sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O SEGREDO DA FAMÍLIA URSO (2014)

 


        Com direção de Cíntia Domit Bittar, “O Segredo da Família Urso” é um incômodo e eficiente thriller psicológico que transita de maneira brilhante entre o Suspense e o Terror. O curta trabalha constantemente com a sensação de desconforto, criando uma experiência perturbadora que cresce aos poucos, sem depender de sustos fáceis ou exageros visuais. A tensão é construída de forma silenciosa, quase sufocante, tornando o filme ainda mais impactante.

         O pano de fundo da narrativa é a residência de uma família de classe média durante os anos 1970, em plena ditadura militar brasileira. É nesse ambiente aparentemente comum que vive Geórgia, uma garota de apenas 8 anos, cercada pelos pais e por uma velha babá que vigia seus passos constantemente. Desde os primeiros minutos, o curta estabelece uma atmosfera pesada, marcada por regras, silêncios e proibições que afetam diretamente a percepção da protagonista.

        Mesmo antes de Geórgia descer até o porão, lugar proibido pelos pais, “O Segredo da Família Urso” já transmite uma sensação fantasmagórica muito forte. A direção de arte e a fotografia são fundamentais para a construção desse clima. Os móveis antigos, os objetos espalhados pela casa e o figurino ajudam a recriar perfeitamente o período histórico. A paleta de cores opacas, sem brilho ou vivacidade, reforça a sensação de desgaste emocional e decadência. Tons pastéis, que normalmente poderiam transmitir conforto e acolhimento, aparecem aqui quase sem vida, criando a impressão de uma família que tenta manter uma aparência de normalidade enquanto esconde algo profundamente perturbador.

         O mais interessante é que o curta parece funcionar em diferentes camadas ao mesmo tempo. Há a perspectiva da infância, a crítica à estrutura familiar burguesa e a relação simbólica com a ditadura militar brasileira. Nenhuma dessas questões é apresentada de forma totalmente explícita. O filme prefere trabalhar através da atmosfera, das metáforas e das sensações, permitindo interpretações múltiplas e tornando a experiência mais rica.

        Liz Comerlatto entrega uma atuação extremamente convincente como Geórgia. A atriz consegue transmitir o desconforto constante da personagem, que vive sendo impedida de acessar determinados espaços e informações. A sensação de repressão e silenciamento está presente em cada olhar e gesto. Amélia Bittencourt, Gilda Nomacce e Otto Jr. também apresentam atuações marcantes, reforçando a tensão e o clima opressor da narrativa. O elenco conta ainda com a participação de Clei Grött.

         A casa funciona quase como uma representação simbólica do Brasil daquele período. Existe uma hierarquia rígida, marcada por vigilância, repressão, silêncio e segredos. Geórgia é constantemente afastada de determinadas verdades, o que lembra diretamente o funcionamento de regimes autoritários, onde certas perguntas não podem ser feitas e determinados assuntos precisam permanecer escondidos.

         Uma possível interpretação é que Geórgia descobre, de maneira traumática, que o mundo adulto pode ser cruel, violento e profundamente insensível. A mentira surge como um mecanismo de manutenção dessa falsa normalidade. Enquanto desconhece o segredo do porão, Geórgia ainda consegue enxergar a família como um espaço seguro. Porém, a descoberta transforma completamente sua percepção do mundo e das pessoas ao seu redor.

        Produzido em 2014, com roteiro de Cíntia Domit Bittar e Will Martins, “O Segredo da Família Urso” apresenta grande equilíbrio entre elementos narrativos, dramáticos e técnicos. O filme utiliza o Terror não apenas para provocar medo, mas também para discutir traumas históricos e psicológicos. A infância não suaviza o horror; pelo contrário, torna tudo ainda mais perturbador, justamente porque a criança compreende apenas fragmentos do mundo adulto.

         O curta é uma produção extremamente competente da Novelo Filmes, utilizando metáforas e construindo diferentes possibilidades de interpretação sem perder a tensão narrativa. O horror presente na obra funciona como uma representação simbólica de traumas reprimidos que insistem em retornar. O segredo da família também pode ser entendido como o segredo de um país inteiro.

         “O Segredo da Família Urso” é um filme forte, inteligente e perturbador. Uma obra que merece ser assistida, revisitada e debatida, especialmente em tempos em que discursos autoritários e ameaças às estruturas democráticas voltam a ganhar espaço.




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CONGÁ (2017)

 


        Com roteiro de Marco Fé e direção do roteirista junto com Sérgio Spina, “Congá” é um filme de denúncia, mas também de afirmação. “Congá” parte diretamente de uma questão: a intolerância contra as religiões de matriz africana no Brasil. A obra não se limita a apresentar a violência sofrida por essas tradições, mas procura também reafirmar sua importância cultural, religiosa e histórica.

         Na ocasião do lançamento, Marco Fé explicou que o filme pretendia dar voz a um povo que luta pelo respeito à sua cultura há séculos, enquanto Sérgio Spina destacou a intenção de produzir novas formas de pensar, ouvir e falar através do audiovisual. Isso é importante porque o filme não coloca essas religiões apenas na posição de vítimas. Ele também as apresenta como expressões de cultura, identidade, memória e resistência, mostrando que existe uma história que precisa ser conhecida e respeitada.

        “Congá” não é um título escolhido apenas por sua sonoridade. O congá, especialmente no contexto da Umbanda, é associado ao altar ou espaço sagrado onde se encontram diferentes referências religiosas e espirituais. Estudos sobre a Umbanda descrevem justamente essa riqueza de elementos presentes no congá. Isso dá ao título uma força simbólica e faz com que ele esteja diretamente relacionado ao universo que o curta pretende apresentar.

         O filme fala sobre aquilo que acontece quando uma sociedade olha para um espaço religioso e, em vez de enxergar fé e pertencimento, enxerga algo que deve ser combatido. O próprio nome do filme já desloca o olhar para dentro desse espaço, permitindo que o espectador conheça aquilo que tantas vezes é alvo de preconceito sem sequer ser compreendido.

        Mesclando elementos dos gêneros Documentário e Drama, Marco Fé e Sérgio Spina constroem uma obra forte, intensa e que traz uma reflexão extremamente relevante para o debate público sobre as violências sofridas pelas religiões de matriz africana. A combinação dos gêneros permite que a denúncia seja acompanhada por uma dimensão mais humana e sensível.

         Essa reflexão procura diferenciar o “não concordar com uma religião” e o “perseguir alguém por sua religião”. A intolerância aparece quando a diferença deixa de ser aceita como diferença e passa a ser tratada como ameaça. No caso das religiões de matriz africana, isso se cruza historicamente com questões raciais e culturais. A perseguição não pode ser compreendida simplesmente como uma divergência entre crenças, porque envolve uma história mais profunda de exclusão e marginalização.

         Existe uma dimensão de racismo religioso. Essa expressão é importante porque ajuda a compreender que a violência contra terreiros e seus praticantes não ocorre em um vazio histórico. Há uma longa trajetória de marginalização dessas tradições no Brasil, e o filme contribui para colocar essa realidade diante do espectador.

         O curta pode ser interpretado também como uma defesa da memória. As religiões de matriz africana carregam histórias, símbolos, músicas, rituais, conhecimentos e formas de compreender o mundo que foram transmitidos através das gerações. Preservar esses elementos significa preservar experiências que fazem parte da formação cultural brasileira.

         Quando um terreiro é atacado, portanto, não está sendo atingido somente um prédio. Está sendo atingido um lugar de memória e transmissão cultural. Essa perspectiva amplia o alcance do filme: proteger essas religiões significa também proteger uma parte da própria história brasileira.

         A presença de Leci Brandão é particularmente significativa. Ela esteve diretamente envolvida no lançamento da obra na Assembleia Legislativa de São Paulo. Isso aproxima o filme de uma tradição de arte e militância cultural. Leci não aparece simplesmente como uma personalidade conhecida emprestando seu nome ao projeto. Sua presença dialoga com a própria temática de defesa das religiões afro-brasileiras e da cultura negra, reforçando a dimensão pública da mensagem.

         A narrativa poética é uma escolha extremamente importante por parte dos realizadores. Isso é interessante porque o filme poderia simplesmente apresentar uma sucessão de depoimentos ou denúncias. A opção por uma abordagem poética permite trabalhar a questão de maneira menos jornalística e mais sensorial. O filme não precisa apenas informar que existe intolerância. Ele procura provocar uma sensação, criar uma reflexão e aproximar o espectador de uma realidade que talvez desconheça.

         Dessa forma, os trabalhos técnicos da direção de fotografia e de arte são fundamentais para a qualidade do filme. Com closes, detalhes, planos abertos ou fechados e com as estruturas de objetos, figurinos e locações, o curta consegue inserir o espectador no universo proposto pelos diretores. Isso é importante porque, ao mesmo tempo em que apresenta os elementos característicos dessas religiões, oferece ao público não praticante uma possibilidade de conhecimento e aproximação.

         Trilha sonora e montagem também se destacam por aprofundar a experiência sensorial do espectador. Todos os pontos de sons e imagens estão perfeitamente alinhados. E a narração de Leci Brandão é extremamente potente para transmitir as informações necessárias, acrescentando força à construção da mensagem.

        O curta coloca o espectador diante de uma pergunta essencial: por que a fé do outro incomoda tanto? Não se trata de perguntar qual religião está certa. A pergunta é anterior a isso. Por que alguém precisa destruir, humilhar ou atacar aquilo o que outra pessoa acredita? O filme propõe que a resposta está menos na religião atacada e mais na intolerância daquele que não consegue aceitar a existência da diferença.

         O filme também fala sobre liberdade de crença e fé. Liberdade religiosa não significa apenas ter autorização para professar uma fé. Significa poder existir publicamente sem medo de violência ou perseguição. Essa dimensão é importante porque a intolerância transforma uma liberdade constitucional em uma experiência concreta de insegurança. O terreiro deveria ser um espaço de fé. Quando seus praticantes precisam se preocupar com ataques, ameaças ou discriminação, essa liberdade deixa de ser plena. Assim, “Congá” pode ser entendido como uma defesa do direito de crer, praticar e pertencer.

         O filme também tem na resistência uma palavra-chave. Marco Fé afirmou, na divulgação do lançamento, que esperava que a mensagem do filme levasse “paz, amor, união” e, sobretudo, uma mensagem de resistência.

        Resistir, nesse contexto, não significa apenas reagir à violência. Significa continuar existindo, continuar praticando, continuar transmitindo conhecimento, continuar cantando, celebrando e mantendo uma tradição viva apesar daqueles que tentam apagá-la. A própria existência de um filme como “Congá” pode ser entendida como parte dessa resistência, pois transformar essa realidade em obra audiovisual também significa disputar espaço para essas vozes.

         Uma qualidade potencialmente importante do curta é que ele não depende de o espectador ser praticante ou estudioso de Umbanda, Candomblé ou outras tradições afro-brasileiras. A questão central é mais universal: o direito à diferença. Você pode não compartilhar determinada fé e ainda reconhecer que seus praticantes têm direito de exercê-la. Essa é talvez uma das mensagens mais importantes do filme.

         “Congá” pede que o espectador reconheça sua legitimidade. Ele parte da intolerância para chegar a uma defesa da identidade. Parte da violência para falar de resistência. Parte do preconceito para defender a convivência. E isso é importante porque o filme não precisa convencer o espectador de que determinada religião é verdadeira. A questão é outra: a fé de uma pessoa não precisa ser a minha para que eu reconheça seu direito de existir.




sábado, 10 de outubro de 2026

UM SAMPAIO TEIMOSO (2011)

 


        Com roteiro de Nayara Tognere e Stéfano Fabris, “Um Sampaio Teimoso” tem como principal objetivo recuperar Sérgio Sampaio e sua obra. O primeiro caminho é justamente aquele anunciado pelo próprio filme: impedir que Sérgio Sampaio seja lembrado apenas por “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. A música foi importante para sua trajetória, mas não consegue representar toda a dimensão de um compositor que construiu uma obra muito mais ampla, complexa e particular.

         Essa música se tornou tão associada ao compositor que existe o risco de ela funcionar como uma espécie de resumo de toda a sua carreira. O documentário rompe essa redução e apresenta Sampaio como um artista muito mais complexo. Ao recuperar diferentes momentos de sua vida e ouvir pessoas que conviveram com ele, o filme procura ampliar a imagem que permaneceu no imaginário popular.

         Com depoimentos de artistas, amigos e companheiras, a diretora Nayara Tognere procura retratar o artista, o homem, seus pensamentos e afastá-lo de rótulos negativos. O documentário não pretende esconder as dificuldades de sua personalidade ou de sua trajetória. O objetivo é mostrar que essas características não podem ser usadas para definir sozinhas quem foi Sérgio Sampaio.

        Sérgio Sampaio frequentemente aparece associado à chamada geração dos “malditos” da música brasileira. O termo pode sugerir marginalidade, comportamento difícil ou uma carreira distante do grande mercado, mas também acaba escondendo a riqueza de sua produção artística. Dessa forma, podemos nos questionar: quanto um rótulo ajuda a compreender um artista e quanto ele acaba aprisionando esse artista? “Um Sampaio Teimoso” parece interessado justamente nessa segunda possibilidade.

         A declaração de Maria Verônica Martins é uma das chaves mais importantes do filme: “A obra do Sérgio não é alegre. A obra do Sérgio é dramática.” A canção “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” pode induzir a uma percepção festiva de Sampaio, mas sua produção possui uma dimensão muito mais melancólica, amarga, irônica e existencial. O documentário procura justamente olhar para o homem e para o compositor por trás do sucesso mais conhecido.

         O filme utiliza as próprias músicas de Sérgio junto a depoimentos seus e imagens de arquivo. Isso é importante porque, em um documentário musical, a obra do personagem não deveria aparecer apenas como ilustração. As canções ajudam a construir a própria personalidade artística de Sampaio. É através delas que podemos perceber seu humor, sua melancolia, sua inquietação e sua maneira particular de observar o mundo.

        Nayara Tognere e Stéfano Fabris escolheram não construir o documentário exclusivamente através de uma narração biográfica. São amigos, parceiros, familiares e admiradores que ajudam a reconstruir Sampaio. Cada pessoa acrescenta uma camada diferente ao retrato e contribui para que o artista não seja apresentado de maneira única ou definitiva.

         Zeca Baleiro, Luiz Melodia, Jards Macalé, Tatá Aeroplano, Sérgio Natureza, Renato Piau, Ângela Breitschaft e Maria Verônica não estão presentes apenas para contar fatos. Cada depoimento acrescenta uma percepção diferente sobre o artista. O resultado é uma espécie de retrato coletivo, formado por lembranças que se complementam e também ajudam a revelar as contradições de Sampaio.

         “Um Sampaio Teimoso” também apresenta o contraste entre memória íntima e reconhecimento público. A presença das ex-companheiras Ângela Breitschaft e Maria Verônica Martins acrescenta uma dimensão diferente dos depoimentos dos músicos. Os parceiros conhecem o artista profissionalmente. As companheiras conheceram também o homem. Essa combinação ajuda o documentário a escapar da simples análise da carreira e aproximá-lo de uma personalidade com suas contradições e particularidades.

        O título é muito feliz porque “teimoso” pode ser entendido de várias maneiras. Pode significar alguém que insiste em seguir seu próprio caminho mesmo quando ele não parece ser o mais fácil. Pode também representar a persistência de uma obra que, apesar de ter sido parcialmente esquecida ou reduzida a um único sucesso, continua sendo redescoberta por novas gerações. Há uma espécie de ironia no título: o artista que insistiu em permanecer fiel à sua maneira de fazer música continua insistindo em permanecer na memória brasileira.

         Nayara Tognere apresenta grande domínio narrativo e técnico para conseguir causar impacto diante da vida e obra de Sérgio Sampaio. Trilha sonora, fotografia e montagem trabalham de forma harmônica, intercalando depoimentos e imagens de arquivo. Os realizadores apresentam um artista genial, propondo reflexões acerca de sua obra e sua vida e dando voz a ele, seja indiretamente através de outras pessoas ou por meio de suas próprias palavras. O curta procura despertar no espectador o interesse pela arte de Sérgio Sampaio.

         Outro detalhe extremamente importante é que o documentário foi realizado justamente para combater o esquecimento de Sérgio Sampaio. A existência de novas gerações de artistas e ouvintes que continuam recuperando sua obra mostra que esse esforço não foi inútil. Isso reforça o caráter atemporal de uma obra criada por um compositor e cantor que continua encontrando novos ouvintes.

         Sérgio Sampaio não é exatamente um desconhecido. Seu nome está associado a uma música que atravessou décadas. Mas isso não significa que sua obra seja realmente conhecida em toda a sua dimensão. “Um Sampaio Teimoso” tenta corrigir essa distorção ao apresentar um artista que merece ser descoberto para além de seu maior sucesso.

        O filme apresenta um artista que não pode ser resumido ao “bloco na rua”, nem ao rótulo de “maldito”, nem à imagem de personalidade difícil. Existe ali um compositor de grande riqueza poética, cuja obra possui uma dimensão profundamente dramática. Talvez a maior qualidade do documentário seja justamente fazer do esquecimento o seu adversário.

       Sampaio morreu jovem, em 1994, mas suas canções continuaram circulando e sendo redescobertas. O documentário registra depoimentos de pessoas que conviveram com ele e, ao mesmo tempo, participa de um processo maior de transmissão de sua obra para quem não teve a oportunidade de conhecê-lo.

         “Um Sampaio Teimoso” não pretende apenas contar quem foi Sérgio Sampaio. O curta pretende impedir que ele seja reduzido àquilo que o público já conhece. Ao fazer isso, o documentário acaba cumprindo uma função essencial: lembrar que, por trás de uma música famosa, existe toda uma obra esperando para ser descoberta.    




O CÃO SILENCIOSO (2020)

 


            Com direção, roteiro e produção de Thed Oliveira, “O Cão Silencioso” é um terror psicológico denso, profundo e construído a partir de uma atmosfera constantemente perturbadora. A obra mergulha em temas como trauma, herança emocional, medo e percepção da realidade, desenvolvendo uma narrativa que encontra força justamente naquilo que não explica completamente. Ao combinar elementos de Suspense, Mistério e Drama psicológico, o curta conduz o espectador por uma experiência inquietante que permanece ecoando mesmo após seu encerramento.

         Estrelado por Mara Carvalho, Michel Joelsas, Augusto Trainotti e Donizeti Mazonas, o filme acompanha uma família marcada pela ausência do pai falecido. No entanto, sua morte não significa desaparecimento. Pelo contrário. Sua influência continua presente em cada cômodo da casa, no piano, em cada diálogo e em cada decisão tomada pelos personagens. “O Cão Silencioso” é um mergulho profundo em um trauma coletivo que afeta mãe e filhos de maneiras diferentes, revelando como uma perda pode continuar moldando vidas muito tempo depois de acontecer.

        A narrativa trabalha de maneira bastante interessante com a ideia da loucura como herança. O filme se posiciona dentro de um território do terror psicológico que dialoga diretamente com temas como hereditariedade, trauma familiar e medo da repetição. Existe uma sensação constante de que algo inevitável está se aproximando, como se o passado estivesse destinado a se repetir independentemente da vontade dos personagens.

         Ao longo da trama, a dúvida entre doença mental, maldição familiar e percepção distorcida da realidade se torna um dos motores da narrativa. A questão central não parece ser simplesmente se o filho ficará louco. O verdadeiro conflito está em saber se ele realmente está desenvolvendo algum transtorno ou se passou a vida inteira sendo condicionado a acreditar que esse destino o aguarda. Essa diferença altera completamente a interpretação da história.

        Se a mãe dedicou anos tentando proteger um dos filhos do mesmo caminho percorrido pelo pai, talvez também tenha contribuído para criar nele um medo permanente da própria mente. Nesse sentido, o terror nasce não necessariamente da loucura em si, mas da expectativa constante de enlouquecer. O medo se transforma em uma presença permanente. A ansiedade de repetir um destino familiar passa a influenciar pensamentos, comportamentos e percepções. É justamente nessa camada psicológica que o filme demonstra grande maturidade narrativa.

         Outro aspecto fundamental para o sucesso da obra são as atuações. Mara Carvalho, Michel Joelsas e Augusto Trainotti entregam interpretações extremamente intensas e viscerais, transmitindo de forma convincente medos, inseguranças, angústias e conflitos emocionais. Existe uma sensação de desgaste constante nos personagens, como se todos carregassem um peso invisível que influencia suas ações e seus relacionamentos.

         Donizeti Mazonas, responsável por interpretar o pai, aparece de forma mais comedida. Essa escolha é particularmente eficiente porque preserva o mistério em torno da figura paterna. O espectador nunca conhece verdadeiramente esse homem. Tudo o que sabemos sobre ele chega através dos relatos da mãe e dos filhos. Isso faz com que sua imagem seja construída por lembranças, interpretações e medos, tornando-o ainda mais intrigante.

         O pai ausente funciona como um verdadeiro fantasma narrativo. Não necessariamente um fantasma sobrenatural, mas uma presença psicológica constante. Tudo gira em torno dele. O medo da mãe, as dúvidas do filho e até mesmo a identidade da família parecem definidos por sua existência passada. Esse recurso é muito comum em histórias sobre traumas geracionais, mas aqui é utilizado com enorme eficiência. Mesmo morto, ele continua influenciando pensamentos, decisões e comportamentos dos vivos.

        O próprio título do curta é extremamente sugestivo. Um cão costuma representar proteção, lealdade, amizade e companheirismo. Porém, também pode simbolizar agressividade, instinto e violência. O elemento mais importante está justamente no adjetivo escolhido. Ele é silencioso. Um cão que não late não avisa sobre sua presença. Não anuncia perigo. Não oferece sinais claros de ameaça. Essa característica transforma o título em uma poderosa metáfora para a própria loucura ou para os traumas que se instalam de forma gradual e quase imperceptível.

         Nesse contexto, um dos diálogos entre a mãe e o filho Pedro ganha importância especial. A história sobre cães violentos criados por sua família durante a infância da personagem não serve apenas como lembrança do passado. Ela funciona como uma espécie de espelho do presente. Ao narrar acontecimentos antigos, a mãe acaba revelando muito sobre sua própria condição emocional, seus medos e a forma como enxerga a realidade.

         Outro dos grandes méritos do roteiro está na construção ambígua da figura materna. A mãe é protetora ou controladora? Está tentando salvar os filhos ou alimentando seus medos? Sua preocupação é legítima ou ela própria se tornou parte do problema? Essas perguntas enriquecem profundamente a narrativa porque impedem interpretações simplistas. A personagem funciona simultaneamente como vítima e agente de um processo de deterioração psicológica.

         Além da força dramática, “O Cão Silencioso” apresenta uma execução técnica extremamente competente. A direção de fotografia utiliza ambientes escuros, sombras densas e filtros frios para reforçar o estado emocional dos personagens. Os espaços da casa deixam de funcionar apenas como cenários e passam a refletir a própria condição psicológica da família, numa densa escuridão.

         Os closes aproximam o espectador das emoções dos personagens, permitindo observar detalhes de seus rostos e reações. Já os planos mais abertos, frequentemente dominados pela escuridão, ampliam a sensação de vulnerabilidade e incerteza. Existe sempre a impressão de que algo está escondido além do campo de visão.

         A trilha sonora merece destaque especial. Grande parte do impacto do filme nasce justamente da utilização do silêncio. Ao privilegiar vozes, pequenos ou grandes ruídos domésticos e sons naturais do ambiente, a obra cria uma sensação de realismo que torna o desconforto ainda mais intenso. Quando sons não-diegéticos surgem, eles aparecem em momentos específicos, ampliando a tensão de forma extremamente eficaz.

        A direção de arte também contribui significativamente para a atmosfera construída. Objetos, figurinos e maquiagem ajudam a criar um ambiente que deveria transmitir segurança e acolhimento, mas que acaba se tornando perturbador e inquietante. A montagem, por sua vez, explora o subjetivo e reforça a instabilidade emocional dos personagens.

         Com uma combinação eficiente entre roteiro, direção, atuações e recursos técnicos, “O Cão Silencioso” constrói uma narrativa sobre o medo da herança psicológica. Não apenas uma herança genética, mas principalmente emocional e comportamental. Ao explorar como traumas podem atravessar gerações e moldar identidades, o curta apresenta um terror psicológico maduro, perturbador e profundamente humano.




 

POP RITUAL (2019)

 


     Com direção e roteiro de Mozart Freire, “Pop Ritual” é uma obra de Terror e Mistério profundamente densa, construída de forma sensorial e carregada de simbolismos. Trata-se de um filme que utiliza elementos clássicos do Horror gótico para desenvolver uma narrativa que se abre para inúmeras interpretações, explorando temas ligados ao desejo, à repressão, à fé, ao poder e às transformações que surgem quando diferentes forças entram em conflito.

         Estrelado por Alcântara Costa, no papel de Padre João, e Khalo de Oliveira, interpretando o vampiro Abigail, o curta se distancia rapidamente das histórias convencionais sobre vampiros. Em vez de apostar em confrontos diretos ou em uma disputa simplificada entre bem e mal, a narrativa constrói uma relação complexa entre seus dois personagens centrais. As atuações são um dos grandes destaques da produção. Na ausência de diálogos, os intérpretes precisam transmitir intenções, emoções e conflitos através dos olhares, dos movimentos corporais, das expressões faciais e da ocupação do espaço em cena. O resultado é uma dinâmica envolvente, marcada por tensão, fascínio e curiosidade mútua.

        O sacerdote não apenas aprisiona a criatura. Ele a observa, investiga, analisa e, gradualmente, desenvolve uma relação que ultrapassa a simples condição de carcereiro. Uma das leituras mais evidentes é a do vampiro como representação do desejo reprimido. Historicamente, a figura vampírica sempre esteve associada à sedução, ao erotismo e à quebra de limites morais. Desde a literatura clássica até o cinema moderno, o vampiro costuma simbolizar impulsos que desafiam convenções sociais e religiosas.

         Quando essa figura é colocada diante de um padre, o conflito simbólico se torna ainda mais interessante. Padre João representa disciplina, fé, autocontrole e renúncia. Abigail representa instinto, prazer, desejo e liberdade corporal. O encontro entre essas duas forças cria um embate constante entre o espiritual e o carnal. Mais do que combater a criatura, o padre parece desejar compreendê-la. Em determinados momentos, sua obsessão parece superar qualquer intenção de destruição.

         Outro aspecto particularmente interessante é a presença da experimentação científica dentro da narrativa. Em muitos filmes de vampiro, religião e sobrenatural ocupam posições opostas. Em “Pop Ritual”, surge uma terceira camada. Padre João assume também características de pesquisador. Ele registra, analisa e tenta compreender racionalmente aquilo que desafia qualquer explicação lógica. Essa tentativa de controlar o desconhecido acrescenta novas camadas ao personagem e reforça a sensação de obsessão crescente.

         A relação entre os dois personagens também pode ser interpretada como uma dependência mútua. A dinâmica construída pelo filme sugere que ambos necessitam um do outro por razões diferentes. O padre encontra no vampiro um objeto de estudo, uma missão e talvez até uma justificativa para seus conflitos internos. O vampiro, por sua vez, encontra no sacerdote uma conexão que vai além do simples aprisionamento. Essa proximidade cria uma relação ambígua, desconfortável e fascinante.

            Outro tema recorrente é a importância do corpo. O filme trabalha constantemente o corpo como espaço de transformação, desejo e disputa. O corpo religioso, o corpo vampiresco, o corpo observado, o corpo aprisionado e o corpo modificado coexistem dentro da narrativa. Enquanto Abigail sofre os efeitos das experiências conduzidas por Padre João, o próprio sacerdote passa por mudanças emocionais e psicológicas cada vez mais evidentes.

         Nos aspectos técnicos, “Pop Ritual” impressiona pela sofisticação. A direção de arte cria um ambiente que funciona simultaneamente como residência, laboratório e prisão. Essa indefinição espacial contribui para a atmosfera densa e para a sensação de isolamento compartilhada pelos personagens.

            A fotografia, a montagem e a composição dos enquadramentos trabalham constantemente para influenciar as emoções do espectador. Planos fechados, detalhes corporais e enquadramentos cuidadosamente calculados ajudam a reforçar a intimidade e a tensão existentes entre padre e vampiro. A experiência proposta pelo filme vai além da observação; ela busca provocar sensações fortes ao espectador.

         A trilha sonora minimalista também merece destaque. Priorizando sons ambientes e utilizando a música de maneira econômica, a produção cria uma imersão eficiente. O silêncio, muitas vezes, comunica tanto quanto qualquer diálogo ou composição musical, ampliando o desconforto e a intensidade emocional das cenas.

         “Pop Ritual” é um Horror gótico elegante, provocador e artisticamente refinado. Com uma equipe técnica extremamente competente e um forte domínio de linguagem audiovisual, Mozart Freire constrói uma obra que transforma o vampirismo em ferramenta para discutir desejo, obsessão, identidade e transformação. Mais do que uma história sobre monstros, o filme apresenta personagens que buscam compreender a si mesmos através do outro, resultando numa experiência inquietante, sensorial e profundamente humana.  


Pop Ritual

MANHÃ CINZENTA (1969)

 


        “Manhã Cinzenta” foi realizado por Olney São Paulo entre 1968 e 1969, a partir de um conto homônimo escrito pelo próprio cineasta em 1966. A história acontece em um país fictício da América Latina, onde um casal de estudantes participa de uma manifestação contra um regime autoritário. Eles são presos e submetidos a um interrogatório absurdo, envolvendo policiais, um robô e um “cérebro eletrônico”. Mas o país fictício é justamente uma das grandes estratégias de Olney. Ele cria uma distância geográfica para falar de algo extremamente concreto: o Brasil sob a ditadura militar.

         O filme é uma alegoria, mas não uma alegoria distante. Olney não precisa mostrar explicitamente o Brasil para falar do Brasil. O golpe acontece em um país inventado, mas as imagens documentais das manifestações de rua aproximam o filme da realidade brasileira. O resultado é uma mistura deliberada de ficção, documentário, literatura, música, teatro e material jornalístico. Estudos acadêmicos tratam justamente dessa construção intermidiática do filme. Isso é muito importante porque transforma “Manhã Cinzenta” em algo mais complexo do que uma simples narrativa sobre repressão.

        O filme não está dizendo: “Isso aconteceu naquele país imaginário”. A estrutura permite compreender que estava ocorrendo aqui. E, para quem assistia ao filme em 1969, provavelmente a distância entre o país fictício e o Brasil era ainda menor. A alegoria funcionava justamente porque o espectador conseguia reconhecer, por trás da ficção, uma realidade que fazia parte do seu cotidiano.

         Uma das grandes forças do curta reside na potência de seu elenco, que inclui nomes como Janet Chermont, Maria Helena Saldanha, Sonélio Costa, Jorge Dias, Nestor Noya, Cláudio Paiva, Paulo Neves, Antonio Manoel, Carlos Pinto, Marcio Cury, Flávio Moreira da Costa, Iberê Cavalcante, Nevile Almeida, Poty e Zena Felix. Seja com maior ou menor protagonismo, todas as atuações engrandecem ainda mais uma obra provocativa, desafiadora e incômoda.

         Outra grande força é a montagem. Glauber Rocha chamou o filme de “filmexplosão” e destacou sua “montagem caleidoscópica”. A montagem não procura necessariamente oferecer uma narrativa confortável, linear e explicativa. Ela fragmenta. Imagens, sons, discursos, manifestações, música, elementos documentais e ficcionais aparecem como pedaços de uma realidade política que está sendo desmontada diante do espectador. É quase como se a forma do filme reproduzisse aquilo que ele está denunciando: uma sociedade fragmentada pela violência política.

        O título também pode render uma interpretação bastante pertinente. A manhã normalmente pode representar começo, nascimento, esperança, renovação, futuro. Mas essa manhã é cinzenta. O filme transforma aquilo que deveria ser luminoso em algo opressivo. A “manhã” existe, mas não significa necessariamente um novo começo. Pode significar o começo de uma nova fase de repressão. E existe ainda outra possibilidade: a manhã cinzenta pode ser uma sociedade que perdeu a capacidade de enxergar claramente o próprio futuro.

         O casal é muito importante para a narrativa e a dramaticidade do filme porque não representa apenas duas pessoas. Janet Chermont e Sonélio Costa, como protagonistas, podem ser compreendidos como uma representação de uma juventude politicamente inquieta. Os estudantes aparecem associados à manifestação, à contestação e à possibilidade de transformação social.

         Pesquisas recentes analisam justamente a representação da comunidade universitária no filme e sua relação com o projeto autoritário para as universidades durante a ditadura. E isso é particularmente interessante porque o regime autoritário não reprime somente uma manifestação. Ele reprime a possibilidade de pensamento crítico. A universidade, nesse contexto, torna-se um espaço perigoso para um governo que deseja controlar a produção de conhecimento e limitar a circulação de ideias.

         A música também merece atenção. A trilha reúne obras como “Misa Criolla”, de Ariel Ramírez, “Semper Fidelis” e “Washington Post March”, de John Philip Sousa, e “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. A presença de “É Proibido Proibir”, particularmente, é carregada de significado histórico. A música nasceu no contexto das manifestações estudantis de 1968 e da própria repressão daquele período. Portanto, ela não está simplesmente acompanhando as imagens. Introduz dentro do filme um contexto histórico que já existia fora dele.

         A relação entre cinema e música é fundamental para compreender a construção do discurso de resistência de “Manhã Cinzenta”. A trilha ajuda a criar uma obra que não apenas conta uma história, mas reúne diferentes manifestações artísticas e culturais para construir uma espécie de mosaico político.

         Outro aspecto extremamente importante é a maneira como ficção e documentário se confundem. O filme utiliza imagens de manifestações reais ao mesmo tempo em que apresenta uma narrativa ficcional. Isso produz uma espécie de contaminação: a ficção parece real porque as imagens documentais estão ali; e o documento parece ficção porque está inserido dentro daquela narrativa alegórica.

         O espectador não consegue manter uma distância confortável. A ditadura não aparece somente como uma história contada por personagens. Ela aparece como realidade histórica registrada pela câmera. Essa escolha é politicamente poderosa porque aproxima o espectador de acontecimentos que poderiam ser tratados apenas como parte de uma narrativa inventada.

         “Manhã Cinzenta” também acabou se tornando um documento histórico de seu próprio período. O filme não é somente uma obra que fala sobre a ditadura. Ele próprio passou a fazer parte da história da repressão brasileira. E isso acontece de maneira particularmente dolorosa porque Olney São Paulo não apenas representou um Estado autoritário. O cineasta também sofreu diretamente as consequências da repressão.

         Em 8 de outubro de 1969, um avião brasileiro foi sequestrado por integrantes do MR-8 e desviado para Cuba. Uma cópia de “Manhã Cinzenta” foi exibida dentro do avião. As autoridades associaram Olney ao sequestro, embora ele não tivesse participado dele. O cineasta foi preso e permaneceu incomunicável por cerca de doze dias. Foi submetido a torturas e sofreu graves consequências físicas e psicológicas. Mais tarde, em 13 de janeiro de 1972, o Superior Tribunal Militar o absolveu definitivamente das acusações relacionadas ao filme.

          Essa relação entre obra e realidade torna a experiência de assistir ao curta ainda mais perturbadora. Olney fez um filme sobre um regime que prende e tortura pessoas e acabou preso e torturado pelo próprio regime que sua obra denunciava metaforicamente. Depois disso, “Manhã Cinzenta” passou a adquirir uma dimensão ainda mais dolorosa, porque a violência representada na ficção encontraria correspondência na própria experiência do realizador.

         Os negativos e cópias do filme foram confiscados. Uma cópia, entretanto, foi preservada clandestinamente na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro durante aproximadamente 25 anos. Olney também tomou precauções para enviar cópias para fora do país, permitindo que a obra circulasse internacionalmente. O filme passou por festivais como Pesaro, Viña del Mar, Quinzena dos Realizadores de Cannes, Mannheim e Oberhausen. A Cinemateca registra ainda o prêmio de Melhor Média-Metragem na Semana Internacional de Mannheim, em 1970.

         Existe uma ironia terrível nessa trajetória. O Brasil tentou silenciar “Manhã Cinzenta”, mas o próprio esforço de censura e repressão não conseguiu impedir que a obra sobrevivesse. Pelo contrário, o filme acabou encontrando espaços de circulação fora do país e conquistando reconhecimento internacional.

            Talvez seja justamente por isso que “Manhã Cinzenta” possa ser compreendido como uma espécie de dispositivo de alerta. O filme não parece querer apenas dizer “olhem o que está acontecendo”. Ele também parece dizer: “prestem atenção”. A obra nasceu dentro de um período de repressão, mas sua força permanece porque os mecanismos de autoritarismo, silenciamento e controle continuam sendo questões que precisam ser observadas.

         “Manhã Cinzenta” é uma obra provocativa, experimental e profundamente política. Olney São Paulo utiliza ficção, documentário, música, montagem fragmentada e alegoria para construir um retrato perturbador de uma sociedade submetida à violência autoritária. É um filme que não facilita a experiência do espectador, e justamente por isso permanece tão inquietante.

         Mais do que falar sobre a ditadura, “Manhã Cinzenta” tornou-se parte da história que pretendia denunciar. E talvez essa seja uma de suas características mais trágicas e poderosas. O filme tentou representar a violência de um regime, mas acabou tendo sua própria existência perseguida por esse mesmo regime. Décadas depois, continua sendo um alerta sobre a importância da liberdade, da memória e da resistência.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PRETO NO BRANCO (2016)


            Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua corrida pela rua para não perder o ônibus. Entretanto, ao passar pela frente de um shopping center, a vida dele e de Isabella se cruzam, iniciando uma experiência violenta, angustiante e profundamente perturbadora para o jovem negro.

         Acusado pela mulher, Roberto é abordado por dois policiais civis que passavam pelo local no momento em que Isabella teve sua bolsa roubada. Essa sequência é extremamente desconfortável. E o seu impacto é ainda maior porque a situação apresentada pelo filme não parece distante da realidade brasileira. Pelo contrário. A sensação é de que estamos assistindo a algo que se repete diariamente em diferentes cidades do país. O curta consegue transformar um acontecimento específico em uma reflexão muito mais ampla sobre preconceito, suspeita e desigualdade.

        Com um elenco afiado, “Preto no Branco” desenvolve uma trama cheia de camadas e que merecem ser debatidas e refletidas. Numa perspectiva mais abrangente, Roberto e Isabella podem ser vistos menos como indivíduos específicos e mais como representantes de posições sociais diferentes dentro da sociedade brasileira. O jovem, interpretado por Marcos Oliveira, entrega uma atuação potente, intensa e visceral. Sua expressão corporal, seu olhar e sua reação diante das acusações ajudam a transmitir a sensação de impotência vivida pelo personagem. Maria Bopp vive o papel da vítima do roubo, tendo uma performance bastante competente. Taiguara Nazareth e Guilherme Lopes interpretam os policiais responsáveis pela prisão de Roberto Carlos.

         No entanto, a delegada Patrícia, interpretada por Carolina Holanda, é uma personagem que merece atenção especial. Ela ocupa uma posição interessante dentro da narrativa. Não está claramente alinhada nem com Roberto nem com Isabella. Sua hesitação pode representar algo maior: a dificuldade das instituições em lidar com situações onde preconceito, memória e verdade se misturam. A forma como a personagem é construída faz com que ela funcione como representante do próprio espectador, que ouve tanto Isabella quanto Roberto e precisa compreender a situação sem ter acesso imediato à verdade dos fatos.

         “Preto no Branco” foi realizado através do edital Curta Afirmativo para Jovens Produtores Negros, iniciativa voltada ao protagonismo de cineastas negros no audiovisual brasileiro. Trata-se de uma informação relevante porque ajuda a compreender a importância do filme dentro de um contexto maior de representatividade e produção cultural. Além disso, o curta foi selecionado para o Toronto Black Film Festival, demonstrando que sua temática dialoga com discussões raciais que ultrapassam o contexto brasileiro e encontram eco em diferentes partes do mundo.

         O verdadeiro conflito estabelecido por Valter Rege não está somente no embate criado entre Roberto e Isabella. O verdadeiro confronto ocorre entre duas formas de credibilidade social. De um lado está Roberto, jovem negro, trabalhador e acusado. Do outro está Isabella, jovem branca e vítima de um crime. O filme questiona qual das versões tende a ser considerada verdadeira antes mesmo da existência de provas concretas. Essa é uma das reflexões mais poderosas da obra.

        Sendo assim, “Preto no Branco” busca questionar um fator extremamente relevante para a sociedade brasileira: o racismo estrutural. No filme, a abordagem de Roberto Carlos possui uma motivação racista por parte dos policiais, mesmo com um deles sendo negro. E esse detalhe é particularmente interessante porque o curta evita simplificações. O preconceito não aparece apenas através de atitudes individuais, mas também através de mecanismos sociais que acabam sendo reproduzidos por diferentes pessoas.

         No entanto, abordagens de jovens negros não precisam focar necessariamente no racismo explícito. Ninguém precisa fazer um discurso racista para que o racismo esteja presente. No caso de Roberto, o preconceito aparece através de mecanismos aparentemente normais: a abordagem policial imediata, a associação automática entre negritude e suspeição, a força atribuída ao reconhecimento da vítima e a dificuldade em conceder ao acusado o benefício da dúvida. É justamente por isso que o filme costuma ser utilizado em contextos educacionais para discutir direitos humanos e relações raciais.

         Outro aspecto importante é o reconhecimento da vítima. O cinema frequentemente trata o reconhecimento visual como prova absoluta. Mas o filme parece questionar essa ideia. A lembrança de Isabella é verdadeira? Ela acredita sinceramente naquilo que viu? Ou sua percepção foi influenciada por fatores externos e já impregnados em sua mente? Essas questões ampliam o alcance da narrativa e aproximam o curta não apenas do Drama social, mas também do Thriller psicológico, devido às pressões estabelecidas pelo sistema sobre Roberto.

         Embora seja classificado como Policial, talvez o gênero funcione mais como estrutura narrativa. O foco não parece estar na investigação. O foco está nas consequências da acusação e nos impactos emocionais, sociais e institucionais gerados por ela. Por isso, talvez seja mais produtivo analisar o filme como um Drama social com elementos policiais do que como um Policial tradicional.

            Utilizando recursos técnicos de maneira extremamente competente, Valter Rege constrói em “Preto no Branco” uma obra que mantém a coesão dramática e narrativa de forma impecável. A fotografia, com câmera nervosa durante a abordagem, eleva esse momento do filme ao campo do Horror psicológico. Ângulos, planos e tomadas funcionam perfeitamente, tanto na construção da narrativa quanto na entrega de elementos dramáticos fundamentais para a experiência do espectador.

         Montagem, trilha sonora e direção de arte trabalham em consonância, sem que um aspecto diminua o outro. Na verdade, a produção de objetos, o desenho sonoro e o figurino se complementam para dar vida aos personagens e à trama. Tudo funciona de maneira pontual e cadenciada, contribuindo para a sensação crescente de tensão e desconforto.

         “Preto no Branco” não fala apenas sobre culpa ou inocência. Fala sobre percepção. O curta está interessado em mostrar que a verdade factual pode ser menos importante do que a forma como as pessoas constroem suas certezas dentro de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda produz reflexos e consequências extremamente fortes e perturbadoras. Ao transformar uma situação cotidiana em uma discussão ampla sobre preconceito, justiça e credibilidade, Valter Rege realiza uma obra necessária, relevante e profundamente atual. 




EVA (2020)

 


            Produzido pela Friends Group Entertainment, com roteiro e direção de Daniela Gonçalves, “Eva” é uma obra que chama atenção pela ambição de sua proposta. Em um cenário onde boa parte da produção independente precisa lidar com limitações orçamentárias, o filme escolhe justamente o caminho mais difícil: construir um universo próprio, com mitologia, atmosfera, linguagem particular e uma narrativa que exige participação ativa do espectador. O resultado é um curta que demonstra ousadia, personalidade e disposição para correr riscos criativos, algo cada vez mais raro em produções que optam por caminhos mais seguros.

         A trama acompanha um sacerdote e seu guardião durante uma jornada missionária. Ao atravessarem a província de Eva, o caminho dos dois é interrompido quando encontram uma jovem misteriosa ferida. A partir desse encontro, a narrativa passa a desenvolver uma sucessão de acontecimentos estranhos que transformam completamente o rumo da viagem. O filme utiliza elementos do Suspense, do Terror e do Mistério para construir uma experiência que vai muito além de sustos ou da simples expectativa pelo desconhecido. O interesse da obra está menos em revelar respostas e mais em alimentar dúvidas.

            Uma das características mais interessantes do curta é a maneira como ele trabalha a sugestão. Em vez de explicar tudo ao espectador, Daniela Gonçalves prefere criar perguntas e permitir que determinados elementos sejam interpretados de formas diferentes. Isso faz com que “Eva” funcione não apenas como uma história fantástica, mas também como uma alegoria aberta a múltiplas leituras. O filme confia na inteligência do público e evita transformar seus mistérios em explicações excessivamente didáticas.

         Uma dessas interpretações passa pela relação entre humanidade e natureza. Ao longo da narrativa, surge a sensação de que a violência exercida pelos seres humanos contra o ambiente natural não é apenas pano de fundo para os acontecimentos. O filme parece sugerir uma ruptura de equilíbrio. A natureza deixa de ser apenas cenário e passa a ocupar um papel ativo dentro da narrativa. Sob essa perspectiva, os eventos sobrenaturais funcionam como manifestação de algo maior, uma reação a agressões constantes praticadas pelo próprio homem. Essa leitura acrescenta uma camada ecológica bastante interessante à experiência.

        O personagem do guardião, interpretado por David Mello, cumpre papel fundamental nessa construção. É através de seu olhar que o espectador descobre aquele universo e acompanha o crescimento gradual da tensão. Sua atuação contribui para transmitir medo, dúvida, inquietação e vulnerabilidade diante de acontecimentos que escapam à compreensão racional. A jornada do personagem também funciona como uma espécie de travessia emocional, conduzindo o público por uma experiência cada vez mais angustiante.

         O elenco entrega interpretações comprometidas com a proposta do filme e ajuda a tornar crível um universo que poderia facilmente soar artificial. O elenco como um todo contribui para a credibilidade da narrativa. Além de David Mello, Allan Gonçalves, Carolini Camini, Felipe Guilherme Paixão, Mayara Silva e Vitor Renan aprofundam os personagens numa narrativa que trabalha constantemente com o desconhecido. As atuações possuem a responsabilidade de manter o espectador emocionalmente conectado aos personagens, algo que o filme consegue realizar com competência.

            Outro aspecto extremamente interessante é a escolha do Esperanto como idioma principal. Trata-se de uma decisão incomum dentro do audiovisual brasileiro e que acrescenta uma camada extra de estranhamento à narrativa. Criado por Ludwik Lejzer Zamenhof no século XIX com a proposta de facilitar a comunicação entre diferentes povos, o Esperanto carrega uma forte carga simbólica ligada à ideia de aproximação cultural e universalidade. Em “Eva”, sua utilização ajuda a construir a sensação de que a história acontece em um espaço que não pertence exatamente a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, pode pertencer a qualquer lugar.

         Essa escolha também contribui para fortalecer o caráter mítico da narrativa. O filme não parece interessado em situar seus personagens em uma realidade específica. O idioma reforça justamente essa atmosfera de lenda, fábula ou parábola sombria, aproximando a obra de narrativas fantásticas que dialogam mais com símbolos do que com acontecimentos concretos.

        Tecnicamente, “Eva” impressiona pela maturidade. A direção de arte demonstra enorme preocupação com composição visual e construção de atmosfera. Os cenários, figurinos e elementos de cena ajudam a criar um universo coerente e visualmente rico. A fotografia trabalha muito bem a relação entre luz e escuridão, contribuindo para a sensação permanente de inquietação. Em diversos momentos, a imagem parece comunicar tanto quanto os diálogos. Há um cuidado evidente na composição dos enquadramentos e na utilização dos espaços naturais para reforçar a sensação de mistério.

         O trabalho de som também merece destaque. Os efeitos sonoros e a trilha são utilizados de maneira estratégica para ampliar a tensão dramática. Em vez de depender exclusivamente de imagens impactantes, o filme constrói boa parte de seu desconforto através da sonoridade. O resultado é uma experiência imersiva que envolve o espectador e reforça o clima de ameaça constante.

          Outro mérito está no ritmo narrativo. O primeiro ato é deliberadamente mais lento, permitindo que o público conheça aquele universo e seus personagens. Essa construção gradual exige paciência, mas se mostra recompensadora quando a narrativa acelera. À medida que os acontecimentos se tornam mais intensos, o filme ganha velocidade e conduz o espectador para uma conclusão marcada por tensão, angústia e sensação de inevitabilidade.

         Filmado em Mogi das Cruzes e lançado em 2020, “Eva” demonstra que o cinema independente brasileiro continua produzindo obras capazes de surpreender pela criatividade e pela coragem de experimentar. Mais do que um exercício de gênero, o curta constrói uma experiência que combina fantasia, horror e reflexão ambiental de maneira bastante particular. É um filme que aposta na atmosfera, nos símbolos e na participação ativa do espectador, revelando uma produção ambiciosa, madura e tecnicamente competente. “Eva” não se limita ao que mostra na tela. É uma obra que continua provocando interpretações e reflexões, característica comum aos trabalhos que encontram força justamente no mistério e na abertura para diferentes leituras.




O SEGREDO DA FAMÍLIA URSO (2014)

            Com direção de Cíntia Domit Bittar, “O Segredo da Família Urso” é um incômodo e eficiente thriller psicológico que transita de m...