quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PRETO NO BRANCO (2016)


            Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua corrida pela rua para não perder o ônibus. Entretanto, ao passar pela frente de um shopping center, a vida dele e de Isabella se cruzam, iniciando uma experiência violenta, angustiante e profundamente perturbadora para o jovem negro.

         Acusado pela mulher, Roberto é abordado por dois policiais civis que passavam pelo local no momento em que Isabella teve sua bolsa roubada. Essa sequência é extremamente desconfortável. E o seu impacto é ainda maior porque a situação apresentada pelo filme não parece distante da realidade brasileira. Pelo contrário. A sensação é de que estamos assistindo a algo que se repete diariamente em diferentes cidades do país. O curta consegue transformar um acontecimento específico em uma reflexão muito mais ampla sobre preconceito, suspeita e desigualdade.

        Com um elenco afiado, “Preto no Branco” desenvolve uma trama cheia de camadas e que merecem ser debatidas e refletidas. Numa perspectiva mais abrangente, Roberto e Isabella podem ser vistos menos como indivíduos específicos e mais como representantes de posições sociais diferentes dentro da sociedade brasileira. O jovem, interpretado por Marcos Oliveira, entrega uma atuação potente, intensa e visceral. Sua expressão corporal, seu olhar e sua reação diante das acusações ajudam a transmitir a sensação de impotência vivida pelo personagem. Maria Bopp vive o papel da vítima do roubo, tendo uma performance bastante competente. Taiguara Nazareth e Guilherme Lopes interpretam os policiais responsáveis pela prisão de Roberto Carlos.

         No entanto, a delegada Patrícia, interpretada por Carolina Holanda, é uma personagem que merece atenção especial. Ela ocupa uma posição interessante dentro da narrativa. Não está claramente alinhada nem com Roberto nem com Isabella. Sua hesitação pode representar algo maior: a dificuldade das instituições em lidar com situações onde preconceito, memória e verdade se misturam. A forma como a personagem é construída faz com que ela funcione como representante do próprio espectador, que ouve tanto Isabella quanto Roberto e precisa compreender a situação sem ter acesso imediato à verdade dos fatos.

         “Preto no Branco” foi realizado através do edital Curta Afirmativo para Jovens Produtores Negros, iniciativa voltada ao protagonismo de cineastas negros no audiovisual brasileiro. Trata-se de uma informação relevante porque ajuda a compreender a importância do filme dentro de um contexto maior de representatividade e produção cultural. Além disso, o curta foi selecionado para o Toronto Black Film Festival, demonstrando que sua temática dialoga com discussões raciais que ultrapassam o contexto brasileiro e encontram eco em diferentes partes do mundo.

         O verdadeiro conflito estabelecido por Valter Rege não está somente no embate criado entre Roberto e Isabella. O verdadeiro confronto ocorre entre duas formas de credibilidade social. De um lado está Roberto, jovem negro, trabalhador e acusado. Do outro está Isabella, jovem branca e vítima de um crime. O filme questiona qual das versões tende a ser considerada verdadeira antes mesmo da existência de provas concretas. Essa é uma das reflexões mais poderosas da obra.

        Sendo assim, “Preto no Branco” busca questionar um fator extremamente relevante para a sociedade brasileira: o racismo estrutural. No filme, a abordagem de Roberto Carlos possui uma motivação racista por parte dos policiais, mesmo com um deles sendo negro. E esse detalhe é particularmente interessante porque o curta evita simplificações. O preconceito não aparece apenas através de atitudes individuais, mas também através de mecanismos sociais que acabam sendo reproduzidos por diferentes pessoas.

         No entanto, abordagens de jovens negros não precisam focar necessariamente no racismo explícito. Ninguém precisa fazer um discurso racista para que o racismo esteja presente. No caso de Roberto, o preconceito aparece através de mecanismos aparentemente normais: a abordagem policial imediata, a associação automática entre negritude e suspeição, a força atribuída ao reconhecimento da vítima e a dificuldade em conceder ao acusado o benefício da dúvida. É justamente por isso que o filme costuma ser utilizado em contextos educacionais para discutir direitos humanos e relações raciais.

         Outro aspecto importante é o reconhecimento da vítima. O cinema frequentemente trata o reconhecimento visual como prova absoluta. Mas o filme parece questionar essa ideia. A lembrança de Isabella é verdadeira? Ela acredita sinceramente naquilo que viu? Ou sua percepção foi influenciada por fatores externos e já impregnados em sua mente? Essas questões ampliam o alcance da narrativa e aproximam o curta não apenas do Drama social, mas também do Thriller psicológico, devido às pressões estabelecidas pelo sistema sobre Roberto.

         Embora seja classificado como Policial, talvez o gênero funcione mais como estrutura narrativa. O foco não parece estar na investigação. O foco está nas consequências da acusação e nos impactos emocionais, sociais e institucionais gerados por ela. Por isso, talvez seja mais produtivo analisar o filme como um Drama social com elementos policiais do que como um Policial tradicional.

            Utilizando recursos técnicos de maneira extremamente competente, Valter Rege constrói em “Preto no Branco” uma obra que mantém a coesão dramática e narrativa de forma impecável. A fotografia, com câmera nervosa durante a abordagem, eleva esse momento do filme ao campo do Horror psicológico. Ângulos, planos e tomadas funcionam perfeitamente, tanto na construção da narrativa quanto na entrega de elementos dramáticos fundamentais para a experiência do espectador.

         Montagem, trilha sonora e direção de arte trabalham em consonância, sem que um aspecto diminua o outro. Na verdade, a produção de objetos, o desenho sonoro e o figurino se complementam para dar vida aos personagens e à trama. Tudo funciona de maneira pontual e cadenciada, contribuindo para a sensação crescente de tensão e desconforto.

         “Preto no Branco” não fala apenas sobre culpa ou inocência. Fala sobre percepção. O curta está interessado em mostrar que a verdade factual pode ser menos importante do que a forma como as pessoas constroem suas certezas dentro de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda produz reflexos e consequências extremamente fortes e perturbadoras. Ao transformar uma situação cotidiana em uma discussão ampla sobre preconceito, justiça e credibilidade, Valter Rege realiza uma obra necessária, relevante e profundamente atual. 




EVA (2020)

 


            Produzido pela Friends Group Entertainment, com roteiro e direção de Daniela Gonçalves, “Eva” é uma obra que chama atenção pela ambição de sua proposta. Em um cenário onde boa parte da produção independente precisa lidar com limitações orçamentárias, o filme escolhe justamente o caminho mais difícil: construir um universo próprio, com mitologia, atmosfera, linguagem particular e uma narrativa que exige participação ativa do espectador. O resultado é um curta que demonstra ousadia, personalidade e disposição para correr riscos criativos, algo cada vez mais raro em produções que optam por caminhos mais seguros.

         A trama acompanha um sacerdote e seu guardião durante uma jornada missionária. Ao atravessarem a província de Eva, o caminho dos dois é interrompido quando encontram uma jovem misteriosa ferida. A partir desse encontro, a narrativa passa a desenvolver uma sucessão de acontecimentos estranhos que transformam completamente o rumo da viagem. O filme utiliza elementos do Suspense, do Terror e do Mistério para construir uma experiência que vai muito além de sustos ou da simples expectativa pelo desconhecido. O interesse da obra está menos em revelar respostas e mais em alimentar dúvidas.

            Uma das características mais interessantes do curta é a maneira como ele trabalha a sugestão. Em vez de explicar tudo ao espectador, Daniela Gonçalves prefere criar perguntas e permitir que determinados elementos sejam interpretados de formas diferentes. Isso faz com que “Eva” funcione não apenas como uma história fantástica, mas também como uma alegoria aberta a múltiplas leituras. O filme confia na inteligência do público e evita transformar seus mistérios em explicações excessivamente didáticas.

         Uma dessas interpretações passa pela relação entre humanidade e natureza. Ao longo da narrativa, surge a sensação de que a violência exercida pelos seres humanos contra o ambiente natural não é apenas pano de fundo para os acontecimentos. O filme parece sugerir uma ruptura de equilíbrio. A natureza deixa de ser apenas cenário e passa a ocupar um papel ativo dentro da narrativa. Sob essa perspectiva, os eventos sobrenaturais funcionam como manifestação de algo maior, uma reação a agressões constantes praticadas pelo próprio homem. Essa leitura acrescenta uma camada ecológica bastante interessante à experiência.

        O personagem do guardião, interpretado por David Mello, cumpre papel fundamental nessa construção. É através de seu olhar que o espectador descobre aquele universo e acompanha o crescimento gradual da tensão. Sua atuação contribui para transmitir medo, dúvida, inquietação e vulnerabilidade diante de acontecimentos que escapam à compreensão racional. A jornada do personagem também funciona como uma espécie de travessia emocional, conduzindo o público por uma experiência cada vez mais angustiante.

         O elenco entrega interpretações comprometidas com a proposta do filme e ajuda a tornar crível um universo que poderia facilmente soar artificial. O elenco como um todo contribui para a credibilidade da narrativa. Além de David Mello, Allan Gonçalves, Carolini Camini, Felipe Guilherme Paixão, Mayara Silva e Vitor Renan aprofundam os personagens numa narrativa que trabalha constantemente com o desconhecido. As atuações possuem a responsabilidade de manter o espectador emocionalmente conectado aos personagens, algo que o filme consegue realizar com competência.

            Outro aspecto extremamente interessante é a escolha do Esperanto como idioma principal. Trata-se de uma decisão incomum dentro do audiovisual brasileiro e que acrescenta uma camada extra de estranhamento à narrativa. Criado por Ludwik Lejzer Zamenhof no século XIX com a proposta de facilitar a comunicação entre diferentes povos, o Esperanto carrega uma forte carga simbólica ligada à ideia de aproximação cultural e universalidade. Em “Eva”, sua utilização ajuda a construir a sensação de que a história acontece em um espaço que não pertence exatamente a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, pode pertencer a qualquer lugar.

         Essa escolha também contribui para fortalecer o caráter mítico da narrativa. O filme não parece interessado em situar seus personagens em uma realidade específica. O idioma reforça justamente essa atmosfera de lenda, fábula ou parábola sombria, aproximando a obra de narrativas fantásticas que dialogam mais com símbolos do que com acontecimentos concretos.

        Tecnicamente, “Eva” impressiona pela maturidade. A direção de arte demonstra enorme preocupação com composição visual e construção de atmosfera. Os cenários, figurinos e elementos de cena ajudam a criar um universo coerente e visualmente rico. A fotografia trabalha muito bem a relação entre luz e escuridão, contribuindo para a sensação permanente de inquietação. Em diversos momentos, a imagem parece comunicar tanto quanto os diálogos. Há um cuidado evidente na composição dos enquadramentos e na utilização dos espaços naturais para reforçar a sensação de mistério.

         O trabalho de som também merece destaque. Os efeitos sonoros e a trilha são utilizados de maneira estratégica para ampliar a tensão dramática. Em vez de depender exclusivamente de imagens impactantes, o filme constrói boa parte de seu desconforto através da sonoridade. O resultado é uma experiência imersiva que envolve o espectador e reforça o clima de ameaça constante.

          Outro mérito está no ritmo narrativo. O primeiro ato é deliberadamente mais lento, permitindo que o público conheça aquele universo e seus personagens. Essa construção gradual exige paciência, mas se mostra recompensadora quando a narrativa acelera. À medida que os acontecimentos se tornam mais intensos, o filme ganha velocidade e conduz o espectador para uma conclusão marcada por tensão, angústia e sensação de inevitabilidade.

         Filmado em Mogi das Cruzes e lançado em 2020, “Eva” demonstra que o cinema independente brasileiro continua produzindo obras capazes de surpreender pela criatividade e pela coragem de experimentar. Mais do que um exercício de gênero, o curta constrói uma experiência que combina fantasia, horror e reflexão ambiental de maneira bastante particular. É um filme que aposta na atmosfera, nos símbolos e na participação ativa do espectador, revelando uma produção ambiciosa, madura e tecnicamente competente. “Eva” não se limita ao que mostra na tela. É uma obra que continua provocando interpretações e reflexões, característica comum aos trabalhos que encontram força justamente no mistério e na abertura para diferentes leituras.




UMA VIDA INTEIRA (2012)

 


        Baseado na crônica “O Salto”, de Antônio Prata, e com direção e roteiro de Ricardo Santini e Bel Ribeiro, “Uma Vida Inteira” é um filme de Romance que tem a ideia central já muito bem sintetizada no título.

         O curta acompanha um casal desde a primeira noite juntos até a possibilidade de um futuro que talvez nunca aconteça. O interessante é que o filme não precisa mostrar literalmente uma vida inteira. Ele trabalha com a imaginação do futuro. Em poucos minutos, uma relação recém iniciada pode carregar casamento, rotina, envelhecimento, desgaste, separação e todas as possibilidades intermediárias. É como se, no instante em que duas pessoas se apaixonam, elas também começassem a imaginar tudo aquilo que poderá acontecer entre elas.

        “Uma Vida Inteira” fala menos sobre o futuro do que sobre a ansiedade diante dele. O personagem narrador não está simplesmente apaixonado. Ele também está tentando imaginar o que acontecerá se esse amor der certo. E imaginar o futuro significa imaginar também a possibilidade de que ele dê errado. É uma contradição bastante humana. Queremos viver o amor, mas temos medo das consequências de nos entregarmos a ele. Por isso, o curta pode ser entendido como uma história sobre expectativa e medo. A pessoa deseja se aproximar, mas sabe que se aproximar significa abandonar uma certa segurança.

         A metáfora do salto é utilizada com profunda eficiência. Ela representa o momento em que duas pessoas deixam uma posição de segurança para apostar em alguma coisa cujo resultado não podem conhecer. Isso combina perfeitamente com o amor. Porém, chega um momento em que é preciso simplesmente se lançar. Uma vida inteira pode caber justamente nesse intervalo entre decidir saltar e descobrir onde se vai chegar.

        Há algo muito interessante na relação entre o tempo real e o tempo imaginado. O espectador está vendo uma história de apenas alguns minutos, mas a narrativa abre a possibilidade de acompanharmos décadas. Isso cria uma espécie de compressão temporal. Acontecimentos que levariam anos são concentrados em pensamentos, expectativas e possibilidades. É uma solução particularmente interessante da narrativa do filme. Os realizadores perguntam, de maneira bastante delicada, quantas coisas podem ser imaginadas quando uma relação ainda está começando.

         Outro recurso muito bem empregado pelos diretores, e que faz parte do texto de Antônio Prata, é estabelecer a vida cotidiana aparecendo antes mesmo dela acontecer. Há a possibilidade de imaginar uma relação não apenas através dos grandes acontecimentos, mas através de pequenas rotinas. É aí que o filme se torna menos romântico no sentido tradicional. Não se trata apenas de imaginar grandes declarações de amor. É imaginar a vida comum. Um restaurante, uma mesa, uma bebida, pequenos hábitos, conversas repetidas e silêncios. Essas pequenas coisas podem parecer insignificantes, mas são justamente elas que constituem uma vida compartilhada.

        Alice Braga e Bruno Autran sustentam uma narrativa muito delicada com muita competência, eficiência e sensibilidade. O filme é praticamente um estudo de dois personagens. Não basta representar duas pessoas apaixonadas. É preciso transmitir diferentes possibilidades de uma relação, como entusiasmo, desejo, insegurança, intimidade e medo. Como a narrativa depende bastante daquilo que é imaginado, a atuação precisa ajudar o espectador a acreditar tanto no presente quanto nos futuros possíveis.

         A fotografia e a trilha sonora são fundamentais para criar esse romantismo existente em “Uma Vida Inteira”. A fotografia de Leo Ferreira, a montagem de Márcio Hashimoto, a direção de arte de Taisa M. Rodrigues e a trilha sonora de Fábio Góes constroem um universo único entre os personagens. Cada elemento técnico ajuda a diferenciar o presente concreto das possibilidades imaginadas de uma forma extremamente comovente. O filme tem uma proposta que poderia facilmente ficar excessivamente literária, justamente por ser baseado em uma crônica. No entanto, fotografia, trilha sonora e montagem transformam com muita competência pensamento em imagem cinematográfica.

         O curta pode parecer extremamente otimista porque fala da possibilidade de duas pessoas se entregarem ao amor. Mas existe uma melancolia na própria estrutura. Para imaginar uma vida inteira, precisamos imaginar também a possibilidade de perder essa vida. O futuro feliz só é desejável porque sabemos que ele não é garantido. Isso faz com que o filme não seja simplesmente sobre “acreditar no amor”. É sobre aceitar a incerteza do amor, não saber se vai durar, não saber se vai funcionar, não saber se aquela pessoa será realmente o amor da sua vida. Mas é preciso decidir se vale a pena tentar.

         Sendo assim, a metáfora do trapézio é provavelmente a síntese do filme. A ideia de duas pessoas soltarem suas “mãos dos trapézios” é especialmente forte porque transforma o relacionamento em uma espécie de ato de confiança. Enquanto permanecemos agarrados ao que conhecemos, estamos seguros. Quando soltamos, existe um intervalo em que não temos controle. O amor está justamente nesse intervalo.

        Não existe maneira racional de garantir que um relacionamento dará certo antes de vive-lo. Você pode avaliar compatibilidade, imaginar o futuro e tentar se proteger. Mas, em algum momento, precisa correr o risco. O filme entende que essa falta de garantia não é uma falha do amor. É parte essencial de sua experiência.

         “Uma Vida Inteira” é menos um filme sobre uma vida inteira do que sobre o instante em que uma vida pode mudar de direção. Duas pessoas se encontram e ainda não sabem o que serão uma para a outra. Porém, naquele momento, existe a possibilidade de tudo. O título ganha então uma dimensão muito bonita. Uma vida inteira pode estar contida não nos anos que serão efetivamente vividos, mas na quantidade de futuros que conseguimos imaginar diante de uma nova relação.

         E existe uma reflexão muito interessante ao terminar de assistir “Uma Vida Inteira”: vale a pena se entregar a algo cujo futuro não podemos conhecer? O filme parece responder que sim, não porque exista garantia de felicidade, mas porque a ausência de garantia é justamente o que torna o amor uma experiência de risco e, portanto, de escolha. Amar significa aceitar que não sabemos o que acontecerá depois do salto.




terça-feira, 6 de outubro de 2026

BRASIL 2020 (2019)

 


         “Brasil 2020” é uma obra que utiliza o horror como ferramenta para construir uma alegoria política contundente. Com roteiro e direção de Petter Baiestorf, o curta não busca assustar através de monstros, fantasmas ou ameaças sobrenaturais, mas sim por meio de uma realidade distorcida que dialoga diretamente com tensões sociais, culturais e políticas. O resultado é um horror distópico que transforma censura, perseguição ideológica, intolerância e autoritarismo em elementos centrais de sua narrativa.

          Conhecendo a filmografia de Petter Baiestorf e a proposta da Canibal Filmes, fica evidente que estamos diante de uma produção alinhada ao cinema de guerrilha, ao exploitation e à sátira política. O diretor não demonstra interesse em suavizar suas críticas ou esconder suas posições através de metáforas excessivamente discretas. Pelo contrário, a provocação é parte essencial da experiência. Um dos aspectos mais curiosos do curta é que, lançado em 2019, ele antecipa discussões que ganhariam ainda mais força nos anos seguintes, especialmente durante a pandemia de Covid-19, a partir de 2020. Questões relacionadas ao negacionismo científico, à desconfiança em especialistas e ao fortalecimento de discursos anticientíficos aparecem de forma surpreendentemente próxima do que viria a acontecer pouco tempo depois.

         O conceito de uma “crentecracia militar” é uma das ideias mais fortes da narrativa. A expressão combina diferentes elementos que marcaram o debate público brasileiro durante aquele período: o crescimento de setores religiosos conservadores na política, a nostalgia de grupos que defendiam uma nova intervenção militar e o fortalecimento de discursos autoritários. Nesse sentido, o filme constrói uma sociedade em que religião, poder estatal e repressão caminham lado a lado.

         Outro aspecto particularmente interessante é a presença das chamadas “bruxas do século 21”. A escolha dessa nomenclatura não é aleatória. Historicamente, as perseguições por bruxaria serviram muitas vezes como instrumento de controle social, atingindo indivíduos considerados inconvenientes ou desviantes. Em “Brasil 2020”, a figura da bruxa deixa de representar algo sobrenatural e passa a simbolizar qualquer pessoa que desafie a visão oficial do regime. O conceito funciona muito bem porque amplia o alcance da crítica proposta pelo filme.

         Professores, artistas, agricultores orgânicos, escritores independentes, filósofos, ambientalistas e livres pensadores tornam-se alvos preferenciais dessa estrutura de poder. O filme sugere que pensar de forma diferente já é suficiente para ser considerado uma ameaça. A perseguição não ocorre devido a atos violentos ou crimes concretos dos críticos do regime, mas pela simples existência de indivíduos que recusam seguir determinadas imposições ideológicas.

         Nesse contexto surgem os catequizadores. Embora o nome remeta a uma ideia religiosa, eles funcionam muito mais como fiscais do pensamento, inquisidores modernos encarregados de identificar e eliminar aqueles considerados inadequados. A presença desses personagens reforça a atmosfera opressiva da narrativa e evidencia o caráter autoritário do regime retratado.

         A noção de “purificação” apresentada pelo filme também merece atenção. Ao longo da história, discursos de purificação frequentemente estiveram associados à exclusão de grupos sociais, perseguições políticas e mecanismos de repressão. O curta utiliza essa ideia para estabelecer paralelos com momentos históricos marcados pela intolerância, pela censura e pela tentativa de impor uma única visão de mundo.

           O protagonista, interpretado por Loures Jahnke, vive no campo, cultiva seus próprios alimentos e dedica parte do seu tempo à leitura. Em circunstâncias normais, essas características não representariam qualquer ameaça. Entretanto, dentro da lógica apresentada pelo filme, tornam-se comportamentos considerados subversivos. Sua independência econômica e intelectual o transforma automaticamente em inimigo do sistema.

         Além da crítica ao Agronegócio, a narrativa também direciona sua atenção para a indústria armamentista e para a concentração de poder econômico. O filme sugere a existência de uma aliança entre interesses políticos, religiosos e empresariais, formando uma estrutura que busca controlar não apenas recursos, mas também comportamentos e formas de pensamento.

         Petter Baiestorf opta por uma abordagem direta, sem recorrer a grandes disfarces narrativos. Diferentemente de muitas distopias que preferem trabalhar com simbolismos mais sutis, “Brasil 2020” assume sua condição de manifesto cinematográfico. Essa característica pode gerar diferentes reações, mas contribui para tornar a mensagem extremamente clara.

         Brutal, provocador e desconfortável, o curta conduz seu protagonista a um destino doloroso. Seu grande crime é viver de acordo com suas próprias convicções, recusando-se a se adaptar às exigências impostas pelo regime. Essa trajetória reforça a crítica central da obra e transforma a história em uma reflexão sobre liberdade, autonomia e resistência.

         O aspecto mais inquietante de “Brasil 2020” talvez seja justamente a origem de seu horror. O medo não surge de criaturas fantásticas ou ameaças desconhecidas. Surge de instituições, discursos e comportamentos humanos perfeitamente reconhecíveis. É um filme que encontra sua força não apenas naquilo que mostra, mas na proximidade entre sua ficção e debates que continuam presentes na realidade contemporânea.




domingo, 4 de outubro de 2026

DE UM OUTRO LUGAR (2023)


        O curta-metragem “De um Outro Lugar” é uma envolvente obra de Terror psicológico que mergulha em uma narrativa marcada pelo mistério, pelo sobrenatural e pela curiosidade humana diante do desconhecido. A história acompanha as amigas Regina e Camila, que passam um tempo sozinhas em casa até que um objeto aparentemente inofensivo transforma completamente suas vidas. Regina compra pela internet um misterioso cristal negro, apresentado como uma espécie de ponte entre o mundo físico e o espiritual, e decide reproduzir um ritual aprendido através de tutoriais online. Essa escolha narrativa aproxima o sobrenatural da realidade contemporânea, mostrando como o fácil acesso à informação também pode abrir portas para perigos que vão muito além da compreensão humana.

         A dinâmica entre as protagonistas é um dos grandes acertos do filme. Regina, interpretada por Helena Sá, demonstra uma personalidade curiosa, impulsiva e determinada, sempre disposta a experimentar aquilo que desperta sua atenção. Já Camila, vivida por Thayná Máximo, funciona como o contraponto racional da dupla, demonstrando receio diante das ideias da amiga. Essa diferença de comportamento cria diálogos naturais e momentos leves, que tornam a relação entre as personagens bastante convincente. O humor presente nas primeiras cenas serve para aproximar o público das protagonistas e fazer com que a posterior escalada do horror tenha ainda mais impacto emocional.

        O roteiro e a direção conseguem equilibrar esses instantes descontraídos com a crescente atmosfera de suspense sem comprometer o ritmo da narrativa. Pelo contrário, quanto maior a identificação do espectador com as personagens, mais intensa se torna a sensação de perigo quando o ritual começa a produzir consequências inesperadas. As atuações de Helena Sá e Thayná Máximo reforçam esse processo, transmitindo espontaneidade tanto nas conversas cotidianas quanto nos momentos de medo, tensão e desespero. A naturalidade da dupla contribui significativamente para a credibilidade da experiência sobrenatural apresentada pelo filme.

            Conforme o ritual avança, a narrativa passa por uma transformação gradual bastante eficiente. O ponto de virada acontece quando Regina, já incomodada pelo som insistente de uma torneira pingando, acaba atravessando uma fronteira invisível e sendo transportada para outra dimensão. A escolha desse detalhe aparentemente banal demonstra inteligência narrativa, pois transforma um elemento cotidiano em gatilho para um acontecimento extraordinário. A partir desse momento, o mistério inicial evolui para um Terror psicológico muito mais intenso, conduzindo a protagonista a um espaço dominado por uma entidade conhecida como Oráculo.

        Aprisionada entre o mundo físico e o espiritual, Regina passa a enfrentar uma realidade completamente diferente daquela apresentada no início do filme. Sua luta para escapar desse limbo torna-se o eixo central da narrativa, enquanto o espectador acompanha sua crescente sensação de isolamento e impotência. As cenas ambientadas nessa dimensão paralela são especialmente eficientes por explorarem tanto o espaço reduzido da casa quanto a vastidão indefinida do universo espiritual, criando uma constante sensação de aprisionamento. Essa dualidade espacial contribui para aumentar a tensão e faz com que o público compartilhe a angústia vivida pela protagonista.

         Sob o aspecto técnico, “De um Outro Lugar” apresenta um trabalho bastante refinado. A fotografia utiliza enquadramentos cuidadosamente planejados e uma iluminação que acompanha as mudanças emocionais da história, estabelecendo diferenças claras entre o ambiente cotidiano e a dimensão sobrenatural. A direção de arte também merece reconhecimento por construir cenários ricos em detalhes, capazes de reforçar continuamente o clima de mistério. Cada escolha estética parece contribuir para tornar a transição entre os dois mundos mais convincente e visualmente envolvente.

         O figurino e a maquiagem desempenham papel igualmente importante dentro dessa construção. Em vez de recorrer a caracterizações exageradas, o filme opta por transformações discretas, porém extremamente eficientes. Essa abordagem mais contida torna o horror ainda mais inquietante, pois preserva uma sensação constante de estranhamento sem romper completamente com a realidade apresentada. Muitas vezes, aquilo que apenas é sugerido produz impacto muito maior do que qualquer efeito visual excessivamente explícito.

        A trilha sonora acompanha toda essa construção atmosférica com bastante precisão. Os sons e a música intensificam a sensação de suspense, acompanhando o ritmo da narrativa e ampliando emocionalmente cada momento vivido pelas personagens. O desenho sonoro também colabora para criar uma presença constante do sobrenatural, fazendo com que o espectador permaneça em estado de expectativa mesmo durante os momentos de aparente tranquilidade.

         Entretanto, o aspecto mais interessante de “De um Outro Lugar” talvez esteja em sua leitura contemporânea. Ao utilizar tutoriais encontrados na internet como meio de acesso ao sobrenatural, o filme estabelece uma relação bastante atual entre tecnologia, curiosidade e responsabilidade. Em uma época em que praticamente qualquer informação está disponível a poucos cliques de distância, a narrativa sugere que nem todo conhecimento deveria ser acessado sem reflexão. O ritual aprendido virtualmente funciona como metáfora para os riscos de explorar territórios desconhecidos apenas pela facilidade proporcionada pela tecnologia.

         A direção de Pedro Amaral demonstra sensibilidade ao unir essas questões contemporâneas aos elementos clássicos do Terror psicológico. O resultado é uma obra que não apenas constrói suspense de maneira eficiente, mas também estimula interpretações sobre os limites entre realidade, espiritualidade e percepção humana. “De um Outro Lugar” oferece uma experiência visualmente rica, sustentada por boas atuações, sólida construção técnica e uma atmosfera que permanece inquietante até seus momentos finais. Mais do que provocar sustos, o curta convida o espectador a refletir sobre os perigos da curiosidade excessiva e sobre aquilo que pode existir além daquilo que nossos sentidos conseguem compreender. 




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SETE VIDAS (2007)

 


        Com roteiro de Zé Mucinho e direção dele junto com Marcelo Spomberg, “Sete Vidas” é um Drama que utiliza o humor para apresentar a vida de um gato. Mas não um gato comum. Tchê, narrado por Selton Mello, é um escritor que morreu e acordou no corpo de um gato, passando a observar o mundo humano a partir de uma perspectiva completamente diferente.

         Tendo ainda no elenco nomes como Ariel Moshe, Christiane Tricerri, Etty Fraser, Jayro Fagundes, Luisa Mell, Mairun Sevá e Marcelo Mansfield, Tchê circula pela Freguesia do Ó e conhece diferentes personagens, suas casas, suas vidas, seus anseios, suas alegrias, dificuldades e incertezas.

      O curioso é que Tchê não é apenas o protagonista da história, mas também uma espécie de observador da humanidade. Ao passar de uma casa para outra, ele conhece diferentes pessoas e diferentes formas de viver. Cada uma delas acredita possuir o mesmo gato e, consequentemente, estabelece com ele uma relação própria. O animal recebe diferentes nomes, tratamentos e demonstrações de afeto, de acordo com a personalidade e as necessidades de cada pessoa.

         É justamente aí que o filme encontra uma de suas maiores forças. O gato acaba funcionando como um espelho de seus donos. Mais do que conhecer Tchê, conhecemos as pessoas através da maneira como elas se relacionam com ele. O animal recebe projeções, expectativas, manias e carências. Cada dono parece enxergar no gato aquilo que gostaria que ele fosse, transformando uma relação aparentemente simples entre pessoa e animal em um retrato das necessidades humanas.

         A condição de escritor de Tchê acrescenta ainda outra camada interessante à narrativa. Ele não observa aquelas pessoas como um animal qualquer. Existe nele uma consciência humana que permite narrar aquilo que vê e estabelecer relações entre os diferentes personagens. O gato ocupa, assim, uma posição privilegiada: pertence à vida de todos, mas não pertence completamente a ninguém.

        E essa ideia conversa diretamente com o título. As “sete vidas” não pertencem somente ao gato. São também as vidas das pessoas que ele encontra. São histórias diferentes, com problemas diferentes, mas que têm em comum a necessidade de afeto, companhia e algum tipo de pertencimento. Tchê passa de uma casa para outra e, de certa maneira, vai acumulando experiências que pertencem a cada um daqueles personagens.

         A narrativa consegue ainda brincar com a ideia de propriedade. As pessoas acreditam que o gato é delas, mas o espectador sabe que existe uma circulação permanente. Tchê pertence a todos e, ao mesmo tempo, não pertence a ninguém. Essa situação cria momentos de humor, mas também permite uma reflexão sobre a própria necessidade humana de possuir aquilo que ama. O afeto, muitas vezes, acaba acompanhado pelo desejo de dizer “isso é meu”.

       O humor é utilizado de maneira bastante eficiente justamente porque não transforma os personagens em simples caricaturas. Existe graça nas situações e na forma como Tchê observa os humanos, mas por trás delas existem pessoas solitárias, frustradas e tentando encontrar alguma forma de conexão. O riso, portanto, frequentemente vem acompanhado de uma certa melancolia.

         A narração de Selton Mello contribui muito para esse equilíbrio. Sua voz dá personalidade ao gato e estabelece uma relação de cumplicidade com o espectador. Tchê parece estar contando aquelas histórias diretamente para nós, permitindo que acompanhemos suas observações sobre os humanos. Existe uma ironia nessa perspectiva: um gato observa pessoas que acreditam conhecê-lo, enquanto ele próprio parece conhecer muito mais sobre elas do que elas imaginam.

         A Freguesia do Ó também ganha importância nesse processo. O filme não precisa transformar seus personagens em grandes figuras extraordinárias. São pessoas comuns, vivendo em um bairro comum, com suas casas, seus hábitos e suas pequenas histórias. É justamente essa proximidade com o cotidiano que permite que o espectador reconheça algumas dessas características em pessoas que conhece ou até em si próprio.

         Com bons recursos técnicos, narrativos e dramáticos, “Sete Vidas” é um Drama sensível que utiliza o humor para apresentar a si mesmo através de Tchê, um escritor transformado em gato, suas vontades e preferências, mas também os pontos sensíveis de pessoas comuns, que vivem em bairros comuns e enfrentam sentimentos que estão longe de ser incomuns.

        No fim, a grande questão talvez nem seja descobrir quem é o verdadeiro dono de Tchê. O mais interessante é perceber por que tantas pessoas precisam acreditar que aquele gato pertence a elas. Cada uma encontra no animal uma companhia, uma projeção ou uma possibilidade de afeto. E talvez seja justamente por isso que o gato tenha tantas vidas: porque, ao passar pela vida de cada pessoa, ele assume um significado diferente.

         “Sete Vidas” transforma uma situação curiosa e bem-humorada em uma observação delicada sobre solidão, afeto, pertencimento e relações humanas. É um filme que consegue falar de pessoas através de um gato e, principalmente, utilizar um personagem aparentemente simples para mostrar que, por trás das pequenas histórias do cotidiano, existem sempre desejos, carências e necessidades muito maiores.




segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A MAIS FORTE (2009)

 


        Com direção, roteiro e produção de Ricky Mastro, "A Mais Forte" é um potente Drama que aborda o luto diante de uma perda inesperada, explorando as diferentes formas como as pessoas lidam com a ausência e com aquilo que permanece depois de uma tragédia. A trama acompanha o casal Alberto e Rafael, que sofre um acidente. Alberto morre, enquanto Rafael sobrevive, mas carrega algumas sequelas físicas e emocionais após o acontecimento.

        A partir dessa situação dolorosa, o curta concentra sua narrativa na relação entre as mães dos dois jovens. Raquel, mãe de Alberto, interpretada por Nyrce Levin, troca a fechadura do apartamento onde o casal vivia, impedindo que Rafael e sua mãe, Mariana, tenham acesso ao imóvel. O gesto, que inicialmente pode parecer uma atitude de confronto, revela uma dor muito mais profunda: a dificuldade de Raquel em aceitar a perda e se desfazer do último espaço físico que ainda mantém uma ligação direta com o filho.

         Mariana, vivida por Imara Reis, também enfrenta o sofrimento pela perda de Alberto. Ela perde um genro, alguém que fazia parte da sua família e da história construída ao longo dos anos. Rafael perde o marido, o companheiro com quem dividia uma vida. Entretanto, Raquel perde um filho. E é justamente nessa diferença de perspectivas que o filme encontra sua maior força dramática.

        A representação dessa dor é intensa, visceral e extremamente comovente. Imara Reis e Nyrce Levin sustentam a trama com enorme competência, construindo personagens complexas, marcadas por sentimentos contraditórios e por uma dor que não pode ser facilmente resolvida. A química entre as duas atrizes é um dos grandes destaques do curta, pois permite que o conflito seja desenvolvido muito mais pela emoção do que pelo confronto direto.

         A atitude de Raquel ao não entregar as chaves do apartamento não acontece simplesmente porque ela deseja impedir a venda do imóvel ou causar sofrimento aos outros personagens. Existe algo muito mais íntimo envolvido. Para ela, aquele espaço representa uma última conexão com o filho. Abrir mão do apartamento significa aceitar uma separação definitiva, reconhecer que uma parte importante de sua vida não voltará.

         O próprio título do filme apresenta uma questão fundamental: quem é "A Mais Forte"? Quem consegue suportar melhor uma situação tão dolorosa? Aquela que aceita a realidade? Aquela que luta para preservar aquilo que perdeu? Aquela que consegue continuar vivendo apesar da ausência?

        O interessante é que Ricky Mastro desconstrói a ideia tradicional de força. Normalmente, associamos uma pessoa forte àquela que consegue esconder o sofrimento, manter o controle e seguir em frente sem demonstrar fragilidade. Porém, o filme apresenta outra possibilidade: talvez a verdadeira força esteja justamente na capacidade de reconhecer a dor, atravessá-la e compreender que o sofrimento também faz parte do processo de reconstrução.

         Nesse sentido, a jornada de Raquel não é apenas sobre entregar ou não as chaves de um apartamento. É sobre permitir que a memória do filho exista sem que ela permaneça presa exclusivamente ao momento da perda. O filme transforma um conflito aparentemente simples em uma reflexão profunda sobre desapego, amor e aceitação.

         A narrativa também acerta ao não transformar a situação em uma disputa moral entre personagens. Não existe uma personagem completamente certa e outra completamente errada. A disputa principal acontece dentro de cada uma delas. Mariana e Raquel estão tentando sobreviver à ausência de Alberto, mas cada uma encontra uma maneira diferente de lidar com essa falta.

         Mesmo contrariada, Mariana consegue compreender a dor de Raquel. Sua insistência pelas chaves não representa apenas uma busca por um direito material, mas também um desejo de permitir que Raquel encontre uma forma de seguir vivendo. O apartamento, como objeto físico, é apenas a superfície de um conflito muito maior.

         Os bens materiais representam apenas uma camada externa do verdadeiro problema. A questão central é muito mais profunda: como continuar vivendo quando uma parte essencial da própria história desaparece? Todos os personagens perderam com a morte de Alberto, mas cada um experimenta esse luto de maneira particular. Para Raquel, existe a necessidade de um reencontro íntimo com a própria dor antes que ela consiga permitir que as outras pessoas continuem suas trajetórias.

         Um dos maiores méritos de "A Mais Forte" está na maneira como o filme aborda uma relação homoafetiva. O curta não escolhe apresentar o relacionamento entre Alberto e Rafael como um conflito relacionado à sexualidade, ao preconceito ou à aceitação familiar. O amor entre eles já existia antes do início da narrativa. A história começa depois da tragédia.

            Essa escolha é extremamente importante porque desloca o foco para aquilo que realmente importa: a experiência humana diante da perda. Os personagens LGBTQIA+ não são definidos apenas pela sexualidade, mas pelo amor que construíram, pelas relações familiares e pelo processo de luto. A homossexualidade dos personagens não é o problema central. O problema é a ausência deixada pela morte.

         Ricky Mastro também constrói uma reflexão muito interessante sobre o conceito de família. Tradicionalmente, a família costuma ser associada ao parentesco biológico, mas o filme questiona essa visão ao mostrar que relações construídas ao longo da vida também possuem valor afetivo e histórico.

         Quando duas pessoas constroem uma vida juntas, quem tem direito à memória dessa história? As mães perderam um filho, mas também perderam uma parte da trajetória que ele construiu com outra pessoa. O conflito pelo apartamento representa, simbolicamente, uma disputa pela preservação da memória, pelo direito de manter vivo aquilo que restou de alguém amado.

         Narrativamente, "A Mais Forte" demonstra grande competência ao transformar uma situação específica em uma reflexão universal. O filme consegue abordar uma experiência LGBTQIA+ sem limitar seus personagens a essa questão, apresentando uma história sobre amor, perda, família e humanidade.

         Tecnicamente, o curta também apresenta um trabalho bastante eficiente. Fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora trabalham em conjunto para construir uma atmosfera de forte carga emocional. Os elementos visuais e sonoros não estão presentes apenas para complementar a narrativa, mas para intensificar as sensações dos personagens e conduzir o espectador pela experiência do luto.

         A precisão da fotografia, os detalhes da direção de arte e as escolhas do desenho de som contribuem para criar um ambiente dramático consistente, permitindo que as atuações permaneçam como o principal centro da narrativa. Todos os recursos técnicos são utilizados de maneira equilibrada, valorizando especialmente as performances de Imara Reis e Nyrce Levin.

         "A Mais Forte" não é um filme sobre uma disputa por bens materiais. É uma obra sobre aquilo que permanece quando uma pessoa deixa de existir fisicamente. Ricky Mastro transforma um conflito aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre memória, família e luto.

         No fim, o que está realmente em jogo não são chaves ou objetos, mas fragmentos de uma vida compartilhada. São lembranças, afetos e histórias que duas mães tentam preservar da melhor maneira que conseguem. E é justamente ao compreender essa dor humana, antes de qualquer julgamento, que o curta encontra sua maior potência emocional.




domingo, 27 de setembro de 2026

A MORTE & VIDA DE ANA BELSHOFF (2015)

 


          Com roteiro e direção de Pedro Foss, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um tenso e inquietante curta que mescla de maneira brilhante os gêneros de Suspense, Mistério e Terror, com foco principalmente no Horror psicológico.

         A trama se concentra em Ana, interpretada com muita intensidade e profundidade por Carol Castro. A nadadora, que está prestes a disputar uma olimpíada, tem uma vida quase perfeita com seu marido, dentro de uma rotina que inicialmente transmite estabilidade e segurança.

           No entanto, a normalidade vivida por Ana começa a abalar sua vida, seu casamento e sua própria existência. O diretor trabalha a incerteza sobre aquilo que Ana está realmente vivendo. O curta começa apresentando uma situação aparentemente normal, mas rapidamente introduz elementos que quebram essa normalidade: visões, pesadelos, alucinações e aparições.

         Ana Belshoff começa a perceber acontecimentos que não consegue explicar. Entre eles está a presença recorrente do personagem de Luciano Szafir no elevador, cuja primeira aparição já provoca receio e desconforto. O suspense psicológico nasce justamente dessa impossibilidade de Ana, e do espectador, compreender imediatamente o que está acontecendo. A protagonista tenta racionalizar aquilo que vê, mas cada nova manifestação aumenta sua insegurança, fazendo a própria mulher questionar sua sanidade mental.

            A presença de uma mulher loira vista por Ana também amplia essa sensação de ameaça e faz com que o próprio espaço doméstico, que deveria representar segurança, se transforme em um lugar de inquietação. O filme consegue, assim, fazer a transição gradual do Suspense psicológico para o Terror psicológico. O terror não está presente apenas nos sustos, mas na perda progressiva da confiança naquilo que Ana enxerga e entende como realidade.

         “A Morte & Vida de Ana Belshoff” não apresenta simplesmente duas possibilidades opostas. Morte e vida funcionam como duas condições que coexistem na experiência da personagem. A ideia de “morte” pode ser física, mas também existe uma dimensão relacionada à negação da morte e à dificuldade de aceitar que determinada vida chegou ao fim. Da mesma maneira, “vida” não significa apenas estar biologicamente vivo. O filme trabalha com a ideia de uma personagem que continua experimentando uma existência, relacionamentos e situações que pertencem a uma vida que já não corresponde à realidade.

         Isso aproxima o título da ideia de limbo: Ana permanece entre a vida que teve, a vida que gostaria de ter tido e a condição que não consegue reconhecer. Essa posição intermediária reforça o desconforto da narrativa, porque a personagem não consegue compreender plenamente o lugar em que se encontra.

        O filme permite contrastar a vida que Ana acredita ter sob vários aspectos, conforme a trama avança e a protagonista descobre mais sobre si e sua vida. Elementos sobre a condição de sua mãe e atitudes tomadas por ela ganham sentido. A fragilidade psicológica de Ana permite compreender a vida idealizada por ela como uma espécie de refúgio psicológico, uma realidade na qual ela consegue permanecer enquanto não enfrenta aquilo que aconteceu.

         O personagem interpretado por Luciano Szafir ganha corpo conforme seus encontros com Ana no elevador se tornam mais frequentes. Sentindo receio do personagem, a mulher evita usar o mesmo elevador. Ele parece saber mais sobre a situação de Ana do que ela própria. Sua presença pode ser interpretada como a de uma entidade ligada à morte, ou como um intermediário entre dois estados de existência. O elevador, nesse contexto, ganha um significado simbólico muito forte como passagem, transição ou deslocamento. A recusa em entrar no elevador pode estar relacionada à própria resistência da personagem em aceitar aquilo que aconteceu com ela.

            Além de Carol e Luciano, o elenco do curta ainda conta com Bruno Gissoni no papel do marido, Bia Oliveira, Bárbara Brígido e Juan C. Reis, que ajudam a sustentar o arco narrativo.

         Os elementos técnicos também se destacam na construção da atmosfera do curta. A fotografia é clara e ampla, mesmo quando a narrativa já apresenta acontecimentos sobrenaturais. Ela também consegue trabalhar detalhes menores e microdetalhes dentro dos espaços, mas nunca utiliza a imagem para denunciar antecipadamente a condição de Ana. Ou seja: a fotografia não entrega visualmente que existe algo errado com a vida da personagem.

         Isso é importante porque seria muito fácil utilizar uma fotografia escura, sombria ou carregada de filtros para sugerir imediatamente uma dimensão sobrenatural. Pedro Foss faz o contrário: mantém a imagem relativamente limpa e clara e deixa o estranhamento surgir principalmente através do psicológico da protagonista e da narrativa. Isso cria um contraste interessante: a imagem parece normal enquanto a experiência de Ana se torna cada vez mais anormal.

         A direção de arte também contribui para construir essa realidade aparentemente cotidiana. A montagem tem papel fundamental na organização das informações e na revelação gradual dos acontecimentos, evitando que o curta entregue cedo demais aquilo que pretende revelar. A trilha sonora de Tales Rubens contribui para a tensão e para os momentos de susto, incluindo os jumpscares utilizados nos momentos adequados.

         O resultado é uma combinação de Suspense e Terror em que os recursos técnicos não existem apenas para assustar, mas para controlar aquilo que o espectador sabe e aquilo que ele ainda não consegue compreender.

          Produzido com muita competência e qualidade, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um Suspense psicológico que gradualmente incorpora o Terror para contar a história de uma personagem presa entre aquilo que acredita estar vivendo e aquilo que realmente aconteceu. O suspense cria a pergunta: o que está acontecendo com Ana? Mas a camada psicológica acrescenta: por que Ana não consegue enxergar o que está acontecendo? E a dimensão existencial acrescenta uma terceira: o que significa continuar vivendo quando já não conseguimos aceitar a realidade?

         A força técnica do curta está justamente em não precisar anunciar essas respostas pela imagem. A fotografia clara, a direção de arte, a montagem, a trilha sonora e principalmente a atuação de Carol Castro colocam o espectador dentro da experiência de Ana sem entregar imediatamente a sua condição. O resultado é um filme que tem na imprevisibilidade a potência para um final chocante e perturbador.




PRETO NO BRANCO (2016)

               Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua ...