Com direção e roteiro de Viviane
Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por
Léa Garcia e Débora Marçal, que conta com uma narrativa extremamente
emocionante e um potencial dramática muito elevado.
O
ponto central do filme gira em torno do encontro de duas mulheres. Jerusa é uma
senhora idosa negra que vive no bairro do Bixiga, na capital paulista. Silvia é
uma jovem negra que trabalha como pesquisadora de opinião que precisa convencer
pessoas a responderem um questionário sobre sabão em pó. Silvia chega à casa de
Jerusa para aplicar a pesquisa e deveria permanecer ali apenas alguns minutos.
O encontro, porém, se transforma numa experiência de troca, memória e afeto.
O interessante é que as duas mulheres estão em situações muito diferentes, mas também têm algo em comum. Silvia é jovem e está trabalhando como pesquisadora de opinião, uma atividade aparentemente banal, mas que também revela sua condição social. Jerusa tem 77 anos, vive sozinha e carrega décadas de experiências. O questionário, portanto, funciona como um laço narrativo para colocar duas gerações de mulheres negras frente a frente.
Silvia
está ali para transformar uma pessoa em dado de pesquisa de mercado. Jerusa
deveria responder perguntas sobre um produto. É uma relação quase mecânica de
perguntas, respostas, informações e estatísticas. No entanto, Jerusa subverte
completamente essa lógica. Ela não aceita ser apenas uma entrevistada. Ela
transforma a entrevistadora em interlocutora. A forma afetuosa com que Jerusa
trata Silvia faz daquele momento a percepção de Silvio sobre a carência,
melancolia e complexidade de Jerusa.
Porém,
Silvia precisa alcançar metas. E um detalhe importantíssimo faz com que a jovem
reconheça que a sua ida até a casa de Jerusa não se deu por acaso; ela estava
ali porque deveria estar. Isso permite uma leitura muito bonita: o filme começa
tratando Jerusa como objeto de pesquisa e termina tratando-a como sujeito de
uma história. E isso conversa diretamente com a questão da velhice.
A
complexidade da personagem interpretada por Léa Garcia se dá em várias camadas.
Jerusa não é simplesmente uma mulher idosa. Ela é uma mulher negra idosa. E
essas duas condições se encontram dentro de uma sociedade que frequentemente
invisibiliza tanto a velhice quanto a população negra. Nesse caso, as duas
coisas recaem sobre a mesma personagem. O filme poderia ter transformado Jerusa
numa personagem simplesmente solitária, triste e carente. Mas Léa Garcia lhe dá
outra dimensão. Ela possui memória, possui opinião, possui humor, possui
desejos, possui uma história. E, principalmente, possui voz.
Outro detalhe interessante é sobre a casa. A casa guarda aquilo que Jerusa guarda. Não é simplesmente o lugar onde ela mora. É o espaço onde sua memória permanece materializada. Isso também aproxima o filme da ideia do espaço como testemunha da passagem do tempo. E o Bixiga torna isso ainda mais interessante.
O
filme foi rodado no Bixiga, bairro paulistano historicamente associado à
imigração italiana, mas que também possui uma presença negra muito importante.
O Portal Plano Crítico chama atenção para a escolha do território e para a
presença da Rua 13 de Maio e da Rua da Abolição. Ou seja: o bairro também
carrega camadas de memória histórica. E isso combina perfeitamente com Jerusa. Ela
não é apenas uma mulher que lembra da própria vida. Ela é uma pessoa que
pertence a um território carregado de histórias.
Jerusa
fala sobre a vida das mulheres negras e sobre a senzala. O passado pessoal da
personagem começa a se misturar com um passado histórico muito maior. Isso cria
uma passagem interessante: a memória individual que dialoga com a memória
familiar, que, por sua vez, dialoga com a memória coletiva, e que finalmente
dialoga com a memória histórica. Jerusa lembra da própria vida, mas sua
lembrança não está isolada da história do Brasil. "O Dia de Jerusa"
coloca uma mulher negra idosa no centro da narrativa.
Outro detalhe é que o encontro não é unilateral. Seria fácil e simplista interpretar o filme como se Jerusa, uma senhora solitária, encontrasse uma jovem que lhe fizesse companhia. Porém, essa escolha diminuiria Silvia. Silvia também precisa daquele encontro.
Ela
está trabalhando em uma atividade provavelmente precarizada, circulando pelo
bairro fazendo perguntas sobre um produto comercial. Há uma distância enorme
entre aquilo que ela está fazendo e aquilo que Jerusa oferece. O encontro
funciona porque as duas recebem alguma coisa. Jerusa recebe companhia. Silvia
recebe memória. Jerusa oferece afeto. Silvia oferece presença.
Um detalhe extremamente importante se destaca
logo no início do curta, quando um poeta declama trechos de "Minha
Mãe", de Luiz Gama. Este elemento narrativo não é peça de decoração. Luiz
Gama foi um intelectual negro fundamental na história brasileira, e sua
presença estabelece uma espécie de ponte entre literatura, memória negra,
cidade e personagem.
Com
grandes acertos nos recursos técnicos, Viviane Ferreira constrói uma obra
tocante, sensível e impecável em seu desenrolar. Fotografia e arte trabalham em
conjunto, dando vida à rua, à casa e às protagonistas. Todos os detalhes de
planos, ângulos, detalhes e objetos potencializam ainda mais as performances de
Léa Garcia e Débora Marçal.
Não há um ponto fora do lugar em “O Dia de Jerusa”. A trilha sonora trabalha silêncios quando necessário, permitindo que somente a voz de Jerusa tome conta do ambiente, interagindo com sons ambientes. No entanto, há espaços para mudanças com sons não-diegéticos extremamente pontuais, o que reflete nas sensações transmitidas ao espectador.
“O Dia de Jerusa” é muito mais do que o
encontro casual entre duas mulheres. É um filme sobre memória, sobre aquilo que
permanece quando o tempo passa e sobre a importância de ouvir quem tantas vezes
é colocado à margem. Jerusa transforma uma simples pesquisa de mercado em uma
experiência de humanidade, fazendo com que Silvia deixe, por alguns instantes,
de procurar respostas para um questionário e passe a ouvir respostas para
perguntas que talvez nem soubesse que precisava fazer.
Viviane
Ferreira constrói, com delicadeza e enorme sensibilidade, uma narrativa sobre
duas mulheres negras separadas pela idade, mas aproximadas pela experiência,
pelo afeto e pela necessidade de serem vistas. E talvez seja justamente essa a
maior força do filme: lembrar que nenhuma pessoa é apenas um número, uma
estatística, uma entrevistada ou uma idosa que vive sozinha. Cada pessoa
carrega uma história. Algumas histórias, como a de Jerusa, só precisam
encontrar alguém disposto a escutá-las.








































