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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

UMA VIDA INTEIRA (2012)

 


        Baseado na crônica “O Salto”, de Antônio Prata, e com direção e roteiro de Ricardo Santini e Bel Ribeiro, “Uma Vida Inteira” é um filme de Romance que tem a ideia central já muito bem sintetizada no título.

         O curta acompanha um casal desde a primeira noite juntos até a possibilidade de um futuro que talvez nunca aconteça. O interessante é que o filme não precisa mostrar literalmente uma vida inteira. Ele trabalha com a imaginação do futuro. Em poucos minutos, uma relação recém iniciada pode carregar casamento, rotina, envelhecimento, desgaste, separação e todas as possibilidades intermediárias. É como se, no instante em que duas pessoas se apaixonam, elas também começassem a imaginar tudo aquilo que poderá acontecer entre elas.

        “Uma Vida Inteira” fala menos sobre o futuro do que sobre a ansiedade diante dele. O personagem narrador não está simplesmente apaixonado. Ele também está tentando imaginar o que acontecerá se esse amor der certo. E imaginar o futuro significa imaginar também a possibilidade de que ele dê errado. É uma contradição bastante humana. Queremos viver o amor, mas temos medo das consequências de nos entregarmos a ele. Por isso, o curta pode ser entendido como uma história sobre expectativa e medo. A pessoa deseja se aproximar, mas sabe que se aproximar significa abandonar uma certa segurança.

         A metáfora do salto é utilizada com profunda eficiência. Ela representa o momento em que duas pessoas deixam uma posição de segurança para apostar em alguma coisa cujo resultado não podem conhecer. Isso combina perfeitamente com o amor. Porém, chega um momento em que é preciso simplesmente se lançar. Uma vida inteira pode caber justamente nesse intervalo entre decidir saltar e descobrir onde se vai chegar.

        Há algo muito interessante na relação entre o tempo real e o tempo imaginado. O espectador está vendo uma história de apenas alguns minutos, mas a narrativa abre a possibilidade de acompanharmos décadas. Isso cria uma espécie de compressão temporal. Acontecimentos que levariam anos são concentrados em pensamentos, expectativas e possibilidades. É uma solução particularmente interessante da narrativa do filme. Os realizadores perguntam, de maneira bastante delicada, quantas coisas podem ser imaginadas quando uma relação ainda está começando.

         Outro recurso muito bem empregado pelos diretores, e que faz parte do texto de Antônio Prata, é estabelecer a vida cotidiana aparecendo antes mesmo dela acontecer. Há a possibilidade de imaginar uma relação não apenas através dos grandes acontecimentos, mas através de pequenas rotinas. É aí que o filme se torna menos romântico no sentido tradicional. Não se trata apenas de imaginar grandes declarações de amor. É imaginar a vida comum. Um restaurante, uma mesa, uma bebida, pequenos hábitos, conversas repetidas e silêncios. Essas pequenas coisas podem parecer insignificantes, mas são justamente elas que constituem uma vida compartilhada.

        Alice Braga e Bruno Autran sustentam uma narrativa muito delicada com muita competência, eficiência e sensibilidade. O filme é praticamente um estudo de dois personagens. Não basta representar duas pessoas apaixonadas. É preciso transmitir diferentes possibilidades de uma relação, como entusiasmo, desejo, insegurança, intimidade e medo. Como a narrativa depende bastante daquilo que é imaginado, a atuação precisa ajudar o espectador a acreditar tanto no presente quanto nos futuros possíveis.

         A fotografia e a trilha sonora são fundamentais para criar esse romantismo existente em “Uma Vida Inteira”. A fotografia de Leo Ferreira, a montagem de Márcio Hashimoto, a direção de arte de Taisa M. Rodrigues e a trilha sonora de Fábio Góes constroem um universo único entre os personagens. Cada elemento técnico ajuda a diferenciar o presente concreto das possibilidades imaginadas de uma forma extremamente comovente. O filme tem uma proposta que poderia facilmente ficar excessivamente literária, justamente por ser baseado em uma crônica. No entanto, fotografia, trilha sonora e montagem transformam com muita competência pensamento em imagem cinematográfica.

         O curta pode parecer extremamente otimista porque fala da possibilidade de duas pessoas se entregarem ao amor. Mas existe uma melancolia na própria estrutura. Para imaginar uma vida inteira, precisamos imaginar também a possibilidade de perder essa vida. O futuro feliz só é desejável porque sabemos que ele não é garantido. Isso faz com que o filme não seja simplesmente sobre “acreditar no amor”. É sobre aceitar a incerteza do amor, não saber se vai durar, não saber se vai funcionar, não saber se aquela pessoa será realmente o amor da sua vida. Mas é preciso decidir se vale a pena tentar.

         Sendo assim, a metáfora do trapézio é provavelmente a síntese do filme. A ideia de duas pessoas soltarem suas “mãos dos trapézios” é especialmente forte porque transforma o relacionamento em uma espécie de ato de confiança. Enquanto permanecemos agarrados ao que conhecemos, estamos seguros. Quando soltamos, existe um intervalo em que não temos controle. O amor está justamente nesse intervalo.

        Não existe maneira racional de garantir que um relacionamento dará certo antes de vive-lo. Você pode avaliar compatibilidade, imaginar o futuro e tentar se proteger. Mas, em algum momento, precisa correr o risco. O filme entende que essa falta de garantia não é uma falha do amor. É parte essencial de sua experiência.

         “Uma Vida Inteira” é menos um filme sobre uma vida inteira do que sobre o instante em que uma vida pode mudar de direção. Duas pessoas se encontram e ainda não sabem o que serão uma para a outra. Porém, naquele momento, existe a possibilidade de tudo. O título ganha então uma dimensão muito bonita. Uma vida inteira pode estar contida não nos anos que serão efetivamente vividos, mas na quantidade de futuros que conseguimos imaginar diante de uma nova relação.

         E existe uma reflexão muito interessante ao terminar de assistir “Uma Vida Inteira”: vale a pena se entregar a algo cujo futuro não podemos conhecer? O filme parece responder que sim, não porque exista garantia de felicidade, mas porque a ausência de garantia é justamente o que torna o amor uma experiência de risco e, portanto, de escolha. Amar significa aceitar que não sabemos o que acontecerá depois do salto.




sábado, 12 de setembro de 2026

FRAGMA (2013)

 


        Com direção, roteiro e produção executiva de Eduardo Moraes, “Fragma” é um curta de Drama que explora de maneira sensível e emocionante temas como memória, passagem do tempo, perda, abandono e permanência afetiva. Os realizadores exploram os gêneros Mistério e Romance. No entanto, o conflito central abarca temas que vão para muito além dessas classificações.

         O ponto de partida de “Fragma” é simples, mas carregado de possibilidades: um homem entra em um campus universitário e encontra um rapaz, inicialmente arredio e hostil. Ele diz que tem algo para mostrar e entrega o pequeno monóculo que permite observar uma fotografia ampliada.

        A partir desse objeto, o filme abre uma janela para uma história muito maior. O monóculo funciona como gatilho da memória. Ao olhar através dele, o rapaz não vê simplesmente uma fotografia: ele mergulha em uma sequência de lembranças. A narrativa passa a mostrar a relação dele com uma mulher: aproximação, paixão, convivência e, posteriormente, a ausência dela.

         O filme não explica imediatamente por que essa mulher desapareceu da vida dele. O mistério está menos em “descobrir um segredo” e mais em entender a história emocional que conecta aquelas pessoas. O encontro no campus funciona como ponto de partida para uma viagem pelo passado, na qual cada lembrança acrescenta uma nova peça à história.

         A memória é provavelmente um dos elementos mais importantes de “Fragma”. A estrutura visual identifica isso: no presente há campus, biblioteca, encontro. O passado se divide em dois. O do rapaz que entrega o monóculo e o do que recebe. Para um, o passado representa um intenso relacionamento amoroso. Para o outro, infância e amor. Diferentes momentos das vidas aparecem como fragmentos que precisam ser conectados.

      A narrativa não entrega uma biografia completa dos personagens. Ela oferece momentos significativos. E são esses momentos que permitem ao espectador reconstruir a história. A memória também não aparece como algo neutro. Ela está ligada à emoção, e aquilo que permanece na lembrança é justamente aquilo que teve importância afetiva. O filme transforma, assim, a lembrança em uma forma de reconstrução do passado.

         O contraste visual entre presente e passado é explorado de maneira genial pela fotografia. No tempo presente, quando os personagens estão no campus e na biblioteca, predominam filtros de tonalidades cinzentas e azuladas. A fotografia trabalha cores frias, transmitindo uma sensação mais distante e melancólica. Dessa forma, o presente parece emocionalmente esvaziado.

        Nas lembranças do relacionamento amoroso surgem cores vibrantes, maior luminosidade, tons mais claros, sensação de calor e vitalidade. A imagem transmite uma existência emocionalmente mais intensa. E isso também acontece nas lembranças relacionadas ao homem que entrou no campus, quando suas lembranças de infância vêm à tona.

         Essa diferença cromática pode ser interpretada como uma maneira de transformar visualmente a memória em um espaço de vida. O passado é colorido não necessariamente porque tudo tenha sido perfeito, mas porque foi vivido intensamente. O presente, por outro lado, é frio porque carrega as consequências daquilo que aconteceu. A fotografia transforma essa oposição emocional em uma experiência visual muito clara.

           No início, quando entramos junto com o personagem no campus, encontramos um jovem em uma mesa. Depois que ele observa pelo monóculo e mergulha na sequência de lembranças, o filme apresenta uma passagem temporal enorme. Voltando ao presente, vemos o mesmo homem, mas agora muito mais velho e grisalho. Isso pode ser interpretado de maneira bastante simbólica. Fisicamente, o tempo passou. Emocionalmente, talvez ele tenha permanecido preso àquele momento. A sensação é de que a vida continuou, o corpo envelheceu, os anos passaram, mas aquele amor permaneceu congelado dentro dele. O passado não é apenas algo que ele recorda. É algo que continua vivendo dentro dele.

         Apesar dos poucos diálogos, o elenco entrega atuações fantásticas. Rafael Primot é o nosso condutor pela jornada. Ele entra no campus, percorre corredores e escadas. Encontra o jovem, interpretado por Eduardo Moraes, que, inicialmente, o trata mal. Juliana Ianina domina ações, interações e o motor dramático da vida daqueles dois homens. Primeiramente em sua relação com o jovem homem e, posteriormente, com o bebê, interpretado por Otto Sanches. Luiz Carlos Vasconcelos surge em tela, num final extremamente emocionante e avassalador.

         Um aspecto interessante é que o filme não explica imediatamente por que a mulher desaparece da vida do homem. Essa ausência pode ser mais importante do que uma explicação objetiva. O guarda-roupa vazio, os cabides sem roupas. É uma imagem simples, mas representa concretamente a ausência. A pessoa desapareceu, e aquilo que resta é o espaço que ela ocupava. O vazio físico passa a representar também o vazio emocional deixado por sua partida.

         “Fragma” tem elementos técnicos muito bem utilizados para criar uma atmosfera vibrante, mas, instantes depois, melancólica e triste. As idas e voltas nestes dois mundos representam como lembramos de momentos felizes e marcantes e como lidamos com um presente frio e vazio. A montagem é executada de maneira primorosa, reconstruindo aos dois protagonistas um passado que pertence a eles dois.

         Direção de arte, figurino, maquiagem e trilha sonora também merecem destaque. Tudo funciona como base para as atuações e sensações que a obra transmite ao espectador. Os elementos técnicos não se sobrepõem às atuações, mas servem como bases de sustentação narrativa e dramática, ajudando a estabelecer as diferentes temporalidades e atmosferas.

            Um dos grandes acertos de “Fragma” é apresentar duas vidas, duas perspectivas e uma possível relação entre pai e filho. A presença do rapaz no campus ganha importância porque descobrimos depois que ele não é simplesmente um estranho. A estrutura do filme começa a revelar que existem duas vidas ligadas por uma mesma mulher. Isso cria um interessante paralelismo: o homem carrega a memória da mulher como companheira, o rapaz carrega a memória dela como mãe. Ambos possuem relações diferentes com a mesma pessoa. Ambos foram marcados pela ausência dela. O filme não está interessado apenas na história entre um homem e uma mulher, mas nas diferentes formas pelas quais uma mesma pessoa pode permanecer na memória daqueles que a amaram.

         “Fragma” pode ser entendido como uma narrativa construída a partir de fragmentos de vidas e memórias, em que o espectador precisa reunir essas partes para compreender não apenas o que aconteceu, mas o que aquele passado significou para quem ficou e como o presente pode ser ressignificado.




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ANACHRONIQUE (2011)

        Com roteiro e direção de Mário Masetti, “Anachronique” é um delicioso curta de Romance que apresenta o encontro de uma mulher que trabalha sozinha numa floricultura sem clientes e um homem que entra no estabelecimento comercial sem muitos motivos. No entanto, a partir desse encontro, há uma interação muito interessante entre os personagens, magistralmente interpretados por Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos.

         Eles se conhecem, porém têm dificuldades em se apresentar. Surge um sentimento. No entanto, esse sentimento não pode ser apresentado por eles, justamente pelo fato de não terem se apresentado. Assim, na opinião dos protagonistas, eles ainda não se conhecem. Existe uma situação quase infantil nessa lógica, mas é justamente essa ingenuidade que torna o relacionamento entre os dois tão interessante.

         Existe uma possibilidade de encontro amoroso. O problema é que eles não conseguem transformar essa possibilidade em encontro de verdade. É justamente aí que o nonsense entra. Em vez de utilizar o absurdo para criar uma situação grandiosa ou surrealista, Mário Masetti parte de uma situação cotidiana e faz com que ela gradualmente se torne estranha. O espectador reconhece aquela dificuldade. São duas pessoas tímidas que poderiam se aproximar, mas não conseguem. O que muda é a maneira como essa dificuldade é apresentada.

         Baseado no texto “A Florista e o Visitante”, de Vera Karam, a própria divulgação do filme destaca a influência de Samuel Beckett. Entretanto, essa influência é importante, mas não deve ser vista como simples imitação. O que ocorre em “Anachronique” é uma situação que nasce da espera, da repetição, da dificuldade de comunicação e da sensação de que alguma coisa deveria acontecer, mas não acontece. Os personagens estão diante da possibilidade de uma aproximação, mas permanecem presos à própria incapacidade de agir. Só que Vera Karam acrescenta uma camada de humor brasileiro que impede que a situação fique excessivamente filosófica ou sombria.

         A escolha da floricultura como ambiente narrativo não parece casual. Flores estão associadas ao amor, ao desejo, ao namoro, à declaração e ao romance. É quase irônico colocar uma mulher que vende flores, objetos tradicionalmente associados à aproximação amorosa, em uma situação em que ela própria não consegue estabelecer uma aproximação. A loja está cheia de símbolos do romance, mas o romance não consegue acontecer. Isso cria uma espécie de paradoxo visual. Há flores por toda parte, mas falta justamente aquilo que elas normalmente representam.

        A floricultura sem clientes também pode representar a própria vendedora. A floricultura está sem compradores. A mulher está ali, esperando, e o lugar parece parado. Ela também parece parada. O estabelecimento pode ser interpretado quase como uma extensão psicológica da personagem. Ela não está apenas trabalhando em uma loja sem movimento. Ela própria parece incapaz de fazer sua vida avançar. Quando o homem entra, surge uma possibilidade de mudança. Mas a timidez impede que essa possibilidade se concretize. Assim, o filme transforma uma situação amorosa em uma pequena reflexão sobre inércia e oportunidade.

         Bebel Ribeiro e Marco Aurélio Campos têm atuações sublimes. A química entre os atores eleva a produção a um patamar que impressiona. “Anachronique” marcou a estreia de Mário Masetti em direção cinematográfica. Masetti tem uma trajetória extensa no teatro, e as atuações dos protagonistas, interpretadas teatralmente, criam uma experiência extremamente profunda, acentuando o poder dramático e narrativo da obra. O filme ainda conta com uma participação especial de “Taubaté” Lisboa.

        Outro detalhe pertinente e acertado por parte dos realizadores é a quebra da quarta parede. O homem interage com o espectador, e isso dá ainda mais qualidade à obra, porque o público simplesmente não assiste a um curta, ele participa do filme. Essa interação também contribui para o tom de humor e para a construção de cumplicidade com quem está acompanhando a história. O espectador passa a compreender a situação de uma maneira diferente, como se recebesse informações que o aproximam ainda mais do personagem.

         Apesar de o gênero de “Anachronique” ser Romance, o filme se destaca pela maneira como o humor nasce do desconforto. O filme trabalha com um tipo de humor que não depende de uma piada tradicional. É o humor do constrangimento, da demora e do absurdo da situação. O espectador percebe que existe uma possibilidade romântica entre aquelas pessoas e justamente por isso começa a esperar que algo aconteça. Quando os personagens não conseguem avançar, a expectativa se transforma em humor. Em muitos pontos, a interação do homem com o espectador aprofunda ainda mais esses alívios cômicos.

        Esse mecanismo é muito próximo do teatro do absurdo. A situação se prolonga, a comunicação se torna estranha e aquilo que deveria ser simples se torna extraordinariamente complicado. A graça nasce justamente da dificuldade de fazer algo que, para qualquer outra pessoa, pareceria extremamente fácil.

         “Anachronique” recebeu com méritos o prêmio de Melhor Direção de Arte no VIII Curta Canoa. Isso reforça a importância da floricultura como espaço dramático. A direção de arte não serve apenas para tornar o cenário bonito. Num filme tão dependente de um único ambiente, o espaço precisa ajudar a construir a atmosfera. Flores, objetos, disposição do estabelecimento e o próprio aspecto da loja podem reforçar a sensação de um mundo ligeiramente deslocado da realidade. Cenário, objetos, figurino e maquiagem têm parcelas substanciais na qualidade da obra, com um trabalho primoroso.

         Outros elementos técnicos, como fotografia, montagem e trilha sonora, também são fundamentais. A fotografia se concentra em capturas pontuais de movimentos, ações e expressões, enquanto a trilha sonora dá suporte às atuações dos personagens. Os aspectos técnicos servem como alicerce para que os atores brilhem, sem retirar deles a responsabilidade de conduzir a maior parte da experiência dramática.

         “Anachronique” é uma pequena história sobre duas pessoas que estão diante da possibilidade de mudar suas vidas, mas não conseguem sair da própria inércia. A floricultura representa o amor. O homem que chega representa a possibilidade. A mulher representa a espera. Porém, a timidez representa aquilo que impede a transformação da possibilidade em acontecimento.

        O mais interessante é que o filme transforma essa situação potencialmente melancólica em comédia. Nós rimos porque o comportamento dos personagens é absurdo. Mas, por baixo do absurdo, existe uma situação bastante humana. Quantas vezes duas pessoas poderiam ter se aproximado se simplesmente tivessem conseguido dizer ou fazer aquilo que sentiam? E talvez o “anacronismo” esteja justamente aí: pessoas que vivem em um mundo moderno, mas emocionalmente parecem presas a um tempo em que não conseguem avançar.

         “Anachronique” não deve ser tratado apenas como uma comédia nonsense ou como uma adaptação cinematográfica de Vera Karam. Há um amor puro, genuíno e, podemos dizer, até mesmo infantil. O filme parece usar o absurdo para ampliar uma situação cotidiana até o ponto em que ela se torna reveladora. Duas pessoas tímidas diante de uma possibilidade amorosa deixam de ser apenas duas pessoas tímidas. Elas passam a representar todos aqueles momentos em que esperamos uma iniciativa do outro, enquanto o outro espera a nossa.

         A floricultura está cheia de flores, mas o romance não floresce. E essa talvez seja a melhor ironia do curta: em um lugar destinado a vender símbolos de amor, duas pessoas não conseguem sequer encontrar coragem para começar uma história de amor. É uma conclusão simples, mas que resume perfeitamente o humor, a delicadeza e a melancolia escondida por trás do nonsense de Mário Masetti.




        

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O BOSQUE DOS SONÂMBULOS (2017)

 


Com direção e roteiro de Matheus Marchetti, “O Bosque dos Sonâmbulos” é uma obra que encanta desde seus primeiros minutos e impressiona pela enorme qualidade técnica, narrativa e dramática. Trata-se de uma produção ambiciosa, visualmente rica e realizada com um cuidado que chama atenção em cada detalhe de sua construção.

         Diferente de um Terror convencional, “O Bosque dos Sonâmbulos” mistura elementos de fantasia gótica, musical, romance, conto de fadas sombrio e horror vampiresco. Contando com um grande elenco e diversos figurantes, o curta cria um universo próprio, povoado por personagens que transitam entre o sonho, o desejo e a fantasia. O resultado é uma narrativa sensível, elegante e carregada de simbolismos.

         Transitando entre Terror, Suspense, Musical, Drama e Romance, o filme inicia sua história em um luxuoso hotel isolado. Durante o dia, o ambiente parece organizado, seguro e previsível. Porém, quando a noite chega, uma força misteriosa conduz os hóspedes para o bosque próximo. É nesse espaço que os sentimentos reprimidos emergem, os desejos se intensificam e as transformações acontecem.

          A divisão simbólica entre hotel e bosque é um dos aspectos mais interessantes da obra. Enquanto o hotel sugere civilização, regras sociais, controle e comportamento esperado, o bosque surge como um espaço de libertação. É ali que os personagens abandonam máscaras e convenções para entrar em contato com impulsos, afetos e desejos que permanecem escondidos durante o cotidiano. Dessa forma, o bosque funciona tanto como cenário físico quanto como uma representação psicológica.

         O sonambulismo presente no título também parece operar mais no campo da metáfora do que da literalidade. Os “sonâmbulos” não são apenas pessoas que caminham enquanto dormem. Eles podem representar indivíduos que vivem presos a rotinas automáticas, incapazes de expressar plenamente aquilo que sentem. Quando atravessam o limite entre hotel e bosque, passam a experimentar uma espécie de despertar emocional.

         Dentro dessa proposta, os vampiros desempenham um papel particularmente interessante. Em vez de serem tratados apenas como monstros ou ameaças, eles surgem associados à sedução, ao desejo, à liberdade e à transformação. O filme parece sugerir que o verdadeiro conflito não está entre humanos e criaturas sobrenaturais, mas entre repressão e expressão, entre medo e descoberta, entre aquilo que se é e aquilo que se deseja ser.

         Apesar das inúmeras referências que podem ser identificadas ao longo da narrativa, “O Bosque dos Sonâmbulos” possui identidade própria. É possível perceber ecos de obras vampirescas clássicas, da fantasia gótica europeia, da ópera, do teatro musical e do cinema fantástico. Ainda assim, Matheus Marchetti utiliza essas influências para construir algo genuinamente autoral, sem jamais soar como mera reprodução de modelos conhecidos.

         Com Celo Carvalho, Kaleb Figueiredo e Pier Marchi entre os destaques do elenco como personagens principais, o filme desenvolve seus conflitos de forma fluida e envolvente. Os números musicais não interrompem a narrativa. Pelo contrário, funcionam como parte essencial dela, aprofundando emoções, conflitos e relações entre os personagens.

        Os aspectos técnicos impressionam. A direção de arte, o figurino e a maquiagem ajudam a construir um universo visual extremamente rico, tanto nos detalhes dos personagens quanto nas ambientações. A fotografia merece elogios especiais pelo uso expressivo das cores, das sombras e da iluminação, criando imagens que reforçam constantemente o caráter fantástico da obra. A montagem contribui para manter o ritmo e a fluidez da narrativa, permitindo que os diferentes gêneros coexistam de maneira harmoniosa.

         A trilha sonora é um dos maiores destaques do curta. Como se espera de um musical, as canções não servem apenas como complemento. Elas ampliam sentimentos, revelam desejos ocultos e ajudam a desenvolver a própria narrativa. Em muitos momentos, a música se transforma na voz interior dos personagens, tornando a experiência ainda mais imersiva e emocional.

        “O Bosque dos Sonâmbulos” não é um filme de terror focado em monstros ou sustos. É uma fantasia sombria sobre transformação, identidade e liberdade emocional. Os vampiros representam aquilo que os personagens desejam se tornar, enquanto o hotel simboliza aquilo que a sociedade espera deles. O Horror existe, mas funciona principalmente como linguagem estética. O verdadeiro coração da obra está na forma delicada e criativa como ela discute desejos, afetos e a busca pela própria identidade.




domingo, 12 de abril de 2026

TUDO BEM (2020)

 


Uma tranquila praça se torna o palco central onde um jovem e uma garota se conhecem. O ano é 2020, e o vírus SARS-CoV-2 começa a gerar preocupação em toda a população brasileira. Ambos, fãs de cultura pop, se aproximam pouco antes do isolamento social se tornar uma necessidade mais rigorosa. No entanto, não trocam contatos e nem ao menos sabem seus nomes, criando uma sensação de encontro perdido que carrega ternura e melancolia.

         “Tudo Bem”, produzido obedecendo rigorosamente todos os protocolos de saúde durante a pandemia, é uma realização de Caio César e João Frazão, estrelando Daniel Rangel e Heslaine Vieira. Com roteiro e direção de Caio César, o curta se destaca como uma obra sensível e intimista, inserida nos gêneros Drama e Romance, oferecendo uma abordagem profunda e extremamente pertinente para um período coletivo marcado por dor, medo e isolamento.

        As referências a filmes, animações e personagens conferem leveza e naturalidade ao curta, transformando pequenos detalhes em elementos que aproximam o espectador da trama. A química entre Daniel Rangel e Heslaine Vieira é palpável, transmitindo autenticidade em cada gesto, sorriso e olhar. O primeiro encontro, as preocupações silenciosas, o receio de nunca mais se encontrarem: tudo é retratado com uma genuinidade rara, tornando a experiência muito próxima do cotidiano de quem viveu o período da pandemia.

         Um dos grandes acertos da direção é a aposta na simplicidade como forma de conduzir a narrativa. Cada cena é pensada para ser absorvida sem pressa, permitindo que o público se conecte emocionalmente com os personagens. O ritmo da obra nunca atrasa nem apressa, mantendo um equilíbrio que faz com que cada momento seja sentido e compreendido em sua profundidade. “Tudo Bem” consegue, assim, cativar desde o início até o último frame.

        Hugo e Dandara tentam se adaptar ao “novo normal” imposto pela pandemia, enfrentando situações que muitos brasileiros conheceram de perto: perdas, lutos, medos e incertezas. O curta consegue transmitir essa realidade sem pesar excessivamente, mostrando que mesmo quem não perdeu familiares ou amigos compartilha da dor coletiva do período. Ao assistir, é impossível não se emocionar com a delicadeza com que esses sentimentos são tratados, reforçando a necessidade de acolhimento e empatia.

         Lembro de ter assistido ao filme pouco após sua estreia, e os lembretes sutis de que está tudo bem chorar, sentir dor ou ansiedade se mostraram fundamentais. O curta nos lembra que permitir-se sentir e buscar apoio, seja de amigos ou profissionais de saúde mental, é essencial, principalmente em tempos de incerteza, quando os noticiários mostravam diariamente números de mortos chegando a três ou quatro mil.

         Produzido pela Pulo do Gato Preto Produções, “Tudo Bem” ainda possui duas sequências: “Nosso Tudo Bem” e “Nosso Tudo Bem 2”, disponíveis no canal da produtora no YouTube. Essas continuações proporcionam ao público a sensação de que a história de Hugo e Dandara não termina no curta inicial, oferecendo um desfecho que traz esperança e satisfação.

         Do ponto de vista técnico, a direção de fotografia de “Tudo Bem” é competente e detalhista. Planos abertos, iluminados, alternam-se com planos mais fechados e densos, captando a luz natural de forma a amplificar a sensação de presença do espectador. Em cenas de chamadas de vídeo, o uso de split screen humaniza ainda mais os personagens, aproximando-os das relações reais e contemporâneas que todos vivenciaram durante a pandemia.

         A trilha sonora, o som direto e a mixagem contribuem de forma elegante e eficiente para a narrativa, enquanto direção de arte, figurino, maquiagem e montagem completam o conjunto, evidenciando a qualidade da produção. André Luiz Frambach e Pedro Ottoni complementam o elenco com atuações que fortalecem a imersão do público.

         “Tudo Bem” é emocionante e cativante. Mostra que é possível se aproximar, se apaixonar e viver mesmo em tempos difíceis e tristes. Sua mensagem central traz conforto e esperança, lembrando que, assim como Hugo e Dandara, muitos casais se conheceram pouco antes ou durante o isolamento social, conectados por redes sociais, aplicativos ou encontros fortuitos. O curta prova que, mesmo em momentos de incerteza, histórias de amor e afetividade podem florescer com beleza e sensibilidade.




sábado, 16 de agosto de 2025

LIXO (2023)

 

O que se vê em cena provavelmente não é a primeira discussão sobre o assunto entre Guta e Ernesto, mas, provavelmente será a última. Há algo de cíclico nesse embate, como se fosse um capítulo recorrente na vida conjugal do casal. Sob a direção segura de Renato Simões e com roteiro de Cadu Pereiva, “Lixo” nos apresenta esses dois personagens interpretados com naturalidade e presença por Rebecca Carvalho e Ben Gomes, mergulhando o espectador, já no início, em uma situação íntima que equilibra descontração e franqueza.

A comédia, de imediato, encontra seu ponto de partida no cansaço de Ernesto, mais uma vez abordado por Guta no momento em que ela busca intimidade. O texto, longe de adotar um tom vulgar, opta por brincar com a forma como o sexo é representado em tela, refletindo, com sutileza, sobre a função que o desejo e o contato físico exercem dentro de uma relação. Há humor, mas também existe um subtexto sobre expectativas, rotina e a capacidade (ou incapacidade) de comunicação entre parceiros.

À medida que a narrativa avança, novas camadas se revelam. A recusa de Ernesto não é mero desinteresse, há uma motivação curiosa e inesperada, construída de maneira hilária, que envolve desejos adormecidos, vontades inesperadas e a tentação de experimentar algo novo. O ponto alto da trama ocorre quando Ernesto revela ter encontrado, no lixo do condomínio, um antigo diário pertencente a outro morador. Ao folhear as páginas, ele se aproxima emocionalmente do autor anônimo, numa conexão silenciosa que contrasta com o distanciamento de sua própria esposa.

“Lixo” transcende a comédia romântica ao explorar tabus de forma desarmada. Guta, jovem, atraente e confiante, não consegue compreender como o marido poderia voltar suas atenções para outra pessoa. Mas o roteiro subverte as expectativas: o interesse de Ernesto não se traduz numa traição convencional, e sim numa forma alternativa de intimidade e identificação. Essa descoberta é tanto um choque para ele quanto para o público, pois o obriga a questionar seus próprios limites e o medo de revelar sentimentos que podem não ser correspondidos.

Rebecca Carvalho e Ben Gomes entregam atuações cheias de carisma e sintonia, com um timing cômico preciso e uma energia que mantém a narrativa agradável. A química entre eles é convincente o suficiente para que o espectador acredite tanto no desgaste da relação quanto no vínculo afetivo que ainda os une. A presença de Giulia Tolezzani, numa participação especial, ainda que breve, ajuda a ampliar a percepção do espectador sobre o segredo de Ernesto.

O roteiro é ágil e bem amarrado, evitando dispersões e conduzindo a história de forma fluida até uma resolução final espirituosa, que combina a leveza da comédia com a doçura de um olhar compreensivo sobre as falhas humanas. A direção de Renato Simões demonstra precisão na gestão do ritmo e na harmonização dos elementos narrativos, potencializada por uma fotografia funcional e uma direção de arte que não se impõe, mas constrói um cenário cotidiano verossímil. A trilha sonora, pontual e bem inserida, reforça a pegada cômica sem sobrecarregar as cenas.

“Lixo” é mais que uma comédia de DR’s e desencontros conjugais; é um retrato espirituoso sobre afetividade, comunicação e aceitação das diferenças, seja de idade, orientação sexual ou expectativas emocionais. Um curta que diverte, provoca reflexões leves e, acima de tudo, humaniza seus personagens, lembrando-nos de que nem todo conflito precisa ser resolvido com grandes gestos, às vezes, basta rir junto.




quinta-feira, 7 de agosto de 2025

JOSEFINA (2017)



           Inspirado na fotonovela homônima de Walda Marques, “Josefina” é um Suspense romântico que envolve o espectador ao mergulhar nas complexidades da nostalgia, do amor, dos sonhos e da solidão, explorando essas emoções em suas formas mais puras e delicadas. A trama, estruturada de maneira fragmentada, constrói uma narrativa que mistura passado e presente, realidade e fantasia, oferecendo uma experiência cinematográfica rica em significados e interpretações.

O curta-metragem se baseia na lenda urbana da “Moça do Carro de Aluguel”, um conto popular sobre a aparição sobrenatural de uma jovem mulher que sempre solicita carona para taxistas em noites silenciosas nas ruas da cidade de Belém, no Pará. Esse detalhe acrescenta à obra uma camada de mistério e sobrenaturalidade, que reforça o tom melancólico e poético da história.

A trilha sonora, cuidadosamente selecionada, complementa a narrativa com uma sensibilidade ímpar, potencializando os momentos de introspecção e solidão. Já a fotografia, com enquadramentos sutis e uma paleta de cores suave, cria uma atmosfera de nostalgia que transporta o público para as memórias dos personagens. Cada elemento visual e sonoro se entrelaça de forma harmônica, elevando o impacto emocional da obra.

O enredo gira em torno de três personagens principais que, à primeira vista, parecem desconectados, mas que estão unidos por algo muito mais profundo e enigmático. Josefina, interpretada com delicadeza por Paola Pinheiro, é uma jovem que, ao longo do filme, revive constantemente as lembranças dos momentos felizes que passava com seu pai, quando ele a levava para passear de carro nos seus aniversários. A construção da personagem é permeada por um misto de melancolia e ternura, fazendo com que suas memórias se tornem quase palpáveis para o espectador.

O segundo personagem, um jovem músico interpretado por Diogo Souza, carrega em si o peso de uma perda irreparável: o amor de sua vida. Sua dor é silenciosa, porém intensa, e sua solidão é retratada de forma sutil, mas poderosa, evocando uma sensação de vazio e saudade que ressoa profundamente no público. Por fim, temos o taxista, vivido por Claudio de Melo, que percorre as ruas da cidade em busca de algo indefinido, algo que ele sente estar perdido e que, talvez, ele nunca encontre. Sua trajetória é marcada por uma inquietação silenciosa, representando a busca incessante por respostas que a vida muitas vezes se recusa a fornecer.

“Josefina” é um Suspense poético que, além de flertar com o sobrenatural, entrelaça de maneira brilhante os gêneros do Drama e Romance, criando uma fusão única e instigante. Ao longo do filme, percebe-se que, embora o estado atual de Josefina pudesse ser interpretado como algo trágico ou assustador, sua presença é, na verdade, marcada por uma profunda serenidade. A personagem não inspira temor, mas sim um sentimento de empatia e conexão, como se suas memórias e sua presença transitória representassem a própria fragilidade da existência humana.

A temática do filme gira em torno da finitude da vida material e do questionamento sobre o que permanece após a morte. Zienhe Castro, ao dirigir a adaptação da fotonovela, opta por não se comprometer inteiramente com uma única visão — seja a de que os mortos vivem apenas em nossas lembranças, ou a possibilidade de uma existência espiritual além da morte. Em vez disso, ela mistura essas duas vertentes, criando um universo onde realidade e sonhos coexistem de maneira fluida, e o presente e o passado se entrelaçam de forma inevitável, como se um fosse consequência direta do outro.

Tecnicamente, o filme impressiona por sua cuidadosa atenção aos detalhes. A narrativa flui com naturalidade, oscilando entre momentos de introspecção e momentos de tensão, enquanto os elementos dramáticos são explorados de maneira suave, sem excessos. A delicadeza com que a história é contada, aliada à escolha precisa dos recursos visuais e sonoros, resulta em uma obra que enche os olhos do espectador e desperta nele um sentimento de saudade, como se, ao final, todos fôssemos de alguma forma parte daquele mundo onírico.

As atuações de Paola Pinheiro, Diogo Souza e Claudio de Melo são contidas, mas poderosas, revelando que a vida, com todas as suas incertezas, nos escapa pelas mãos. Suas performances revelam que há muito sobre o que não temos controle, e que, em meio a essas imposições da vida, somos forçados a seguir adiante, mesmo quando o futuro é incerto e o caminho é árduo. O filme, assim, explora o desencanto e a resignação diante de uma realidade que não é escolhida, mas que, ainda assim, deve ser enfrentada.

“Josefina” é, em essência, uma obra que vai além da simples narração de uma história. Ela transcende os limites convencionais do cinema, tornando-se uma reflexão profunda sobre a condição humana, sobre o que significa viver e, sobretudo, sobre o que permanece quando já não estamos mais aqui. A produção é um verdadeiro testemunho do talento da equipe técnica e criativa, que soube dosar com precisão cada elemento da narrativa, entregando um resultado final que é ao mesmo tempo sensível e impactante.

A sensibilidade com que o filme trata temas como o amor, a perda e a busca por algo que não se pode alcançar, torna "Josefina" uma verdadeira obra de arte.




sábado, 31 de maio de 2025

INSPIRAÇÃO (2012)


           Vencedor do "Make it Short", festival internacional de curtas-metragens destinados a jovens diretores, realizado pelo ator e produtor Antonio Banderas em busca dos melhores roteiros para suas fragrâncias, “Inspiração” narra parte da vida de Maria, quando ela passa a demonstrar interesse por uma pessoa que encontra no elevador do prédio onde trabalha.

Em meio a agitação da cidade e o vai e vem no saguão do prédio, Maria se vê sozinha com Carlos dentro do elevador. A narração em Voice-over é essencial para a condução da trama, transmitindo os sentimentos, expectativas e indagações da nossa protagonista, muito bem interpretada por Isabella Lemos. O elenco ainda conta com Roberto Lacava, no papel de Carlos, e André Santi, num papel secundário, mas não menos importante para o desenvolvimento da trama.

         Maria passa por uma transformação, na tentativa de ser notada por Carlos. Porém, ela desperta a atenção de outros homens e não conseguindo atingir seu objetivo.

         A carga de humor do filme é muito bem dosada, tanto através da narração da protagonista quanto pelos eventos que ocorrem no decorrer do curta. O diretor e roteirista Vitor Coldibelli, consegue extrair o máximo do texto, contribuindo para a afinidade criada entre personagens e público. O argumento é de Vitor Coldibelli e Roberto Lacava.

         Apesar de ser uma Comédia Romântica, o filme levanta questões importantes sobre aceitação e a forma como algumas relações podem se iniciar, não por uma mudança física no visual, mas por uma atitude. Maria se questionou sobre vários pontos que podem trazer inseguranças para algumas pessoas quando o assunto é demonstrar interesse por alguém e esperar que esse interesse seja correspondido. Porém, são outros atributos que podem decidir sobre o destino.

             Com elementos técnicos de produção muito bem executados, “Inspiração” conta com uma ótima direção de fotografia, arte e trilha sonora na medida certa. Tudo contribui para a construção de um universo real e natural, apresentado em cena. Tanto em relação a elementos técnicos, narrativos e dramáticos, “Inspiração” tem uma qualidade inquestionável, tendo em seus pouco menos de 8 minutos, um desenvolvimento gradual e que agrada pela sua eficiência e dinamismo.

         “Inspiração” é um ótimo exemplo de como roteiro e elementos técnicos podem resultar numa excelente experiência no audiovisual em curta-metragem. É um filme leve, com camadas importantes e que fascina ao mesmo tempo que diverte.




sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A PRESEPADA (2019)

 


A ótima Comédia protagonizada por Tay Lopes tem direção de Rodrigo César e roteiro de Cadu Pereiva. A trama se desenrola seguindo um golpe que o malandro Hiltinho dá na esposa de um sargento da polícia e com quem ele tem um caso. Após se envolver com a mulher e roubar dinheiro que o sargento guardava debaixo do colchão, ela confessa a traição e o roubo ao marido.

         Perseguido pelos policiais, Hiltinho percorre vários pontos da cidade, até chegar na estação rodoviária e, ao se esconder no banheiro, encontra uma mala. Hiltinho descobre que a mala pertence a um Frei que teve uma dor de barriga. Hiltinho embarca no ônibus, vestido com as vestes do religioso e segue para Belém de Nazaré, usando a identidade de Frei Fernando.

         Quando desembarca na cidade, é recebido pelo Padre Zezinho, interpretado por Paulo Pontes, e fica sabendo que toda a paróquia lhe aguarda para a realização da Cantada de Natal.

         O curta tem uma trama muito bem desenrolada, com uma inteligente construção dos personagens e nas relações que são estabelecidas. Hiltinho conhece, ainda no ônibus, a bela Elaine, interpretada por Camila Bastos. A jovem é filha do prefeito que, alegando dificuldades financeiras, comunica ao Padre que não poderá financiar a tradicional Cantada de Natal. O ator Zé Ramos dá vida ao político.

        Neste contexto, o texto tem um campo fértil para desenvolver a Comédia, com um malando se passando por um Frei; um Romance, com o início de uma ligação de Hiltinho com Elaine; a o Drama, envolvendo o sentimento natalino da população da cidade e o risco de não ter a Cantada de Natal.

         “A Presepada” tem ótimos elementos narrativos, que além da trama conduzida pelos personagens, conta com animações inspiradas em xilogravuras e a narração de um repentista, o que insere o espectador no contexto nordestino, lembrando a literatura de cordel.

         Outro elemento narrativo muito interessante é que a equipe criativa alia muito bem a comédia mais leve a um humor mais ácido. Equilibrando muito bem esses dois tipos de humor, Rodrigo César entrega um curta muito divertido e gostoso de assistir.

        Os elementos técnicos de produção são muito bem aproveitados com destaque para a ótima fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora. A combinação desses elementos com o arco dramático, fazem de “A Presepada” uma ótima Comédia com muito humor do começo ao fim.



terça-feira, 19 de novembro de 2024

FUI COMPRAR CIGARROS (2012)

 


Entre cigarros e um clima poético, “Fui Comprar Cigarros” narra os pensamentos de um homem que vive intensamente uma relação. Provavelmente este seja o momento mais marcante de sua vida e é muito interessante como a narrativa o coloca na situação entre o “porquê” de uma coisa demorar a acontecer ou simplesmente acontecer somente após a conjugação de vários eventos.

O filme transita muito bem na combinação do Drama e do Romance, conduzindo o espectador para o universo dos protagonistas, de como se conheceram, de tudo o que viveram e como cada um tem muito a conhecer um do outro.

A vida é assim: a gente não conhece nem a nossa própria vida em sua totalidade, quanto mais a de outra pessoa? O homem, interpretado por Laerte Késsimos, levanta os questionamentos de como a vida pode surpreender quando deixamos as coisas acontecerem. O que ele vive com a mulher, interpretada por Laryssa Dias é uma paixão de uma vida. Cada toque, cada olhar, cada palavra, tudo está acontecendo ali naquele momento, e é tudo real.

“Fui Comprar Cigarros” fala de maneira poética de como o protagonista lida com seus conflitos internos e de como o tempo influencia as coisas que acontecem. Uma única noite pode dar sentido a uma vida inteira e realizar um sonho de muito tempo.

Com um belo roteiro de Leo Castelo e Rose Calza e direção refinada de Marcel Mallio, “Fui Comprar Cigarros” foi produzido de forma muito sensível. A narrativa em off, coloca o espectador lado a lado com o personagem masculino, criando um vínculo e facilitando a imersão. Trilha sonora, fotografia e arte justificam ainda mais a qualidade do filme que, ao mesmo tempo tem um ar vibrante e libertador, mas também é muito sensível.




sexta-feira, 15 de novembro de 2024

AS MÃOS DE LAURA (2011)

 

O curta de Suspense, que mescla Romance e Terror, apresenta um homem que questiona as dificuldades em se relacionar com as mulheres. As suas dificuldades se dão pelo fato de procurar pela mulher perfeita. Ele relembra os olhos de uma garota com quem teve um relacionamento. Relembra a barriga perfeita de outra. Porém, ele sonha em encontrar a perfeição numa única pessoa.

Aparentemente, o protagonista de “As Mãos de Laura” é um homem normal, que vive uma vida normal e reflete sobre coisas normais. Ao mesmo tempo em que se questiona sobre as mulheres, reflete também sobre a sociedade atual. O sujeito questiona a decadência moral e a falta de relacionamentos mais diretos, sinceros e leais. Assim como ele não encontra respostas sobre a “mulher perfeita” fica evidenciado posteriormente a contradição de seus pensamentos em relação às mulheres e também sobre a sociedade.

O nosso protagonista questiona a sociedade a partir de sua perspectiva e de sua mentalidade. E é interessante que ele se considera uma pessoa normal, mesmo diante da realidade concreta de sua vida.

A direção de Maurício Carvalho é consistente e profunda sobre a complexidade do personagem. O filme se permite a narração em off, porque, com o roteiro do próprio Maurício e Joaquim Ghirotti, nós precisamos saber mais sobre o que está na cabeça do protagonista do que no seu entorno. Destaque positivo também para a fotografia de Rafael Ruzene, som de Ronaldo Gomes, Tiago Ramos e Caetano Cotrim, e maquiagem de Sara Pires.

“As Mãos de Laura” é um Suspense com S maiúsculo, com uma qualidade criativa e técnica muito grande. É um filme que impressiona positivamente, sendo um prato cheio para quem curte uma abordagem psicológica de um personagem que pode se comportar de maneira normal ou totalmente bizarra.




SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...