domingo, 27 de setembro de 2026

A MORTE & VIDA DE ANA BELSHOFF (2015)

 


          Com roteiro e direção de Pedro Foss, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um tenso e inquietante curta que mescla de maneira brilhante os gêneros de Suspense, Mistério e Terror, com foco principalmente no Horror psicológico.

         A trama se concentra em Ana, interpretada com muita intensidade e profundidade por Carol Castro. A nadadora, que está prestes a disputar uma olimpíada, tem uma vida quase perfeita com seu marido, dentro de uma rotina que inicialmente transmite estabilidade e segurança.

           No entanto, a normalidade vivida por Ana começa a abalar sua vida, seu casamento e sua própria existência. O diretor trabalha a incerteza sobre aquilo que Ana está realmente vivendo. O curta começa apresentando uma situação aparentemente normal, mas rapidamente introduz elementos que quebram essa normalidade: visões, pesadelos, alucinações e aparições.

         Ana Belshoff começa a perceber acontecimentos que não consegue explicar. Entre eles está a presença recorrente do personagem de Luciano Szafir no elevador, cuja primeira aparição já provoca receio e desconforto. O suspense psicológico nasce justamente dessa impossibilidade de Ana, e do espectador, compreender imediatamente o que está acontecendo. A protagonista tenta racionalizar aquilo que vê, mas cada nova manifestação aumenta sua insegurança, fazendo a própria mulher questionar sua sanidade mental.

            A presença de uma mulher loira vista por Ana também amplia essa sensação de ameaça e faz com que o próprio espaço doméstico, que deveria representar segurança, se transforme em um lugar de inquietação. O filme consegue, assim, fazer a transição gradual do Suspense psicológico para o Terror psicológico. O terror não está presente apenas nos sustos, mas na perda progressiva da confiança naquilo que Ana enxerga e entende como realidade.

         “A Morte & Vida de Ana Belshoff” não apresenta simplesmente duas possibilidades opostas. Morte e vida funcionam como duas condições que coexistem na experiência da personagem. A ideia de “morte” pode ser física, mas também existe uma dimensão relacionada à negação da morte e à dificuldade de aceitar que determinada vida chegou ao fim. Da mesma maneira, “vida” não significa apenas estar biologicamente vivo. O filme trabalha com a ideia de uma personagem que continua experimentando uma existência, relacionamentos e situações que pertencem a uma vida que já não corresponde à realidade.

         Isso aproxima o título da ideia de limbo: Ana permanece entre a vida que teve, a vida que gostaria de ter tido e a condição que não consegue reconhecer. Essa posição intermediária reforça o desconforto da narrativa, porque a personagem não consegue compreender plenamente o lugar em que se encontra.

        O filme permite contrastar a vida que Ana acredita ter sob vários aspectos, conforme a trama avança e a protagonista descobre mais sobre si e sua vida. Elementos sobre a condição de sua mãe e atitudes tomadas por ela ganham sentido. A fragilidade psicológica de Ana permite compreender a vida idealizada por ela como uma espécie de refúgio psicológico, uma realidade na qual ela consegue permanecer enquanto não enfrenta aquilo que aconteceu.

         O personagem interpretado por Luciano Szafir ganha corpo conforme seus encontros com Ana no elevador se tornam mais frequentes. Sentindo receio do personagem, a mulher evita usar o mesmo elevador. Ele parece saber mais sobre a situação de Ana do que ela própria. Sua presença pode ser interpretada como a de uma entidade ligada à morte, ou como um intermediário entre dois estados de existência. O elevador, nesse contexto, ganha um significado simbólico muito forte como passagem, transição ou deslocamento. A recusa em entrar no elevador pode estar relacionada à própria resistência da personagem em aceitar aquilo que aconteceu com ela.

            Além de Carol e Luciano, o elenco do curta ainda conta com Bruno Gissoni no papel do marido, Bia Oliveira, Bárbara Brígido e Juan C. Reis, que ajudam a sustentar o arco narrativo.

         Os elementos técnicos também se destacam na construção da atmosfera do curta. A fotografia é clara e ampla, mesmo quando a narrativa já apresenta acontecimentos sobrenaturais. Ela também consegue trabalhar detalhes menores e microdetalhes dentro dos espaços, mas nunca utiliza a imagem para denunciar antecipadamente a condição de Ana. Ou seja: a fotografia não entrega visualmente que existe algo errado com a vida da personagem.

         Isso é importante porque seria muito fácil utilizar uma fotografia escura, sombria ou carregada de filtros para sugerir imediatamente uma dimensão sobrenatural. Pedro Foss faz o contrário: mantém a imagem relativamente limpa e clara e deixa o estranhamento surgir principalmente através do psicológico da protagonista e da narrativa. Isso cria um contraste interessante: a imagem parece normal enquanto a experiência de Ana se torna cada vez mais anormal.

         A direção de arte também contribui para construir essa realidade aparentemente cotidiana. A montagem tem papel fundamental na organização das informações e na revelação gradual dos acontecimentos, evitando que o curta entregue cedo demais aquilo que pretende revelar. A trilha sonora de Tales Rubens contribui para a tensão e para os momentos de susto, incluindo os jumpscares utilizados nos momentos adequados.

         O resultado é uma combinação de Suspense e Terror em que os recursos técnicos não existem apenas para assustar, mas para controlar aquilo que o espectador sabe e aquilo que ele ainda não consegue compreender.

          Produzido com muita competência e qualidade, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um Suspense psicológico que gradualmente incorpora o Terror para contar a história de uma personagem presa entre aquilo que acredita estar vivendo e aquilo que realmente aconteceu. O suspense cria a pergunta: o que está acontecendo com Ana? Mas a camada psicológica acrescenta: por que Ana não consegue enxergar o que está acontecendo? E a dimensão existencial acrescenta uma terceira: o que significa continuar vivendo quando já não conseguimos aceitar a realidade?

         A força técnica do curta está justamente em não precisar anunciar essas respostas pela imagem. A fotografia clara, a direção de arte, a montagem, a trilha sonora e principalmente a atuação de Carol Castro colocam o espectador dentro da experiência de Ana sem entregar imediatamente a sua condição. O resultado é um filme que tem na imprevisibilidade a potência para um final chocante e perturbador.




sábado, 26 de setembro de 2026

OSWALDO CRUZ – O MÉDICO DO BRASIL (2003)



        "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" parte de uma biografia, mas o diretor Silvio Tendler evita transformar o documentário em uma sucessão convencional de fotografias acompanhadas por narração. O filme conta a trajetória do sanitarista por meio de uma combinação ampla de recursos: imagens de arquivo, fotografias, gravuras, textos, animação, dramatizações e atores interpretando personagens históricos. A própria Casa de Oswaldo Cruz registra a obra como um videodocumentário produzido dentro do Projeto Memória, da Fundação Banco do Brasil, com apoio da Fiocruz.

         Essa escolha faz uma diferença enorme na experiência do espectador. O passado deixa de ser apresentado apenas como algo que precisa ser explicado e passa a ser encenado, visualizado e dramatizado. Marcos Palmeira, interpretando Oswaldo Cruz, não está simplesmente ilustrando uma informação histórica: ele transforma o personagem em presença humana.

         É justamente aí que a classificação como Documentário, Biografia e Drama faz do curta muito mais que um único gênero cinematográfico. O filme continua sendo documental porque sua estrutura está fundamentada em fatos históricos e materiais de arquivo, mas utiliza a dramatização como ferramenta narrativa. A ficção não substitui o documento, ela ajuda a reconstruir aquilo que o registro fotográfico não pode mostrar.

        A presença dos atores é uma das maiores forças do filme. Marcos Palmeira permite que o espectador enxergue Oswaldo Cruz não apenas como o célebre sanitarista das fotografias oficiais, mas como um homem inserido em relações pessoais, familiares e políticas. Giulia Gam, como Miloca, contribui para essa dimensão mais íntima da trajetória. O elenco também inclui nomes como Beth Goulart, Betty Gofman, Bruno Garcia, Anderson Quack, Fábio Barreto, Paula Damasceno, Cláudio Amado, Humberto Câmara Neto, Luís Edmundo, Roberto Alvim e Zózimo Bulbul.

         Isso é particularmente importante porque a biografia poderia facilmente transformar Oswaldo Cruz em uma figura quase monumental: o grande médico, o cientista, o sanitarista que enfrentou epidemias. A dramatização reduz essa distância. O espectador passa a acompanhar decisões, conflitos, reações e relações humanas.

         A escolha é ainda mais eficiente porque o filme não dramatiza apenas aqueles que estavam ao lado de Oswaldo Cruz. Também aparecem personagens que representam a resistência às suas medidas, permitindo que a história seja construída por diferentes pontos de vista. Assim, a dramatização não serve somente para humanizar o herói, mas serve também para tornar mais concretos os conflitos que cercaram sua atuação.

         Um dos elementos mais interessantes é que as pessoas que aparecem na narrativa não são todas favoráveis a Oswaldo Cruz. Há políticos, representantes das elites, pessoas ligadas ao poder público e personagens populares que expressam resistência às medidas sanitárias. Isso impede que a história seja construída exclusivamente pela perspectiva do médico. A Revolta da Vacina, por exemplo, não aparece apenas como uma reação absurda de uma população ignorante diante de uma descoberta científica. O conflito ganha personagens e vozes, tornando perceptível que a vacinação obrigatória estava inserida em um contexto social e político muito mais complexo.

        Zózimo Bulbul interpreta Prata Preta, personagem associado à resistência popular durante a Revolta da Vacina. Já Gilberto Marmorosch aparece como presidente Rodrigues Alves. Esse procedimento fortalece a dimensão dramática porque cria oposição. Oswaldo Cruz não está simplesmente apresentando uma solução e sendo aplaudido por todos. Ele precisa enfrentar incompreensão, resistência e conflitos políticos. A biografia, portanto, ganha uma estrutura de enfrentamento que ajuda a manter o interesse do espectador.

         A história de Oswaldo Cruz está inseparavelmente ligada às transformações do Rio de Janeiro no início do século XX. O sanitarista atua dentro de um projeto maior de modernização da cidade, marcado pelas reformas urbanas de Pereira Passos e pelas campanhas de saneamento. Isso permite que o filme seja visto não apenas como uma biografia, mas também como um retrato de uma cidade em transformação. A doença, a precariedade urbana, as reformas, as campanhas sanitárias e a resistência popular fazem parte de um mesmo processo histórico.

         Esse aspecto é importante porque Oswaldo Cruz não aparece como um cientista trabalhando isoladamente em um laboratório. Seu trabalho interfere diretamente na vida cotidiana da população. A medicina deixa o espaço restrito da pesquisa e passa a ocupar as ruas, as casas e os corpos. Assim, o filme transforma a trajetória de um indivíduo em uma narrativa sobre a própria tentativa do Brasil de se modernizar.

        Outro recurso que funciona muito bem é a estrutura cronológica. O filme acompanha a trajetória de Oswaldo Cruz seguindo uma progressão temporal, permitindo que o espectador compreenda como cada acontecimento conduz ao seguinte. Os letreiros que indicam determinados anos reforçam essa organização. Esses textos sobre fundos escuros funcionam quase como capítulos ou marcações históricas dentro da narrativa. É um recurso simples, mas muito eficiente em um documentário biográfico curto.

         A cronologia também ajuda Tendler a controlar o ritmo. Em apenas cerca de meia hora, ele precisa apresentar uma quantidade enorme de informações. A divisão temporal funciona como uma espécie de esqueleto estrutural, sobre o qual são encaixadas dramatizações, imagens de arquivo, fotografias, animações e narração.

         A montagem dos diferentes materiais é uma das grandes qualidades técnicas do filme. Tendler não trata todos os registros históricos da mesma maneira. Fotografias, gravuras, documentos, imagens de arquivo e cenas dramatizadas possuem naturezas diferentes, e o filme aproveita justamente essa diversidade. As imagens históricas oferecem uma relação direta com o período, enquanto as dramatizações representam situações para as quais não existe registro cinematográfico. As animações e os desenhos acrescentam outra camada, tornando possível visualizar acontecimentos e informações de maneira mais dinâmica.

         O resultado é uma espécie de colagem audiovisual da memória histórica. O filme não tenta esconder que está reconstruindo o passado. Pelo contrário, deixa evidente que a memória histórica chega até nós por meio de documentos diferentes e precisa ser reorganizada pelo cinema. Essa combinação é uma das razões pelas quais consegue ser educativo sem adquirir o aspecto de uma simples videoaula.

         A dramatização só funciona porque existe um trabalho técnico consistente a sustentando. Figurino, maquiagem, fotografia e direção de arte são fundamentais para inserir os atores naquele universo histórico. O filme não precisa construir uma reconstituição gigantesca do Rio de Janeiro para convencer o espectador. Utiliza elementos visuais suficientes para estabelecer época, ambiente e personagens.

         A artificialidade da encenação permanece perceptível, mas isso não prejudica a narrativa. Ela passa a fazer parte da própria linguagem. O espectador sabe que está diante de uma reconstrução, mas aceita suas regras porque figurino, maquiagem, composição visual, atuação e fotografia trabalham na mesma direção.

         A montagem é especialmente importante porque o filme trabalha com materiais de naturezas completamente diferentes. Uma fotografia pode ser seguida por uma cena dramatizada, uma gravura pode dar lugar a uma animação e um letreiro pode interromper a ação para situar o espectador historicamente. Essa constante mudança de forma impede que os cerca de 30 minutos se tornem cansativos. O espectador recebe dados históricos, mas também acompanha uma narrativa dramática.

         A trilha sonora participa desse processo ao contribuir para o caráter dramático das cenas. Em vez de funcionar simplesmente como preenchimento entre uma informação e outra, ela ajuda a estabelecer atmosfera e intensidade. Tendler consegue organizar uma quantidade considerável de informação histórica sem transmitir a sensação de que o espectador está apenas recebendo conteúdo.

         O grande mérito de "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" está no equilíbrio. O filme precisa ensinar, contar uma história, apresentar um personagem histórico e homenageá-lo, mas não sacrifica o cinema em nome dessas funções.

         Tendler não entrega apenas um material institucional ilustrado. Ele utiliza dramaturgia, atuação, montagem, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, animação, documentos históricos, letreiros e trilha sonora para construir uma narrativa audiovisual completa.

          É justamente essa combinação que explica por que o filme funciona tão bem como homenagem. Oswaldo Cruz não é apresentado somente como o médico que combateu doenças, mas como um homem que enfrentou resistência, tomou decisões difíceis, participou de um momento decisivo da transformação do Rio de Janeiro e deixou uma marca profunda na história da saúde pública brasileira.

         O resultado é um documentário biográfico simultaneamente informativo, acessível, dramático e tecnicamente elaborado. Silvio Tendler transforma uma figura histórica em personagem cinematográfico sem abandonar a dimensão documental. É justamente essa capacidade de fazer a informação histórica ganhar vida que faz de "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" uma obra grandiosa.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

A BELEZA LHE CAI BEM (2022)

 


        Realizado pelos alunos da oficina de cinema do 14 CineFantasy em 2022, “A Beleza Lhe Cai Bem” se revela um intrigante curta-metragem que explora com precisão o horror visceral, construindo sua atmosfera de forma gradual, sem pressa e com notável competência por parte da equipe envolvida.     

         Com direção coletiva de Dante Barão, Fábio Martins, Fabrício Nunes, Helena Valentine, Henrique Nuzzi, Oberdan Quintino, Patrick Morelli, Renan Kikuche, Victor Gamarra Gaette e Wesley Brito, o filme apresenta uma mulher idosa que encontra um artefato misterioso capaz de devolver sua juventude. A premissa, embora simples à primeira vista, se desdobra em camadas simbólicas que sustentam o impacto emocional da narrativa.

         Em seus instantes iniciais, “A Beleza Lhe Cai Bem” já oferece sinais importantes sobre a protagonista, seu estado emocional e sua condição de vida. São elementos discretos, mas cuidadosamente inseridos, que indicam ao espectador que o que será visto adiante pode ser interpretado para além do literal, abrindo espaço para diferentes leituras da trajetória da personagem.

        Diante do espelho do banheiro, a idosa interpretada por Vera Luz enfrenta o peso da velhice. Os porta-retratos espalhados pela sala e a trilha sonora contribuem para reforçar a sensação de melancolia, apontando tanto para o que ela já foi quanto para o que ela se tornou. Nesse ponto, o curta também abre espaço para uma crítica social importante, especialmente sobre a maneira como artistas, sobretudo mulheres, são frequentemente descartadas pelo público e mídia quando atingem determinada idade. O filme sugere, de forma sutil, o envelhecimento feminino como um processo de exclusão social, marcado pela pressão estética e pela invisibilização progressiva da velhice.

         A presença de vultos e a sensação de ser chamada para fora do banheiro conduzem a protagonista até a sala, onde ela encontra um recipiente contendo um creme misterioso. Ao aplicar o produto em seu rosto, sua fisionomia se transforma de maneira imediata. A velhice cede lugar à juventude. As rugas desaparecem, os traços se suavizam e o corpo recupera movimentos antes limitados. Nesse momento, Ananda Scaravelli assume a versão jovem da protagonista, dando continuidade à transformação com uma performance que reforça a ruptura entre as duas identidades.

        No entanto, essa mudança não ocorre sem consequências. O retorno à juventude tem um custo, e aquilo ou quem proporcionou essa transformação parece disposto a cobrar esse preço. É justamente nesse ponto que o curta intensifica sua dimensão de horror, sugerindo que a solução encontrada pela personagem pode estar diretamente ligada aos sinais sutis apresentados no início da narrativa. Dor, sofrimento e desconforto emergem como possíveis desdobramentos inevitáveis dessa escolha.

         “A Beleza Lhe Cai Bem” também se destaca pelo domínio técnico de sua realização. A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora trabalham em conjunto para ampliar a sensação de desconforto, fazendo com que o horror se instale de forma progressiva no universo da personagem. Nada parece gratuito, e cada elemento visual ou sonoro contribui para a construção da atmosfera opressiva.

         A maquiagem e os efeitos práticos merecem destaque especial, funcionando como verdadeiros catalisadores da imersão no filme. O cuidado com os detalhes reforça a verossimilhança da transformação e intensifica o impacto emocional do processo, colocando o espectador em contato direto com a degradação e reconstrução da identidade da personagem.

         As atuações de Vera Luz e Ananda Scaravelli são fundamentais para sustentar o curta. Ambas as performances se apoiam fortemente na expressividade corporal e facial, especialmente diante da ausência de diálogos. Essa escolha valoriza ainda mais o trabalho das atrizes, que constroem a personagem em dois estados completamente distintos. Há ainda um terceiro elemento narrativo importante, invisível em cena, mas essencial para a compreensão do desfecho: o próprio recipiente, que retorna com força simbólica na resolução da história.

          A fotografia desempenha um papel decisivo na condução da narrativa, alternando entre paletas mais opacas, enquadramentos fechados e uma estética mais sufocante durante a fase inicial da protagonista. Após a transformação, a luz ganha intensidade, os espaços parecem mais amplos e a composição visual se abre, reforçando a mudança de estado físico e psicológico.

         Com argumento de Ananda Scaravelli e roteiro de Helena Valentine, Victor Gamarra Gaette, Oberdan Quintino, Fábio Martins, Patrick Morelli, Cláudio Marcio Fernandes e Wesley Brito, sob coordenação de projeto de Marcos DeBrito, “A Beleza Lhe Cai Bem” se consolida como um curta de horror muito bem executado. O resultado final vai além do susto, construindo um desconforto persistente através de elementos narrativos, dramáticos e técnicos cuidadosamente integrados, capazes de incomodar o espectador de maneira profunda e chocante.




sábado, 19 de setembro de 2026

O DIA DE JERUSA (2014)

 


        Com direção e roteiro de Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por Léa Garcia e Débora Marçal, que conta com uma narrativa extremamente emocionante e um potencial dramática muito elevado.

         O ponto central do filme gira em torno do encontro de duas mulheres. Jerusa é uma senhora idosa negra que vive no bairro do Bixiga, na capital paulista. Silvia é uma jovem negra que trabalha como pesquisadora de opinião que precisa convencer pessoas a responderem um questionário sobre sabão em pó. Silvia chega à casa de Jerusa para aplicar a pesquisa e deveria permanecer ali apenas alguns minutos. O encontro, porém, se transforma numa experiência de troca, memória e afeto.

        O interessante é que as duas mulheres estão em situações muito diferentes, mas também têm algo em comum. Silvia é jovem e está trabalhando como pesquisadora de opinião, uma atividade aparentemente banal, mas que também revela sua condição social. Jerusa tem 77 anos, vive sozinha e carrega décadas de experiências. O questionário, portanto, funciona como um laço narrativo para colocar duas gerações de mulheres negras frente a frente.

         Silvia está ali para transformar uma pessoa em dado de pesquisa de mercado. Jerusa deveria responder perguntas sobre um produto. É uma relação quase mecânica de perguntas, respostas, informações e estatísticas. No entanto, Jerusa subverte completamente essa lógica. Ela não aceita ser apenas uma entrevistada. Ela transforma a entrevistadora em interlocutora. A forma afetuosa com que Jerusa trata Silvia faz daquele momento a percepção de Silvio sobre a carência, melancolia e complexidade de Jerusa.

         Porém, Silvia precisa alcançar metas. E um detalhe importantíssimo faz com que a jovem reconheça que a sua ida até a casa de Jerusa não se deu por acaso; ela estava ali porque deveria estar. Isso permite uma leitura muito bonita: o filme começa tratando Jerusa como objeto de pesquisa e termina tratando-a como sujeito de uma história. E isso conversa diretamente com a questão da velhice.

         A complexidade da personagem interpretada por Léa Garcia se dá em várias camadas. Jerusa não é simplesmente uma mulher idosa. Ela é uma mulher negra idosa. E essas duas condições se encontram dentro de uma sociedade que frequentemente invisibiliza tanto a velhice quanto a população negra. Nesse caso, as duas coisas recaem sobre a mesma personagem. O filme poderia ter transformado Jerusa numa personagem simplesmente solitária, triste e carente. Mas Léa Garcia lhe dá outra dimensão. Ela possui memória, possui opinião, possui humor, possui desejos, possui uma história. E, principalmente, possui voz.

      Outro detalhe interessante é sobre a casa. A casa guarda aquilo que Jerusa guarda. Não é simplesmente o lugar onde ela mora. É o espaço onde sua memória permanece materializada. Isso também aproxima o filme da ideia do espaço como testemunha da passagem do tempo. E o Bixiga torna isso ainda mais interessante.

         O filme foi rodado no Bixiga, bairro paulistano historicamente associado à imigração italiana, mas que também possui uma presença negra muito importante. O Portal Plano Crítico chama atenção para a escolha do território e para a presença da Rua 13 de Maio e da Rua da Abolição. Ou seja: o bairro também carrega camadas de memória histórica. E isso combina perfeitamente com Jerusa. Ela não é apenas uma mulher que lembra da própria vida. Ela é uma pessoa que pertence a um território carregado de histórias.

         Jerusa fala sobre a vida das mulheres negras e sobre a senzala. O passado pessoal da personagem começa a se misturar com um passado histórico muito maior. Isso cria uma passagem interessante: a memória individual que dialoga com a memória familiar, que, por sua vez, dialoga com a memória coletiva, e que finalmente dialoga com a memória histórica. Jerusa lembra da própria vida, mas sua lembrança não está isolada da história do Brasil. "O Dia de Jerusa" coloca uma mulher negra idosa no centro da narrativa.

        Outro detalhe é que o encontro não é unilateral. Seria fácil e simplista interpretar o filme como se Jerusa, uma senhora solitária, encontrasse uma jovem que lhe fizesse companhia. Porém, essa escolha diminuiria Silvia. Silvia também precisa daquele encontro.

         Ela está trabalhando em uma atividade provavelmente precarizada, circulando pelo bairro fazendo perguntas sobre um produto comercial. Há uma distância enorme entre aquilo que ela está fazendo e aquilo que Jerusa oferece. O encontro funciona porque as duas recebem alguma coisa. Jerusa recebe companhia. Silvia recebe memória. Jerusa oferece afeto. Silvia oferece presença.

          Um detalhe extremamente importante se destaca logo no início do curta, quando um poeta declama trechos de "Minha Mãe", de Luiz Gama. Este elemento narrativo não é peça de decoração. Luiz Gama foi um intelectual negro fundamental na história brasileira, e sua presença estabelece uma espécie de ponte entre literatura, memória negra, cidade e personagem.

         Com grandes acertos nos recursos técnicos, Viviane Ferreira constrói uma obra tocante, sensível e impecável em seu desenrolar. Fotografia e arte trabalham em conjunto, dando vida à rua, à casa e às protagonistas. Todos os detalhes de planos, ângulos, detalhes e objetos potencializam ainda mais as performances de Léa Garcia e Débora Marçal.

        Não há um ponto fora do lugar em “O Dia de Jerusa”. A trilha sonora trabalha silêncios quando necessário, permitindo que somente a voz de Jerusa tome conta do ambiente, interagindo com sons ambientes. No entanto, há espaços para mudanças com sons não-diegéticos extremamente pontuais, o que reflete nas sensações transmitidas ao espectador.

          “O Dia de Jerusa” é muito mais do que o encontro casual entre duas mulheres. É um filme sobre memória, sobre aquilo que permanece quando o tempo passa e sobre a importância de ouvir quem tantas vezes é colocado à margem. Jerusa transforma uma simples pesquisa de mercado em uma experiência de humanidade, fazendo com que Silvia deixe, por alguns instantes, de procurar respostas para um questionário e passe a ouvir respostas para perguntas que talvez nem soubesse que precisava fazer.

         Viviane Ferreira constrói, com delicadeza e enorme sensibilidade, uma narrativa sobre duas mulheres negras separadas pela idade, mas aproximadas pela experiência, pelo afeto e pela necessidade de serem vistas. E talvez seja justamente essa a maior força do filme: lembrar que nenhuma pessoa é apenas um número, uma estatística, uma entrevistada ou uma idosa que vive sozinha. Cada pessoa carrega uma história. Algumas histórias, como a de Jerusa, só precisam encontrar alguém disposto a escutá-las.




AVISA QUANDO CHEGAR (2025)

 


        Com direção de Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf, “Avisa Quando Chegar” é um Terror intenso, denso e perturbador, sustentado por excelentes atuações de Dominique Bueno, que interpreta Júlia, e Cristhian Fernandes, no papel do motorista de aplicativo. Em apenas cinco minutos, o curta consegue construir uma situação extremamente desconfortável, explorando um medo muito próximo da realidade e, justamente por isso, tão eficiente.

         O pedido de um Uber em certa noite deveria ser a forma mais segura de chegar em casa. Porém, ao se despedir de uma amiga, Júlia não faz ideia de que está prestes a viver uma experiência aterrorizante. O filme parte de uma situação absolutamente cotidiana, reconhecível para praticamente qualquer espectador, e transforma esse cenário comum em uma fonte constante de tensão.

        O próprio título do curta já diz muito sobre sua proposta. “Avisa Quando Chegar” é uma frase extremamente comum no cotidiano brasileiro. Ela costuma ser dita por pais, amigos, companheiros e familiares como demonstração de cuidado. Ao mesmo tempo, carrega uma preocupação implícita. Ninguém pede para alguém avisar quando chegar porque acredita que tudo ocorrerá perfeitamente, mas porque existe a possibilidade de algo dar errado. Dessa forma, o título já coloca o espectador em estado de alerta antes mesmo de a narrativa começar. É uma escolha simples, mas extremamente inteligente, pois dialoga diretamente com experiências reais e sentimentos compartilhados por grande parte do público.

         Inicialmente, o motorista se mostra gentil, educado e aparentemente confiável. No entanto, conforme o trajeto avança, pequenos detalhes passam a gerar desconforto. A partir desse momento, fotografia e desenho de som assumem papel fundamental na construção da tensão crescente entre Júlia e o motorista. O curta passa a dialogar com elementos do thriller psicológico, do suspense de confinamento e do terror urbano, aproximando-se de situações que poderiam acontecer fora da tela. Essa proximidade com a realidade torna o horror ainda mais inquietante.

         A protagonista está completamente vulnerável. Está sozinha, distante de casa e confinada em um espaço reduzido controlado por outra pessoa. Nesse contexto, o veículo funciona quase como uma prisão temporária. Embora Júlia esteja fisicamente livre, suas possibilidades reais de fuga são extremamente limitadas. Essa sensação de impotência é construída de forma gradual e contribui para o aumento constante da tensão.

        Os elementos técnicos empregados pelos realizadores transformam “Avisa Quando Chegar” em uma excelente experiência para os fãs do gênero. Fotografia, direção de arte, montagem e som trabalham em conjunto para estabelecer uma atmosfera pesada que acompanha a protagonista ao longo do percurso. Quando a narrativa alcança seu terceiro ato, os efeitos visuais mais elaborados surgem como complemento da resolução final, ampliando o impacto de um desfecho direto, eficiente e assustador.

         O áudio desempenha uma função especialmente importante. Ao utilizar sons não diegéticos apenas em momentos específicos, o filme privilegia ruídos naturais como o motor do veículo, a seta e somente as vozes dos personagens. Essa escolha aumenta a sensação de realismo e aproxima ainda mais o espectador da experiência vivida por Júlia, fazendo com que o horror pareça surgir de forma orgânica dentro daquela situação.

         Aspectos narrativos, dramáticos e técnicos se combinam para construir a trama sob a perspectiva da protagonista. Não sabemos para onde estamos indo, assim como ela também não sabe. Compartilhamos sua preocupação quando as mensagens deixam de ir ou chegar e sua insegurança quando o motorista segue por caminhos desconhecidos. Quando o veículo para e o aplicativo informa o destino alcançado, a narrativa conduz naturalmente o espectador para o pior cenário possível.

        Contando ainda com a participação de Letícia Viana como a amiga responsável pela frase que dá título ao filme, o curta surpreende pela eficiência com que desenvolve sua proposta. Em apenas cinco minutos, Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf constroem uma situação reconhecível, promovem uma escalada contínua de tensão e entregam uma resolução impactante. Em produções tão breves, cada plano precisa cumprir uma função dramática específica, e a equipe criativa e técnica demonstra pleno domínio dessa dinâmica.

        Um dos aspectos mais interessantes de “Avisa Quando Chegar” está em seu final aberto, que amplia as possibilidades de interpretação. Afinal, seria o motorista o verdadeiro antagonista da história ou apenas uma peça de algo maior? O curta evita respostas definitivas e encontra justamente nessa ambiguidade parte de sua força. Com uma combinação eficiente de recursos cinematográficos, uma equipe técnica competente e atuações muito bem alinhadas, “Avisa Quando Chegar” se consolida como uma grata surpresa para os amantes do Terror.




sábado, 12 de setembro de 2026

FRAGMA (2013)

 


        Com direção, roteiro e produção executiva de Eduardo Moraes, “Fragma” é um curta de Drama que explora de maneira sensível e emocionante temas como memória, passagem do tempo, perda, abandono e permanência afetiva. Os realizadores exploram os gêneros Mistério e Romance. No entanto, o conflito central abarca temas que vão para muito além dessas classificações.

         O ponto de partida de “Fragma” é simples, mas carregado de possibilidades: um homem entra em um campus universitário e encontra um rapaz, inicialmente arredio e hostil. Ele diz que tem algo para mostrar e entrega o pequeno monóculo que permite observar uma fotografia ampliada.

        A partir desse objeto, o filme abre uma janela para uma história muito maior. O monóculo funciona como gatilho da memória. Ao olhar através dele, o rapaz não vê simplesmente uma fotografia: ele mergulha em uma sequência de lembranças. A narrativa passa a mostrar a relação dele com uma mulher: aproximação, paixão, convivência e, posteriormente, a ausência dela.

         O filme não explica imediatamente por que essa mulher desapareceu da vida dele. O mistério está menos em “descobrir um segredo” e mais em entender a história emocional que conecta aquelas pessoas. O encontro no campus funciona como ponto de partida para uma viagem pelo passado, na qual cada lembrança acrescenta uma nova peça à história.

         A memória é provavelmente um dos elementos mais importantes de “Fragma”. A estrutura visual identifica isso: no presente há campus, biblioteca, encontro. O passado se divide em dois. O do rapaz que entrega o monóculo e o do que recebe. Para um, o passado representa um intenso relacionamento amoroso. Para o outro, infância e amor. Diferentes momentos das vidas aparecem como fragmentos que precisam ser conectados.

      A narrativa não entrega uma biografia completa dos personagens. Ela oferece momentos significativos. E são esses momentos que permitem ao espectador reconstruir a história. A memória também não aparece como algo neutro. Ela está ligada à emoção, e aquilo que permanece na lembrança é justamente aquilo que teve importância afetiva. O filme transforma, assim, a lembrança em uma forma de reconstrução do passado.

         O contraste visual entre presente e passado é explorado de maneira genial pela fotografia. No tempo presente, quando os personagens estão no campus e na biblioteca, predominam filtros de tonalidades cinzentas e azuladas. A fotografia trabalha cores frias, transmitindo uma sensação mais distante e melancólica. Dessa forma, o presente parece emocionalmente esvaziado.

        Nas lembranças do relacionamento amoroso surgem cores vibrantes, maior luminosidade, tons mais claros, sensação de calor e vitalidade. A imagem transmite uma existência emocionalmente mais intensa. E isso também acontece nas lembranças relacionadas ao homem que entrou no campus, quando suas lembranças de infância vêm à tona.

         Essa diferença cromática pode ser interpretada como uma maneira de transformar visualmente a memória em um espaço de vida. O passado é colorido não necessariamente porque tudo tenha sido perfeito, mas porque foi vivido intensamente. O presente, por outro lado, é frio porque carrega as consequências daquilo que aconteceu. A fotografia transforma essa oposição emocional em uma experiência visual muito clara.

           No início, quando entramos junto com o personagem no campus, encontramos um jovem em uma mesa. Depois que ele observa pelo monóculo e mergulha na sequência de lembranças, o filme apresenta uma passagem temporal enorme. Voltando ao presente, vemos o mesmo homem, mas agora muito mais velho e grisalho. Isso pode ser interpretado de maneira bastante simbólica. Fisicamente, o tempo passou. Emocionalmente, talvez ele tenha permanecido preso àquele momento. A sensação é de que a vida continuou, o corpo envelheceu, os anos passaram, mas aquele amor permaneceu congelado dentro dele. O passado não é apenas algo que ele recorda. É algo que continua vivendo dentro dele.

         Apesar dos poucos diálogos, o elenco entrega atuações fantásticas. Rafael Primot é o nosso condutor pela jornada. Ele entra no campus, percorre corredores e escadas. Encontra o jovem, interpretado por Eduardo Moraes, que, inicialmente, o trata mal. Juliana Ianina domina ações, interações e o motor dramático da vida daqueles dois homens. Primeiramente em sua relação com o jovem homem e, posteriormente, com o bebê, interpretado por Otto Sanches. Luiz Carlos Vasconcelos surge em tela, num final extremamente emocionante e avassalador.

         Um aspecto interessante é que o filme não explica imediatamente por que a mulher desaparece da vida do homem. Essa ausência pode ser mais importante do que uma explicação objetiva. O guarda-roupa vazio, os cabides sem roupas. É uma imagem simples, mas representa concretamente a ausência. A pessoa desapareceu, e aquilo que resta é o espaço que ela ocupava. O vazio físico passa a representar também o vazio emocional deixado por sua partida.

         “Fragma” tem elementos técnicos muito bem utilizados para criar uma atmosfera vibrante, mas, instantes depois, melancólica e triste. As idas e voltas nestes dois mundos representam como lembramos de momentos felizes e marcantes e como lidamos com um presente frio e vazio. A montagem é executada de maneira primorosa, reconstruindo aos dois protagonistas um passado que pertence a eles dois.

         Direção de arte, figurino, maquiagem e trilha sonora também merecem destaque. Tudo funciona como base para as atuações e sensações que a obra transmite ao espectador. Os elementos técnicos não se sobrepõem às atuações, mas servem como bases de sustentação narrativa e dramática, ajudando a estabelecer as diferentes temporalidades e atmosferas.

            Um dos grandes acertos de “Fragma” é apresentar duas vidas, duas perspectivas e uma possível relação entre pai e filho. A presença do rapaz no campus ganha importância porque descobrimos depois que ele não é simplesmente um estranho. A estrutura do filme começa a revelar que existem duas vidas ligadas por uma mesma mulher. Isso cria um interessante paralelismo: o homem carrega a memória da mulher como companheira, o rapaz carrega a memória dela como mãe. Ambos possuem relações diferentes com a mesma pessoa. Ambos foram marcados pela ausência dela. O filme não está interessado apenas na história entre um homem e uma mulher, mas nas diferentes formas pelas quais uma mesma pessoa pode permanecer na memória daqueles que a amaram.

         “Fragma” pode ser entendido como uma narrativa construída a partir de fragmentos de vidas e memórias, em que o espectador precisa reunir essas partes para compreender não apenas o que aconteceu, mas o que aquele passado significou para quem ficou e como o presente pode ser ressignificado.




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ANACHRONIQUE (2011)

        Com roteiro e direção de Mário Masetti, “Anachronique” é um delicioso curta de Romance que apresenta o encontro de uma mulher que trabalha sozinha numa floricultura sem clientes e um homem que entra no estabelecimento comercial sem muitos motivos. No entanto, a partir desse encontro, há uma interação muito interessante entre os personagens, magistralmente interpretados por Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos.

         Eles se conhecem, porém têm dificuldades em se apresentar. Surge um sentimento. No entanto, esse sentimento não pode ser apresentado por eles, justamente pelo fato de não terem se apresentado. Assim, na opinião dos protagonistas, eles ainda não se conhecem. Existe uma situação quase infantil nessa lógica, mas é justamente essa ingenuidade que torna o relacionamento entre os dois tão interessante.

         Existe uma possibilidade de encontro amoroso. O problema é que eles não conseguem transformar essa possibilidade em encontro de verdade. É justamente aí que o nonsense entra. Em vez de utilizar o absurdo para criar uma situação grandiosa ou surrealista, Mário Masetti parte de uma situação cotidiana e faz com que ela gradualmente se torne estranha. O espectador reconhece aquela dificuldade. São duas pessoas tímidas que poderiam se aproximar, mas não conseguem. O que muda é a maneira como essa dificuldade é apresentada.

         Baseado no texto “A Florista e o Visitante”, de Vera Karam, a própria divulgação do filme destaca a influência de Samuel Beckett. Entretanto, essa influência é importante, mas não deve ser vista como simples imitação. O que ocorre em “Anachronique” é uma situação que nasce da espera, da repetição, da dificuldade de comunicação e da sensação de que alguma coisa deveria acontecer, mas não acontece. Os personagens estão diante da possibilidade de uma aproximação, mas permanecem presos à própria incapacidade de agir. Só que Vera Karam acrescenta uma camada de humor brasileiro que impede que a situação fique excessivamente filosófica ou sombria.

         A escolha da floricultura como ambiente narrativo não parece casual. Flores estão associadas ao amor, ao desejo, ao namoro, à declaração e ao romance. É quase irônico colocar uma mulher que vende flores, objetos tradicionalmente associados à aproximação amorosa, em uma situação em que ela própria não consegue estabelecer uma aproximação. A loja está cheia de símbolos do romance, mas o romance não consegue acontecer. Isso cria uma espécie de paradoxo visual. Há flores por toda parte, mas falta justamente aquilo que elas normalmente representam.

        A floricultura sem clientes também pode representar a própria vendedora. A floricultura está sem compradores. A mulher está ali, esperando, e o lugar parece parado. Ela também parece parada. O estabelecimento pode ser interpretado quase como uma extensão psicológica da personagem. Ela não está apenas trabalhando em uma loja sem movimento. Ela própria parece incapaz de fazer sua vida avançar. Quando o homem entra, surge uma possibilidade de mudança. Mas a timidez impede que essa possibilidade se concretize. Assim, o filme transforma uma situação amorosa em uma pequena reflexão sobre inércia e oportunidade.

         Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos têm atuações sublimes. A química entre os atores eleva a produção a um patamar que impressiona. “Anachronique” marcou a estreia de Mário Masetti em direção cinematográfica. Masetti tem uma trajetória extensa no teatro, e as atuações dos protagonistas, interpretadas teatralmente, criam uma experiência extremamente profunda, acentuando o poder dramático e narrativo da obra. O filme ainda conta com uma participação especial de “Taubaté” Lisboa.

        Outro detalhe pertinente e acertado por parte dos realizadores é a quebra da quarta parede. O homem interage com o espectador, e isso dá ainda mais qualidade à obra, porque o público simplesmente não assiste a um curta, ele participa do filme. Essa interação também contribui para o tom de humor e para a construção de cumplicidade com quem está acompanhando a história. O espectador passa a compreender a situação de uma maneira diferente, como se recebesse informações que o aproximam ainda mais do personagem.

         Apesar de o gênero de “Anachronique” ser Romance, o filme se destaca pela maneira como o humor nasce do desconforto. O filme trabalha com um tipo de humor que não depende de uma piada tradicional. É o humor do constrangimento, da demora e do absurdo da situação. O espectador percebe que existe uma possibilidade romântica entre aquelas pessoas e justamente por isso começa a esperar que algo aconteça. Quando os personagens não conseguem avançar, a expectativa se transforma em humor. Em muitos pontos, a interação do homem com o espectador aprofunda ainda mais esses alívios cômicos.

        Esse mecanismo é muito próximo do teatro do absurdo. A situação se prolonga, a comunicação se torna estranha e aquilo que deveria ser simples se torna extraordinariamente complicado. A graça nasce justamente da dificuldade de fazer algo que, para qualquer outra pessoa, pareceria extremamente fácil.

         “Anachronique” recebeu com méritos o prêmio de Melhor Direção de Arte no VIII Curta Canoa. Isso reforça a importância da floricultura como espaço dramático. A direção de arte não serve apenas para tornar o cenário bonito. Num filme tão dependente de um único ambiente, o espaço precisa ajudar a construir a atmosfera. Flores, objetos, disposição do estabelecimento e o próprio aspecto da loja podem reforçar a sensação de um mundo ligeiramente deslocado da realidade. Cenário, objetos, figurino e maquiagem têm parcelas substanciais na qualidade da obra, com um trabalho primoroso.

         Outros elementos técnicos, como fotografia, montagem e trilha sonora, também são fundamentais. A fotografia se concentra em capturas pontuais de movimentos, ações e expressões, enquanto a trilha sonora dá suporte às atuações dos personagens. Os aspectos técnicos servem como alicerce para que os atores brilhem, sem retirar deles a responsabilidade de conduzir a maior parte da experiência dramática.

         “Anachronique” é uma pequena história sobre duas pessoas que estão diante da possibilidade de mudar suas vidas, mas não conseguem sair da própria inércia. A floricultura representa o amor. O homem que chega representa a possibilidade. A mulher representa a espera. Porém, a timidez representa aquilo que impede a transformação da possibilidade em acontecimento.

        O mais interessante é que o filme transforma essa situação potencialmente melancólica em comédia. Nós rimos porque o comportamento dos personagens é absurdo. Mas, por baixo do absurdo, existe uma situação bastante humana. Quantas vezes duas pessoas poderiam ter se aproximado se simplesmente tivessem conseguido dizer ou fazer aquilo que sentiam? E talvez o “anacronismo” esteja justamente aí: pessoas que vivem em um mundo moderno, mas emocionalmente parecem presas a um tempo em que não conseguem avançar.

         “Anachronique” não deve ser tratado apenas como uma comédia nonsense ou como uma adaptação cinematográfica de Vera Karam. Há um amor puro, genuíno e, podemos dizer, até mesmo infantil. O filme parece usar o absurdo para ampliar uma situação cotidiana até o ponto em que ela se torna reveladora. Duas pessoas tímidas diante de uma possibilidade amorosa deixam de ser apenas duas pessoas tímidas. Elas passam a representar todos aqueles momentos em que esperamos uma iniciativa do outro, enquanto o outro espera a nossa.

         A floricultura está cheia de flores, mas o romance não floresce. E essa talvez seja a melhor ironia do curta: em um lugar destinado a vender símbolos de amor, duas pessoas não conseguem sequer encontrar coragem para começar uma história de amor. É uma conclusão simples, mas que resume perfeitamente o humor, a delicadeza e a melancolia escondida por trás do nonsense de Mário Masetti.




        

sábado, 8 de agosto de 2026

FOME (2019)

 

        Com uma circulação considerável em festivais e premiações, como a 20ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o Circuito Penedo de Cinema 2020, o Cinefest Gato Preto 2020, a Mostra Paulista de Curtas-Metragens e o 21º NOIA, em 2023, "Fome" saiu vencedor na categoria Júri da Crítica no V Festival de Cinema Estudantil Você na Tela, em 2020. O reconhecimento ajuda a dimensionar a força de uma obra que, mesmo voltada ao público infantil, consegue abordar questões sociais e humanas com bastante sensibilidade.

         Com direção e roteiro de Felipe Fré, o curta conduz um Drama sensível, comovente e extremamente cativante. A trama apresenta Lia e sua mãe, interpretadas por Sara Santarém e Tati Keplmair, respectivamente. Vivendo no campo, as duas dependem das vendas de doces produzidos por Fátima em uma pequena cidade, construindo uma rotina simples, marcada pelo trabalho e pelas dificuldades.

          Uma das chaves principais do curta está em seu próprio título: fome. "Fome" não significa apenas fome. A chegada de uma dupla de saltimbancos eleva o termo para outras dimensões, transformando não só a vida de mãe e filha, mas também a maneira como o espectador passa a enxergar as protagonistas.

         Mãe e filha compreendem que não é somente o corpo que necessita de alimento, e isso muda bastante a leitura do filme. A fome física é obviamente a primeira camada. Fátima trabalha para colocar comida na mesa. Lia vive em um ambiente rural simples, onde as possibilidades são limitadas. Mas existe uma segunda fome: a fome de imaginação, de experiência, de descoberta, de fantasia e talvez de uma vida diferente.

         É nesse ponto que a chegada de Ciço e Carmela, os artistas itinerantes, deixa de ser apenas um acontecimento narrativo. Eles levam para aquele vilarejo alguma coisa que não pode ser comprada na venda de doces. Eles levam imaginação. Levam histórias, personagens e possibilidades. E a capacidade de criar, inventar e contar histórias muda a forma como Lia interage com o mundo, com a mãe e com as pessoas da cidade.

            A equipe criativa exerce uma importância primordial na construção da relação entre mãe e filha. Fátima está preocupada com a sobrevivência concreta. Lia está preocupada com uma sobrevivência imaginativa. Uma luta contra a fome e a outra luta contra os limites da realidade. Talvez o filme esteja dizendo que as duas coisas são necessárias. Uma criança precisa de comida, evidentemente, mas também precisa de imaginação, brincadeira, histórias e possibilidade de sonhar. Isso explica por que a presença dos saltimbancos é tão importante para a transformação de Lia.

       "Fome" é apresentado como filme infantil, mas não trata a infância como um mundo completamente protegido dos problemas adultos. O filme aborda temas e aspectos difíceis da vida, e isso é significativo. Lia brinca, imagina, vê dragões e princesas. Mas existe uma mãe trabalhando para garantir que haja comida. Portanto, a fantasia infantil convive com a realidade econômica. Essa é uma das grandes qualidades do filme: não é necessário retirar a criança da realidade para permitir que ela sonhe.

         Felipe Fré conduz com muita competência uma trama envolvente, utilizando muito bem os elementos técnicos de produção. A trilha sonora faz uso de sons diegéticos para destacar o trabalho de mãe e filha, a produção dos doces, os sons domésticos, crus e ambientais. Porém, nos momentos de leveza, o filme se permite sons mais agradáveis, que elevam as sensações do espectador e acompanham a transformação provocada pela chegada dos artistas.

         Fotografia e direção de arte também merecem destaque, seja na construção familiar da residência ou na praça onde são vendidos os doces produzidos. Tanto em planos e ângulos mais fechados, destacando potes, legumes, verduras, mãos e movimentos, quanto em sequências mais abertas, o filme amplia sua perspectiva após a chegada, apresentação e legado deixado pelos saltimbancos.

         A partir desse momento, os elementos técnicos trabalham para trazer maior leveza ao curta, mostrando como o impacto da apresentação deixou marcas em Lia, alterando sua visão de mundo e a maneira como os problemas podem ser encarados com mais otimismo. A atuação de Sara Santarém transborda simpatia e encanta. Além dela e de Tati Keplmair, o elenco conta com Sofia Morás e Luiz Xavier nos papéis dos artistas itinerantes.

       "Fome" talvez seja justamente sobre aquilo que não conseguimos enxergar quando pensamos apenas na necessidade de alimentar o corpo. Existe a fome de conhecer, de imaginar, de criar e de descobrir que existe um mundo muito maior do que aquele que conhecemos. A fantasia, nesse sentido, não aparece como fuga da realidade, mas como uma maneira de ampliar a realidade.

         Felipe Fré constrói essa ideia sem transformar o curta em uma lição de moral, permitindo que Lia descubra, através dos saltimbancos, que a imaginação também pode ser uma forma de resistência diante das limitações da vida. Entre doces, dificuldades, histórias e fantasias, "Fome" encontra sua maior força ao mostrar que sobreviver não significa apenas permanecer vivo. Também é preciso encontrar motivos para sonhar.




A MORTE & VIDA DE ANA BELSHOFF (2015)

               Com roteiro e direção de Pedro Foss, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um tenso e inquietante curta que mescla de maneir...