Castro Mendes chega à residência
de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão
de repressão da ditadura militar brasileira, os dois homens carregam um passado
comum que nunca foi realmente resolvido. O reencontro, aparentemente cordial,
já nasce carregado de silêncios, olhares e tensões que denunciam que aquela
visita vai muito além de uma simples conversa entre velhos conhecidos.
Com atuações
intensas e absolutamente magnéticas de Osmar Prado e Samir Murad, interpretando
Castro Mendes e Aristides, o curta constrói uma atmosfera densa desde os primeiros
minutos. A preparação minuciosa da casa de Aristides, a organização quase
obsessiva do ambiente e o cuidado nos pequenos gestos transmitem uma tentativa
de acolhimento, mas também revelam um homem que busca controlar tudo ao seu
redor, talvez como forma de compensar aquilo que nunca conseguiu dominar
internamente.
O diálogo inicial é econômico, mas extremamente eficaz. Em poucos minutos, o espectador é situado nas alegrias, frustrações e marcas deixadas pelo tempo. Castro Mendes aparenta ter tido uma trajetória mais estável, enquanto Aristides, viúvo há mais de uma década, demonstra dificuldades evidentes em lidar com o envelhecimento, a solidão e, principalmente, com as memórias de um passado que ainda o assombra. O encontro, que começa com lembranças quase afetuosas, logo revela fissuras profundas.
Cristiano
Requião, responsável pelo roteiro e direção, realiza um trabalho primoroso ao
conduzir essa transição do confortável para o desconfortável. A conversa muda
de tom de maneira quase imperceptível, mas extremamente eficiente. Em um
momento, dois ex-torturadores trocam papos e lembranças do cotidiano; no
seguinte, surgem questionamentos diretos sobre métodos, responsabilidades e
justificativas morais. Um defende a ideia de dever cumprido e da suposta
necessidade daquele trabalho; o outro deixa escapar incômodos e culpas que
jamais encontraram descanso.
“Um Café e Quatro Segundos” propõe uma reflexão dura sobre feridas abertas durante o período ditatorial brasileiro, feridas que permanecem expostas e sem cicatrização até hoje. O diálogo entre Aristides e Castro Mendes se transforma em um embate moral e ético, que atravessa desde discursos de “defesa da nação” até a denúncia da violência institucionalizada e de seus efeitos prolongados na sociedade. O filme não oferece respostas simples, mas obriga o espectador a encarar essas contradições de frente.
O curta não se
concentra na figura da vítima direta da tortura, mas lança luz sobre aqueles
que executaram ordens e sobre como esse sistema também os corroeu. No entanto,
a narrativa deixa claro que o impacto não foi igual para todos. Aristides
parece ter sido atingido de forma mais profunda, carregando uma dor silenciosa
e acumulada ao longo de décadas. Suas falas, pausas e expressões revelam um
sofrimento contido, que nenhuma justificativa ideológica consegue apagar.
O debate sobre os limites ultrapassados pelos órgãos de repressão é abordado com contundência. A angústia de Aristides não está relacionada apenas à repressão de grupos armados, mas ao conhecimento de que inúmeros inocentes foram perseguidos, desapareceram ou morreram sem terem qualquer ligação direta com movimentos de resistência. Esse reconhecimento transforma o passado em um peso insuportável, que retorna naquele encontro aparentemente banal.
Com
interpretações extraordinárias de Samir Murad e Osmar Prado, Cristiano Requião
extrai o máximo de cada palavra e de cada silêncio. A tensão cresce de forma
progressiva, colocando o espectador em um estado constante de expectativa e
desconforto. Não se trata apenas de observar dois personagens em cena, mas de
testemunhar um confronto entre consciências, onde arrependimento, negação e
crueldade se chocam. Ou, talvez, a constatação de que para alguns não existe
arrependimento possível.
O filme demonstra, com enorme precisão, como um único ambiente e um roteiro bem construído podem sustentar uma narrativa poderosa. “Um Café e Quatro Segundos” acerta plenamente nos aspectos narrativos e dramáticos, assim como nos elementos técnicos. A direção de arte, ao enfatizar a organização da casa de Aristides, cria um contraste perturbador com o que está prestes a acontecer. Fotografia e montagem mantêm um equilíbrio rigoroso, potencializando o impacto emocional dos personagens. O som e a trilha sonora, utilizados de forma contida, aproximam ainda mais o espectador dos dois amigos e reforçam a sensação de realidade.
“Um Café e Quatro Segundos” é uma verdadeira joia do cinema brasileiro em curta-metragem. Um drama com fortes camadas de suspense que incomoda, provoca e convida à reflexão sobre um passado que não pode ser esquecido. Ao abordar as consequências de ações cometidas em nome de um regime, o filme lembra que certas escolhas geram reações inevitáveis e que, muitas vezes, o acerto de contas chega de forma brutal e definitiva, culminando em um desfecho profundamente chocante.










































