Com uma circulação considerável
em festivais e premiações, como a 20ª Mostra de Cinema Infantil de
Florianópolis, o Circuito Penedo de Cinema 2020, o Cinefest Gato Preto 2020, a
Mostra Paulista de Curtas-Metragens e o 21º NOIA, em 2023, "Fome"
saiu vencedor na categoria Júri da Crítica no V Festival de Cinema Estudantil
Você na Tela, em 2020. O reconhecimento ajuda a dimensionar a força de uma obra
que, mesmo voltada ao público infantil, consegue abordar questões sociais e
humanas com bastante sensibilidade.
Com
direção e roteiro de Felipe Fré, o curta conduz um Drama sensível, comovente e
extremamente cativante. A trama apresenta Lia e sua mãe, interpretadas por Sara
Santarém e Tati Keplmair, respectivamente. Vivendo no campo, as duas dependem
das vendas de doces produzidos por Fátima em uma pequena cidade, construindo
uma rotina simples, marcada pelo trabalho e pelas dificuldades.
Uma das chaves principais do curta está em seu próprio título: fome. "Fome" não significa apenas fome. A chegada de uma dupla de saltimbancos eleva o termo para outras dimensões, transformando não só a vida de mãe e filha, mas também a maneira como o espectador passa a enxergar as protagonistas.
Mãe
e filha compreendem que não é somente o corpo que necessita de alimento, e isso
muda bastante a leitura do filme. A fome física é obviamente a primeira camada.
Fátima trabalha para colocar comida na mesa. Lia vive em um ambiente rural
simples, onde as possibilidades são limitadas. Mas existe uma segunda fome: a
fome de imaginação, de experiência, de descoberta, de fantasia e talvez de uma
vida diferente.
É
nesse ponto que a chegada de Ciço e Carmela, os artistas itinerantes, deixa de
ser apenas um acontecimento narrativo. Eles levam para aquele vilarejo alguma
coisa que não pode ser comprada na venda de doces. Eles levam imaginação. Levam
histórias, personagens e possibilidades. E a capacidade de criar, inventar e
contar histórias muda a forma como Lia interage com o mundo, com a mãe e com as
pessoas da cidade.
A equipe criativa exerce uma importância primordial na construção da relação entre mãe e filha. Fátima está preocupada com a sobrevivência concreta. Lia está preocupada com uma sobrevivência imaginativa. Uma luta contra a fome e a outra luta contra os limites da realidade. Talvez o filme esteja dizendo que as duas coisas são necessárias. Uma criança precisa de comida, evidentemente, mas também precisa de imaginação, brincadeira, histórias e possibilidade de sonhar. Isso explica por que a presença dos saltimbancos é tão importante para a transformação de Lia.
"Fome"
é apresentado como filme infantil, mas não trata a infância como um mundo
completamente protegido dos problemas adultos. O filme aborda temas e aspectos
difíceis da vida, e isso é significativo. Lia brinca, imagina, vê dragões e
princesas. Mas existe uma mãe trabalhando para garantir que haja comida.
Portanto, a fantasia infantil convive com a realidade econômica. Essa é uma das
grandes qualidades do filme: não é necessário retirar a criança da realidade
para permitir que ela sonhe.
Felipe
Fré conduz com muita competência uma trama envolvente, utilizando muito bem os
elementos técnicos de produção. A trilha sonora faz uso de sons diegéticos para
destacar o trabalho de mãe e filha, a produção dos doces, os sons domésticos,
crus e ambientais. Porém, nos momentos de leveza, o filme se permite sons mais
agradáveis, que elevam as sensações do espectador e acompanham a transformação
provocada pela chegada dos artistas.
Fotografia
e direção de arte também merecem destaque, seja na construção familiar da residência
ou na praça onde são vendidos os doces produzidos. Tanto em planos e ângulos
mais fechados, destacando potes, legumes, verduras, mãos e movimentos, quanto
em sequências mais abertas, o filme amplia sua perspectiva após a chegada,
apresentação e legado deixado pelos saltimbancos.
A
partir desse momento, os elementos técnicos trabalham para trazer maior leveza
ao curta, mostrando como o impacto da apresentação deixou marcas em Lia,
alterando sua visão de mundo e a maneira como os problemas podem ser encarados
com mais otimismo. A atuação de Sara Santarém transborda simpatia e encanta.
Além dela e de Tati Keplmair, o elenco conta com Sofia Morás e Luiz Xavier nos
papéis dos artistas itinerantes.
"Fome" talvez seja justamente sobre aquilo que não conseguimos enxergar quando pensamos apenas na necessidade de alimentar o corpo. Existe a fome de conhecer, de imaginar, de criar e de descobrir que existe um mundo muito maior do que aquele que conhecemos. A fantasia, nesse sentido, não aparece como fuga da realidade, mas como uma maneira de ampliar a realidade.
Felipe
Fré constrói essa ideia sem transformar o curta em uma lição de moral,
permitindo que Lia descubra, através dos saltimbancos, que a imaginação também
pode ser uma forma de resistência diante das limitações da vida. Entre doces,
dificuldades, histórias e fantasias, "Fome" encontra sua maior força
ao mostrar que sobreviver não significa apenas permanecer vivo. Também é
preciso encontrar motivos para sonhar.






































