Baseado na crônica “O Salto”, de
Antônio Prata, e com direção e roteiro de Ricardo Santini e Bel Ribeiro, “Uma
Vida Inteira” é um filme de Romance que tem a ideia central já muito bem
sintetizada no título.
O
curta acompanha um casal desde a primeira noite juntos até a possibilidade de
um futuro que talvez nunca aconteça. O interessante é que o filme não precisa
mostrar literalmente uma vida inteira. Ele trabalha com a imaginação do futuro.
Em poucos minutos, uma relação recém iniciada pode carregar casamento, rotina,
envelhecimento, desgaste, separação e todas as possibilidades intermediárias. É
como se, no instante em que duas pessoas se apaixonam, elas também começassem a
imaginar tudo aquilo que poderá acontecer entre elas.
“Uma Vida Inteira” fala menos sobre o futuro do que sobre a ansiedade diante dele. O personagem narrador não está simplesmente apaixonado. Ele também está tentando imaginar o que acontecerá se esse amor der certo. E imaginar o futuro significa imaginar também a possibilidade de que ele dê errado. É uma contradição bastante humana. Queremos viver o amor, mas temos medo das consequências de nos entregarmos a ele. Por isso, o curta pode ser entendido como uma história sobre expectativa e medo. A pessoa deseja se aproximar, mas sabe que se aproximar significa abandonar uma certa segurança.
A
metáfora do salto é utilizada com profunda eficiência. Ela representa o momento
em que duas pessoas deixam uma posição de segurança para apostar em alguma
coisa cujo resultado não podem conhecer. Isso combina perfeitamente com o amor.
Porém, chega um momento em que é preciso simplesmente se lançar. Uma vida
inteira pode caber justamente nesse intervalo entre decidir saltar e descobrir
onde se vai chegar.
Há algo muito interessante na relação entre o tempo real e o tempo imaginado. O espectador está vendo uma história de apenas alguns minutos, mas a narrativa abre a possibilidade de acompanharmos décadas. Isso cria uma espécie de compressão temporal. Acontecimentos que levariam anos são concentrados em pensamentos, expectativas e possibilidades. É uma solução particularmente interessante da narrativa do filme. Os realizadores perguntam, de maneira bastante delicada, quantas coisas podem ser imaginadas quando uma relação ainda está começando.
Outro
recurso muito bem empregado pelos diretores, e que faz parte do texto de
Antônio Prata, é estabelecer a vida cotidiana aparecendo antes mesmo dela
acontecer. Há a possibilidade de imaginar uma relação não apenas através dos
grandes acontecimentos, mas através de pequenas rotinas. É aí que o filme se
torna menos romântico no sentido tradicional. Não se trata apenas de imaginar
grandes declarações de amor. É imaginar a vida comum. Um restaurante, uma mesa,
uma bebida, pequenos hábitos, conversas repetidas e silêncios. Essas pequenas
coisas podem parecer insignificantes, mas são justamente elas que constituem
uma vida compartilhada.
Alice Braga e Bruno Autran sustentam uma narrativa muito delicada com muita competência, eficiência e sensibilidade. O filme é praticamente um estudo de dois personagens. Não basta representar duas pessoas apaixonadas. É preciso transmitir diferentes possibilidades de uma relação, como entusiasmo, desejo, insegurança, intimidade e medo. Como a narrativa depende bastante daquilo que é imaginado, a atuação precisa ajudar o espectador a acreditar tanto no presente quanto nos futuros possíveis.
A
fotografia e a trilha sonora são fundamentais para criar esse romantismo
existente em “Uma Vida Inteira”. A fotografia de Leo Ferreira, a montagem de
Márcio Hashimoto, a direção de arte de Taisa M. Rodrigues e a trilha sonora de
Fábio Góes constroem um universo único entre os personagens. Cada elemento
técnico ajuda a diferenciar o presente concreto das possibilidades imaginadas
de uma forma extremamente comovente. O filme tem uma proposta que poderia
facilmente ficar excessivamente literária, justamente por ser baseado em uma
crônica. No entanto, fotografia, trilha sonora e montagem transformam com muita
competência pensamento em imagem cinematográfica.
O
curta pode parecer extremamente otimista porque fala da possibilidade de duas
pessoas se entregarem ao amor. Mas existe uma melancolia na própria estrutura.
Para imaginar uma vida inteira, precisamos imaginar também a possibilidade de
perder essa vida. O futuro feliz só é desejável porque sabemos que ele não é
garantido. Isso faz com que o filme não seja simplesmente sobre “acreditar no
amor”. É sobre aceitar a incerteza do amor, não saber se vai durar, não saber
se vai funcionar, não saber se aquela pessoa será realmente o amor da sua vida.
Mas é preciso decidir se vale a pena tentar.
Sendo
assim, a metáfora do trapézio é provavelmente a síntese do filme. A ideia de
duas pessoas soltarem suas “mãos dos trapézios” é especialmente forte porque
transforma o relacionamento em uma espécie de ato de confiança. Enquanto
permanecemos agarrados ao que conhecemos, estamos seguros. Quando soltamos,
existe um intervalo em que não temos controle. O amor está justamente nesse
intervalo.
Não existe maneira racional de garantir que um relacionamento dará certo antes de vive-lo. Você pode avaliar compatibilidade, imaginar o futuro e tentar se proteger. Mas, em algum momento, precisa correr o risco. O filme entende que essa falta de garantia não é uma falha do amor. É parte essencial de sua experiência.
“Uma
Vida Inteira” é menos um filme sobre uma vida inteira do que sobre o instante
em que uma vida pode mudar de direção. Duas pessoas se encontram e ainda não
sabem o que serão uma para a outra. Porém, naquele momento, existe a
possibilidade de tudo. O título ganha então uma dimensão muito bonita. Uma vida
inteira pode estar contida não nos anos que serão efetivamente vividos, mas na
quantidade de futuros que conseguimos imaginar diante de uma nova relação.
E
existe uma reflexão muito interessante ao terminar de assistir “Uma Vida
Inteira”: vale a pena se entregar a algo cujo futuro não podemos conhecer? O
filme parece responder que sim, não porque exista garantia de felicidade, mas
porque a ausência de garantia é justamente o que torna o amor uma experiência
de risco e, portanto, de escolha. Amar significa aceitar que não sabemos o que
acontecerá depois do salto.













































