Realizado
pelos alunos da oficina de cinema do 14 CineFantasy em 2022, “A Beleza Lhe
Cai Bem” se revela um intrigante curta-metragem que explora com precisão o
horror visceral, construindo sua atmosfera de forma gradual, sem pressa e com
notável competência por parte da equipe envolvida.
Com
direção coletiva de Dante Barão, Fábio Martins, Fabrício Nunes, Helena
Valentine, Henrique Nuzzi, Oberdan Quintino, Patrick Morelli, Renan Kikuche,
Victor Gamarra Gaette e Wesley Brito, o filme apresenta uma mulher idosa que
encontra um artefato misterioso capaz de devolver sua juventude. A premissa,
embora simples à primeira vista, se desdobra em camadas simbólicas que
sustentam o impacto emocional da narrativa.
Em
seus instantes iniciais, “A Beleza Lhe Cai Bem” já oferece sinais importantes
sobre a protagonista, seu estado emocional e sua condição de vida. São
elementos discretos, mas cuidadosamente inseridos, que indicam ao espectador
que o que será visto adiante pode ser interpretado para além do literal,
abrindo espaço para diferentes leituras da trajetória da personagem.
Diante do espelho do banheiro, a idosa interpretada por Vera Luz enfrenta o peso da velhice. Os porta-retratos espalhados pela sala e a trilha sonora contribuem para reforçar a sensação de melancolia, apontando tanto para o que ela já foi quanto para o que ela se tornou. Nesse ponto, o curta também abre espaço para uma crítica social importante, especialmente sobre a maneira como artistas, sobretudo mulheres, são frequentemente descartadas pelo público e mídia quando atingem determinada idade. O filme sugere, de forma sutil, o envelhecimento feminino como um processo de exclusão social, marcado pela pressão estética e pela invisibilização progressiva da velhice.
A
presença de vultos e a sensação de ser chamada para fora do banheiro conduzem a
protagonista até a sala, onde ela encontra um recipiente contendo um creme
misterioso. Ao aplicar o produto em seu rosto, sua fisionomia se transforma de
maneira imediata. A velhice cede lugar à juventude. As rugas desaparecem, os
traços se suavizam e o corpo recupera movimentos antes limitados. Nesse
momento, Ananda Scaravelli assume a versão jovem da protagonista, dando
continuidade à transformação com uma performance que reforça a ruptura entre as
duas identidades.
No entanto, essa mudança não ocorre sem consequências. O retorno à juventude tem um custo, e aquilo ou quem proporcionou essa transformação parece disposto a cobrar esse preço. É justamente nesse ponto que o curta intensifica sua dimensão de horror, sugerindo que a solução encontrada pela personagem pode estar diretamente ligada aos sinais sutis apresentados no início da narrativa. Dor, sofrimento e desconforto emergem como possíveis desdobramentos inevitáveis dessa escolha.
“A
Beleza Lhe Cai Bem” também se destaca pelo domínio técnico de sua realização. A
direção de arte, a fotografia e a trilha sonora trabalham em conjunto para
ampliar a sensação de desconforto, fazendo com que o horror se instale de forma
progressiva no universo da personagem. Nada parece gratuito, e cada elemento
visual ou sonoro contribui para a construção da atmosfera opressiva.
A
maquiagem e os efeitos práticos merecem destaque especial, funcionando como
verdadeiros catalisadores da imersão no filme. O cuidado com os detalhes
reforça a verossimilhança da transformação e intensifica o impacto emocional do
processo, colocando o espectador em contato direto com a degradação e
reconstrução da identidade da personagem.
As
atuações de Vera Luz e Ananda Scaravelli são fundamentais para sustentar o
curta. Ambas as performances se apoiam fortemente na expressividade corporal e
facial, especialmente diante da ausência de diálogos. Essa escolha valoriza
ainda mais o trabalho das atrizes, que constroem a personagem em dois estados
completamente distintos. Há ainda um terceiro elemento narrativo importante,
invisível em cena, mas essencial para a compreensão do desfecho: o próprio
recipiente, que retorna com força simbólica na resolução da história.
A fotografia desempenha um papel decisivo na condução da narrativa, alternando entre paletas mais opacas, enquadramentos fechados e uma estética mais sufocante durante a fase inicial da protagonista. Após a transformação, a luz ganha intensidade, os espaços parecem mais amplos e a composição visual se abre, reforçando a mudança de estado físico e psicológico.
Com
argumento de Ananda Scaravelli e roteiro de Helena Valentine, Victor Gamarra
Gaette, Oberdan Quintino, Fábio Martins, Patrick Morelli, Cláudio Marcio
Fernandes e Wesley Brito, sob coordenação de projeto de Marcos DeBrito, “A
Beleza Lhe Cai Bem” se consolida como um curta de horror muito bem executado. O
resultado final vai além do susto, construindo um desconforto persistente
através de elementos narrativos, dramáticos e técnicos cuidadosamente
integrados, capazes de incomodar o espectador de maneira profunda e chocante.












































