quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O DEUS NEON (2016)

 


O curta-metragem "O Deus Neon" combina Terror, Suspense, Thriller e Gore para construir uma narrativa visceral que impressiona tanto pela violência explícita quanto pelas reflexões que provoca. Dirigido, roteirizado e produzido por Taísa Ennes Marques e Rafael Duarte, o filme utiliza uma premissa simples, mas extremamente inquietante, para discutir temas como justiça, vingança, cultura digital e a facilidade com que a violência pode ser legitimada quando encontra apoio coletivo.

Desde a primeira cena, o espectador é lançado diretamente em uma situação angustiante. Durante uma transmissão ao vivo na internet, um homem revela, por meio de cartazes, que capturou um ladrão que tentou invadir sua casa. Em seguida, anuncia que dará ao público 70 minutos para decidir qual será o destino do criminoso. A partir desse instante, instala-se uma contagem regressiva que aumenta constantemente a tensão. Cada minuto que passa aproxima o desfecho inevitável, enquanto a participação dos internautas transforma o público da live em parte ativa da violência que está prestes a acontecer.

Essa estrutura narrativa funciona muito bem porque cria uma sensação permanente de expectativa. Não acompanhamos apenas o sofrimento do homem amarrado, mas também a escalada da crueldade incentivada pelos espectadores da transmissão. O curta faz com que a tensão cresça de maneira gradual, permitindo que o horror seja construído não apenas pelas imagens, mas também pelas reações das pessoas que acompanham tudo através da tela.

"O Deus Neon" estabelece um diálogo bastante crítico com questões extremamente atuais. O filme aborda a sensação de impunidade, o descrédito em relação às instituições públicas e o crescimento de discursos que defendem a justiça pelas próprias mãos. Em vez de oferecer respostas fáceis, a narrativa expõe como determinados sentimentos de revolta podem abrir espaço para atitudes cada vez mais violentas quando encontram validação coletiva.

Um dos aspectos mais inteligentes do roteiro está justamente na utilização da internet como elemento central da narrativa. Os comentários publicados durante a transmissão deixam de funcionar apenas como complemento da cena e passam a ocupar um papel dramático fundamental. Eles representam uma multidão invisível que influencia diretamente cada decisão do protagonista. Aos poucos, essa massa virtual transforma-se em um verdadeiro terceiro personagem do filme, conduzindo os acontecimentos sem jamais aparecer fisicamente.

Esse recurso ganha ainda mais força quando descobrimos que os comentários exibidos na live foram retirados de publicações reais feitas por internautas em notícias sobre arrombamentos e assaltos ocorridos entre fevereiro de 2014 e março de 2015. Essa escolha aproxima perigosamente a ficção da realidade e torna a experiência muito mais desconfortável. O espectador percebe que aquelas mensagens não foram inventadas para chocar, mas representam pensamentos que já circularam livremente nas redes sociais.

Ao transportar esses comentários para dentro da narrativa, Taísa Ennes Marques e Rafael Duarte evidenciam como determinados discursos violentos podem parecer naturais quando permanecem restritos ao ambiente virtual. O filme apenas leva essas manifestações às últimas consequências, obrigando o público a confrontar o impacto real das palavras quando elas deixam de ser apenas opiniões e passam a orientar ações concretas.

As atuações de Henrique Larré e Samuel Reginatto contribuem significativamente para a intensidade da obra. Mesmo com poucos diálogos diretos, ambos conseguem transmitir grande carga dramática através da expressão corporal e das reações emocionais. O ladrão aparece completamente vulnerável, dominado pelo medo, pela dor e pelo desespero diante daquilo que está prestes a acontecer. Sua fragilidade torna as cenas ainda mais perturbadoras.

Em contraste, o dono da casa demonstra absoluto controle emocional. Sua postura é fria, calculada e quase mecânica. Em nenhum momento ele parece agir movido por impulsos descontrolados. Pelo contrário, executa cada ação como se estivesse apenas cumprindo uma tarefa determinada por outra pessoa. Essa ausência de explosões emocionais torna sua figura ainda mais assustadora, pois transmite a sensação de alguém que encontrou justificativa moral para cada ato de violência praticado.

A ausência de conversas entre os dois personagens reforça esse desconforto. O silêncio cria uma barreira entre vítima e agressor, eliminando qualquer possibilidade de empatia ou negociação. Tudo o que resta é a execução de uma sentença construída coletivamente pelos espectadores da transmissão.

Tecnicamente, "O Deus Neon" apresenta um trabalho bastante consistente. A fotografia constrói um ambiente escuro e opressor que amplia a sensação de confinamento. A iluminação utiliza contrastes marcantes entre luz e sombra para destacar tanto a brutalidade física quanto o isolamento emocional dos personagens. O espaço onde a ação acontece torna-se quase um cenário de tribunal improvisado, onde a multidão virtual assume simultaneamente os papéis de juiz, júri e carrasco.

A trilha sonora também merece destaque por sua eficiência. Em vez de buscar protagonismo, ela acompanha o desenvolvimento da narrativa e intensifica gradualmente a tensão. Os efeitos sonoros e o desenho de som ampliam o impacto das cenas de violência sem recorrer a excessos desnecessários, contribuindo para manter o espectador constantemente desconfortável.

A maquiagem e os efeitos práticos reforçam essa proposta ao apresentar ferimentos convincentes e uma violência visual bastante realista. O Gore presente no filme não surge como mero espetáculo gráfico. Cada marca no corpo do prisioneiro possui função narrativa, evidenciando a escalada de brutalidade estimulada pela audiência da live.

Um dos momentos mais simbólicos acontece quando um dos participantes da transmissão chama o protagonista de "deus". A partir desse instante, o título do curta adquire pleno significado. Ao receber essa denominação, o personagem passa a ocupar simbolicamente uma posição de autoridade absoluta sobre a vida de outro ser humano. A aprovação constante da multidão fortalece sua sensação de poder e alimenta a ilusão de que suas ações ultrapassam os limites da moralidade comum.

Essa construção evidencia uma crítica bastante pertinente à forma como parte da sociedade transforma determinados indivíduos em figuras quase messiânicas sempre que eles prometem solucionar problemas através da força. O filme demonstra como o desejo de vingança pode ser confundido com justiça e como a aprovação coletiva pode servir de combustível para atitudes cada vez mais extremas.

Mais do que discutir a violência física, "O Deus Neon" propõe uma reflexão sobre responsabilidade coletiva. O protagonista executa as agressões, mas não está sozinho. Cada comentário incentivando novas formas de tortura contribui para legitimar seus atos. O filme questiona até que ponto aqueles que assistem, aprovam e incentivam também compartilham parte da responsabilidade pelos acontecimentos.

No fim, percebe-se que talvez o verdadeiro horror não esteja apenas nas ações do homem que conduz a transmissão, mas na facilidade com que centenas de pessoas participam daquela violência sem qualquer consequência imediata. A barbárie deixa de ser individual para assumir uma dimensão coletiva.

"O Deus Neon" vai muito além de um exercício de Gore ou de Terror extremo. Trata-se de uma obra que utiliza o horror como ferramenta para discutir ética, justiça, violência e comportamento social na era digital. Com uma direção segura, atuações convincentes, excelente construção técnica e uma premissa extremamente provocadora, o curta entrega uma experiência intensa e desconfortável. É um filme que permanece na memória justamente porque obriga o espectador a refletir sobre até onde pode chegar uma sociedade que transforma a violência em espetáculo e a vingança em entretenimento.


Assista Deus Neon: Vimeo

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

MAUÁ – LUZ AO REDOR (2012)

 


        Com direção e roteiro de Juliana Vicente, “Mauá – Luz ao Redor” apresenta a ocupação da comunidade Mauá, no centro de São Paulo. No entorno da Rua Mauá encontra-se a vida das 230 famílias que habitam a ocupação de um prédio que estava abandonado. Mais do que apresentar simplesmente um espaço ocupado, o documentário registra pessoas que transformaram aquele edifício em lugar de moradia, convivência e construção de uma nova rotina.

         O ponto central do curta gira em torno da ocupação como lugar de moradia, não simplesmente como “prédio ocupado”. O documentário desloca o olhar da palavra “ocupação”. O termo frequentemente faz pensar apenas no ato de tomar um imóvel, mas o filme apresenta aquilo que foi construído dentro dele: relações, rotina, trabalho, estudo, convivência e pertencimento. Pesquisas posteriores sobre a Mauá mostram justamente essa transformação do antigo Hotel Santos Dumont em espaço habitacional e comunitário. Isso abre uma questão interessante: quando um prédio deixa de ser apenas propriedade e passa a ser casa? A resposta não está somente na estrutura física, mas na vida que passa a existir dentro daquele espaço.

        A vida dos moradores não está confinada ao edifício. A localização central interfere diretamente na existência dessas pessoas. A câmera pode ser pensada, portanto, não apenas como observadora da ocupação, mas como instrumento que mostra a relação entre moradia e cidade. A Mauá não é um lugar isolado: está diante da Estação da Luz, cercada por transporte, comércio, serviços e outras instituições. Estar ali significa ter acesso a uma parte da cidade que muitas vezes permanece distante para populações que precisam morar nas regiões periféricas.

         Daí surge uma questão maior: quem pode morar no centro de São Paulo? O documentário permite pensar a cidade não somente como espaço físico, mas como espaço de disputa. Há imóveis abandonados e, simultaneamente, pessoas sem moradia. A ocupação cria justamente esse choque entre propriedade, abandono, necessidade e função social. Estudos sobre a Mauá tratam a experiência como parte de uma disputa mais ampla pelo direito à cidade e pela habitação de interesse social. O filme transforma essa discussão abstrata em uma realidade concreta, formada por famílias que vivem naquele espaço.

        Tanto os depoimentos de moradores quanto de Mano Brown trazem a reflexão de que o desejo dos que detêm o poder financeiro e político é manter os que não têm direitos longe do centro, do trabalho, de hospitais e, automaticamente, longe de ter dignidade. A questão habitacional aparece, assim, ligada a outras formas de desigualdade. Morar longe significa também enfrentar maiores deslocamentos e dificuldades para acessar serviços e oportunidades.

         O filme mostra como a ameaça de despejo muda o significado de tudo. A ameaça não precisa ser apresentada apenas como um acontecimento futuro. Ela contamina aquilo que já foi conquistado. Uma família que conseguiu estabelecer uma rotina pode perder não apenas quatro paredes, mas escola, trabalho, vizinhança, amizades e referências. É interessante observar como o filme trabalha essa ideia de deslocamento como destruição de uma rede de vida, e não simplesmente como mudança de endereço.

         Merece destaque um trecho da sinopse: “Pessoas que não querem retornar à condição de sem-tetos”. Existe uma diferença entre estar sem moradia e ter conquistado uma moradia, mesmo quando essa moradia está dentro de uma ocupação. A resistência dos moradores não se resume à defesa de um imóvel específico, mas também envolve a recusa de voltar a uma condição anterior. O próprio contexto posterior da Mauá mostra moradores realizando reformas e melhorias no edifício, transformando progressivamente o espaço. Essas mudanças reforçam a ideia de que o local deixou de ser apenas uma estrutura abandonada e passou a carregar marcas de quem vive ali.

         Vale observar a trajetória de Juliana Vicente. Antes e depois desse trabalho, ela realizou outros documentários ligados a questões sociais e, especialmente, ao cotidiano de comunidades e grupos historicamente marginalizados. “Leva”, dirigido por ela e Luiza Marques, também acompanha a vida em uma ocupação no centro de São Paulo.

        Isso permite refletir sobre a maneira como Juliana constrói um cinema interessado não apenas em denunciar uma situação, mas em dar visibilidade à vida existente dentro dela. Juliana dá voz a populações excluídas e marginalizadas. Um exemplo é “Vaca Profana”, que tem direção de René Guerra e Juliana como produtora. No belíssimo Drama, a abordagem reflete sobre a maternidade por parte de uma mulher trans. Em trabalhos diferentes, existe esse interesse por personagens e grupos que muitas vezes permanecem fora das representações mais convencionais.

         Com elementos técnicos muito bem empregados, Juliana Vicente constrói um filme rico para reflexões sobre a questão habitacional no Brasil. Montagem, fotografia e trilha sonora trabalham para mover um tema profundo em poucos minutos. A linguagem cinematográfica contribui para aproximar o espectador da realidade dos moradores sem transformar a questão em uma discussão puramente abstrata.

         O filme registra a Mauá em determinado momento de sua história, quando as famílias passaram a ocupar o edifício. Mas a história da ocupação continuou. Anos depois, a Mauá ainda era habitada por centenas de famílias e continuava envolvida em disputas relacionadas à regularização e à habitação. Essa continuidade dá ao curta uma dimensão ainda maior: aquilo que vemos não é uma história encerrada, mas um momento do início de uma luta que ainda continua viva.



       

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O RETRATO DA LUA (2013)

 


            Com roteiro de Mike Ale e direção de Claudio Bitencourt e Diego Lopes, “O Retrato da Lua” é um Drama que mescla os gêneros Fantasia e Aventura, tendo como motor narrativo o luto de um garotinho em relação à perda de sua mãe.

         Nicolas perde a mãe, recebe da tia a informação de que ela está na lua e decide construir um foguete para visitá-la. Depois de concluir sua nave improvisada, viaja pelo espaço, enfrenta desafios e finalmente encontra a mãe.

         Essa estrutura sugere algumas leituras muito interessantes, como o luto visto pelos olhos de uma criança. A interpretação mais evidente é a do processo de elaboração do luto. Adultos costumam compreender a morte como ausência definitiva. Crianças pequenas frequentemente transformam essa ausência em imagens concretas. Quando a tia diz que a mãe está na lua, Nicolas não interpreta aquilo como metáfora. Ele aceita literalmente a informação. Essa escolha narrativa é um dos grandes acertos do filme, pois respeita a lógica infantil sem tratá-la de forma simplista ou ingênua.

        Narrativamente, o curta parece seguir uma estrutura clássica de jornada. O protagonista recebe uma missão, constrói um meio para realizá-la, enfrenta obstáculos, alcança aquilo que procura e retorna transformado. Mas a transformação não parece ser física, mas sim emocional. O encontro com a mãe funciona menos como um reencontro literal e mais como uma despedida simbólica. O que Nicolas busca durante toda a aventura não é apenas encontrar sua mãe, mas compreender sua ausência.

         Outro ponto bastante interessante está relacionado ao retrato dentro da trama. Ele é o objeto simbólico mais importante da narrativa. Fotografias costumam representar memória, permanência e vínculo afetivo. O fato de Nicolas entregar o retrato à mãe durante o sonho e depois acordar sem ele sugere uma possível interpretação: ele não está esquecendo a mãe, mas aprendendo a viver sem precisar se agarrar materialmente à sua presença. O sentimento continua existindo, mas passa a ocupar um espaço diferente dentro de sua vida.

        A própria lua também possui uma função simbólica importante. Frequentemente associada aos sonhos, à imaginação e ao mistério, ela se transforma no destino ideal para uma criança que procura respostas para uma perda que ainda não consegue processar completamente. O filme utiliza esse elemento de maneira bastante sensível, transformando a fantasia em uma ferramenta para abordar emoções reais.

         Com Patrick Gessé, Lívia Castanheira, Fábio Pholman, Viviane Gazotto, Raphael Rocha e Diego Duda, “O Retrato da Lua” se destaca por suas atuações convincentes e maduras, o que aumenta significativamente a qualidade do curta. Patrick Gessé, em especial, sustenta boa parte da carga emocional da narrativa, transmitindo tristeza, esperança e curiosidade de forma bastante natural.

         A fotografia desempenha um papel importante, principalmente pelo uso da câmera subjetiva durante praticamente todo o primeiro ato, o que possibilita uma aproximação natural do espectador ao protagonista, Nicolas, interpretado por Patrick Gessé. No restante da obra, a fotografia continua utilizando elementos muito interessantes, confirmando a competência da equipe e contribuindo para a construção do universo fantástico apresentado pela narrativa.

        Os efeitos visuais impressionam pela qualidade. Eles dão suporte para sequências lúdicas e visões infantis de maneira perfeita. Assim como a trilha sonora e o desenho de som, que trabalham em conjunto com direção de arte, figurino, maquiagem e montagem para a construção de uma obra tecnicamente muito rica. Todos esses elementos colaboram para tornar a jornada de Nicolas emocionalmente envolvente e visualmente encantadora.

        Com o uso simbólico da lua, do retrato e da fantasia como ferramenta dramática, “O Retrato da Lua” é uma excelente reflexão sobre o luto infantil. Os realizadores construíram uma obra sensível, com arco dramático extremamente comovente e com uma mensagem muito bonita. Unindo elementos narrativos, dramáticos e técnicos, “O Retrato da Lua” não fala somente de falecimentos, mas de como pessoas importantes podem continuar vivas dentro da memória. É um curta delicado que encontra na imaginação infantil uma forma tocante de falar sobre perda, saudade e aceitação.




domingo, 18 de outubro de 2026

À MARGEM DO UNIVERSO (2017)

 


        Assistir a uma obra como “À Margem do Universo” provoca uma sensação bastante singular. Primeiro, porque se trata de um gênero ainda pouco explorado dentro do cinema brasileiro. Segundo, porque oferece uma experiência profundamente comovente para o espectador que consegue mergulhar na jornada da personagem principal e nas reflexões propostas pela narrativa.

         Antes de avançar na análise, vale explicar o título deste texto. Segundo uma das definições do termo alien, a palavra pode designar alguém que vem de outro país, cultura ou grupo social. Já em seu sentido mais popular, refere-se a seres extraterrestres. No Brasil, estamos muito mais acostumados a utilizar essa segunda definição. Entretanto, “À Margem do Universo” trabalha de forma interessante com ambas as interpretações, permitindo que elas coexistam ao longo da narrativa.

        Com roteiro de Fáuston da Silva e direção de Tiago Esmeraldo, o filme se inicia com o despertar de Adawa, interpretada pela atriz angolana Petra Sunjo, após um período de hibernação. Sua missão consiste em descer à superfície de um planeta aparentemente devastado, possivelmente destruído pela própria população em consequência de uma guerra biológica. A partir desse momento, o espectador é conduzido por uma experiência visual extremamente rica.

         O que vemos em tela é resultado de uma combinação muito eficiente entre fotografia, direção de arte, maquiagem, trilha sonora e efeitos visuais. Todos esses elementos trabalham em sintonia para criar uma atmosfera envolvente e convincente. Os efeitos visuais impressionam pela qualidade e ajudam a construir um universo que parece vivo e crível. Já a fotografia de Gustavo Serrate, premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, é um dos grandes destaques da produção.

         A escolha da Chapada dos Veadeiros como cenário também merece atenção. As formações rochosas, os espaços amplos e a aparência quase extraterrestre da paisagem contribuem para a sensação de descoberta e isolamento que acompanha Adawa durante toda a jornada. Em diversos momentos, o ambiente se transforma em um personagem silencioso da narrativa.

        Tudo o que acontece em “À Margem do Universo” possui uma finalidade. O roteiro e a direção demonstram enorme precisão narrativa. Não existem cenas desperdiçadas nem momentos que pareçam desnecessários. Tiago Esmeraldo conduz os 17 minutos de duração mantendo constantemente o interesse do público. Seja através de planos abertos que exploram a grandiosidade da paisagem ou de planos mais fechados que aproximam o espectador da protagonista, o filme demonstra domínio de sua linguagem visual.

         Outro aspecto bastante interessante é a inversão promovida pelo roteiro em relação a muitos clichês tradicionais da Ficção Científica. Em diversas obras do gênero, a humanidade costuma ser retratada como uma espécie incapaz de superar seus conflitos. Aqui, embora exista a memória de um planeta destruído, o filme parece seguir por outro caminho. A narrativa sugere que os seres humanos podem evoluir não apenas tecnologicamente, mas também social e moralmente. É uma visão surpreendentemente otimista e que ajuda a explicar por que tantos espectadores destacam a esperança presente na obra.

         A atuação de Petra Sunjo reforça ainda mais essa proposta. Sua interpretação confere humanidade, sensibilidade e profundidade à personagem Adawa. Além disso, sua presença amplia as possibilidades de representação dentro da Ficção Científica nacional, ajudando o filme a construir uma identidade própria.

        Quando Adawa perde contato com a Unidade Wami e encontra outro integrante de sua espécie pertencente a uma expedição diferente, a narrativa passa a desenvolver reflexões ainda mais profundas sobre os seres humanos. O filme questiona como uma espécie capaz de alcançar níveis tão elevados de desenvolvimento tecnológico também foi capaz de produzir violência, destruição e guerras.

         Nesse momento, a obra nos convida a refletir sobre a nossa própria realidade. Vivemos no mesmo planeta, compartilhamos os mesmos espaços, mas frequentemente permitimos que diferenças ideológicas, culturais ou políticas se transformem em barreiras. Em tempos marcados por polarizações e conflitos, “À Margem do Universo” oferece uma mensagem rara de esperança e reconciliação.

         Outro detalhe que merece destaque é a utilização do idioma indígena Suruwahá. Atualmente falado por cerca de 140 pessoas, trata-se de uma língua ameaçada de desaparecimento. Sua presença no filme vai muito além de uma curiosidade linguística. Enquanto muitas produções criam idiomas fictícios para representar civilizações alienígenas, o longa utiliza uma língua real, ligada à ancestralidade brasileira. Dessa forma, estabelece um diálogo fascinante entre futuro e passado, tecnologia e tradição.

        Talvez seja justamente por isso que sua resolução final seja tão impactante. Depois de acompanhar uma investigação arqueológica em um planeta aparentemente morto, percebemos que o verdadeiro objeto de estudo nunca foi apenas a civilização desaparecida. O filme está interessado em compreender aquilo que ainda existe de melhor dentro da humanidade.

     Com um desfecho magistral, “À Margem do Universo” eleva a discussão para um nível profundamente humano. É uma obra que utiliza a Ficção Científica para refletir sobre quem somos, o que fazemos e para onde desejamos seguir. Mais do que uma história sobre seres vindos de outro planeta, trata-se de uma reflexão sensível sobre nossa própria existência.




sábado, 17 de outubro de 2026

CONTOS DA MARÉ (2013)

 


        Dirigido por Douglas Soares, “Contos da Maré” é um Documentário que mergulha nas raízes do Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, e revela, por meio de histórias e lendas, como essa área da cidade foi se formando e ganhando vida ao longo das décadas. Antes da construção da Avenida Brasil, o local era ainda mais isolado do restante da capital fluminense, e esse distanciamento físico contribuiu para a formação de uma identidade própria, rica em narrativas populares e tradições que ajudaram a moldar o imaginário coletivo de seus moradores.

Com um roteiro elaborado por Douglas Soares e Allan Ribeiro, “Contos da Maré” utiliza uma narrativa fluida e cativante, intercalando imagens e depoimentos de antigos moradores da comunidade. Esses depoimentos não apenas relatam como o Complexo da Maré se desenvolveu em termos de infraestrutura e população, mas também revelam o lado mais mágico e misterioso da região. À medida que a urbanização avançava, histórias e lendas locais começaram a surgir, criando um tecido cultural que uniu a população. O Documentário explora essas narrativas com sensibilidade, abordando lendas que incluem figuras como o lobisomem, a mulher-cobra e o bebê-porco, mitos que até hoje ecoam na memória coletiva do lugar.

Dividido em segmentos, “Contos da Maré” se destaca por seu uso da oralidade, que dá vida a essas lendas e faz com que o espectador compreenda o poder das histórias transmitidas de boca em boca. Através das vozes dos moradores, o filme resgata a importância dessas tradições e seu papel na construção de um senso de pertencimento à comunidade. O medo e o fascínio provocados por essas lendas não apenas entretêm, mas também criam laços entre os habitantes, fortalecendo o tecido social. Independentemente de serem verdadeiras ou não, essas histórias foram transmitidas de geração em geração, funcionando como uma espécie de elo entre os mais velhos e os mais jovens.

O Documentário também aborda a dicotomia entre passado e presente, destacando a gradual perda de interesse dos mais jovens por essas tradições orais. A percepção de que, ao deixar de acreditar nessas histórias, elas começam a desaparecer, traz um tom nostálgico e até romântico aos depoimentos dos moradores mais antigos. O filme trata essa transição com delicadeza, mostrando que as lendas, outrora tão vivas no imaginário da comunidade, estão desaparecendo conforme novas gerações se afastam dessas tradições.

No entanto, “Contos da Maré” vai além de um simples registro folclórico. O trabalho de pesquisa é extremamente cuidadoso, permitindo que o Documentário capture não apenas a essência das lendas, mas também o contexto geográfico e social da Maré. A câmera de Soares percorre cada canto da comunidade, revelando os detalhes da vida cotidiana no Complexo e ao mesmo tempo oferecendo uma visão mais ampla de como ele se insere na cidade do Rio de Janeiro. A montagem e a direção de fotografia contribuem significativamente para criar uma atmosfera que mistura o real e o mítico, enquanto a trilha sonora evoca o clima de mistério e nostalgia que permeia as histórias contadas.

Do ponto de vista técnico, “Contos da Maré” se destaca pela excelência em diversos aspectos. A fotografia, em especial, captura não apenas as paisagens e o cenário urbano da Maré, mas também os rostos e expressões de seus habitantes, imersos em suas lembranças e histórias. A montagem hábil, porém contemplativa, permite que o filme flua de forma orgânica, conectando as diferentes partes do Complexo, seus moradores e o espectador. A trilha sonora, discreta, mas eficaz, reforça a atmosfera de mistério que cerca as lendas, enquanto o design de som insere o espectador no ambiente sonoro da comunidade, tornando a experiência ainda mais imersiva.

“Contos da Maré” é mais do que um simples Documentário. Ele é uma homenagem ao sentimento popular, uma celebração da cultura local e um registro valioso de histórias que, embora possam estar desaparecendo, fazem parte da história viva do Complexo da Maré. Com muito carinho, respeito e sensibilidade, o filme trata cada história e depoimento com o devido cuidado, reconhecendo o valor cultural e histórico dessas narrativas. Ao assistir ao curta, o espectador é convidado a mergulhar nesse mundo de lendas e memórias, percebendo que, por trás de cada relato, há um pedaço da identidade de um povo que lutou para construir sua própria história em meio às dificuldades e desafios de uma vida à margem da cidade grande.

 “Contos da Maré” é uma obra indispensável para quem busca entender não apenas o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, mas também as histórias e tradições que moldaram o coração de uma das comunidades mais emblemáticas da cidade.


"Contos da Maré" está disponível no Canal Curta!

POMBAL 350 (2016)

 


       Produzido por estudantes do Curso Superior de Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco, “Pombal 350” é um curta de Terror que demonstra como uma narrativa simples pode se tornar extremamente eficiente quando sustentada por atmosfera, ritmo e construção de suspense. Em vez de apostar em sustos constantes ou explicações excessivas, o filme escolhe um caminho mais sutil, permitindo que o mistério se desenvolva gradualmente e envolva o espectador em uma sensação crescente de inquietação.

         A narrativa tem início em um Recife já dominado pela noite. O movimento das ruas diminui, os sons urbanos tornam-se mais discretos e a cidade parece assumir uma personalidade diferente daquela observada durante o dia. É nesse contexto que acompanhamos um motorista de táxi encerrando sua jornada de trabalho. O personagem fuma um cigarro, observa o ambiente ao redor e decide que não aceitará mais corridas. Trata-se de uma decisão comum, quase banal, mas que funciona como um ponto de partida importante para o desenvolvimento da trama.

       Com direção de Paulo Souza, Amanda Melo, Eva Feitosa e Josy Barbosa, sob orientação de Leonardo Castro Gomes, o curta demonstra maturidade ao transformar situações cotidianas em elementos capazes de gerar tensão. O espaço urbano não é apenas um cenário, mas um componente ativo da narrativa, contribuindo para a construção da atmosfera e refletindo o estado emocional do protagonista.

         O trabalho sonoro merece destaque desde os primeiros minutos. Conforme a cidade se esvazia, os ruídos urbanos perdem força e dão espaço a uma trilha sonora discreta, mas constantemente inquietante. Essa combinação produz uma sensação de estranhamento que cresce lentamente, preparando o espectador para os acontecimentos que virão. Quando o motorista retira o luminoso do táxi e inicia seu retorno para casa, já existe a percepção de que aquela viagem será diferente do esperado.

           A chegada da passageira marca uma mudança importante na narrativa. Vestida de branco, a jovem surge de forma aparentemente comum, mas carregando uma presença que desperta curiosidade imediata. O filme não oferece explicações sobre quem ela é ou de onde veio, permitindo que o mistério se estabeleça naturalmente. A normalidade da situação começa a ser questionada quando percebemos que ela entra em um táxi que já não deveria estar disponível para corridas.

         Quando a passageira entrega apenas um papel contendo o endereço Rua Pombal, 350, o filme amplia ainda mais sua atmosfera de suspense. O destino torna-se uma espécie de promessa narrativa, conduzindo protagonista e espectador para um local desconhecido. A partir desse momento, a viagem deixa de ser apenas um deslocamento físico e passa a funcionar como uma jornada rumo ao inexplicável.

        Um dos grandes méritos de “Pombal 350” está na integração harmoniosa entre seus elementos técnicos. A fotografia explora muito bem os contrastes entre os espaços externos e o interior do veículo. Os planos mais abertos reforçam a sensação de isolamento da cidade durante a madrugada, enquanto os enquadramentos fechados aumentam a sensação de confinamento e desconforto. O trabalho realizado por Carlos Sant'Anna e Victoria Correa no elenco também contribui significativamente para essa dinâmica, transmitindo tensão mesmo nos momentos de silêncio.

        A montagem acompanha o ritmo da narrativa com precisão, sem acelerar excessivamente os acontecimentos. O suspense surge justamente da espera, da observação e da sensação de que algo está fora do lugar. A trilha sonora complementa essa construção de forma eficiente, ampliando o desconforto sem jamais se tornar invasiva.

         Com poucos diálogos e uma aposta clara na força das imagens, dos sons e das atmosferas, “Pombal 350” demonstra maturidade narrativa e técnica. Em apenas sete minutos, o curta consegue criar um universo envolvente, onde o medo nasce muito mais da sugestão do que da explicação. O resultado é uma experiência de Terror psicológico eficiente, que valoriza o mistério e comprova como o suspense pode ser construído através de pequenos detalhes cuidadosamente organizados.




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O SEGREDO DA FAMÍLIA URSO (2014)

 


        Com direção de Cíntia Domit Bittar, “O Segredo da Família Urso” é um incômodo e eficiente thriller psicológico que transita de maneira brilhante entre o Suspense e o Terror. O curta trabalha constantemente com a sensação de desconforto, criando uma experiência perturbadora que cresce aos poucos, sem depender de sustos fáceis ou exageros visuais. A tensão é construída de forma silenciosa, quase sufocante, tornando o filme ainda mais impactante.

         O pano de fundo da narrativa é a residência de uma família de classe média durante os anos 1970, em plena ditadura militar brasileira. É nesse ambiente aparentemente comum que vive Geórgia, uma garota de apenas 8 anos, cercada pelos pais e por uma velha babá que vigia seus passos constantemente. Desde os primeiros minutos, o curta estabelece uma atmosfera pesada, marcada por regras, silêncios e proibições que afetam diretamente a percepção da protagonista.

        Mesmo antes de Geórgia descer até o porão, lugar proibido pelos pais, “O Segredo da Família Urso” já transmite uma sensação fantasmagórica muito forte. A direção de arte e a fotografia são fundamentais para a construção desse clima. Os móveis antigos, os objetos espalhados pela casa e o figurino ajudam a recriar perfeitamente o período histórico. A paleta de cores opacas, sem brilho ou vivacidade, reforça a sensação de desgaste emocional e decadência. Tons pastéis, que normalmente poderiam transmitir conforto e acolhimento, aparecem aqui quase sem vida, criando a impressão de uma família que tenta manter uma aparência de normalidade enquanto esconde algo profundamente perturbador.

         O mais interessante é que o curta parece funcionar em diferentes camadas ao mesmo tempo. Há a perspectiva da infância, a crítica à estrutura familiar burguesa e a relação simbólica com a ditadura militar brasileira. Nenhuma dessas questões é apresentada de forma totalmente explícita. O filme prefere trabalhar através da atmosfera, das metáforas e das sensações, permitindo interpretações múltiplas e tornando a experiência mais rica.

        Liz Comerlatto entrega uma atuação extremamente convincente como Geórgia. A atriz consegue transmitir o desconforto constante da personagem, que vive sendo impedida de acessar determinados espaços e informações. A sensação de repressão e silenciamento está presente em cada olhar e gesto. Amélia Bittencourt, Gilda Nomacce e Otto Jr. também apresentam atuações marcantes, reforçando a tensão e o clima opressor da narrativa. O elenco conta ainda com a participação de Clei Grött.

         A casa funciona quase como uma representação simbólica do Brasil daquele período. Existe uma hierarquia rígida, marcada por vigilância, repressão, silêncio e segredos. Geórgia é constantemente afastada de determinadas verdades, o que lembra diretamente o funcionamento de regimes autoritários, onde certas perguntas não podem ser feitas e determinados assuntos precisam permanecer escondidos.

         Uma possível interpretação é que Geórgia descobre, de maneira traumática, que o mundo adulto pode ser cruel, violento e profundamente insensível. A mentira surge como um mecanismo de manutenção dessa falsa normalidade. Enquanto desconhece o segredo do porão, Geórgia ainda consegue enxergar a família como um espaço seguro. Porém, a descoberta transforma completamente sua percepção do mundo e das pessoas ao seu redor.

        Produzido em 2014, com roteiro de Cíntia Domit Bittar e Will Martins, “O Segredo da Família Urso” apresenta grande equilíbrio entre elementos narrativos, dramáticos e técnicos. O filme utiliza o Terror não apenas para provocar medo, mas também para discutir traumas históricos e psicológicos. A infância não suaviza o horror; pelo contrário, torna tudo ainda mais perturbador, justamente porque a criança compreende apenas fragmentos do mundo adulto.

         O curta é uma produção extremamente competente da Novelo Filmes, utilizando metáforas e construindo diferentes possibilidades de interpretação sem perder a tensão narrativa. O horror presente na obra funciona como uma representação simbólica de traumas reprimidos que insistem em retornar. O segredo da família também pode ser entendido como o segredo de um país inteiro.

         “O Segredo da Família Urso” é um filme forte, inteligente e perturbador. Uma obra que merece ser assistida, revisitada e debatida, especialmente em tempos em que discursos autoritários e ameaças às estruturas democráticas voltam a ganhar espaço.




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CONGÁ (2017)

 


        Com roteiro de Marco Fé e direção do roteirista junto com Sérgio Spina, “Congá” é um filme de denúncia, mas também de afirmação. “Congá” parte diretamente de uma questão: a intolerância contra as religiões de matriz africana no Brasil. A obra não se limita a apresentar a violência sofrida por essas tradições, mas procura também reafirmar sua importância cultural, religiosa e histórica.

         Na ocasião do lançamento, Marco Fé explicou que o filme pretendia dar voz a um povo que luta pelo respeito à sua cultura há séculos, enquanto Sérgio Spina destacou a intenção de produzir novas formas de pensar, ouvir e falar através do audiovisual. Isso é importante porque o filme não coloca essas religiões apenas na posição de vítimas. Ele também as apresenta como expressões de cultura, identidade, memória e resistência, mostrando que existe uma história que precisa ser conhecida e respeitada.

        “Congá” não é um título escolhido apenas por sua sonoridade. O congá, especialmente no contexto da Umbanda, é associado ao altar ou espaço sagrado onde se encontram diferentes referências religiosas e espirituais. Estudos sobre a Umbanda descrevem justamente essa riqueza de elementos presentes no congá. Isso dá ao título uma força simbólica e faz com que ele esteja diretamente relacionado ao universo que o curta pretende apresentar.

         O filme fala sobre aquilo que acontece quando uma sociedade olha para um espaço religioso e, em vez de enxergar fé e pertencimento, enxerga algo que deve ser combatido. O próprio nome do filme já desloca o olhar para dentro desse espaço, permitindo que o espectador conheça aquilo que tantas vezes é alvo de preconceito sem sequer ser compreendido.

        Mesclando elementos dos gêneros Documentário e Drama, Marco Fé e Sérgio Spina constroem uma obra forte, intensa e que traz uma reflexão extremamente relevante para o debate público sobre as violências sofridas pelas religiões de matriz africana. A combinação dos gêneros permite que a denúncia seja acompanhada por uma dimensão mais humana e sensível.

         Essa reflexão procura diferenciar o “não concordar com uma religião” e o “perseguir alguém por sua religião”. A intolerância aparece quando a diferença deixa de ser aceita como diferença e passa a ser tratada como ameaça. No caso das religiões de matriz africana, isso se cruza historicamente com questões raciais e culturais. A perseguição não pode ser compreendida simplesmente como uma divergência entre crenças, porque envolve uma história mais profunda de exclusão e marginalização.

         Existe uma dimensão de racismo religioso. Essa expressão é importante porque ajuda a compreender que a violência contra terreiros e seus praticantes não ocorre em um vazio histórico. Há uma longa trajetória de marginalização dessas tradições no Brasil, e o filme contribui para colocar essa realidade diante do espectador.

         O curta pode ser interpretado também como uma defesa da memória. As religiões de matriz africana carregam histórias, símbolos, músicas, rituais, conhecimentos e formas de compreender o mundo que foram transmitidos através das gerações. Preservar esses elementos significa preservar experiências que fazem parte da formação cultural brasileira.

         Quando um terreiro é atacado, portanto, não está sendo atingido somente um prédio. Está sendo atingido um lugar de memória e transmissão cultural. Essa perspectiva amplia o alcance do filme: proteger essas religiões significa também proteger uma parte da própria história brasileira.

         A presença de Leci Brandão é particularmente significativa. Ela esteve diretamente envolvida no lançamento da obra na Assembleia Legislativa de São Paulo. Isso aproxima o filme de uma tradição de arte e militância cultural. Leci não aparece simplesmente como uma personalidade conhecida emprestando seu nome ao projeto. Sua presença dialoga com a própria temática de defesa das religiões afro-brasileiras e da cultura negra, reforçando a dimensão pública da mensagem.

         A narrativa poética é uma escolha extremamente importante por parte dos realizadores. Isso é interessante porque o filme poderia simplesmente apresentar uma sucessão de depoimentos ou denúncias. A opção por uma abordagem poética permite trabalhar a questão de maneira menos jornalística e mais sensorial. O filme não precisa apenas informar que existe intolerância. Ele procura provocar uma sensação, criar uma reflexão e aproximar o espectador de uma realidade que talvez desconheça.

         Dessa forma, os trabalhos técnicos da direção de fotografia e de arte são fundamentais para a qualidade do filme. Com closes, detalhes, planos abertos ou fechados e com as estruturas de objetos, figurinos e locações, o curta consegue inserir o espectador no universo proposto pelos diretores. Isso é importante porque, ao mesmo tempo em que apresenta os elementos característicos dessas religiões, oferece ao público não praticante uma possibilidade de conhecimento e aproximação.

         Trilha sonora e montagem também se destacam por aprofundar a experiência sensorial do espectador. Todos os pontos de sons e imagens estão perfeitamente alinhados. E a narração de Leci Brandão é extremamente potente para transmitir as informações necessárias, acrescentando força à construção da mensagem.

        O curta coloca o espectador diante de uma pergunta essencial: por que a fé do outro incomoda tanto? Não se trata de perguntar qual religião está certa. A pergunta é anterior a isso. Por que alguém precisa destruir, humilhar ou atacar aquilo o que outra pessoa acredita? O filme propõe que a resposta está menos na religião atacada e mais na intolerância daquele que não consegue aceitar a existência da diferença.

         O filme também fala sobre liberdade de crença e fé. Liberdade religiosa não significa apenas ter autorização para professar uma fé. Significa poder existir publicamente sem medo de violência ou perseguição. Essa dimensão é importante porque a intolerância transforma uma liberdade constitucional em uma experiência concreta de insegurança. O terreiro deveria ser um espaço de fé. Quando seus praticantes precisam se preocupar com ataques, ameaças ou discriminação, essa liberdade deixa de ser plena. Assim, “Congá” pode ser entendido como uma defesa do direito de crer, praticar e pertencer.

         O filme também tem na resistência uma palavra-chave. Marco Fé afirmou, na divulgação do lançamento, que esperava que a mensagem do filme levasse “paz, amor, união” e, sobretudo, uma mensagem de resistência.

        Resistir, nesse contexto, não significa apenas reagir à violência. Significa continuar existindo, continuar praticando, continuar transmitindo conhecimento, continuar cantando, celebrando e mantendo uma tradição viva apesar daqueles que tentam apagá-la. A própria existência de um filme como “Congá” pode ser entendida como parte dessa resistência, pois transformar essa realidade em obra audiovisual também significa disputar espaço para essas vozes.

         Uma qualidade potencialmente importante do curta é que ele não depende de o espectador ser praticante ou estudioso de Umbanda, Candomblé ou outras tradições afro-brasileiras. A questão central é mais universal: o direito à diferença. Você pode não compartilhar determinada fé e ainda reconhecer que seus praticantes têm direito de exercê-la. Essa é talvez uma das mensagens mais importantes do filme.

         “Congá” pede que o espectador reconheça sua legitimidade. Ele parte da intolerância para chegar a uma defesa da identidade. Parte da violência para falar de resistência. Parte do preconceito para defender a convivência. E isso é importante porque o filme não precisa convencer o espectador de que determinada religião é verdadeira. A questão é outra: a fé de uma pessoa não precisa ser a minha para que eu reconheça seu direito de existir.




sábado, 10 de outubro de 2026

UM SAMPAIO TEIMOSO (2011)

 


        Com roteiro de Nayara Tognere e Stéfano Fabris, “Um Sampaio Teimoso” tem como principal objetivo recuperar Sérgio Sampaio e sua obra. O primeiro caminho é justamente aquele anunciado pelo próprio filme: impedir que Sérgio Sampaio seja lembrado apenas por “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. A música foi importante para sua trajetória, mas não consegue representar toda a dimensão de um compositor que construiu uma obra muito mais ampla, complexa e particular.

         Essa música se tornou tão associada ao compositor que existe o risco de ela funcionar como uma espécie de resumo de toda a sua carreira. O documentário rompe essa redução e apresenta Sampaio como um artista muito mais complexo. Ao recuperar diferentes momentos de sua vida e ouvir pessoas que conviveram com ele, o filme procura ampliar a imagem que permaneceu no imaginário popular.

         Com depoimentos de artistas, amigos e companheiras, a diretora Nayara Tognere procura retratar o artista, o homem, seus pensamentos e afastá-lo de rótulos negativos. O documentário não pretende esconder as dificuldades de sua personalidade ou de sua trajetória. O objetivo é mostrar que essas características não podem ser usadas para definir sozinhas quem foi Sérgio Sampaio.

        Sérgio Sampaio frequentemente aparece associado à chamada geração dos “malditos” da música brasileira. O termo pode sugerir marginalidade, comportamento difícil ou uma carreira distante do grande mercado, mas também acaba escondendo a riqueza de sua produção artística. Dessa forma, podemos nos questionar: quanto um rótulo ajuda a compreender um artista e quanto ele acaba aprisionando esse artista? “Um Sampaio Teimoso” parece interessado justamente nessa segunda possibilidade.

         A declaração de Maria Verônica Martins é uma das chaves mais importantes do filme: “A obra do Sérgio não é alegre. A obra do Sérgio é dramática.” A canção “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” pode induzir a uma percepção festiva de Sampaio, mas sua produção possui uma dimensão muito mais melancólica, amarga, irônica e existencial. O documentário procura justamente olhar para o homem e para o compositor por trás do sucesso mais conhecido.

         O filme utiliza as próprias músicas de Sérgio junto a depoimentos seus e imagens de arquivo. Isso é importante porque, em um documentário musical, a obra do personagem não deveria aparecer apenas como ilustração. As canções ajudam a construir a própria personalidade artística de Sampaio. É através delas que podemos perceber seu humor, sua melancolia, sua inquietação e sua maneira particular de observar o mundo.

        Nayara Tognere e Stéfano Fabris escolheram não construir o documentário exclusivamente através de uma narração biográfica. São amigos, parceiros, familiares e admiradores que ajudam a reconstruir Sampaio. Cada pessoa acrescenta uma camada diferente ao retrato e contribui para que o artista não seja apresentado de maneira única ou definitiva.

         Zeca Baleiro, Luiz Melodia, Jards Macalé, Tatá Aeroplano, Sérgio Natureza, Renato Piau, Ângela Breitschaft e Maria Verônica não estão presentes apenas para contar fatos. Cada depoimento acrescenta uma percepção diferente sobre o artista. O resultado é uma espécie de retrato coletivo, formado por lembranças que se complementam e também ajudam a revelar as contradições de Sampaio.

         “Um Sampaio Teimoso” também apresenta o contraste entre memória íntima e reconhecimento público. A presença das ex-companheiras Ângela Breitschaft e Maria Verônica Martins acrescenta uma dimensão diferente dos depoimentos dos músicos. Os parceiros conhecem o artista profissionalmente. As companheiras conheceram também o homem. Essa combinação ajuda o documentário a escapar da simples análise da carreira e aproximá-lo de uma personalidade com suas contradições e particularidades.

        O título é muito feliz porque “teimoso” pode ser entendido de várias maneiras. Pode significar alguém que insiste em seguir seu próprio caminho mesmo quando ele não parece ser o mais fácil. Pode também representar a persistência de uma obra que, apesar de ter sido parcialmente esquecida ou reduzida a um único sucesso, continua sendo redescoberta por novas gerações. Há uma espécie de ironia no título: o artista que insistiu em permanecer fiel à sua maneira de fazer música continua insistindo em permanecer na memória brasileira.

         Nayara Tognere apresenta grande domínio narrativo e técnico para conseguir causar impacto diante da vida e obra de Sérgio Sampaio. Trilha sonora, fotografia e montagem trabalham de forma harmônica, intercalando depoimentos e imagens de arquivo. Os realizadores apresentam um artista genial, propondo reflexões acerca de sua obra e sua vida e dando voz a ele, seja indiretamente através de outras pessoas ou por meio de suas próprias palavras. O curta procura despertar no espectador o interesse pela arte de Sérgio Sampaio.

         Outro detalhe extremamente importante é que o documentário foi realizado justamente para combater o esquecimento de Sérgio Sampaio. A existência de novas gerações de artistas e ouvintes que continuam recuperando sua obra mostra que esse esforço não foi inútil. Isso reforça o caráter atemporal de uma obra criada por um compositor e cantor que continua encontrando novos ouvintes.

         Sérgio Sampaio não é exatamente um desconhecido. Seu nome está associado a uma música que atravessou décadas. Mas isso não significa que sua obra seja realmente conhecida em toda a sua dimensão. “Um Sampaio Teimoso” tenta corrigir essa distorção ao apresentar um artista que merece ser descoberto para além de seu maior sucesso.

        O filme apresenta um artista que não pode ser resumido ao “bloco na rua”, nem ao rótulo de “maldito”, nem à imagem de personalidade difícil. Existe ali um compositor de grande riqueza poética, cuja obra possui uma dimensão profundamente dramática. Talvez a maior qualidade do documentário seja justamente fazer do esquecimento o seu adversário.

       Sampaio morreu jovem, em 1994, mas suas canções continuaram circulando e sendo redescobertas. O documentário registra depoimentos de pessoas que conviveram com ele e, ao mesmo tempo, participa de um processo maior de transmissão de sua obra para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo.

         “Um Sampaio Teimoso” não pretende apenas contar quem foi Sérgio Sampaio. O curta pretende impedir que ele seja reduzido àquilo que o público já conhece. Ao fazer isso, o documentário acaba cumprindo uma função essencial: lembrar que, por trás de uma música famosa, existe toda uma obra esperando para ser descoberta.    




O DEUS NEON (2016)

  O curta-metragem "O Deus Neon" combina Terror, Suspense, Thriller e Gore para construir uma narrativa visceral que impressiona t...