Com roteiro e direção de Valter Rege, “Preto no Branco” é um Drama que acompanha a saída de Roberto Carlos do trabalho e sua corrida pela rua para não perder o ônibus. Entretanto, ao passar pela frente de um shopping center, a vida dele e de Isabella se cruzam, iniciando uma experiência violenta, angustiante e profundamente perturbadora para o jovem negro.
Acusado
pela mulher, Roberto é abordado por dois policiais civis que passavam pelo
local no momento em que Isabella teve sua bolsa roubada. Essa sequência é
extremamente desconfortável. E o seu impacto é ainda maior porque a situação
apresentada pelo filme não parece distante da realidade brasileira. Pelo
contrário. A sensação é de que estamos assistindo a algo que se repete
diariamente em diferentes cidades do país. O curta consegue transformar um
acontecimento específico em uma reflexão muito mais ampla sobre preconceito,
suspeita e desigualdade.
Com um elenco afiado, “Preto no Branco” desenvolve uma trama cheia de camadas e que merecem ser debatidas e refletidas. Numa perspectiva mais abrangente, Roberto e Isabella podem ser vistos menos como indivíduos específicos e mais como representantes de posições sociais diferentes dentro da sociedade brasileira. O jovem, interpretado por Marcos Oliveira, entrega uma atuação potente, intensa e visceral. Sua expressão corporal, seu olhar e sua reação diante das acusações ajudam a transmitir a sensação de impotência vivida pelo personagem. Maria Bopp vive o papel da vítima do roubo, tendo uma performance bastante competente. Taiguara Nazareth e Guilherme Lopes interpretam os policiais responsáveis pela prisão de Roberto Carlos.
No
entanto, a delegada Patrícia, interpretada por Carolina Holanda, é uma
personagem que merece atenção especial. Ela ocupa uma posição interessante
dentro da narrativa. Não está claramente alinhada nem com Roberto nem com
Isabella. Sua hesitação pode representar algo maior: a dificuldade das
instituições em lidar com situações onde preconceito, memória e verdade se
misturam. A forma como a personagem é construída faz com que ela funcione como
representante do próprio espectador, que ouve tanto Isabella quanto Roberto e
precisa compreender a situação sem ter acesso imediato à verdade dos fatos.
“Preto
no Branco” foi realizado através do edital Curta Afirmativo para Jovens
Produtores Negros, iniciativa voltada ao protagonismo de cineastas negros no
audiovisual brasileiro. Trata-se de uma informação relevante porque ajuda a
compreender a importância do filme dentro de um contexto maior de
representatividade e produção cultural. Além disso, o curta foi selecionado
para o Toronto Black Film Festival, demonstrando que sua temática dialoga com
discussões raciais que ultrapassam o contexto brasileiro e encontram eco em
diferentes partes do mundo.
O
verdadeiro conflito estabelecido por Valter Rege não está somente no embate
criado entre Roberto e Isabella. O verdadeiro confronto ocorre entre duas
formas de credibilidade social. De um lado está Roberto, jovem negro,
trabalhador e acusado. Do outro está Isabella, jovem branca e vítima de um
crime. O filme questiona qual das versões tende a ser considerada verdadeira
antes mesmo da existência de provas concretas. Essa é uma das reflexões mais
poderosas da obra.
Sendo assim, “Preto no Branco” busca questionar um fator extremamente relevante para a sociedade brasileira: o racismo estrutural. No filme, a abordagem de Roberto Carlos possui uma motivação racista por parte dos policiais, mesmo com um deles sendo negro. E esse detalhe é particularmente interessante porque o curta evita simplificações. O preconceito não aparece apenas através de atitudes individuais, mas também através de mecanismos sociais que acabam sendo reproduzidos por diferentes pessoas.
No
entanto, abordagens de jovens negros não precisam focar necessariamente no
racismo explícito. Ninguém precisa fazer um discurso racista para que o racismo
esteja presente. No caso de Roberto, o preconceito aparece através de
mecanismos aparentemente normais: a abordagem policial imediata, a associação
automática entre negritude e suspeição, a força atribuída ao reconhecimento da
vítima e a dificuldade em conceder ao acusado o benefício da dúvida. É
justamente por isso que o filme costuma ser utilizado em contextos educacionais
para discutir direitos humanos e relações raciais.
Outro
aspecto importante é o reconhecimento da vítima. O cinema frequentemente trata
o reconhecimento visual como prova absoluta. Mas o filme parece questionar essa
ideia. A lembrança de Isabella é verdadeira? Ela acredita sinceramente naquilo
que viu? Ou sua percepção foi influenciada por fatores externos e já
impregnados em sua mente? Essas questões ampliam o alcance da narrativa e
aproximam o curta não apenas do Drama social, mas também do Thriller
psicológico, devido às pressões estabelecidas pelo sistema sobre Roberto.
Embora
seja classificado como Policial, talvez o gênero funcione mais como estrutura
narrativa. O foco não parece estar na investigação. O foco está nas
consequências da acusação e nos impactos emocionais, sociais e institucionais
gerados por ela. Por isso, talvez seja mais produtivo analisar o filme como um
Drama social com elementos policiais do que como um Policial tradicional.
Utilizando recursos técnicos de maneira extremamente competente, Valter Rege constrói em “Preto no Branco” uma obra que mantém a coesão dramática e narrativa de forma impecável. A fotografia, com câmera nervosa durante a abordagem, eleva esse momento do filme ao campo do Horror psicológico. Ângulos, planos e tomadas funcionam perfeitamente, tanto na construção da narrativa quanto na entrega de elementos dramáticos fundamentais para a experiência do espectador.
Montagem,
trilha sonora e direção de arte trabalham em consonância, sem que um aspecto
diminua o outro. Na verdade, a produção de objetos, o desenho sonoro e o
figurino se complementam para dar vida aos personagens e à trama. Tudo funciona
de maneira pontual e cadenciada, contribuindo para a sensação crescente de
tensão e desconforto.
“Preto no Branco” não fala apenas sobre culpa ou inocência. Fala sobre percepção. O curta está interessado em mostrar que a verdade factual pode ser menos importante do que a forma como as pessoas constroem suas certezas dentro de uma sociedade onde o racismo estrutural ainda produz reflexos e consequências extremamente fortes e perturbadoras. Ao transformar uma situação cotidiana em uma discussão ampla sobre preconceito, justiça e credibilidade, Valter Rege realiza uma obra necessária, relevante e profundamente atual.







































