“Brasil 2020” é uma obra que
utiliza o horror como ferramenta para construir uma alegoria política
contundente. Com roteiro e direção de Petter Baiestorf, o curta não busca
assustar através de monstros, fantasmas ou ameaças sobrenaturais, mas sim por
meio de uma realidade distorcida que dialoga diretamente com tensões sociais,
culturais e políticas. O resultado é um horror distópico que transforma
censura, perseguição ideológica, intolerância e autoritarismo em elementos
centrais de sua narrativa.
Conhecendo a filmografia de Petter Baiestorf e a proposta da Canibal Filmes, fica evidente que estamos diante de uma produção alinhada ao cinema de guerrilha, ao exploitation e à sátira política. O diretor não demonstra interesse em suavizar suas críticas ou esconder suas posições através de metáforas excessivamente discretas. Pelo contrário, a provocação é parte essencial da experiência. Um dos aspectos mais curiosos do curta é que, lançado em 2019, ele antecipa discussões que ganhariam ainda mais força nos anos seguintes, especialmente durante a pandemia de Covid-19, a partir de 2020. Questões relacionadas ao negacionismo científico, à desconfiança em especialistas e ao fortalecimento de discursos anticientíficos aparecem de forma surpreendentemente próxima do que viria a acontecer pouco tempo depois.
O conceito de uma “crentecracia militar” é uma das ideias mais fortes da narrativa. A expressão combina diferentes elementos que marcaram o debate público brasileiro durante aquele período: o crescimento de setores religiosos conservadores na política, a nostalgia de grupos que defendiam uma nova intervenção militar e o fortalecimento de discursos autoritários. Nesse sentido, o filme constrói uma sociedade em que religião, poder estatal e repressão caminham lado a lado.
Outro
aspecto particularmente interessante é a presença das chamadas “bruxas do
século 21”. A escolha dessa nomenclatura não é aleatória. Historicamente, as
perseguições por bruxaria serviram muitas vezes como instrumento de controle
social, atingindo indivíduos considerados inconvenientes ou desviantes. Em
“Brasil 2020”, a figura da bruxa deixa de representar algo sobrenatural e passa
a simbolizar qualquer pessoa que desafie a visão oficial do regime. O conceito
funciona muito bem porque amplia o alcance da crítica proposta pelo filme.
Professores,
artistas, agricultores orgânicos, escritores independentes, filósofos,
ambientalistas e livres pensadores tornam-se alvos preferenciais dessa
estrutura de poder. O filme sugere que pensar de forma diferente já é
suficiente para ser considerado uma ameaça. A perseguição não ocorre devido a
atos violentos ou crimes concretos dos críticos do regime, mas pela simples
existência de indivíduos que recusam seguir determinadas imposições
ideológicas.
Nesse
contexto surgem os catequizadores. Embora o nome remeta a uma ideia religiosa,
eles funcionam muito mais como fiscais do pensamento, inquisidores modernos
encarregados de identificar e eliminar aqueles considerados inadequados. A
presença desses personagens reforça a atmosfera opressiva da narrativa e
evidencia o caráter autoritário do regime retratado.
A
noção de “purificação” apresentada pelo filme também merece atenção. Ao longo
da história, discursos de purificação frequentemente estiveram associados à
exclusão de grupos sociais, perseguições políticas e mecanismos de repressão. O
curta utiliza essa ideia para estabelecer paralelos com momentos históricos
marcados pela intolerância, pela censura e pela tentativa de impor uma única
visão de mundo.
O protagonista, interpretado por Loures Jahnke, vive no campo, cultiva seus próprios alimentos e dedica parte do seu tempo à leitura. Em circunstâncias normais, essas características não representariam qualquer ameaça. Entretanto, dentro da lógica apresentada pelo filme, tornam-se comportamentos considerados subversivos. Sua independência econômica e intelectual o transforma automaticamente em inimigo do sistema.
Além
da crítica ao Agronegócio, a narrativa também direciona sua atenção para a
indústria armamentista e para a concentração de poder econômico. O filme sugere
a existência de uma aliança entre interesses políticos, religiosos e
empresariais, formando uma estrutura que busca controlar não apenas recursos,
mas também comportamentos e formas de pensamento.
Petter
Baiestorf opta por uma abordagem direta, sem recorrer a grandes disfarces
narrativos. Diferentemente de muitas distopias que preferem trabalhar com
simbolismos mais sutis, “Brasil 2020” assume sua condição de manifesto
cinematográfico. Essa característica pode gerar diferentes reações, mas
contribui para tornar a mensagem extremamente clara.
Brutal,
provocador e desconfortável, o curta conduz seu protagonista a um destino
doloroso. Seu grande crime é viver de acordo com suas próprias convicções,
recusando-se a se adaptar às exigências impostas pelo regime. Essa trajetória
reforça a crítica central da obra e transforma a história em uma reflexão sobre
liberdade, autonomia e resistência.
O
aspecto mais inquietante de “Brasil 2020” talvez seja justamente a origem de
seu horror. O medo não surge de criaturas fantásticas ou ameaças desconhecidas.
Surge de instituições, discursos e comportamentos humanos perfeitamente
reconhecíveis. É um filme que encontra sua força não apenas naquilo que mostra,
mas na proximidade entre sua ficção e debates que continuam presentes na
realidade contemporânea.







































