domingo, 4 de outubro de 2026

DE UM OUTRO LUGAR (2023)


        O curta-metragem “De um Outro Lugar” é uma envolvente obra de Terror psicológico que mergulha em uma narrativa marcada pelo mistério, pelo sobrenatural e pela curiosidade humana diante do desconhecido. A história acompanha as amigas Regina e Camila, que passam um tempo sozinhas em casa até que um objeto aparentemente inofensivo transforma completamente suas vidas. Regina compra pela internet um misterioso cristal negro, apresentado como uma espécie de ponte entre o mundo físico e o espiritual, e decide reproduzir um ritual aprendido através de tutoriais online. Essa escolha narrativa aproxima o sobrenatural da realidade contemporânea, mostrando como o fácil acesso à informação também pode abrir portas para perigos que vão muito além da compreensão humana.

         A dinâmica entre as protagonistas é um dos grandes acertos do filme. Regina, interpretada por Helena Sá, demonstra uma personalidade curiosa, impulsiva e determinada, sempre disposta a experimentar aquilo que desperta sua atenção. Já Camila, vivida por Thayná Máximo, funciona como o contraponto racional da dupla, demonstrando receio diante das ideias da amiga. Essa diferença de comportamento cria diálogos naturais e momentos leves, que tornam a relação entre as personagens bastante convincente. O humor presente nas primeiras cenas serve para aproximar o público das protagonistas e fazer com que a posterior escalada do horror tenha ainda mais impacto emocional.

        O roteiro e a direção conseguem equilibrar esses instantes descontraídos com a crescente atmosfera de suspense sem comprometer o ritmo da narrativa. Pelo contrário, quanto maior a identificação do espectador com as personagens, mais intensa se torna a sensação de perigo quando o ritual começa a produzir consequências inesperadas. As atuações de Helena Sá e Thayná Máximo reforçam esse processo, transmitindo espontaneidade tanto nas conversas cotidianas quanto nos momentos de medo, tensão e desespero. A naturalidade da dupla contribui significativamente para a credibilidade da experiência sobrenatural apresentada pelo filme.

            Conforme o ritual avança, a narrativa passa por uma transformação gradual bastante eficiente. O ponto de virada acontece quando Regina, já incomodada pelo som insistente de uma torneira pingando, acaba atravessando uma fronteira invisível e sendo transportada para outra dimensão. A escolha desse detalhe aparentemente banal demonstra inteligência narrativa, pois transforma um elemento cotidiano em gatilho para um acontecimento extraordinário. A partir desse momento, o mistério inicial evolui para um Terror psicológico muito mais intenso, conduzindo a protagonista a um espaço dominado por uma entidade conhecida como Oráculo.

        Aprisionada entre o mundo físico e o espiritual, Regina passa a enfrentar uma realidade completamente diferente daquela apresentada no início do filme. Sua luta para escapar desse limbo torna-se o eixo central da narrativa, enquanto o espectador acompanha sua crescente sensação de isolamento e impotência. As cenas ambientadas nessa dimensão paralela são especialmente eficientes por explorarem tanto o espaço reduzido da casa quanto a vastidão indefinida do universo espiritual, criando uma constante sensação de aprisionamento. Essa dualidade espacial contribui para aumentar a tensão e faz com que o público compartilhe a angústia vivida pela protagonista.

         Sob o aspecto técnico, “De um Outro Lugar” apresenta um trabalho bastante refinado. A fotografia utiliza enquadramentos cuidadosamente planejados e uma iluminação que acompanha as mudanças emocionais da história, estabelecendo diferenças claras entre o ambiente cotidiano e a dimensão sobrenatural. A direção de arte também merece reconhecimento por construir cenários ricos em detalhes, capazes de reforçar continuamente o clima de mistério. Cada escolha estética parece contribuir para tornar a transição entre os dois mundos mais convincente e visualmente envolvente.

         O figurino e a maquiagem desempenham papel igualmente importante dentro dessa construção. Em vez de recorrer a caracterizações exageradas, o filme opta por transformações discretas, porém extremamente eficientes. Essa abordagem mais contida torna o horror ainda mais inquietante, pois preserva uma sensação constante de estranhamento sem romper completamente com a realidade apresentada. Muitas vezes, aquilo que apenas é sugerido produz impacto muito maior do que qualquer efeito visual excessivamente explícito.

        A trilha sonora acompanha toda essa construção atmosférica com bastante precisão. Os sons e a música intensificam a sensação de suspense, acompanhando o ritmo da narrativa e ampliando emocionalmente cada momento vivido pelas personagens. O desenho sonoro também colabora para criar uma presença constante do sobrenatural, fazendo com que o espectador permaneça em estado de expectativa mesmo durante os momentos de aparente tranquilidade.

         Entretanto, o aspecto mais interessante de “De um Outro Lugar” talvez esteja em sua leitura contemporânea. Ao utilizar tutoriais encontrados na internet como meio de acesso ao sobrenatural, o filme estabelece uma relação bastante atual entre tecnologia, curiosidade e responsabilidade. Em uma época em que praticamente qualquer informação está disponível a poucos cliques de distância, a narrativa sugere que nem todo conhecimento deveria ser acessado sem reflexão. O ritual aprendido virtualmente funciona como metáfora para os riscos de explorar territórios desconhecidos apenas pela facilidade proporcionada pela tecnologia.

         A direção de Pedro Amaral demonstra sensibilidade ao unir essas questões contemporâneas aos elementos clássicos do Terror psicológico. O resultado é uma obra que não apenas constrói suspense de maneira eficiente, mas também estimula interpretações sobre os limites entre realidade, espiritualidade e percepção humana. “De um Outro Lugar” oferece uma experiência visualmente rica, sustentada por boas atuações, sólida construção técnica e uma atmosfera que permanece inquietante até seus momentos finais. Mais do que provocar sustos, o curta convida o espectador a refletir sobre os perigos da curiosidade excessiva e sobre aquilo que pode existir além daquilo que nossos sentidos conseguem compreender. 




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

SETE VIDAS (2007)

 


        Com roteiro de Zé Mucinho e direção dele junto com Marcelo Spomberg, “Sete Vidas” é um Drama que utiliza o humor para apresentar a vida de um gato. Mas não um gato comum. Tchê, narrado por Selton Mello, é um escritor que morreu e acordou no corpo de um gato, passando a observar o mundo humano a partir de uma perspectiva completamente diferente.

         Tendo ainda no elenco nomes como Ariel Moshe, Christiane Tricerri, Etty Fraser, Jayro Fagundes, Luisa Mell, Mairun Sevá e Marcelo Mansfield, Tchê circula pela Freguesia do Ó e conhece diferentes personagens, suas casas, suas vidas, seus anseios, suas alegrias, dificuldades e incertezas.

      O curioso é que Tchê não é apenas o protagonista da história, mas também uma espécie de observador da humanidade. Ao passar de uma casa para outra, ele conhece diferentes pessoas e diferentes formas de viver. Cada uma delas acredita possuir o mesmo gato e, consequentemente, estabelece com ele uma relação própria. O animal recebe diferentes nomes, tratamentos e demonstrações de afeto, de acordo com a personalidade e as necessidades de cada pessoa.

         É justamente aí que o filme encontra uma de suas maiores forças. O gato acaba funcionando como um espelho de seus donos. Mais do que conhecer Tchê, conhecemos as pessoas através da maneira como elas se relacionam com ele. O animal recebe projeções, expectativas, manias e carências. Cada dono parece enxergar no gato aquilo que gostaria que ele fosse, transformando uma relação aparentemente simples entre pessoa e animal em um retrato das necessidades humanas.

         A condição de escritor de Tchê acrescenta ainda outra camada interessante à narrativa. Ele não observa aquelas pessoas como um animal qualquer. Existe nele uma consciência humana que permite narrar aquilo que vê e estabelecer relações entre os diferentes personagens. O gato ocupa, assim, uma posição privilegiada: pertence à vida de todos, mas não pertence completamente a ninguém.

        E essa ideia conversa diretamente com o título. As “sete vidas” não pertencem somente ao gato. São também as vidas das pessoas que ele encontra. São histórias diferentes, com problemas diferentes, mas que têm em comum a necessidade de afeto, companhia e algum tipo de pertencimento. Tchê passa de uma casa para outra e, de certa maneira, vai acumulando experiências que pertencem a cada um daqueles personagens.

         A narrativa consegue ainda brincar com a ideia de propriedade. As pessoas acreditam que o gato é delas, mas o espectador sabe que existe uma circulação permanente. Tchê pertence a todos e, ao mesmo tempo, não pertence a ninguém. Essa situação cria momentos de humor, mas também permite uma reflexão sobre a própria necessidade humana de possuir aquilo que ama. O afeto, muitas vezes, acaba acompanhado pelo desejo de dizer “isso é meu”.

       O humor é utilizado de maneira bastante eficiente justamente porque não transforma os personagens em simples caricaturas. Existe graça nas situações e na forma como Tchê observa os humanos, mas por trás delas existem pessoas solitárias, frustradas e tentando encontrar alguma forma de conexão. O riso, portanto, frequentemente vem acompanhado de uma certa melancolia.

         A narração de Selton Mello contribui muito para esse equilíbrio. Sua voz dá personalidade ao gato e estabelece uma relação de cumplicidade com o espectador. Tchê parece estar contando aquelas histórias diretamente para nós, permitindo que acompanhemos suas observações sobre os humanos. Existe uma ironia nessa perspectiva: um gato observa pessoas que acreditam conhecê-lo, enquanto ele próprio parece conhecer muito mais sobre elas do que elas imaginam.

         A Freguesia do Ó também ganha importância nesse processo. O filme não precisa transformar seus personagens em grandes figuras extraordinárias. São pessoas comuns, vivendo em um bairro comum, com suas casas, seus hábitos e suas pequenas histórias. É justamente essa proximidade com o cotidiano que permite que o espectador reconheça algumas dessas características em pessoas que conhece ou até em si próprio.

         Com bons recursos técnicos, narrativos e dramáticos, “Sete Vidas” é um Drama sensível que utiliza o humor para apresentar a si mesmo através de Tchê, um escritor transformado em gato, suas vontades e preferências, mas também os pontos sensíveis de pessoas comuns, que vivem em bairros comuns e enfrentam sentimentos que estão longe de ser incomuns.

        No fim, a grande questão talvez nem seja descobrir quem é o verdadeiro dono de Tchê. O mais interessante é perceber por que tantas pessoas precisam acreditar que aquele gato pertence a elas. Cada uma encontra no animal uma companhia, uma projeção ou uma possibilidade de afeto. E talvez seja justamente por isso que o gato tenha tantas vidas: porque, ao passar pela vida de cada pessoa, ele assume um significado diferente.

         “Sete Vidas” transforma uma situação curiosa e bem-humorada em uma observação delicada sobre solidão, afeto, pertencimento e relações humanas. É um filme que consegue falar de pessoas através de um gato e, principalmente, utilizar um personagem aparentemente simples para mostrar que, por trás das pequenas histórias do cotidiano, existem sempre desejos, carências e necessidades muito maiores.




segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A MAIS FORTE (2009)

 


        Com direção, roteiro e produção de Ricky Mastro, "A Mais Forte" é um potente Drama que aborda o luto diante de uma perda inesperada, explorando as diferentes formas como as pessoas lidam com a ausência e com aquilo que permanece depois de uma tragédia. A trama acompanha o casal Alberto e Rafael, que sofre um acidente. Alberto morre, enquanto Rafael sobrevive, mas carrega algumas sequelas físicas e emocionais após o acontecimento.

        A partir dessa situação dolorosa, o curta concentra sua narrativa na relação entre as mães dos dois jovens. Raquel, mãe de Alberto, interpretada por Nyrce Levin, troca a fechadura do apartamento onde o casal vivia, impedindo que Rafael e sua mãe, Mariana, tenham acesso ao imóvel. O gesto, que inicialmente pode parecer uma atitude de confronto, revela uma dor muito mais profunda: a dificuldade de Raquel em aceitar a perda e se desfazer do último espaço físico que ainda mantém uma ligação direta com o filho.

         Mariana, vivida por Imara Reis, também enfrenta o sofrimento pela perda de Alberto. Ela perde um genro, alguém que fazia parte da sua família e da história construída ao longo dos anos. Rafael perde o marido, o companheiro com quem dividia uma vida. Entretanto, Raquel perde um filho. E é justamente nessa diferença de perspectivas que o filme encontra sua maior força dramática.

        A representação dessa dor é intensa, visceral e extremamente comovente. Imara Reis e Nyrce Levin sustentam a trama com enorme competência, construindo personagens complexas, marcadas por sentimentos contraditórios e por uma dor que não pode ser facilmente resolvida. A química entre as duas atrizes é um dos grandes destaques do curta, pois permite que o conflito seja desenvolvido muito mais pela emoção do que pelo confronto direto.

         A atitude de Raquel ao não entregar as chaves do apartamento não acontece simplesmente porque ela deseja impedir a venda do imóvel ou causar sofrimento aos outros personagens. Existe algo muito mais íntimo envolvido. Para ela, aquele espaço representa uma última conexão com o filho. Abrir mão do apartamento significa aceitar uma separação definitiva, reconhecer que uma parte importante de sua vida não voltará.

         O próprio título do filme apresenta uma questão fundamental: quem é "A Mais Forte"? Quem consegue suportar melhor uma situação tão dolorosa? Aquela que aceita a realidade? Aquela que luta para preservar aquilo que perdeu? Aquela que consegue continuar vivendo apesar da ausência?

        O interessante é que Ricky Mastro desconstrói a ideia tradicional de força. Normalmente, associamos uma pessoa forte àquela que consegue esconder o sofrimento, manter o controle e seguir em frente sem demonstrar fragilidade. Porém, o filme apresenta outra possibilidade: talvez a verdadeira força esteja justamente na capacidade de reconhecer a dor, atravessá-la e compreender que o sofrimento também faz parte do processo de reconstrução.

         Nesse sentido, a jornada de Raquel não é apenas sobre entregar ou não as chaves de um apartamento. É sobre permitir que a memória do filho exista sem que ela permaneça presa exclusivamente ao momento da perda. O filme transforma um conflito aparentemente simples em uma reflexão profunda sobre desapego, amor e aceitação.

         A narrativa também acerta ao não transformar a situação em uma disputa moral entre personagens. Não existe uma personagem completamente certa e outra completamente errada. A disputa principal acontece dentro de cada uma delas. Mariana e Raquel estão tentando sobreviver à ausência de Alberto, mas cada uma encontra uma maneira diferente de lidar com essa falta.

         Mesmo contrariada, Mariana consegue compreender a dor de Raquel. Sua insistência pelas chaves não representa apenas uma busca por um direito material, mas também um desejo de permitir que Raquel encontre uma forma de seguir vivendo. O apartamento, como objeto físico, é apenas a superfície de um conflito muito maior.

         Os bens materiais representam apenas uma camada externa do verdadeiro problema. A questão central é muito mais profunda: como continuar vivendo quando uma parte essencial da própria história desaparece? Todos os personagens perderam com a morte de Alberto, mas cada um experimenta esse luto de maneira particular. Para Raquel, existe a necessidade de um reencontro íntimo com a própria dor antes que ela consiga permitir que as outras pessoas continuem suas trajetórias.

         Um dos maiores méritos de "A Mais Forte" está na maneira como o filme aborda uma relação homoafetiva. O curta não escolhe apresentar o relacionamento entre Alberto e Rafael como um conflito relacionado à sexualidade, ao preconceito ou à aceitação familiar. O amor entre eles já existia antes do início da narrativa. A história começa depois da tragédia.

            Essa escolha é extremamente importante porque desloca o foco para aquilo que realmente importa: a experiência humana diante da perda. Os personagens LGBTQIA+ não são definidos apenas pela sexualidade, mas pelo amor que construíram, pelas relações familiares e pelo processo de luto. A homossexualidade dos personagens não é o problema central. O problema é a ausência deixada pela morte.

         Ricky Mastro também constrói uma reflexão muito interessante sobre o conceito de família. Tradicionalmente, a família costuma ser associada ao parentesco biológico, mas o filme questiona essa visão ao mostrar que relações construídas ao longo da vida também possuem valor afetivo e histórico.

         Quando duas pessoas constroem uma vida juntas, quem tem direito à memória dessa história? As mães perderam um filho, mas também perderam uma parte da trajetória que ele construiu com outra pessoa. O conflito pelo apartamento representa, simbolicamente, uma disputa pela preservação da memória, pelo direito de manter vivo aquilo que restou de alguém amado.

         Narrativamente, "A Mais Forte" demonstra grande competência ao transformar uma situação específica em uma reflexão universal. O filme consegue abordar uma experiência LGBTQIA+ sem limitar seus personagens a essa questão, apresentando uma história sobre amor, perda, família e humanidade.

         Tecnicamente, o curta também apresenta um trabalho bastante eficiente. Fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora trabalham em conjunto para construir uma atmosfera de forte carga emocional. Os elementos visuais e sonoros não estão presentes apenas para complementar a narrativa, mas para intensificar as sensações dos personagens e conduzir o espectador pela experiência do luto.

         A precisão da fotografia, os detalhes da direção de arte e as escolhas do desenho de som contribuem para criar um ambiente dramático consistente, permitindo que as atuações permaneçam como o principal centro da narrativa. Todos os recursos técnicos são utilizados de maneira equilibrada, valorizando especialmente as performances de Imara Reis e Nyrce Levin.

         "A Mais Forte" não é um filme sobre uma disputa por bens materiais. É uma obra sobre aquilo que permanece quando uma pessoa deixa de existir fisicamente. Ricky Mastro transforma um conflito aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre memória, família e luto.

         No fim, o que está realmente em jogo não são chaves ou objetos, mas fragmentos de uma vida compartilhada. São lembranças, afetos e histórias que duas mães tentam preservar da melhor maneira que conseguem. E é justamente ao compreender essa dor humana, antes de qualquer julgamento, que o curta encontra sua maior potência emocional.




domingo, 27 de setembro de 2026

A MORTE & VIDA DE ANA BELSHOFF (2015)

 


          Com roteiro e direção de Pedro Foss, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um tenso e inquietante curta que mescla de maneira brilhante os gêneros de Suspense, Mistério e Terror, com foco principalmente no Horror psicológico.

         A trama se concentra em Ana, interpretada com muita intensidade e profundidade por Carol Castro. A nadadora, que está prestes a disputar uma olimpíada, tem uma vida quase perfeita com seu marido, dentro de uma rotina que inicialmente transmite estabilidade e segurança.

           No entanto, a normalidade vivida por Ana começa a abalar sua vida, seu casamento e sua própria existência. O diretor trabalha a incerteza sobre aquilo que Ana está realmente vivendo. O curta começa apresentando uma situação aparentemente normal, mas rapidamente introduz elementos que quebram essa normalidade: visões, pesadelos, alucinações e aparições.

         Ana Belshoff começa a perceber acontecimentos que não consegue explicar. Entre eles está a presença recorrente do personagem de Luciano Szafir no elevador, cuja primeira aparição já provoca receio e desconforto. O suspense psicológico nasce justamente dessa impossibilidade de Ana, e do espectador, compreender imediatamente o que está acontecendo. A protagonista tenta racionalizar aquilo que vê, mas cada nova manifestação aumenta sua insegurança, fazendo a própria mulher questionar sua sanidade mental.

            A presença de uma mulher loira vista por Ana também amplia essa sensação de ameaça e faz com que o próprio espaço doméstico, que deveria representar segurança, se transforme em um lugar de inquietação. O filme consegue, assim, fazer a transição gradual do Suspense psicológico para o Terror psicológico. O terror não está presente apenas nos sustos, mas na perda progressiva da confiança naquilo que Ana enxerga e entende como realidade.

         “A Morte & Vida de Ana Belshoff” não apresenta simplesmente duas possibilidades opostas. Morte e vida funcionam como duas condições que coexistem na experiência da personagem. A ideia de “morte” pode ser física, mas também existe uma dimensão relacionada à negação da morte e à dificuldade de aceitar que determinada vida chegou ao fim. Da mesma maneira, “vida” não significa apenas estar biologicamente vivo. O filme trabalha com a ideia de uma personagem que continua experimentando uma existência, relacionamentos e situações que pertencem a uma vida que já não corresponde à realidade.

         Isso aproxima o título da ideia de limbo: Ana permanece entre a vida que teve, a vida que gostaria de ter tido e a condição que não consegue reconhecer. Essa posição intermediária reforça o desconforto da narrativa, porque a personagem não consegue compreender plenamente o lugar em que se encontra.

        O filme permite contrastar a vida que Ana acredita ter sob vários aspectos, conforme a trama avança e a protagonista descobre mais sobre si e sua vida. Elementos sobre a condição de sua mãe e atitudes tomadas por ela ganham sentido. A fragilidade psicológica de Ana permite compreender a vida idealizada por ela como uma espécie de refúgio psicológico, uma realidade na qual ela consegue permanecer enquanto não enfrenta aquilo que aconteceu.

         O personagem interpretado por Luciano Szafir ganha corpo conforme seus encontros com Ana no elevador se tornam mais frequentes. Sentindo receio do personagem, a mulher evita usar o mesmo elevador. Ele parece saber mais sobre a situação de Ana do que ela própria. Sua presença pode ser interpretada como a de uma entidade ligada à morte, ou como um intermediário entre dois estados de existência. O elevador, nesse contexto, ganha um significado simbólico muito forte como passagem, transição ou deslocamento. A recusa em entrar no elevador pode estar relacionada à própria resistência da personagem em aceitar aquilo que aconteceu com ela.

            Além de Carol e Luciano, o elenco do curta ainda conta com Bruno Gissoni no papel do marido, Bia Oliveira, Bárbara Brígido e Juan C. Reis, que ajudam a sustentar o arco narrativo.

         Os elementos técnicos também se destacam na construção da atmosfera do curta. A fotografia é clara e ampla, mesmo quando a narrativa já apresenta acontecimentos sobrenaturais. Ela também consegue trabalhar detalhes menores e microdetalhes dentro dos espaços, mas nunca utiliza a imagem para denunciar antecipadamente a condição de Ana. Ou seja: a fotografia não entrega visualmente que existe algo errado com a vida da personagem.

         Isso é importante porque seria muito fácil utilizar uma fotografia escura, sombria ou carregada de filtros para sugerir imediatamente uma dimensão sobrenatural. Pedro Foss faz o contrário: mantém a imagem relativamente limpa e clara e deixa o estranhamento surgir principalmente através do psicológico da protagonista e da narrativa. Isso cria um contraste interessante: a imagem parece normal enquanto a experiência de Ana se torna cada vez mais anormal.

         A direção de arte também contribui para construir essa realidade aparentemente cotidiana. A montagem tem papel fundamental na organização das informações e na revelação gradual dos acontecimentos, evitando que o curta entregue cedo demais aquilo que pretende revelar. A trilha sonora de Tales Rubens contribui para a tensão e para os momentos de susto, incluindo os jumpscares utilizados nos momentos adequados.

         O resultado é uma combinação de Suspense e Terror em que os recursos técnicos não existem apenas para assustar, mas para controlar aquilo que o espectador sabe e aquilo que ele ainda não consegue compreender.

          Produzido com muita competência e qualidade, “A Morte & Vida de Ana Belshoff” é um Suspense psicológico que gradualmente incorpora o Terror para contar a história de uma personagem presa entre aquilo que acredita estar vivendo e aquilo que realmente aconteceu. O suspense cria a pergunta: o que está acontecendo com Ana? Mas a camada psicológica acrescenta: por que Ana não consegue enxergar o que está acontecendo? E a dimensão existencial acrescenta uma terceira: o que significa continuar vivendo quando já não conseguimos aceitar a realidade?

         A força técnica do curta está justamente em não precisar anunciar essas respostas pela imagem. A fotografia clara, a direção de arte, a montagem, a trilha sonora e principalmente a atuação de Carol Castro colocam o espectador dentro da experiência de Ana sem entregar imediatamente a sua condição. O resultado é um filme que tem na imprevisibilidade a potência para um final chocante e perturbador.




sábado, 26 de setembro de 2026

OSWALDO CRUZ – O MÉDICO DO BRASIL (2003)



        "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" parte de uma biografia, mas o diretor Silvio Tendler evita transformar o documentário em uma sucessão convencional de fotografias acompanhadas por narração. O filme conta a trajetória do sanitarista por meio de uma combinação ampla de recursos: imagens de arquivo, fotografias, gravuras, textos, animação, dramatizações e atores interpretando personagens históricos. A própria Casa de Oswaldo Cruz registra a obra como um videodocumentário produzido dentro do Projeto Memória, da Fundação Banco do Brasil, com apoio da Fiocruz.

         Essa escolha faz uma diferença enorme na experiência do espectador. O passado deixa de ser apresentado apenas como algo que precisa ser explicado e passa a ser encenado, visualizado e dramatizado. Marcos Palmeira, interpretando Oswaldo Cruz, não está simplesmente ilustrando uma informação histórica: ele transforma o personagem em presença humana.

         É justamente aí que a classificação como Documentário, Biografia e Drama faz do curta muito mais que um único gênero cinematográfico. O filme continua sendo documental porque sua estrutura está fundamentada em fatos históricos e materiais de arquivo, mas utiliza a dramatização como ferramenta narrativa. A ficção não substitui o documento, ela ajuda a reconstruir aquilo que o registro fotográfico não pode mostrar.

        A presença dos atores é uma das maiores forças do filme. Marcos Palmeira permite que o espectador enxergue Oswaldo Cruz não apenas como o célebre sanitarista das fotografias oficiais, mas como um homem inserido em relações pessoais, familiares e políticas. Giulia Gam, como Miloca, contribui para essa dimensão mais íntima da trajetória. O elenco também inclui nomes como Beth Goulart, Betty Gofman, Bruno Garcia, Anderson Quack, Fábio Barreto, Paula Damasceno, Cláudio Amado, Humberto Câmara Neto, Luís Edmundo, Roberto Alvim e Zózimo Bulbul.

         Isso é particularmente importante porque a biografia poderia facilmente transformar Oswaldo Cruz em uma figura quase monumental: o grande médico, o cientista, o sanitarista que enfrentou epidemias. A dramatização reduz essa distância. O espectador passa a acompanhar decisões, conflitos, reações e relações humanas.

         A escolha é ainda mais eficiente porque o filme não dramatiza apenas aqueles que estavam ao lado de Oswaldo Cruz. Também aparecem personagens que representam a resistência às suas medidas, permitindo que a história seja construída por diferentes pontos de vista. Assim, a dramatização não serve somente para humanizar o herói, mas serve também para tornar mais concretos os conflitos que cercaram sua atuação.

         Um dos elementos mais interessantes é que as pessoas que aparecem na narrativa não são todas favoráveis a Oswaldo Cruz. Há políticos, representantes das elites, pessoas ligadas ao poder público e personagens populares que expressam resistência às medidas sanitárias. Isso impede que a história seja construída exclusivamente pela perspectiva do médico. A Revolta da Vacina, por exemplo, não aparece apenas como uma reação absurda de uma população ignorante diante de uma descoberta científica. O conflito ganha personagens e vozes, tornando perceptível que a vacinação obrigatória estava inserida em um contexto social e político muito mais complexo.

        Zózimo Bulbul interpreta Prata Preta, personagem associado à resistência popular durante a Revolta da Vacina. Já Gilberto Marmorosch aparece como presidente Rodrigues Alves. Esse procedimento fortalece a dimensão dramática porque cria oposição. Oswaldo Cruz não está simplesmente apresentando uma solução e sendo aplaudido por todos. Ele precisa enfrentar incompreensão, resistência e conflitos políticos. A biografia, portanto, ganha uma estrutura de enfrentamento que ajuda a manter o interesse do espectador.

         A história de Oswaldo Cruz está inseparavelmente ligada às transformações do Rio de Janeiro no início do século XX. O sanitarista atua dentro de um projeto maior de modernização da cidade, marcado pelas reformas urbanas de Pereira Passos e pelas campanhas de saneamento. Isso permite que o filme seja visto não apenas como uma biografia, mas também como um retrato de uma cidade em transformação. A doença, a precariedade urbana, as reformas, as campanhas sanitárias e a resistência popular fazem parte de um mesmo processo histórico.

         Esse aspecto é importante porque Oswaldo Cruz não aparece como um cientista trabalhando isoladamente em um laboratório. Seu trabalho interfere diretamente na vida cotidiana da população. A medicina deixa o espaço restrito da pesquisa e passa a ocupar as ruas, as casas e os corpos. Assim, o filme transforma a trajetória de um indivíduo em uma narrativa sobre a própria tentativa do Brasil de se modernizar.

        Outro recurso que funciona muito bem é a estrutura cronológica. O filme acompanha a trajetória de Oswaldo Cruz seguindo uma progressão temporal, permitindo que o espectador compreenda como cada acontecimento conduz ao seguinte. Os letreiros que indicam determinados anos reforçam essa organização. Esses textos sobre fundos escuros funcionam quase como capítulos ou marcações históricas dentro da narrativa. É um recurso simples, mas muito eficiente em um documentário biográfico curto.

         A cronologia também ajuda Tendler a controlar o ritmo. Em apenas cerca de meia hora, ele precisa apresentar uma quantidade enorme de informações. A divisão temporal funciona como uma espécie de esqueleto estrutural, sobre o qual são encaixadas dramatizações, imagens de arquivo, fotografias, animações e narração.

         A montagem dos diferentes materiais é uma das grandes qualidades técnicas do filme. Tendler não trata todos os registros históricos da mesma maneira. Fotografias, gravuras, documentos, imagens de arquivo e cenas dramatizadas possuem naturezas diferentes, e o filme aproveita justamente essa diversidade. As imagens históricas oferecem uma relação direta com o período, enquanto as dramatizações representam situações para as quais não existe registro cinematográfico. As animações e os desenhos acrescentam outra camada, tornando possível visualizar acontecimentos e informações de maneira mais dinâmica.

         O resultado é uma espécie de colagem audiovisual da memória histórica. O filme não tenta esconder que está reconstruindo o passado. Pelo contrário, deixa evidente que a memória histórica chega até nós por meio de documentos diferentes e precisa ser reorganizada pelo cinema. Essa combinação é uma das razões pelas quais consegue ser educativo sem adquirir o aspecto de uma simples videoaula.

         A dramatização só funciona porque existe um trabalho técnico consistente a sustentando. Figurino, maquiagem, fotografia e direção de arte são fundamentais para inserir os atores naquele universo histórico. O filme não precisa construir uma reconstituição gigantesca do Rio de Janeiro para convencer o espectador. Utiliza elementos visuais suficientes para estabelecer época, ambiente e personagens.

         A artificialidade da encenação permanece perceptível, mas isso não prejudica a narrativa. Ela passa a fazer parte da própria linguagem. O espectador sabe que está diante de uma reconstrução, mas aceita suas regras porque figurino, maquiagem, composição visual, atuação e fotografia trabalham na mesma direção.

         A montagem é especialmente importante porque o filme trabalha com materiais de naturezas completamente diferentes. Uma fotografia pode ser seguida por uma cena dramatizada, uma gravura pode dar lugar a uma animação e um letreiro pode interromper a ação para situar o espectador historicamente. Essa constante mudança de forma impede que os cerca de 30 minutos se tornem cansativos. O espectador recebe dados históricos, mas também acompanha uma narrativa dramática.

         A trilha sonora participa desse processo ao contribuir para o caráter dramático das cenas. Em vez de funcionar simplesmente como preenchimento entre uma informação e outra, ela ajuda a estabelecer atmosfera e intensidade. Tendler consegue organizar uma quantidade considerável de informação histórica sem transmitir a sensação de que o espectador está apenas recebendo conteúdo.

         O grande mérito de "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" está no equilíbrio. O filme precisa ensinar, contar uma história, apresentar um personagem histórico e homenageá-lo, mas não sacrifica o cinema em nome dessas funções.

         Tendler não entrega apenas um material institucional ilustrado. Ele utiliza dramaturgia, atuação, montagem, fotografia, direção de arte, figurino, maquiagem, animação, documentos históricos, letreiros e trilha sonora para construir uma narrativa audiovisual completa.

          É justamente essa combinação que explica por que o filme funciona tão bem como homenagem. Oswaldo Cruz não é apresentado somente como o médico que combateu doenças, mas como um homem que enfrentou resistência, tomou decisões difíceis, participou de um momento decisivo da transformação do Rio de Janeiro e deixou uma marca profunda na história da saúde pública brasileira.

         O resultado é um documentário biográfico simultaneamente informativo, acessível, dramático e tecnicamente elaborado. Silvio Tendler transforma uma figura histórica em personagem cinematográfico sem abandonar a dimensão documental. É justamente essa capacidade de fazer a informação histórica ganhar vida que faz de "Oswaldo Cruz – O Médico do Brasil" uma obra grandiosa.




terça-feira, 22 de setembro de 2026

A BELEZA LHE CAI BEM (2022)

 


        Realizado pelos alunos da oficina de cinema do 14 CineFantasy em 2022, “A Beleza Lhe Cai Bem” se revela um intrigante curta-metragem que explora com precisão o horror visceral, construindo sua atmosfera de forma gradual, sem pressa e com notável competência por parte da equipe envolvida.     

         Com direção coletiva de Dante Barão, Fábio Martins, Fabrício Nunes, Helena Valentine, Henrique Nuzzi, Oberdan Quintino, Patrick Morelli, Renan Kikuche, Victor Gamarra Gaette e Wesley Brito, o filme apresenta uma mulher idosa que encontra um artefato misterioso capaz de devolver sua juventude. A premissa, embora simples à primeira vista, se desdobra em camadas simbólicas que sustentam o impacto emocional da narrativa.

         Em seus instantes iniciais, “A Beleza Lhe Cai Bem” já oferece sinais importantes sobre a protagonista, seu estado emocional e sua condição de vida. São elementos discretos, mas cuidadosamente inseridos, que indicam ao espectador que o que será visto adiante pode ser interpretado para além do literal, abrindo espaço para diferentes leituras da trajetória da personagem.

        Diante do espelho do banheiro, a idosa interpretada por Vera Luz enfrenta o peso da velhice. Os porta-retratos espalhados pela sala e a trilha sonora contribuem para reforçar a sensação de melancolia, apontando tanto para o que ela já foi quanto para o que ela se tornou. Nesse ponto, o curta também abre espaço para uma crítica social importante, especialmente sobre a maneira como artistas, sobretudo mulheres, são frequentemente descartadas pelo público e mídia quando atingem determinada idade. O filme sugere, de forma sutil, o envelhecimento feminino como um processo de exclusão social, marcado pela pressão estética e pela invisibilização progressiva da velhice.

         A presença de vultos e a sensação de ser chamada para fora do banheiro conduzem a protagonista até a sala, onde ela encontra um recipiente contendo um creme misterioso. Ao aplicar o produto em seu rosto, sua fisionomia se transforma de maneira imediata. A velhice cede lugar à juventude. As rugas desaparecem, os traços se suavizam e o corpo recupera movimentos antes limitados. Nesse momento, Ananda Scaravelli assume a versão jovem da protagonista, dando continuidade à transformação com uma performance que reforça a ruptura entre as duas identidades.

        No entanto, essa mudança não ocorre sem consequências. O retorno à juventude tem um custo, e aquilo ou quem proporcionou essa transformação parece disposto a cobrar esse preço. É justamente nesse ponto que o curta intensifica sua dimensão de horror, sugerindo que a solução encontrada pela personagem pode estar diretamente ligada aos sinais sutis apresentados no início da narrativa. Dor, sofrimento e desconforto emergem como possíveis desdobramentos inevitáveis dessa escolha.

         “A Beleza Lhe Cai Bem” também se destaca pelo domínio técnico de sua realização. A direção de arte, a fotografia e a trilha sonora trabalham em conjunto para ampliar a sensação de desconforto, fazendo com que o horror se instale de forma progressiva no universo da personagem. Nada parece gratuito, e cada elemento visual ou sonoro contribui para a construção da atmosfera opressiva.

         A maquiagem e os efeitos práticos merecem destaque especial, funcionando como verdadeiros catalisadores da imersão no filme. O cuidado com os detalhes reforça a verossimilhança da transformação e intensifica o impacto emocional do processo, colocando o espectador em contato direto com a degradação e reconstrução da identidade da personagem.

         As atuações de Vera Luz e Ananda Scaravelli são fundamentais para sustentar o curta. Ambas as performances se apoiam fortemente na expressividade corporal e facial, especialmente diante da ausência de diálogos. Essa escolha valoriza ainda mais o trabalho das atrizes, que constroem a personagem em dois estados completamente distintos. Há ainda um terceiro elemento narrativo importante, invisível em cena, mas essencial para a compreensão do desfecho: o próprio recipiente, que retorna com força simbólica na resolução da história.

          A fotografia desempenha um papel decisivo na condução da narrativa, alternando entre paletas mais opacas, enquadramentos fechados e uma estética mais sufocante durante a fase inicial da protagonista. Após a transformação, a luz ganha intensidade, os espaços parecem mais amplos e a composição visual se abre, reforçando a mudança de estado físico e psicológico.

         Com argumento de Ananda Scaravelli e roteiro de Helena Valentine, Victor Gamarra Gaette, Oberdan Quintino, Fábio Martins, Patrick Morelli, Cláudio Marcio Fernandes e Wesley Brito, sob coordenação de projeto de Marcos DeBrito, “A Beleza Lhe Cai Bem” se consolida como um curta de horror muito bem executado. O resultado final vai além do susto, construindo um desconforto persistente através de elementos narrativos, dramáticos e técnicos cuidadosamente integrados, capazes de incomodar o espectador de maneira profunda e chocante.




sábado, 19 de setembro de 2026

O DIA DE JERUSA (2014)

 


        Com direção e roteiro de Viviane Ferreira, “O Dia de Jerusa” é um sensível e adorável Drama, protagonizado por Léa Garcia e Débora Marçal, que conta com uma narrativa extremamente emocionante e um potencial dramática muito elevado.

         O ponto central do filme gira em torno do encontro de duas mulheres. Jerusa é uma senhora idosa negra que vive no bairro do Bixiga, na capital paulista. Silvia é uma jovem negra que trabalha como pesquisadora de opinião que precisa convencer pessoas a responderem um questionário sobre sabão em pó. Silvia chega à casa de Jerusa para aplicar a pesquisa e deveria permanecer ali apenas alguns minutos. O encontro, porém, se transforma numa experiência de troca, memória e afeto.

        O interessante é que as duas mulheres estão em situações muito diferentes, mas também têm algo em comum. Silvia é jovem e está trabalhando como pesquisadora de opinião, uma atividade aparentemente banal, mas que também revela sua condição social. Jerusa tem 77 anos, vive sozinha e carrega décadas de experiências. O questionário, portanto, funciona como um laço narrativo para colocar duas gerações de mulheres negras frente a frente.

         Silvia está ali para transformar uma pessoa em dado de pesquisa de mercado. Jerusa deveria responder perguntas sobre um produto. É uma relação quase mecânica de perguntas, respostas, informações e estatísticas. No entanto, Jerusa subverte completamente essa lógica. Ela não aceita ser apenas uma entrevistada. Ela transforma a entrevistadora em interlocutora. A forma afetuosa com que Jerusa trata Silvia faz daquele momento a percepção de Silvio sobre a carência, melancolia e complexidade de Jerusa.

         Porém, Silvia precisa alcançar metas. E um detalhe importantíssimo faz com que a jovem reconheça que a sua ida até a casa de Jerusa não se deu por acaso; ela estava ali porque deveria estar. Isso permite uma leitura muito bonita: o filme começa tratando Jerusa como objeto de pesquisa e termina tratando-a como sujeito de uma história. E isso conversa diretamente com a questão da velhice.

         A complexidade da personagem interpretada por Léa Garcia se dá em várias camadas. Jerusa não é simplesmente uma mulher idosa. Ela é uma mulher negra idosa. E essas duas condições se encontram dentro de uma sociedade que frequentemente invisibiliza tanto a velhice quanto a população negra. Nesse caso, as duas coisas recaem sobre a mesma personagem. O filme poderia ter transformado Jerusa numa personagem simplesmente solitária, triste e carente. Mas Léa Garcia lhe dá outra dimensão. Ela possui memória, possui opinião, possui humor, possui desejos, possui uma história. E, principalmente, possui voz.

      Outro detalhe interessante é sobre a casa. A casa guarda aquilo que Jerusa guarda. Não é simplesmente o lugar onde ela mora. É o espaço onde sua memória permanece materializada. Isso também aproxima o filme da ideia do espaço como testemunha da passagem do tempo. E o Bixiga torna isso ainda mais interessante.

         O filme foi rodado no Bixiga, bairro paulistano historicamente associado à imigração italiana, mas que também possui uma presença negra muito importante. O Portal Plano Crítico chama atenção para a escolha do território e para a presença da Rua 13 de Maio e da Rua da Abolição. Ou seja: o bairro também carrega camadas de memória histórica. E isso combina perfeitamente com Jerusa. Ela não é apenas uma mulher que lembra da própria vida. Ela é uma pessoa que pertence a um território carregado de histórias.

         Jerusa fala sobre a vida das mulheres negras e sobre a senzala. O passado pessoal da personagem começa a se misturar com um passado histórico muito maior. Isso cria uma passagem interessante: a memória individual que dialoga com a memória familiar, que, por sua vez, dialoga com a memória coletiva, e que finalmente dialoga com a memória histórica. Jerusa lembra da própria vida, mas sua lembrança não está isolada da história do Brasil. "O Dia de Jerusa" coloca uma mulher negra idosa no centro da narrativa.

        Outro detalhe é que o encontro não é unilateral. Seria fácil e simplista interpretar o filme como se Jerusa, uma senhora solitária, encontrasse uma jovem que lhe fizesse companhia. Porém, essa escolha diminuiria Silvia. Silvia também precisa daquele encontro.

         Ela está trabalhando em uma atividade provavelmente precarizada, circulando pelo bairro fazendo perguntas sobre um produto comercial. Há uma distância enorme entre aquilo que ela está fazendo e aquilo que Jerusa oferece. O encontro funciona porque as duas recebem alguma coisa. Jerusa recebe companhia. Silvia recebe memória. Jerusa oferece afeto. Silvia oferece presença.

          Um detalhe extremamente importante se destaca logo no início do curta, quando um poeta declama trechos de "Minha Mãe", de Luiz Gama. Este elemento narrativo não é peça de decoração. Luiz Gama foi um intelectual negro fundamental na história brasileira, e sua presença estabelece uma espécie de ponte entre literatura, memória negra, cidade e personagem.

         Com grandes acertos nos recursos técnicos, Viviane Ferreira constrói uma obra tocante, sensível e impecável em seu desenrolar. Fotografia e arte trabalham em conjunto, dando vida à rua, à casa e às protagonistas. Todos os detalhes de planos, ângulos, detalhes e objetos potencializam ainda mais as performances de Léa Garcia e Débora Marçal.

        Não há um ponto fora do lugar em “O Dia de Jerusa”. A trilha sonora trabalha silêncios quando necessário, permitindo que somente a voz de Jerusa tome conta do ambiente, interagindo com sons ambientes. No entanto, há espaços para mudanças com sons não-diegéticos extremamente pontuais, o que reflete nas sensações transmitidas ao espectador.

          “O Dia de Jerusa” é muito mais do que o encontro casual entre duas mulheres. É um filme sobre memória, sobre aquilo que permanece quando o tempo passa e sobre a importância de ouvir quem tantas vezes é colocado à margem. Jerusa transforma uma simples pesquisa de mercado em uma experiência de humanidade, fazendo com que Silvia deixe, por alguns instantes, de procurar respostas para um questionário e passe a ouvir respostas para perguntas que talvez nem soubesse que precisava fazer.

         Viviane Ferreira constrói, com delicadeza e enorme sensibilidade, uma narrativa sobre duas mulheres negras separadas pela idade, mas aproximadas pela experiência, pelo afeto e pela necessidade de serem vistas. E talvez seja justamente essa a maior força do filme: lembrar que nenhuma pessoa é apenas um número, uma estatística, uma entrevistada ou uma idosa que vive sozinha. Cada pessoa carrega uma história. Algumas histórias, como a de Jerusa, só precisam encontrar alguém disposto a escutá-las.




AVISA QUANDO CHEGAR (2025)

 


        Com direção de Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf, “Avisa Quando Chegar” é um Terror intenso, denso e perturbador, sustentado por excelentes atuações de Dominique Bueno, que interpreta Júlia, e Cristhian Fernandes, no papel do motorista de aplicativo. Em apenas cinco minutos, o curta consegue construir uma situação extremamente desconfortável, explorando um medo muito próximo da realidade e, justamente por isso, tão eficiente.

         O pedido de um Uber em certa noite deveria ser a forma mais segura de chegar em casa. Porém, ao se despedir de uma amiga, Júlia não faz ideia de que está prestes a viver uma experiência aterrorizante. O filme parte de uma situação absolutamente cotidiana, reconhecível para praticamente qualquer espectador, e transforma esse cenário comum em uma fonte constante de tensão.

        O próprio título do curta já diz muito sobre sua proposta. “Avisa Quando Chegar” é uma frase extremamente comum no cotidiano brasileiro. Ela costuma ser dita por pais, amigos, companheiros e familiares como demonstração de cuidado. Ao mesmo tempo, carrega uma preocupação implícita. Ninguém pede para alguém avisar quando chegar porque acredita que tudo ocorrerá perfeitamente, mas porque existe a possibilidade de algo dar errado. Dessa forma, o título já coloca o espectador em estado de alerta antes mesmo de a narrativa começar. É uma escolha simples, mas extremamente inteligente, pois dialoga diretamente com experiências reais e sentimentos compartilhados por grande parte do público.

         Inicialmente, o motorista se mostra gentil, educado e aparentemente confiável. No entanto, conforme o trajeto avança, pequenos detalhes passam a gerar desconforto. A partir desse momento, fotografia e desenho de som assumem papel fundamental na construção da tensão crescente entre Júlia e o motorista. O curta passa a dialogar com elementos do thriller psicológico, do suspense de confinamento e do terror urbano, aproximando-se de situações que poderiam acontecer fora da tela. Essa proximidade com a realidade torna o horror ainda mais inquietante.

         A protagonista está completamente vulnerável. Está sozinha, distante de casa e confinada em um espaço reduzido controlado por outra pessoa. Nesse contexto, o veículo funciona quase como uma prisão temporária. Embora Júlia esteja fisicamente livre, suas possibilidades reais de fuga são extremamente limitadas. Essa sensação de impotência é construída de forma gradual e contribui para o aumento constante da tensão.

        Os elementos técnicos empregados pelos realizadores transformam “Avisa Quando Chegar” em uma excelente experiência para os fãs do gênero. Fotografia, direção de arte, montagem e som trabalham em conjunto para estabelecer uma atmosfera pesada que acompanha a protagonista ao longo do percurso. Quando a narrativa alcança seu terceiro ato, os efeitos visuais mais elaborados surgem como complemento da resolução final, ampliando o impacto de um desfecho direto, eficiente e assustador.

         O áudio desempenha uma função especialmente importante. Ao utilizar sons não diegéticos apenas em momentos específicos, o filme privilegia ruídos naturais como o motor do veículo, a seta e somente as vozes dos personagens. Essa escolha aumenta a sensação de realismo e aproxima ainda mais o espectador da experiência vivida por Júlia, fazendo com que o horror pareça surgir de forma orgânica dentro daquela situação.

         Aspectos narrativos, dramáticos e técnicos se combinam para construir a trama sob a perspectiva da protagonista. Não sabemos para onde estamos indo, assim como ela também não sabe. Compartilhamos sua preocupação quando as mensagens deixam de ir ou chegar e sua insegurança quando o motorista segue por caminhos desconhecidos. Quando o veículo para e o aplicativo informa o destino alcançado, a narrativa conduz naturalmente o espectador para o pior cenário possível.

        Contando ainda com a participação de Letícia Viana como a amiga responsável pela frase que dá título ao filme, o curta surpreende pela eficiência com que desenvolve sua proposta. Em apenas cinco minutos, Catarina Gonçalves e Henrique Pinsdorf constroem uma situação reconhecível, promovem uma escalada contínua de tensão e entregam uma resolução impactante. Em produções tão breves, cada plano precisa cumprir uma função dramática específica, e a equipe criativa e técnica demonstra pleno domínio dessa dinâmica.

        Um dos aspectos mais interessantes de “Avisa Quando Chegar” está em seu final aberto, que amplia as possibilidades de interpretação. Afinal, seria o motorista o verdadeiro antagonista da história ou apenas uma peça de algo maior? O curta evita respostas definitivas e encontra justamente nessa ambiguidade parte de sua força. Com uma combinação eficiente de recursos cinematográficos, uma equipe técnica competente e atuações muito bem alinhadas, “Avisa Quando Chegar” se consolida como uma grata surpresa para os amantes do Terror.




DE UM OUTRO LUGAR (2023)

          O curta-metragem “De um Outro Lugar” é uma envolvente obra de Terror psicológico que mergulha em uma narrativa marcada pelo mistér...