde um casal de estudantes participa de uma manifestação contra um regime autoritário. Eles são presos e submetidos a um interrogatório absurdo, envolvendo policiais, um robô e um “cérebro eletrônico”. Mas o país fictício é justamente uma das grandes estratégias de Olney. Ele cria uma distância geográfica para falar de algo extremamente concreto: o Brasil sob a ditadura militar.

         O filme é uma alegoria, mas não uma alegoria distante. Olney não precisa mostrar explicitamente o Brasil para falar do Brasil. O golpe acontece em um país inventado, mas as imagens documentais das manifestações de rua aproximam o filme da realidade brasileira. O resultado é uma mistura deliberada de ficção, documentário, literatura, música, teatro e material jornalístico. Estudos acadêmicos tratam justamente dessa construção intermidiática do filme. Isso é muito importante porque transforma “Manhã Cinzenta” em algo mais complexo do que uma simples narrativa sobre repressão.

        O filme não está dizendo: “Isso aconteceu naquele país imaginário”. A estrutura permite compreender que estava ocorrendo aqui. E, para quem assistia ao filme em 1969, provavelmente a distância entre o país fictício e o Brasil era ainda menor. A alegoria funcionava justamente porque o espectador conseguia reconhecer, por trás da ficção, uma realidade que fazia parte do seu cotidiano.

         Uma das grandes forças do curta reside na potência de seu elenco, que inclui nomes como Janet Chermont, Maria Helena Saldanha, Sonélio Costa, Jorge Dias, Nestor Noya, Cláudio Paiva, Paulo Neves, Antonio Manoel, Carlos Pinto, Marcio Cury, Flávio Moreira da Costa, Iberê Cavalcante, Nevile Almeida, Poty e Zena Felix. Seja com maior ou menor protagonismo, todas as atuações engrandecem ainda mais uma obra provocativa, desafiadora e incômoda.

         Outra grande força é a montagem. Glauber Rocha chamou o filme de “filmexplosão” e destacou sua “montagem caleidoscópica”. A montagem não procura necessariamente oferecer uma narrativa confortável, linear e explicativa. Ela fragmenta. Imagens, sons, discursos, manifestações, música, elementos documentais e ficcionais aparecem como pedaços de uma realidade política que está sendo desmontada diante do espectador. É quase como se a forma do filme reproduzisse aquilo que ele está denunciando: uma sociedade fragmentada pela violência política.

        O título também pode render uma interpretação bastante pertinente. A manhã normalmente pode representar começo, nascimento, esperança, renovação, futuro. Mas essa manhã é cinzenta. O filme transforma aquilo que deveria ser luminoso em algo opressivo. A “manhã” existe, mas não significa necessariamente um novo começo. Pode significar o começo de uma nova fase de repressão. E existe ainda outra possibilidade: a manhã cinzenta pode ser uma sociedade que perdeu a capacidade de enxergar claramente o próprio futuro.

         O casal é muito importante para a narrativa e a dramaticidade do filme porque não representa apenas duas pessoas. Janet Chermont e Sonélio Costa, como protagonistas, podem ser compreendidos como uma representação de uma juventude politicamente inquieta. Os estudantes aparecem associados à manifestação, à contestação e à possibilidade de transformação social.

         Pesquisas recentes analisam justamente a representação da comunidade universitária no filme e sua relação com o projeto autoritário para as universidades durante a ditadura. E isso é particularmente interessante porque o regime autoritário não reprime somente uma manifestação. Ele reprime a possibilidade de pensamento crítico. A universidade, nesse contexto, torna-se um espaço perigoso para um governo que deseja controlar a produção de conhecimento e limitar a circulação de ideias.

         A música também merece atenção. A trilha reúne obras como “Misa Criolla”, de Ariel Ramírez, “Semper Fidelis” e “Washington Post March”, de John Philip Sousa, e “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. A presença de “É Proibido Proibir”, particularmente, é carregada de significado histórico. A música nasceu no contexto das manifestações estudantis de 1968 e da própria repressão daquele período. Portanto, ela não está simplesmente acompanhando as imagens. Introduz dentro do filme um contexto histórico que já existia fora dele.

         A relação entre cinema e música é fundamental para compreender a construção do discurso de resistência de “Manhã Cinzenta”. A trilha ajuda a criar uma obra que não apenas conta uma história, mas reúne diferentes manifestações artísticas e culturais para construir uma espécie de mosaico político.

         Outro aspecto extremamente importante é a maneira como ficção e documentário se confundem. O filme utiliza imagens de manifestações reais ao mesmo tempo em que apresenta uma narrativa ficcional. Isso produz uma espécie de contaminação: a ficção parece real porque as imagens documentais estão ali; e o documento parece ficção porque está inserido dentro daquela narrativa alegórica.

         O espectador não consegue manter uma distância confortável. A ditadura não aparece somente como uma história contada por personagens. Ela aparece como realidade histórica registrada pela câmera. Essa escolha é politicamente poderosa porque aproxima o espectador de acontecimentos que poderiam ser tratados apenas como parte de uma narrativa inventada.

         “Manhã Cinzenta” também acabou se tornando um documento histórico de seu próprio período. O filme não é somente uma obra que fala sobre a ditadura. Ele próprio passou a fazer parte da história da repressão brasileira. E isso acontece de maneira particularmente dolorosa porque Olney São Paulo não apenas representou um Estado autoritário. O cineasta também sofreu diretamente as consequências da repressão.

         Em 8 de outubro de 1969, um avião brasileiro foi sequestrado por integrantes do MR-8 e desviado para Cuba. Uma cópia de “Manhã Cinzenta” foi exibida dentro do avião. As autoridades associaram Olney ao sequestro, embora ele não tivesse participado dele. O cineasta foi preso e permaneceu incomunicável por cerca de doze dias. Foi submetido a torturas e sofreu graves consequências físicas e psicológicas. Mais tarde, em 13 de janeiro de 1972, o Superior Tribunal Militar o absolveu definitivamente das acusações relacionadas ao filme.

          Essa relação entre obra e realidade torna a experiência de assistir ao curta ainda mais perturbadora. Olney fez um filme sobre um regime que prende e tortura pessoas e acabou preso e torturado pelo próprio regime que sua obra denunciava metaforicamente. Depois disso, “Manhã Cinzenta” passou a adquirir uma dimensão ainda mais dolorosa, porque a violência representada na ficção encontraria correspondência na própria experiência do realizador.

         Os negativos e cópias do filme foram confiscados. Uma cópia, entretanto, foi preservada clandestinamente na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro durante aproximadamente 25 anos. Olney também tomou precauções para enviar cópias para fora do país, permitindo que a obra circulasse internacionalmente. O filme passou por festivais como Pesaro, Viña del Mar, Quinzena dos Realizadores de Cannes, Mannheim e Oberhausen. A Cinemateca registra ainda o prêmio de Melhor Média-Metragem na Semana Internacional de Mannheim, em 1970.

         Existe uma ironia terrível nessa trajetória. O Brasil tentou silenciar “Manhã Cinzenta”, mas o próprio esforço de censura e repressão não conseguiu impedir que a obra sobrevivesse. Pelo contrário, o filme acabou encontrando espaços de circulação fora do país e conquistando reconhecimento internacional.

            Talvez seja justamente por isso que “Manhã Cinzenta” possa ser compreendido como uma espécie de dispositivo de alerta. O filme não parece querer apenas dizer “olhem o que está acontecendo”. Ele também parece dizer: “prestem atenção”. A obra nasceu dentro de um período de repressão, mas sua força permanece porque os mecanismos de autoritarismo, silenciamento e controle continuam sendo questões que precisam ser observadas.

         “Manhã Cinzenta” é uma obra provocativa, experimental e profundamente política. Olney São Paulo utiliza ficção, documentário, música, montagem fragmentada e alegoria para construir um retrato perturbador de uma sociedade submetida à violência autoritária. É um filme que não facilita a experiência do espectador, e justamente por isso permanece tão inquietante.

         Mais do que falar sobre a ditadura, “Manhã Cinzenta” tornou-se parte da história que pretendia denunciar. E talvez essa seja uma de suas características mais trágicas e poderosas. O filme tentou representar a violência de um regime, mas acabou tendo sua própria existência perseguida por esse mesmo regime. Décadas depois, continua sendo um alerta sobre a importância da liberdade, da memória e da resistência.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PRETO NO BRANCO (2016)


            Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua corrida pela rua para não perder o ônibus. Entretanto, ao passar pela frente de um shopping center, a vida dele e de Isabella se cruzam, iniciando uma experiência violenta, angustiante e profundamente perturbadora para o jovem negro.

         Acusado pela mulher, Roberto é abordado por dois policiais civis que passavam pelo local no momento em que Isabella teve sua bolsa roubada. Essa sequência é extremamente desconfortável. E o seu impacto é ainda maior porque a situação apresentada pelo filme não parece distante da realidade brasileira. Pelo contrário. A sensação é de que estamos assistindo a algo que se repete diariamente em diferentes cidades do país. O curta consegue transformar um acontecimento específico em uma reflexão muito mais ampla sobre preconceito, suspeita e desigualdade.

        Com um elenco afiado, “Preto no Branco” desenvolve uma trama cheia de camadas e que merecem ser debatidas e refletidas. Numa perspectiva mais abrangente, Roberto e Isabella podem ser vistos menos como indivíduos específicos e mais como representantes de posições sociais diferentes dentro da sociedade brasileira. O jovem, interpretado por Marcos Oliveira, entrega uma atuação potente, intensa e visceral. Sua expressão corporal, seu olhar e sua reação diante das acusações ajudam a transmitir a sensação de impotência vivida pelo personagem. Maria Bopp vive o papel da vítima do roubo, tendo uma performance bastante competente. Taiguara Nazareth e Guilherme Lopes interpretam os policiais responsáveis pela prisão de Roberto Carlos.

         No entanto, a delegada Patrícia, interpretada por Carolina Holanda, é uma personagem que merece atenção especial. Ela ocupa uma posição interessante dentro da narrativa. Não está claramente alinhada nem com Roberto nem com Isabella. Sua hesitação pode representar algo maior: a dificuldade das instituições em lidar com situações onde preconceito, memória e verdade se misturam. A forma como a personagem é construída faz com que ela funcione como representante do próprio espectador, que ouve tanto Isabella quanto Roberto e precisa compreender a situação sem ter acesso imediato à verdade dos fatos.

         “Preto no Branco” foi realizado através do edital Curta Afirmativo para Jovens Produtores Negros, iniciativa voltada ao protagonismo de cineastas negros no audiovisual brasileiro. Trata-se de uma informação relevante porque ajuda a compreender a importância do filme dentro de um contexto maior de representatividade e produção cultural. Além disso, o curta foi selecionado para o Toronto Black Film Festival, demonstrando que sua temática dialoga com discussões raciais que ultrapassam o contexto brasileiro e encontram eco em diferentes partes do mundo.

         O verdadeiro conflito estabelecido por Valter Rege não está somente no embate criado entre Roberto e Isabella. O verdadeiro confronto ocorre entre duas formas de credibilidade social. De um lado está Roberto, jovem negro, trabalhador e acusado. Do outro está Isabella, jovem branca e vítima de um crime. O filme questiona qual das versões tende a ser considerada verdadeira antes mesmo da existência de provas concretas. Essa é uma das reflexões mais poderosas da obra.

        Sendo assim, “Preto no Branco” busca questionar um fator extremamente relevante para a sociedade brasileira: o racismo estrutural. No filme, a abordagem de Roberto Carlos possui uma motivação racista por parte dos policiais, mesmo com um deles sendo negro. E esse detalhe é particularmente interessante porque o curta evita simplificações. O preconceito não aparece apenas através de atitudes individuais, mas também através de mecanismos sociais que acabam sendo reproduzidos por diferentes pessoas.

         No entanto, abordagens de jovens negros não precisam focar necessariamente no racismo explícito. Ninguém precisa fazer um discurso racista para que o racismo esteja presente. No caso de Roberto, o preconceito aparece através de mecanismos aparentemente normais: a abordagem policial imediata, a associação automática entre negritude e suspeição, a força atribuída ao reconhecimento da vítima e a dificuldade em conceder ao acusado o benefício da dúvida. É justamente por isso que o filme costuma ser utilizado em contextos educacionais para discutir direitos humanos e relações raciais.

         Outro aspecto importante é o reconhecimento da vítima. O cinema frequentemente trata o reconhecimento visual como prova absoluta. Mas o filme parece questionar essa ideia. A lembrança de Isabella é verdadeira? Ela acredita sinceramente naquilo que viu? Ou sua percepção foi influenciada por fatores externos e já impregnados em sua mente? Essas questões ampliam o alcance da narrativa e aproximam o curta não apenas do Drama social, mas também do Thriller psicológico, devido às pressões estabelecidas pelo sistema sobre Roberto.

         Embora seja classificado como Policial, talvez o gênero funcione mais como estrutura narrativa. O foco não parece estar na investigação. O foco está nas consequências da acusação e nos impactos emocionais, sociais e institucionais gerados por ela. Por isso, talvez seja mais produtivo analisar o filme como um Drama social com elementos policiais do que como um Policial tradicional.

            Utilizando recursos técnicos de maneira extremamente competente, Valter Rege constrói em “Preto no Branco” uma obra que mantém a coesão dramática e narrativa de forma impecável. A fotografia, com câmera nervosa durante a abordagem, eleva esse momento do filme ao campo do Horror psicológico. Ângulos, planos e tomadas funcionam perfeitamente, tanto na construção da narrativa quanto na entrega de elementos dramáticos fundamentais para a experiência do espectador.

         Montagem, trilha sonora e direção de arte trabalham em consonância, sem que um aspecto diminua o outro. Na verdade, a produção de objetos, o desenho sonoro e o figurino se complementam para dar vida aos personagens e à trama. Tudo funciona de maneira pontual e cadenciada, contribuindo para a sensação crescente de tensão e desconforto.

         “Preto no Branco” não fala apenas sobre culpa ou inocência. Fala sobre percepção. O curta está interessado em mostrar que a verdade factual pode ser menos importante do que a forma como as pessoas constroem suas certezas dentro de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda produz reflexos e consequências extremamente fortes e perturbadoras. Ao transformar uma situação cotidiana em uma discussão ampla sobre preconceito, justiça e credibilidade, Valter Rege realiza uma obra necessária, relevante e profundamente atual. 




EVA (2020)

 


            Produzido pela Friends Group Entertainment, com roteiro e direção de Daniela Gonçalves, “Eva” é uma obra que chama atenção pela ambição de sua proposta. Em um cenário onde boa parte da produção independente precisa lidar com limitações orçamentárias, o filme escolhe justamente o caminho mais difícil: construir um universo próprio, com mitologia, atmosfera, linguagem particular e uma narrativa que exige participação ativa do espectador. O resultado é um curta que demonstra ousadia, personalidade e disposição para correr riscos criativos, algo cada vez mais raro em produções que optam por caminhos mais seguros.

         A trama acompanha um sacerdote e seu guardião durante uma jornada missionária. Ao atravessarem a província de Eva, o caminho dos dois é interrompido quando encontram uma jovem misteriosa ferida. A partir desse encontro, a narrativa passa a desenvolver uma sucessão de acontecimentos estranhos que transformam completamente o rumo da viagem. O filme utiliza elementos do Suspense, do Terror e do Mistério para construir uma experiência que vai muito além de sustos ou da simples expectativa pelo desconhecido. O interesse da obra está menos em revelar respostas e mais em alimentar dúvidas.

            Uma das características mais interessantes do curta é a maneira como ele trabalha a sugestão. Em vez de explicar tudo ao espectador, Daniela Gonçalves prefere criar perguntas e permitir que determinados elementos sejam interpretados de formas diferentes. Isso faz com que “Eva” funcione não apenas como uma história fantástica, mas também como uma alegoria aberta a múltiplas leituras. O filme confia na inteligência do público e evita transformar seus mistérios em explicações excessivamente didáticas.

         Uma dessas interpretações passa pela relação entre humanidade e natureza. Ao longo da narrativa, surge a sensação de que a violência exercida pelos seres humanos contra o ambiente natural não é apenas pano de fundo para os acontecimentos. O filme parece sugerir uma ruptura de equilíbrio. A natureza deixa de ser apenas cenário e passa a ocupar um papel ativo dentro da narrativa. Sob essa perspectiva, os eventos sobrenaturais funcionam como manifestação de algo maior, uma reação a agressões constantes praticadas pelo próprio homem. Essa leitura acrescenta uma camada ecológica bastante interessante à experiência.

        O personagem do guardião, interpretado por David Mello, cumpre papel fundamental nessa construção. É através de seu olhar que o espectador descobre aquele universo e acompanha o crescimento gradual da tensão. Sua atuação contribui para transmitir medo, dúvida, inquietação e vulnerabilidade diante de acontecimentos que escapam à compreensão racional. A jornada do personagem também funciona como uma espécie de travessia emocional, conduzindo o público por uma experiência cada vez mais angustiante.

         O elenco entrega interpretações comprometidas com a proposta do filme e ajuda a tornar crível um universo que poderia facilmente soar artificial. O elenco como um todo contribui para a credibilidade da narrativa. Além de David Mello, Allan Gonçalves, Carolini Camini, Felipe Guilherme Paixão, Mayara Silva e Vitor Renan aprofundam os personagens numa narrativa que trabalha constantemente com o desconhecido. As atuações possuem a responsabilidade de manter o espectador emocionalmente conectado aos personagens, algo que o filme consegue realizar com competência.

            Outro aspecto extremamente interessante é a escolha do Esperanto como idioma principal. Trata-se de uma decisão incomum dentro do audiovisual brasileiro e que acrescenta uma camada extra de estranhamento à narrativa. Criado por Ludwik Lejzer Zamenhof no século XIX com a proposta de facilitar a comunicação entre diferentes povos, o Esperanto carrega uma forte carga simbólica ligada à ideia de aproximação cultural e universalidade. Em “Eva”, sua utilização ajuda a construir a sensação de que a história acontece em um espaço que não pertence exatamente a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, pode pertencer a qualquer lugar.

         Essa escolha também contribui para fortalecer o caráter mítico da narrativa. O filme não parece interessado em situar seus personagens em uma realidade específica. O idioma reforça justamente essa atmosfera de lenda, fábula ou parábola sombria, aproximando a obra de narrativas fantásticas que dialogam mais com símbolos do que com acontecimentos concretos.

        Tecnicamente, “Eva” impressiona pela maturidade. A direção de arte demonstra enorme preocupação com composição visual e construção de atmosfera. Os cenários, figurinos e elementos de cena ajudam a criar um universo coerente e visualmente rico. A fotografia trabalha muito bem a relação entre luz e escuridão, contribuindo para a sensação permanente de inquietação. Em diversos momentos, a imagem parece comunicar tanto quanto os diálogos. Há um cuidado evidente na composição dos enquadramentos e na utilização dos espaços naturais para reforçar a sensação de mistério.

         O trabalho de som também merece destaque. Os efeitos sonoros e a trilha são utilizados de maneira estratégica para ampliar a tensão dramática. Em vez de depender exclusivamente de imagens impactantes, o filme constrói boa parte de seu desconforto através da sonoridade. O resultado é uma experiência imersiva que envolve o espectador e reforça o clima de ameaça constante.

          Outro mérito está no ritmo narrativo. O primeiro ato é deliberadamente mais lento, permitindo que o público conheça aquele universo e seus personagens. Essa construção gradual exige paciência, mas se mostra recompensadora quando a narrativa acelera. À medida que os acontecimentos se tornam mais intensos, o filme ganha velocidade e conduz o espectador para uma conclusão marcada por tensão, angústia e sensação de inevitabilidade.

         Filmado em Mogi das Cruzes e lançado em 2020, “Eva” demonstra que o cinema independente brasileiro continua produzindo obras capazes de surpreender pela criatividade e pela coragem de experimentar. Mais do que um exercício de gênero, o curta constrói uma experiência que combina fantasia, horror e reflexão ambiental de maneira bastante particular. É um filme que aposta na atmosfera, nos símbolos e na participação ativa do espectador, revelando uma produção ambiciosa, madura e tecnicamente competente. “Eva” não se limita ao que mostra na tela. É uma obra que continua provocando interpretações e reflexões, característica comum aos trabalhos que encontram força justamente no mistério e na abertura para diferentes leituras.




UMA VIDA INTEIRA (2012)

 


        Baseado na crônica “O Salto”, de Antônio Prata, e com direção e roteiro de Ricardo Santini e Bel Ribeiro, “Uma Vida Inteira” é um filme de Romance que tem a ideia central já muito bem sintetizada no título.

         O curta acompanha um casal desde a primeira noite juntos até a possibilidade de um futuro que talvez nunca aconteça. O interessante é que o filme não precisa mostrar literalmente uma vida inteira. Ele trabalha com a imaginação do futuro. Em poucos minutos, uma relação recém iniciada pode carregar casamento, rotina, envelhecimento, desgaste, separação e todas as possibilidades intermediárias. É como se, no instante em que duas pessoas se apaixonam, elas também começassem a imaginar tudo aquilo que poderá acontecer entre elas.

        “Uma Vida Inteira” fala menos sobre o futuro do que sobre a ansiedade diante dele. O personagem narrador não está simplesmente apaixonado. Ele também está tentando imaginar o que acontecerá se esse amor der certo. E imaginar o futuro significa imaginar também a possibilidade de que ele dê errado. É uma contradição bastante humana. Queremos viver o amor, mas temos medo das consequências de nos entregarmos a ele. Por isso, o curta pode ser entendido como uma história sobre expectativa e medo. A pessoa deseja se aproximar, mas sabe que se aproximar significa abandonar uma certa segurança.

         A metáfora do salto é utilizada com profunda eficiência. Ela representa o momento em que duas pessoas deixam uma posição de segurança para apostar em alguma coisa cujo resultado não podem conhecer. Isso combina perfeitamente com o amor. Porém, chega um momento em que é preciso simplesmente se lançar. Uma vida inteira pode caber justamente nesse intervalo entre decidir saltar e descobrir onde se vai chegar.

        Há algo muito interessante na relação entre o tempo real e o tempo imaginado. O espectador está vendo uma história de apenas alguns minutos, mas a narrativa abre a possibilidade de acompanharmos décadas. Isso cria uma espécie de compressão temporal. Acontecimentos que levariam anos são concentrados em pensamentos, expectativas e possibilidades. É uma solução particularmente interessante da narrativa do filme. Os realizadores perguntam, de maneira bastante delicada, quantas coisas podem ser imaginadas quando uma relação ainda está começando.

         Outro recurso muito bem empregado pelos diretores, e que faz parte do texto de Antônio Prata, é estabelecer a vida cotidiana aparecendo antes mesmo dela acontecer. Há a possibilidade de imaginar uma relação não apenas através dos grandes acontecimentos, mas através de pequenas rotinas. É aí que o filme se torna menos romântico no sentido tradicional. Não se trata apenas de imaginar grandes declarações de amor. É imaginar a vida comum. Um restaurante, uma mesa, uma bebida, pequenos hábitos, conversas repetidas e silêncios. Essas pequenas coisas podem parecer insignificantes, mas são justamente elas que constituem uma vida compartilhada.

        Alice Braga e Bruno Autran sustentam uma narrativa muito delicada com muita competência, eficiência e sensibilidade. O filme é praticamente um estudo de dois personagens. Não basta representar duas pessoas apaixonadas. É preciso transmitir diferentes possibilidades de uma relação, como entusiasmo, desejo, insegurança, intimidade e medo. Como a narrativa depende bastante daquilo que é imaginado, a atuação precisa ajudar o espectador a acreditar tanto no presente quanto nos futuros possíveis.

         A fotografia e a trilha sonora são fundamentais para criar esse romantismo existente em “Uma Vida Inteira”. A fotografia de Leo Ferreira, a montagem de Márcio Hashimoto, a direção de arte de Taisa M. Rodrigues e a trilha sonora de Fábio Góes constroem um universo único entre os personagens. Cada elemento técnico ajuda a diferenciar o presente concreto das possibilidades imaginadas de uma forma extremamente comovente. O filme tem uma proposta que poderia facilmente ficar excessivamente literária, justamente por ser baseado em uma crônica. No entanto, fotografia, trilha sonora e montagem transformam com muita competência pensamento em imagem cinematográfica.

         O curta pode parecer extremamente otimista porque fala da possibilidade de duas pessoas se entregarem ao amor. Mas existe uma melancolia na própria estrutura. Para imaginar uma vida inteira, precisamos imaginar também a possibilidade de perder essa vida. O futuro feliz só é desejável porque sabemos que ele não é garantido. Isso faz com que o filme não seja simplesmente sobre “acreditar no amor”. É sobre aceitar a incerteza do amor, não saber se vai durar, não saber se vai funcionar, não saber se aquela pessoa será realmente o amor da sua vida. Mas é preciso decidir se vale a pena tentar.

         Sendo assim, a metáfora do trapézio é provavelmente a síntese do filme. A ideia de duas pessoas soltarem suas “mãos dos trapézios” é especialmente forte porque transforma o relacionamento em uma espécie de ato de confiança. Enquanto permanecemos agarrados ao que conhecemos, estamos seguros. Quando soltamos, existe um intervalo em que não temos controle. O amor está justamente nesse intervalo.

        Não existe maneira racional de garantir que um relacionamento dará certo antes de vive-lo. Você pode avaliar compatibilidade, imaginar o futuro e tentar se proteger. Mas, em algum momento, precisa correr o risco. O filme entende que essa falta de garantia não é uma falha do amor. É parte essencial de sua experiência.

         “Uma Vida Inteira” é menos um filme sobre uma vida inteira do que sobre o instante em que uma vida pode mudar de direção. Duas pessoas se encontram e ainda não sabem o que serão uma para a outra. Porém, naquele momento, existe a possibilidade de tudo. O título ganha então uma dimensão muito bonita. Uma vida inteira pode estar contida não nos anos que serão efetivamente vividos, mas na quantidade de futuros que conseguimos imaginar diante de uma nova relação.

         E existe uma reflexão muito interessante ao terminar de assistir “Uma Vida Inteira”: vale a pena se entregar a algo cujo futuro não podemos conhecer? O filme parece responder que sim, não porque exista garantia de felicidade, mas porque a ausência de garantia é justamente o que torna o amor uma experiência de risco e, portanto, de escolha. Amar significa aceitar que não sabemos o que acontecerá depois do salto.




terça-feira, 6 de outubro de 2026

BRASIL 2020 (2019)

 


         “Brasil 2020” é uma obra que utiliza o horror como ferramenta para construir uma alegoria política contundente. Com roteiro e direção de Petter Baiestorf, o curta não busca assustar através de monstros, fantasmas ou ameaças sobrenaturais, mas sim por meio de uma realidade distorcida que dialoga diretamente com tensões sociais, culturais e políticas. O resultado é um horror distópico que transforma censura, perseguição ideológica, intolerância e autoritarismo em elementos centrais de sua narrativa.

          Conhecendo a filmografia de Petter Baiestorf e a proposta da Canibal Filmes, fica evidente que estamos diante de uma produção alinhada ao cinema de guerrilha, ao exploitation e à sátira política. O diretor não demonstra interesse em suavizar suas críticas ou esconder suas posições através de metáforas excessivamente discretas. Pelo contrário, a provocação é parte essencial da experiência. Um dos aspectos mais curiosos do curta é que, lançado em 2019, ele antecipa discussões que ganhariam ainda mais força nos anos seguintes, especialmente durante a pandemia de Covid-19, a partir de 2020. Questões relacionadas ao negacionismo científico, à desconfiança em especialistas e ao fortalecimento de discursos anticientíficos aparecem de forma surpreendentemente próxima do que viria a acontecer pouco tempo depois.

         O conceito de uma “crentecracia militar” é uma das ideias mais fortes da narrativa. A expressão combina diferentes elementos que marcaram o debate público brasileiro durante aquele período: o crescimento de setores religiosos conservadores na política, a nostalgia de grupos que defendiam uma nova intervenção militar e o fortalecimento de discursos autoritários. Nesse sentido, o filme constrói uma sociedade em que religião, poder estatal e repressão caminham lado a lado.

         Outro aspecto particularmente interessante é a presença das chamadas “bruxas do século 21”. A escolha dessa nomenclatura não é aleatória. Historicamente, as perseguições por bruxaria serviram muitas vezes como instrumento de controle social, atingindo indivíduos considerados inconvenientes ou desviantes. Em “Brasil 2020”, a figura da bruxa deixa de representar algo sobrenatural e passa a simbolizar qualquer pessoa que desafie a visão oficial do regime. O conceito funciona muito bem porque amplia o alcance da crítica proposta pelo filme.

         Professores, artistas, agricultores orgânicos, escritores independentes, filósofos, ambientalistas e livres pensadores tornam-se alvos preferenciais dessa estrutura de poder. O filme sugere que pensar de forma diferente já é suficiente para ser considerado uma ameaça. A perseguição não ocorre devido a atos violentos ou crimes concretos dos críticos do regime, mas pela simples existência de indivíduos que recusam seguir determinadas imposições ideológicas.

         Nesse contexto surgem os catequizadores. Embora o nome remeta a uma ideia religiosa, eles funcionam muito mais como fiscais do pensamento, inquisidores modernos encarregados de identificar e eliminar aqueles considerados inadequados. A presença desses personagens reforça a atmosfera opressiva da narrativa e evidencia o caráter autoritário do regime retratado.

         A noção de “purificação” apresentada pelo filme também merece atenção. Ao longo da história, discursos de purificação frequentemente estiveram associados à exclusão de grupos sociais, perseguições políticas e mecanismos de repressão. O curta utiliza essa ideia para estabelecer paralelos com momentos históricos marcados pela intolerância, pela censura e pela tentativa de impor uma única visão de mundo.

           O protagonista, interpretado por Loures Jahnke, vive no campo, cultiva seus próprios alimentos e dedica parte do seu tempo à leitura. Em circunstâncias normais, essas características não representariam qualquer ameaça. Entretanto, dentro da lógica apresentada pelo filme, tornam-se comportamentos considerados subversivos. Sua independência econômica e intelectual o transforma automaticamente em inimigo do sistema.

         Além da crítica ao Agronegócio, a narrativa também direciona sua atenção para a indústria armamentista e para a concentração de poder econômico. O filme sugere a existência de uma aliança entre interesses políticos, religiosos e empresariais, formando uma estrutura que busca controlar não apenas recursos, mas também comportamentos e formas de pensamento.

         Petter Baiestorf opta por uma abordagem direta, sem recorrer a grandes disfarces narrativos. Diferentemente de muitas distopias que preferem trabalhar com simbolismos mais sutis, “Brasil 2020” assume sua condição de manifesto cinematográfico. Essa característica pode gerar diferentes reações, mas contribui para tornar a mensagem extremamente clara.

         Brutal, provocador e desconfortável, o curta conduz seu protagonista a um destino doloroso. Seu grande crime é viver de acordo com suas próprias convicções, recusando-se a se adaptar às exigências impostas pelo regime. Essa trajetória reforça a crítica central da obra e transforma a história em uma reflexão sobre liberdade, autonomia e resistência.

         O aspecto mais inquietante de “Brasil 2020” talvez seja justamente a origem de seu horror. O medo não surge de criaturas fantásticas ou ameaças desconhecidas. Surge de instituições, discursos e comportamentos humanos perfeitamente reconhecíveis. É um filme que encontra sua força não apenas naquilo que mostra, mas na proximidade entre sua ficção e debates que continuam presentes na realidade contemporânea.




UM SAMPAIO TEIMOSO (2011)

            Com roteiro de Nayara Tognere e Stéfano Fabris, “Um Sampaio Teimoso” tem como principal objetivo recuperar Sérgio Sampaio e sua ...