quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O MAL QUE HABITA (2021)

 


        Com direção de Bruno Rapone, “O Mal que Habita” é um curta de Terror que mergulha no universo das possessões demoníacas por um caminho diferente daquele normalmente percorrido pelo gênero. Em vez de acompanhar a chegada do mal ou a preparação para um exorcismo, o filme lança o espectador diretamente no centro do caos, apresentando um ritual que já está em andamento e que claramente saiu do controle. Essa decisão narrativa é um dos maiores acertos da obra, pois elimina explicações desnecessárias e faz com que a tensão surja desde os primeiros instantes.

         Contando com Bruno Rapone, Isabella Lafin, Rafael Grendene e Giovanni Nervo no elenco, o curta constrói uma atmosfera de urgência constante. O espectador é colocado na mesma posição dos personagens: diante de uma situação extrema, sem conhecer completamente as regras daquele ritual, sem saber exatamente como tudo começou e, principalmente, sem ter certeza de como aquilo poderá terminar. Essa ausência de respostas imediatas fortalece o mistério e impede que a narrativa perca ritmo com longas exposições.

        Enquanto grande parte dos filmes de possessão utiliza o exorcismo como ponto culminante da história, “O Mal que Habita” escolhe inverter essa lógica. O ritual não representa o objetivo final da narrativa, mas o seu ponto de partida. A questão deixa de ser se o demônio será expulso e passa a ser quais serão as consequências de uma tentativa fracassada de controle. Essa mudança aparentemente simples altera completamente a dinâmica dramática do filme e cria uma sensação permanente de instabilidade.

         Emília, interpretada por Isabella Lafin, ocupa uma posição central dentro desse cenário. Como líder da seita, ela assume a responsabilidade pelas decisões tomadas durante a crise. Mesmo diante de uma entidade que parece cada vez mais poderosa, ela continua conduzindo procedimentos e rituais na tentativa de recuperar o controle da situação. No entanto, suas ações parecem insuficientes diante da força do mal que foi despertado. Essa impotência progressiva reforça uma das ideias mais interessantes do curta: a de que certas forças não podem ser facilmente dominadas apenas porque alguém acredita conhecê-las.

         A entidade demoníaca também apresenta características que vão além da simples figura monstruosa. Em determinado momento, torna-se evidente que ela busca algo maior do que apenas permanecer em um único corpo. Sua necessidade de encontrar hospedeiros mais fortes sugere um plano mais amplo, transformando a possessão em um processo contínuo de seleção e sobrevivência. Dessa forma, o demônio passa a funcionar quase como uma força contagiosa, capaz de migrar de um indivíduo para outro em busca de melhores condições para sua existência.

        Essa perspectiva amplia significativamente o alcance do horror. O perigo deixa de estar concentrado apenas na vítima possuída e passa a atingir todos os presentes. O grupo inteiro se torna vulnerável, criando uma atmosfera de paranoia na qual ninguém parece estar verdadeiramente seguro. A sensação de que qualquer personagem pode ser o próximo alvo da entidade mantém a tensão elevada durante toda a projeção.

         Visualmente, o curta demonstra grande competência. A fotografia aposta em tonalidades frias e ambientes pouco iluminados, criando uma atmosfera opressiva que combina perfeitamente com a temática sobrenatural. Os enquadramentos valorizam os espaços fechados da residência onde ocorre o ritual, reforçando a ideia de confinamento e aumentando a sensação de sufocamento emocional experimentada pelos personagens.

         A direção de arte também contribui para a construção desse universo sombrio. Objetos ritualísticos, velas, símbolos e a própria organização dos ambientes ajudam a transmitir a sensação de que aquele lugar está profundamente conectado às práticas ocultistas do grupo. Tudo parece cuidadosamente pensado para sustentar a credibilidade daquele universo.

        Outro destaque importante está na maquiagem de efeitos aplicada ao personagem possuído. As transformações físicas ajudam a materializar a presença da entidade e tornam a ameaça muito mais concreta. O horror não permanece apenas no campo da sugestão, mas ganha forma através de alterações visíveis que ampliam o desconforto do espectador.

         A trilha sonora e o desenho de som completam esse conjunto técnico com eficiência, intensificando os momentos de maior tensão e contribuindo para a sensação de perigo iminente que acompanha toda a narrativa.

         Conforme a narrativa avança, também começa a surgir uma sensação curiosa de que nem todos os envolvidos compartilham exatamente do mesmo nível de desespero diante da situação. Enquanto alguns personagens demonstram medo, insegurança e impotência, outros parecem agir com uma serenidade quase inquietante. O filme utiliza essa diferença de comportamento para criar uma camada adicional de mistério, sugerindo que talvez existam interesses e objetivos que permanecem ocultos ao espectador durante boa parte da trama.

         Com uma proposta simples, mas extremamente eficiente, “O Mal que Habita” utiliza elementos clássicos do Terror de possessão para construir uma experiência intensa e inquietante. Ao evitar explicações excessivas e concentrar seus esforços na escalada da tensão, Bruno Rapone entrega um curta que consegue assustar não apenas pela presença de uma entidade demoníaca, mas também pela ideia de que o verdadeiro perigo pode estar naqueles que acreditam ser capazes de controlar forças muito maiores do que eles próprios.




HOMO ERECTUS (2009)


        O filme é uma adaptação do conto homônimo de Marcelino Freire, publicado na obra “BaléRalé”, de 2003. O próprio Freire explica que o conto nasceu de uma fotografia dos chamados Homens de Weerdinge, dois corpos encontrados na Holanda que ficaram conhecidos como um dos mais antigos registros associados a um casal homossexual.

         Com muita criatividade, o diretor Rodrigo Burdman constrói uma animação diferente, divertida e de enorme capacidade criativa. O diretor também é responsável pela ilustração e animação, que mistura elementos do humor e da comédia com uma proposta visual bastante particular.

         A primeira coisa interessante é perceber que a suposta descoberta arqueológica funciona quase como uma armadilha narrativa. O narrador começa falando de um homem encontrado congelado, descrevendo seus restos, sua antiguidade, seus parentes pré-históricos e todos os detalhes que poderiam fazer o espectador acreditar que está diante de uma importante descoberta científica. Aos poucos, porém, o assunto deixa de ser arqueologia.

         O que interessa não é realmente descobrir quem era aquele homem, mas o que sua existência representa. O passado remoto serve para mostrar que determinadas experiências humanas não são invenções da modernidade. O filme leva a homossexualidade para um território aparentemente absurdo: a pré-história.

         Isso dá ao curta uma dimensão provocadora. Se a experiência homossexual pode ser imaginada como algo existente desde tempos imemoriais, perde força qualquer discurso que tente tratá-la como "desvio", novidade ou ameaça contemporânea. A ideia é simples, mas justamente por isso se torna bastante eficiente e reflexiva.

         Um dos detalhes mais incríveis da obra é a capacidade da criação de permitir o humor como expectativa do espectador. O filme constrói uma expectativa e depois a desmonta. Durante boa parte da narrativa, somos levados a acreditar que estamos acompanhando uma investigação arqueológica séria. A graça aparece quando percebemos que a investigação estava conduzindo nossa atenção para outro lugar.

         A narração de Paulo César Pereio tem um tom quase documental, como se estivéssemos diante de uma importante descoberta científica. A linguagem é cheia de perguntas, referências históricas e termos ligados à arqueologia. Só que essa seriedade vai preparando o terreno para uma conclusão completamente diferente.

         O humor nasce justamente do contraste entre a solenidade da narração e aquilo que está sendo revelado. Não é uma comédia construída por personagens fazendo piadas. É uma comédia de estrutura: o espectador é conduzido a interpretar as imagens de determinada maneira e depois percebe que estava olhando para outra coisa.

         Paulo César Pereio não está simplesmente "narrando" as imagens. A interpretação dele dá personalidade ao texto. Sua voz grave, debochada e carregada de ironia transforma o conto de Marcelino Freire em uma espécie de monólogo performático. Isso é especialmente importante porque o texto original já possui características muito próximas da poesia.

         Burdman não precisava transformar o conto em uma narrativa cinematográfica convencional. Ele percebeu que o texto já possuía uma musicalidade própria e construiu o filme em torno dela de maneira muito inteligente. A voz conduz a experiência enquanto as imagens criam uma interpretação visual própria para aquilo que está sendo contado.

         A animação foi realizada quadro a quadro e desenhada à mão, mas o mais interessante não é apenas o trabalho artesanal. É pensar como essa estética combina perfeitamente com o texto. O desenho permite que a imagem seja tão imprecisa, fragmentada e delirante quanto a própria narração. Em vez de oferecer uma reconstrução arqueológica realista, Rodrigo Burdman cria uma espécie de imaginação visual daquilo que está sendo contado.

         A simplicidade aparente do desenho não é uma limitação, mas parte de uma linguagem cinematográfica totalmente desafiadora. O filme não precisa de uma representação realista para convencer o espectador de que está diante do passado. Pelo contrário, a liberdade da animação permite que o diretor brinque com aquilo que é narrado e mantenha o caráter absurdo da situação.

         A maneira como a revelação final transforma o passado em provocação é extremamente inteligente. O filme começa falando de um homem pré-histórico e termina revelando que a verdadeira questão está relacionada à sua sexualidade. O efeito da revelação é cômico, mas também antropológico. O curta faz algo bastante esperto: leva a homossexualidade para o passado mais distante possível para questionar um preconceito que continua absolutamente presente.

         E existe uma ironia curiosa: aquilo que deveria ser uma "descoberta" extraordinária talvez não seja tão extraordinário. O que surpreende não é que dois homens tenham tido uma relação, mas sim a necessidade que as pessoas têm de transformar isso em algo extraordinário.

         “Homo erectus” não precisa ser interpretado somente como uma obra sobre homossexualidade. Ele é também uma sátira da obsessão social em classificar, investigar e julgar a intimidade dos outros. É significativo que o filme seja tão curto. Ele não argumenta, não explica e não desenvolve uma tese. Ele simplesmente conduz o espectador por uma longa preparação aparentemente histórica e científica para chegar a uma conclusão que, depois de revelada, parece absurdamente simples: a vida íntima daquele homem não deveria interessar a ninguém.

         Há uma espécie de inversão aí: os arqueólogos querem saber quem era aquele homem, o narrador quer reconstruir sua história e nós, espectadores, somos convidados a acompanhar a investigação. No fim, percebemos que talvez tenhamos caído na mesma armadilha. Também fomos levados a querer saber demais sobre a vida de alguém que morreu milhares de anos atrás.

         E talvez seja justamente nessa participação involuntária do espectador que esteja uma das maiores qualidades do curta. “Homo erectus” nos faz rir da situação, mas também nos coloca dentro dela. Primeiro queremos descobrir, depois somos surpreendidos pela revelação e, finalmente, percebemos que a própria curiosidade pode fazer parte da crítica construída pelo filme.    

SIMPATIA DO LIMÃO (2010)

 


        Naura Schneider, Pia Manfroni e Monica Vilela brilham nesta divertidíssima comédia que parte de uma situação tão popular quanto imprevisível: o arrependimento após a realização da famosa simpatia do limão, que acaba trazendo o marido de volta para casa. A premissa simples se transforma rapidamente em uma sequência de situações cômicas, constrangedoras e cheias de ironia, sustentadas por atuações afinadas e um texto que sabe exatamente onde quer chegar.

Pia Manfroni, interpretando a cartomante Madame Silmara, e Naura Schneider, no papel de Joana, a esposa arrependida, dão um verdadeiro show de interpretação. A interação entre as duas é o grande motor do curta, sustentada por uma química impressionante e por um domínio absoluto do timing cômico. Joana chega carregada de ansiedade, culpa e pressa, enquanto Madame Silmara mantém uma postura segura, pragmática e quase burocrática diante do sobrenatural. Monica Vilela, como a assistente da cartomante, complementa perfeitamente essa dinâmica, funcionando como apoio narrativo e ampliando as situações de humor dentro de um espaço limitado.

A narrativa se constrói a partir do retorno de Joana ao local onde esteve três dias antes. Na primeira visita, desesperada pelo abandono do marido Bruninho, ela recorre à simpatia para tê-lo de volta. O problema surge quando, nesse curto intervalo de tempo, Joana conhece Rodrigão, um jovem bonito, forte e extremamente atraente, que muda completamente sua perspectiva. Quando a simpatia funciona rápido demais e Bruninho reaparece, Joana se vê diante de um dilema tão absurdo quanto engraçado: desfazer o feitiço para que o marido vá embora novamente. É a partir desse impasse que o curta encontra sua maior força cômica.

Com a narrativa se desenvolvendo quase integralmente em um único ambiente, “Simpatia do Limão” demonstra enorme competência técnica e criativa. O diretor Miguel de Oliveira extrai o máximo do roteiro de Júlia Spadaccini, explorando o espaço com inteligência e ritmo. O uso de flashbacks é pontual e extremamente eficaz, servindo para reforçar o humor e enriquecer a compreensão da situação sem quebrar a fluidez da história. Esses retornos ao passado ampliam o caráter cômico e ajudam a construir a personalidade de Joana e suas escolhas impulsivas.

O curta vai além de uma simples comédia de costumes. Ele dialoga diretamente com um traço muito presente da cultura brasileira: a busca por cartomantes, videntes e simpatias como solução para problemas afetivos, financeiros ou existenciais. A obra reconhece essa prática comum, visível nas ruas, nos panfletos colados em postes e muros das grandes cidades, e a transforma em matéria-prima para o humor. Ainda assim, o tratamento dado ao tema é respeitoso, nunca ridicularizando as crenças, mas sim as contradições humanas que surgem a partir delas.

Tecnicamente, “Simpatia do Limão” também se destaca. Trilha sonora, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem e montagem dialogam de forma harmônica, contribuindo tanto para a criação do ambiente místico do consultório quanto para as outras locações pontuais do filme. Cada elemento reforça o tom leve e bem-humorado da narrativa, sem excessos ou distrações desnecessárias.

O elenco se completa com Daniel Andrade, no papel de Rodrigão, Miguel de Oliveira como Bruninho e Jefferson Brasil, todos muito bem encaixados dentro da proposta do curta. A composição dos personagens funciona com naturalidade e contribui diretamente para o desenvolvimento da história e, principalmente, para uma resolução final eficiente e surpreendente, que fecha o arco narrativo com coerência e humor.

"Simpatia do Limão” se consolida como uma comédia criativa, afiada e muito bem produzida, resultado do trabalho de uma equipe segura de suas escolhas. É um curta que diverte, provoca boas risadas e dialoga com o cotidiano brasileiro de maneira leve e inteligente, oferecendo um entretenimento acessível, carismático e extremamente agradável.




AURORA: A RUA QUE QUERIA SER UM RIO (2021)


        Contemplado pelo edital Histórias de Bairros de São Paulo, o curta-metragem de animação "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" apresenta uma proposta bastante original ao transformar uma rua da capital paulista em personagem principal da própria história. Com roteiro e direção de Radhi Meron, o filme acompanha as memórias, os sentimentos e as transformações da Rua Aurora, revelando suas origens, suas conquistas e também suas tristezas diante do abandono sofrido ao longo dos anos.

         Com narração de Priscila Paes, a obra utiliza a primeira pessoa para dar voz à rua, como se ela própria pudesse contar sua trajetória desde os tempos em que ainda fazia parte de uma cidade em formação. Essa escolha narrativa cria uma relação afetiva entre o espaço urbano e o espectador, permitindo compreender que uma rua não é apenas um caminho de passagem, mas também um lugar carregado de histórias, pessoas e acontecimentos que ajudam a construir a identidade de uma cidade.

        A Rua Aurora representa muitas regiões centrais das grandes cidades brasileiras. Locais que, em determinado momento histórico, tiveram grande importância econômica e social, concentrando comércio, moradias e circulação de pessoas, mas que posteriormente passaram por processos de degradação e abandono. O filme apresenta justamente esse contraste: a rua que um dia foi valorizada pela cidade agora observa, melancolicamente, que muitos parecem ter esquecido sua importância. É nesse sentimento de abandono que surge uma das perguntas mais marcantes da animação: “você já viu uma rua morrer?”.

         Ao mesmo tempo em que apresenta suas dores, "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" também resgata com orgulho o passado da personagem principal. O curta relembra sua importância na formação da cidade de São Paulo, suas primeiras construções, seus comércios e sua função como espaço de circulação de mercadorias e pessoas. Através de diferentes técnicas de animação, que passam por desenhos mais simples, imagens detalhadas e até stop-motion, o filme acompanha a transformação da rua ao longo dos séculos.

        Essa evolução visual acompanha também uma reflexão bastante humana. A trajetória da Rua Aurora pode ser comparada à própria vida de muitas pessoas: existe um período inicial marcado pelas descobertas e pelos sonhos, seguido pelo crescimento, pelas conquistas e, posteriormente, pelas perdas e frustrações. Assim como indivíduos podem sentir que perderam seu espaço ou seu reconhecimento, lugares históricos também podem carregar essa sensação de esquecimento.

         A obra também provoca uma discussão maior sobre a relação do brasileiro com sua própria memória. Muitas vezes, cidades, bairros e ruas antigas são tratados apenas como espaços físicos, esquecendo-se que cada construção carrega histórias de gerações inteiras. Ao dar voz à Rua Aurora, o curta mostra que preservar a memória urbana significa também preservar parte da identidade de uma sociedade.

         Apesar da tristeza causada pelo abandono, o filme não termina em desesperança. A Rua Aurora ainda encontra uma possibilidade de renovação e consegue realizar seu sonho. Essa mensagem abre espaço para pensar em outras regiões brasileiras que também enfrentam processos semelhantes. Muitas áreas históricas podem ser recuperadas através de planejamento urbano, investimentos públicos e iniciativas como o retrofit, técnica cada vez mais utilizada para revitalizar construções antigas sem apagar sua história.

        "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" é uma animação sensível sobre memória, transformação e pertencimento. Mais do que contar a história de uma rua específica, Radhi Meron cria uma reflexão sobre todas as ruas, bairros e cidades que carregam histórias importantes, mas que muitas vezes são esquecidos pelo próprio tempo.

         A obra nos lembra que valorizar uma cidade não significa apenas construir novos espaços, mas também reconhecer aqueles que ajudaram a formar sua identidade. Afinal, cada rua possui suas próprias lembranças, e algumas delas ainda têm muitos sonhos para realizar. 

        "Aurora: A Rua Que Queria Ser um Rio" está disponível no Mubi.


BRASIL – FEB NA ITÁLIA (1952)

 


        Com direção de Jean Manzon, “Brasil – FEB na Itália” é um filme sobre a guerra feito depois da guerra. O primeiro ponto que merece destaque é justamente essa distância temporal. A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, enquanto o filme é de 1952. Portanto, não estamos diante de um registro produzido simplesmente no calor dos acontecimentos, mas de uma reconstrução da memória da participação brasileira no conflito.

         O filme pode ser analisado como uma forma de construir e consolidar uma determinada imagem dos pracinhas. A narrativa sobre a entrada do Brasil na guerra, a campanha italiana, o retorno e as homenagens organiza os acontecimentos dentro de uma trajetória relativamente clara: decisão, combate, vitória, retorno e reconhecimento. O diretor escolhe privilegiar a dimensão heroica e patriótica da experiência, deixando em segundo plano contradições, dificuldades, medo, despreparo ou sofrimento individual.

        Jean Manzon tinha uma trajetória ligada ao fotojornalismo e, a partir do início dos anos 1950, passou a dedicar-se à produção de documentários por meio da Jean Manzon Films. Estudos sobre sua obra destacam justamente a relação de seus filmes com propaganda, instituições públicas e interesses privados. Esse histórico é importante para compreender que suas imagens não podem ser observadas apenas como registros neutros da realidade.

         Isso não significa simplesmente chamar o filme de “propaganda” e encerrar a análise. O mais interessante é perguntar como a linguagem cinematográfica transforma uma versão da história em algo que parece naturalmente verdadeiro. A força do documentário está também nessa capacidade de organizar imagens, acontecimentos e símbolos de maneira que determinada interpretação pareça evidente. Cabe ao espectador perceber essas escolhas e interpretar o que é mostrado no curta.

         A guerra permite ao filme falar também sobre o próprio Brasil. A participação da FEB poderia ser apresentada simplesmente como um episódio militar, mas pode funcionar como uma oportunidade para construir uma imagem de Brasil moderno, integrado internacionalmente e capaz de participar de acontecimentos de dimensão mundial.

        Esse aspecto combina com uma característica atribuída à obra de Manzon: a construção de imagens de um Brasil associado ao progresso, à ordem e à ideia de grandeza nacional. Os soldados brasileiros, nesse sentido, não representam apenas indivíduos que participaram de uma guerra estrangeira. Eles também podem representar uma imagem de país que deseja afirmar sua importância diante do mundo.

         Existe uma questão histórica muito forte e, ao mesmo tempo, uma contradição em relação à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial que não é explorada pelo filme. Os brasileiros foram enviados à Europa para combater regimes fascistas e defender os Aliados e os sistemas democráticos, enquanto o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas, uma ditadura inspirada em elementos autoritários e corporativistas.

         Pesquisas sobre os cinejornais do período chamam atenção justamente para essa contradição: imagens da participação brasileira na guerra podiam exaltar a luta pela democracia sem necessariamente problematizar o regime autoritário existente no próprio país. É importante ressaltar que a ditadura do Estado Novo havia acabado em 1945. Porém, em 1952, ano da produção do filme, o presidente brasileiro era Getúlio Vargas, eleito democraticamente.

         É muito importante compreender a montagem como instrumento de convencimento. Manzon vinha do fotojornalismo e tinha uma preocupação bastante consciente com a composição visual. Estudos sobre sua obra destacam justamente a qualidade fotográfica, o tratamento sonoro e o uso de recursos como corte, luz, movimentos de câmera, zoom e diferentes tipos de enquadramento.

        Sendo assim, as imagens relacionam tropas, batalhas, autoridades, população e cerimônias. A ordem das imagens produz uma interpretação dos acontecimentos tão importante quanto a própria narração do filme. Uma sequência de imagens pode estabelecer relações de causa, consequência, heroísmo e pertencimento nacional sem precisar explicá-las diretamente.

         Outro elemento que merece reflexão é o que as imagens de guerra mostram e o que escondem. Um documentário histórico nunca consegue mostrar “a guerra inteira”. Ele mostra aquilo que sobreviveu e aquilo que foi escolhido para entrar no filme. Toda seleção de imagens implica também uma seleção de memória.

         Isso é particularmente importante no caso da FEB, porque posteriormente outros cineastas questionariam a imagem oficial dos expedicionários. Sylvio Back, em “Rádio Auriverde”, utilizaria materiais de arquivo para desmontar justamente determinados aspectos da narrativa heroica construída em torno da FEB. O contraste é interessante: o filme de Manzon pode ser observado como parte da construção de uma memória oficial, enquanto filmes de décadas posteriores procurariam contestar essa construção.

        O trecho dedicado ao retorno e às homenagens aos soldados merece uma atenção especial. Existe uma diferença cinematográfica importante entre mostrar a guerra e mostrar a memória da guerra. Quando os soldados voltam para casa e os mortos são homenageados, o conflito deixa de ser apenas uma experiência militar e passa a ser incorporado ao ritual público da nação. O filme utiliza cerimônias, pessoas comuns, autoridades, bandeiras e monumentos para transformar a experiência individual dos soldados em memória coletiva e patriotismo.

         “Brasil – FEB na Itália” possui valor evidente como documento histórico sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, mas também é um documento sociopolítico sobre a maneira como o Brasil queria lembrar essa participação.

         Essa distinção é fundamental: o filme não é apenas uma janela para 1944–1945. Ele também é uma produção de 1952, realizada por um cineasta com uma determinada concepção de documentário e destinada a um público daquele período. Portanto, é necessário compreender o contexto político e social do Brasil na década de 1950 para não reduzir o documentário a uma simples peça de propaganda. Seu interesse está justamente na tensão entre aquilo que registra e a maneira como escolhe construir esse registro.




sábado, 31 de outubro de 2026

SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

 


     Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem que tinha aproximadamente 120 minutos e foi realizado em sete partes, mas a cópia integral desapareceu. A versão atualmente acessível tem cerca de 24 minutos. A identificação desse material na Cinemateca Brasileira ocorreu apenas em 1988. Portanto, um aspecto fundamental é que o filme precisa ser analisado simultaneamente como obra cinematográfica e como documento histórico.

         A grande intenção de Walfredo Rodrigues era mostrar um Nordeste diferente daquele imaginado pelo restante do país. As cartelas do filme deixam isso bastante evidente. O Nordeste aparece como território de riqueza natural, atividade econômica, cidades, costumes e diversidade. Não se trata apenas de registrar paisagens, mas de apresentar uma região que possui uma identidade própria e múltiplas formas de vida.

         “Sob o Céu Nordestino” pode ser visto como um dos primeiros grandes esforços cinematográficos para construir uma imagem da Paraíba através do próprio cinema. Walfredo percorre cidades, paisagens, estradas, apresenta atividades econômicas e manifestações culturais, criando uma espécie de inventário visual do estado.

         A diversidade das localidades como Umbuzeiro, Borborema, Bananeiras, Araruna, Campina Grande, Patos, Santa Luzia e Cabedelo impede que o Nordeste seja apresentado como um espaço homogêneo. Há, portanto, uma relação interessante entre cinema e identidade regional: filmar esses lugares também significa afirmar que eles merecem ser vistos, registrados e lembrados.

         O Nordeste tradicionalmente foi representado por determinados elementos, como seca, pobreza, sertão e sofrimento. Walfredo, porém, constrói uma visão muito mais ampla. O filme mostra cidades, comércio, agricultura, vaquejada, feiras, litoral e pesca da baleia. A própria variedade geográfica já funciona como resposta ao estereótipo.

         É interessante perceber que isso não significa que o filme ignore as dificuldades da região. A questão é outra: ele se recusa a transformar a dificuldade em definição absoluta do Nordeste. Nesse sentido, existe uma outra dimensão no ato de filmar. Registrar uma região também é disputar a maneira como ela será lembrada e imaginada.

        Do ponto de vista histórico da linguagem, vale observar que estamos diante de um documentário dos anos 1920, quando as possibilidades do gênero ainda eram bastante diferentes das que conhecemos hoje. Não há entrevistas ou depoimentos no sentido contemporâneo. A informação é organizada pelo próprio filme. Walfredo não está tentando apenas observar. Ele permite que o espectador veja e conheça a cultura, a tradição e a história.

         Um aspecto técnico que merece atenção é o uso de cartelas, mapas e informações geográficas. Elas não funcionam apenas como legendas explicativas. Ajudam a organizar o enorme território percorrido pelo filme e transformam o espaço em elemento narrativo. Uma leitura contemporânea pode até achar algumas dessas explicações excessivamente didáticas, mas é preciso considerar sua função naquele contexto: o filme precisava apresentar uma região ao público na década de 1920. Por isso, os mapas e textos fazem parte da própria estratégia de construção do Nordeste que Walfredo pretendia realizar.

         A presença do comércio de algodão, da feira de Campina Grande e da pesca da baleia é particularmente significativa. Walfredo não olha apenas para paisagens ou costumes. Ele registra atividades econômicas, mostrando circulação de mercadorias, trabalho e formas de produção. Isso fortalece a ideia de um Nordeste economicamente ativo e conectado.

        Há algo quase aventureiro no projeto. Walfredo percorreu a Paraíba durante anos, em condições bastante precárias, utilizando diferentes meios de transporte e buscando registrar localidades que ainda estavam longe de possuir uma representação cinematográfica sistemática. Isso dá às imagens um valor particular. Hoje podemos simplesmente viajar para uma cidade e fotografá-la. Na década de 1920, colocar uma câmera em determinados lugares e produzir uma documentação cinematográfica era uma operação muito mais complexa. Assim, existe uma espécie de gesto de descoberta no filme: a câmera está descobrindo lugares para o próprio cinema brasileiro.

         Um elemento que se perdeu foi a mistura de documentário e ficção. A obra original possuía um prólogo ficcional, com Braz Cantizani e Eleonora Cantizani, embora o restante fosse essencialmente documental. Isso quebra a ideia de que o documentário de Walfredo seria apenas um registro objetivo. A ficção aparece associada à própria ideia de formação histórica, incluindo a presença indígena, segundo a descrição da obra. Portanto, o diretor mistura reconstrução, encenação e observação documental. Isso também mostra que a fronteira entre documentário e ficção já era mais fluida do que às vezes imaginamos quando pensamos no cinema dos anos 1920.

         “Sob o Céu Nordestino” é evidentemente um documento histórico, mas reduzi-lo a isso seria perder parte de sua força. Walfredo Rodrigues estava fazendo algo bastante ambicioso: usar o cinema para construir uma memória visual de sua terra. Ele queria mostrar o Nordeste, mas também queria que determinadas imagens permanecessem.

          E existe uma ironia poderosa no fato de que o filme tenha sobrevivido apenas parcialmente. A obra que pretendia preservar cidades, pessoas, paisagens e costumes acabou precisando, ela mesma, ser preservada. Por isso, talvez o que mais impressione hoje não seja apenas aquilo que vemos, mas a consciência de tudo aquilo que não podemos mais ver.

         O fragmento de 24 minutos funciona, então, em duas direções: é uma janela para a Paraíba dos anos 1920 e, simultaneamente, uma lembrança da fragilidade da própria memória cinematográfica. E talvez seja justamente aí que “Sob o Céu Nordestino” adquira sua maior importância: Walfredo Rodrigues não apenas registrou um Nordeste que existia. Ele deixou para o futuro vestígios de um Nordeste que já não existe exatamente daquela maneira.




A MISSA DO GALO (1982)

 


            Com direção e roteiro de Nelson Pereira dos Santos, “A Missa do Galo” é um Drama psicológico e introspectivo que encontra sua força não em grandes acontecimentos externos, mas nos desejos, frustrações e possibilidades que permanecem presos dentro dos personagens. É um filme construído a partir dos silêncios, dos olhares e das emoções que nunca chegam a ser plenamente verbalizadas.

         “A Missa do Galo” é um curta-metragem especialmente rico porque reúne dois gigantes da cultura brasileira: Machado de Assis, na literatura, e Nelson Pereira dos Santos, no cinema. A adaptação chama atenção justamente porque o diretor não busca apenas ilustrar o conto original. Seu objetivo parece ser traduzir para a linguagem cinematográfica a mesma ambiguidade psicológica, os vazios narrativos e as incertezas que transformaram o texto machadiano em um dos mais celebrados da literatura brasileira.

        O filme pertence à fase madura de Nelson Pereira dos Santos, um dos nomes mais importantes do Cinema Novo. Ao longo de sua carreira, o diretor demonstrou enorme interesse por adaptações literárias e por investigações sobre a identidade cultural do Brasil. Obras como “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere” comprovam sua habilidade em transportar para o cinema universos literários complexos sem perder suas características essenciais.

         No caso de “A Missa do Galo”, o desafio era ainda maior. O conto de Machado de Assis é famoso justamente por trabalhar aquilo que não é dito. O suspense emocional nasce das entrelinhas, das interpretações possíveis e das dúvidas que permanecem sem resposta. Transformar esse tipo de narrativa em cinema exigia uma abordagem cuidadosa, e Nelson demonstrou compreender perfeitamente essa necessidade.

         O ponto de partida da trama é aparentemente simples. Na noite de Natal, no Rio de Janeiro do século XIX, o jovem Nogueira, então com 17 anos, está hospedado na casa do escrivão Meneses, amigo de sua família, para estudar. Enquanto espera o horário da tradicional Missa do Galo, ele inicia uma conversa com Conceição, esposa de Meneses.

        O que parece ser apenas um diálogo cordial logo ganha novas camadas. Aos poucos, a conversa se transforma em algo mais íntimo, mais delicado e mais difícil de definir. Conceição é uma mulher casada e mais velha que Nogueira. O jovem, por sua vez, encontra-se numa fase marcada pela descoberta dos sentimentos, dos desejos e das ambiguidades da vida adulta. A relação entre os dois nunca se concretiza, mas o filme demonstra que nem sempre é necessário que algo aconteça para que exista tensão dramática.

         Machado de Assis deixa uma pergunta permanente: o que realmente aconteceu naquela noite? Foi apenas uma conversa inocente? Conceição demonstrava interesse por Nogueira? O rapaz interpretou sinais inexistentes? Ou ambos viveram um momento de atração silenciosa que jamais poderia ser assumido? O conto nunca responde. E o filme preserva cuidadosamente essa característica.

         Nelson Pereira dos Santos utiliza algumas sequências imaginárias para sugerir possibilidades. Essas cenas não funcionam como respostas definitivas, mas como projeções dos desejos, medos e fantasias dos personagens. O recurso é empregado com enorme sensibilidade e contribui para que o espectador permaneça constantemente questionando aquilo que vê. Em determinados momentos, torna-se difícil separar realidade, imaginação e desejo.

        Uma das maiores riquezas do curta está justamente na construção de Conceição. Ela é uma personagem extremamente complexa. Pode ser vista como uma mulher solitária, emocionalmente abandonada por um marido que mantém relações extraconjugais e que vive presa às limitações sociais impostas às mulheres de sua época. Ao mesmo tempo, também é possível interpretar que ela possui plena consciência da influência que exerce sobre Nogueira.

         Ela conduz a conversa, prolonga o encontro e cria uma atmosfera de proximidade emocional. Porém, nenhuma dessas interpretações é confirmada de maneira definitiva. Assim como Machado de Assis, Nelson Pereira dos Santos prefere preservar a dúvida.

         As atuações de Isabel Ribeiro, como Conceição, e Olney São Paulo Junior, como Nogueira, são fundamentais para o sucesso da adaptação. Isabel constrói uma personagem que oscila constantemente entre acolhimento, melancolia, mistério e sedução. Já Olney transmite com eficiência o fascínio, a curiosidade e a insegurança de um jovem diante de uma situação emocionalmente nova e difícil de compreender. A química entre os dois sustenta toda a narrativa. O elenco ainda conta com Elza Gomes, Maria Martha dos Santos, Nildo Parente, Rachel Casimiro e Sergio Otero.

         Outro aspecto admirável é o olhar do diretor. Nelson Pereira dos Santos evita transformar a história em um romance. Sua câmera observa os personagens com paciência e discrição. Os enquadramentos demorados, os pequenos gestos, os olhares e os silêncios tornam-se elementos tão importantes quanto os diálogos. O espectador não recebe respostas prontas. Ele é convidado a interpretar cada detalhe.

          Os aspectos técnicos também merecem destaque. Fotografia, direção de arte, figurino, montagem e trilha sonora trabalham em perfeita harmonia para reconstruir a atmosfera do século XIX sem jamais transformar o filme em uma simples reconstituição de época. Tudo funciona para fortalecer o universo emocional dos personagens e aprofundar a sensação de intimidade daquela noite.

         “A Missa do Galo” é uma verdadeira joia do curta-metragem brasileiro. Um filme que fala sobre memória, desejo, solidão, aparência social e sentimentos que jamais chegam a se concretizar plenamente. Mais do que contar uma história, Nelson Pereira dos Santos realiza uma delicada reflexão sobre aquilo que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

         Ao compreender que a grande força do conto de Machado de Assis está justamente na ausência de respostas, o diretor transforma o silêncio, a dúvida e a sugestão em ferramentas dramáticas poderosas. O resultado é uma obra memorável, sensível e profundamente humana.



sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TRIPOFOBIA (2019)

 


        Com direção e roteiro de André Juarez Parolin, “Tripofobia” se apresenta como uma obra que ultrapassa os limites convencionais da narrativa de horror para mergulhar em um território marcado pelo simbolismo, pela abstração e pela experiência sensorial. Em vez de organizar seus acontecimentos a partir de uma lógica cronológica tradicional, o curta constrói um universo fragmentado, onde imagens, sons e repetições assumem papel central na produção de significado.

         O filme acompanha dois homens aparentemente desconectados entre si. Um deles permanece isolado em um ambiente escuro, escrevendo compulsivamente a palavra “tripofobia” em uma folha de papel. O outro encontra-se acorrentado e submetido à presença de uma criatura grotesca que parece manipular tanto seu corpo quanto seu sofrimento. Entre esses dois espaços surge uma ampulheta preenchida por areia negra, elemento que funciona como eixo visual, narrativo e simbólico da obra.

        A ausência de diálogos revela uma decisão formal extremamente coerente com a proposta do filme. “Tripofobia” não busca explicar sua realidade por meio da palavra. Pelo contrário, transfere a responsabilidade da construção de sentido para a fotografia, o desenho de som, a montagem e a performance física dos atores. Essa escolha ajuda a compreender os reconhecimentos recebidos pelo curta, vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Som no Curta Suzano e pré-selecionado ao prêmio de Melhor Fotografia da Associação Brasileira de Cinematografia.

         A fotografia de Vitor Meloni desempenha papel fundamental nessa construção. Os espaços escuros e isolados produzem uma sensação constante de confinamento, enquanto a iluminação limitada por velas e pequenas fontes de luz transforma cada ambiente em uma extensão do estado psicológico dos personagens. Não se trata apenas de criar atmosfera. A própria composição visual participa da construção temática do filme, reforçando ideias de aprisionamento, impotência e deterioração.

            Nesse contexto, a criatura surge como um dos elementos mais complexos da narrativa. Embora sua aparência remeta imediatamente ao horror físico, sua função parece ultrapassar a condição de antagonista tradicional. Ela pode ser compreendida como uma manifestação do medo, uma projeção psíquica ou mesmo uma força responsável pela manutenção daquele universo. O fato de controlar a ampulheta e reiniciar continuamente sua contagem sugere uma ligação direta com o tempo, com o destino e com a própria lógica de repetição que estrutura a obra.

         Os agrupamentos de pequenos buracos presentes tanto na criatura quanto nos personagens constituem outro símbolo central. Em vez de servirem apenas como referência visual à tripofobia, eles passam a operar como sinais de uma contaminação progressiva. O horror deixa de ser uma simples reação emocional e adquire materialidade. Os buracos espalham-se, transformam os corpos e estabelecem uma relação física entre vítima e entidade. Nesse sentido, a criatura não apenas provoca a transformação. Ela parece ser a própria origem dela.

         A ampulheta representa talvez a imagem mais poderosa do curta. Inicialmente associada à passagem do tempo, ela gradualmente assume uma função muito mais profunda. Quando a criatura a vira e reinicia sua contagem, a ideia de encerramento desaparece. O tempo deixa de apontar para uma conclusão e passa a representar um mecanismo de aprisionamento. O sofrimento torna-se cíclico. A condenação torna-se permanente. O horror passa a existir dentro de uma estrutura temporal que não oferece saída.

        Essa lógica da repetição atravessa toda a obra. Ela aparece na escrita obsessiva da palavra “tripofobia”, na recorrência dos espaços, na propagação dos buracos e na própria dinâmica temporal estabelecida pela ampulheta. A repetição não funciona apenas como recurso narrativo. Ela constitui o princípio organizador do filme. Tudo retorna. Tudo recomeça. Tudo parece condenado a perpetuar-se indefinidamente.

         A relação entre os dois homens também abre espaço para interpretações particularmente interessantes. Embora o filme os apresente como indivíduos distintos, a narrativa permite enxergá-los como manifestações diferentes de uma mesma condição. O homem que escreve compulsivamente poderia representar a dimensão mental do sofrimento, enquanto o homem acorrentado encarnaria sua manifestação física. O filme jamais confirma essa hipótese, mas também nunca a invalida, preservando sua natureza ambígua e interpretativa.

         A repetição da palavra “tripofobia” merece atenção especial. Mais do que um simples gesto obsessivo, a escrita assume características ritualísticas. O personagem parece tentar compreender aquilo que o atormenta através da linguagem. No entanto, quando o papel é consumido pelo fogo, o filme sugere o fracasso dessa tentativa. Nomear o medo não significa controlá-lo. A palavra desaparece, mas a contaminação permanece.

       Uma das maiores qualidades de “Tripofobia” está justamente em sua recusa em fornecer explicações definitivas. André Juarez Parolin apresenta consequências, mas evita revelar suas causas. O espectador testemunha sofrimento, transformação e deterioração sem jamais receber todas as respostas necessárias para reconstruir completamente sua origem. Essa ausência deliberada de explicações amplia a força do horror, pois transforma o desconhecido em parte essencial da experiência.

         Ao transitar entre Terror, Suspense e Cinema Experimental, “Tripofobia” constrói uma obra que privilegia sensações em detrimento da causalidade tradicional. Sua narrativa opera através de associações entre imagens, sons e símbolos, convidando o espectador a participar ativamente da construção de significado.

         Com fotografia marcante, desenho de som excepcional, direção de arte eficiente, montagem precisa e excelente maquiagem de efeitos, o curta transforma uma fobia em linguagem cinematográfica. Mais do que uma história sobre medo, “Tripofobia” torna-se uma experiência sobre contaminação, repetição e aprisionamento, consolidando-se como uma das propostas mais singulares e interpretativamente ricas do Terror brasileiro em curta-metragem.




quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O DEUS NEON (2016)

 


O curta-metragem "O Deus Neon" combina Terror, Suspense, Thriller e Gore para construir uma narrativa visceral que impressiona tanto pela violência explícita quanto pelas reflexões que provoca. Dirigido, roteirizado e produzido por Taísa Ennes Marques e Rafael Duarte, o filme utiliza uma premissa simples, mas extremamente inquietante, para discutir temas como justiça, vingança, cultura digital e a facilidade com que a violência pode ser legitimada quando encontra apoio coletivo.

Desde a primeira cena, o espectador é lançado diretamente em uma situação angustiante. Durante uma transmissão ao vivo na internet, um homem revela, por meio de cartazes, que capturou um ladrão que tentou invadir sua casa. Em seguida, anuncia que dará ao público 70 minutos para decidir qual será o destino do criminoso. A partir desse instante, instala-se uma contagem regressiva que aumenta constantemente a tensão. Cada minuto que passa aproxima o desfecho inevitável, enquanto a participação dos internautas transforma o público da live em parte ativa da violência que está prestes a acontecer.

Essa estrutura narrativa funciona muito bem porque cria uma sensação permanente de expectativa. Não acompanhamos apenas o sofrimento do homem amarrado, mas também a escalada da crueldade incentivada pelos espectadores da transmissão. O curta faz com que a tensão cresça de maneira gradual, permitindo que o horror seja construído não apenas pelas imagens, mas também pelas reações das pessoas que acompanham tudo através da tela.

"O Deus Neon" estabelece um diálogo bastante crítico com questões extremamente atuais. O filme aborda a sensação de impunidade, o descrédito em relação às instituições públicas e o crescimento de discursos que defendem a justiça pelas próprias mãos. Em vez de oferecer respostas fáceis, a narrativa expõe como determinados sentimentos de revolta podem abrir espaço para atitudes cada vez mais violentas quando encontram validação coletiva.

Um dos aspectos mais inteligentes do roteiro está justamente na utilização da internet como elemento central da narrativa. Os comentários publicados durante a transmissão deixam de funcionar apenas como complemento da cena e passam a ocupar um papel dramático fundamental. Eles representam uma multidão invisível que influencia diretamente cada decisão do protagonista. Aos poucos, essa massa virtual transforma-se em um verdadeiro terceiro personagem do filme, conduzindo os acontecimentos sem jamais aparecer fisicamente.

Esse recurso ganha ainda mais força quando descobrimos que os comentários exibidos na live foram retirados de publicações reais feitas por internautas em notícias sobre arrombamentos e assaltos ocorridos entre fevereiro de 2014 e março de 2015. Essa escolha aproxima perigosamente a ficção da realidade e torna a experiência muito mais desconfortável. O espectador percebe que aquelas mensagens não foram inventadas para chocar, mas representam pensamentos que já circularam livremente nas redes sociais.

Ao transportar esses comentários para dentro da narrativa, Taísa Ennes Marques e Rafael Duarte evidenciam como determinados discursos violentos podem parecer naturais quando permanecem restritos ao ambiente virtual. O filme apenas leva essas manifestações às últimas consequências, obrigando o público a confrontar o impacto real das palavras quando elas deixam de ser apenas opiniões e passam a orientar ações concretas.

As atuações de Henrique Larré e Samuel Reginatto contribuem significativamente para a intensidade da obra. Mesmo com poucos diálogos diretos, ambos conseguem transmitir grande carga dramática através da expressão corporal e das reações emocionais. O ladrão aparece completamente vulnerável, dominado pelo medo, pela dor e pelo desespero diante daquilo que está prestes a acontecer. Sua fragilidade torna as cenas ainda mais perturbadoras.

Em contraste, o dono da casa demonstra absoluto controle emocional. Sua postura é fria, calculada e quase mecânica. Em nenhum momento ele parece agir movido por impulsos descontrolados. Pelo contrário, executa cada ação como se estivesse apenas cumprindo uma tarefa determinada por outra pessoa. Essa ausência de explosões emocionais torna sua figura ainda mais assustadora, pois transmite a sensação de alguém que encontrou justificativa moral para cada ato de violência praticado.

A ausência de conversas entre os dois personagens reforça esse desconforto. O silêncio cria uma barreira entre vítima e agressor, eliminando qualquer possibilidade de empatia ou negociação. Tudo o que resta é a execução de uma sentença construída coletivamente pelos espectadores da transmissão.

Tecnicamente, "O Deus Neon" apresenta um trabalho bastante consistente. A fotografia constrói um ambiente escuro e opressor que amplia a sensação de confinamento. A iluminação utiliza contrastes marcantes entre luz e sombra para destacar tanto a brutalidade física quanto o isolamento emocional dos personagens. O espaço onde a ação acontece torna-se quase um cenário de tribunal improvisado, onde a multidão virtual assume simultaneamente os papéis de juiz, júri e carrasco.

A trilha sonora também merece destaque por sua eficiência. Em vez de buscar protagonismo, ela acompanha o desenvolvimento da narrativa e intensifica gradualmente a tensão. Os efeitos sonoros e o desenho de som ampliam o impacto das cenas de violência sem recorrer a excessos desnecessários, contribuindo para manter o espectador constantemente desconfortável.

A maquiagem e os efeitos práticos reforçam essa proposta ao apresentar ferimentos convincentes e uma violência visual bastante realista. O Gore presente no filme não surge como mero espetáculo gráfico. Cada marca no corpo do prisioneiro possui função narrativa, evidenciando a escalada de brutalidade estimulada pela audiência da live.

Um dos momentos mais simbólicos acontece quando um dos participantes da transmissão chama o protagonista de "deus". A partir desse instante, o título do curta adquire pleno significado. Ao receber essa denominação, o personagem passa a ocupar simbolicamente uma posição de autoridade absoluta sobre a vida de outro ser humano. A aprovação constante da multidão fortalece sua sensação de poder e alimenta a ilusão de que suas ações ultrapassam os limites da moralidade comum.

Essa construção evidencia uma crítica bastante pertinente à forma como parte da sociedade transforma determinados indivíduos em figuras quase messiânicas sempre que eles prometem solucionar problemas através da força. O filme demonstra como o desejo de vingança pode ser confundido com justiça e como a aprovação coletiva pode servir de combustível para atitudes cada vez mais extremas.

Mais do que discutir a violência física, "O Deus Neon" propõe uma reflexão sobre responsabilidade coletiva. O protagonista executa as agressões, mas não está sozinho. Cada comentário incentivando novas formas de tortura contribui para legitimar seus atos. O filme questiona até que ponto aqueles que assistem, aprovam e incentivam também compartilham parte da responsabilidade pelos acontecimentos.

No fim, percebe-se que talvez o verdadeiro horror não esteja apenas nas ações do homem que conduz a transmissão, mas na facilidade com que centenas de pessoas participam daquela violência sem qualquer consequência imediata. A barbárie deixa de ser individual para assumir uma dimensão coletiva.

"O Deus Neon" vai muito além de um exercício de Gore ou de Terror extremo. Trata-se de uma obra que utiliza o horror como ferramenta para discutir ética, justiça, violência e comportamento social na era digital. Com uma direção segura, atuações convincentes, excelente construção técnica e uma premissa extremamente provocadora, o curta entrega uma experiência intensa e desconfortável. É um filme que permanece na memória justamente porque obriga o espectador a refletir sobre até onde pode chegar uma sociedade que transforma a violência em espetáculo e a vingança em entretenimento.


Assista Deus Neon: Vimeo

O MAL QUE HABITA (2021)

            Com direção de Bruno Rapone, “O Mal que Habita” é um curta de Terror que mergulha no universo das possessões demoníacas por um c...