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sábado, 31 de outubro de 2026

SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

 


     Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem que tinha aproximadamente 120 minutos e foi realizado em sete partes, mas a cópia integral desapareceu. A versão atualmente acessível tem cerca de 24 minutos. A identificação desse material na Cinemateca Brasileira ocorreu apenas em 1988. Portanto, um aspecto fundamental é que o filme precisa ser analisado simultaneamente como obra cinematográfica e como documento histórico.

         A grande intenção de Walfredo Rodrigues era mostrar um Nordeste diferente daquele imaginado pelo restante do país. As cartelas do filme deixam isso bastante evidente. O Nordeste aparece como território de riqueza natural, atividade econômica, cidades, costumes e diversidade. Não se trata apenas de registrar paisagens, mas de apresentar uma região que possui uma identidade própria e múltiplas formas de vida.

         “Sob o Céu Nordestino” pode ser visto como um dos primeiros grandes esforços cinematográficos para construir uma imagem da Paraíba através do próprio cinema. Walfredo percorre cidades, paisagens, estradas, apresenta atividades econômicas e manifestações culturais, criando uma espécie de inventário visual do estado.

         A diversidade das localidades como Umbuzeiro, Borborema, Bananeiras, Araruna, Campina Grande, Patos, Santa Luzia e Cabedelo impede que o Nordeste seja apresentado como um espaço homogêneo. Há, portanto, uma relação interessante entre cinema e identidade regional: filmar esses lugares também significa afirmar que eles merecem ser vistos, registrados e lembrados.

         O Nordeste tradicionalmente foi representado por determinados elementos, como seca, pobreza, sertão e sofrimento. Walfredo, porém, constrói uma visão muito mais ampla. O filme mostra cidades, comércio, agricultura, vaquejada, feiras, litoral e pesca da baleia. A própria variedade geográfica já funciona como resposta ao estereótipo.

         É interessante perceber que isso não significa que o filme ignore as dificuldades da região. A questão é outra: ele se recusa a transformar a dificuldade em definição absoluta do Nordeste. Nesse sentido, existe uma outra dimensão no ato de filmar. Registrar uma região também é disputar a maneira como ela será lembrada e imaginada.

        Do ponto de vista histórico da linguagem, vale observar que estamos diante de um documentário dos anos 1920, quando as possibilidades do gênero ainda eram bastante diferentes das que conhecemos hoje. Não há entrevistas ou depoimentos no sentido contemporâneo. A informação é organizada pelo próprio filme. Walfredo não está tentando apenas observar. Ele permite que o espectador veja e conheça a cultura, a tradição e a história.

         Um aspecto técnico que merece atenção é o uso de cartelas, mapas e informações geográficas. Elas não funcionam apenas como legendas explicativas. Ajudam a organizar o enorme território percorrido pelo filme e transformam o espaço em elemento narrativo. Uma leitura contemporânea pode até achar algumas dessas explicações excessivamente didáticas, mas é preciso considerar sua função naquele contexto: o filme precisava apresentar uma região ao público na década de 1920. Por isso, os mapas e textos fazem parte da própria estratégia de construção do Nordeste que Walfredo pretendia realizar.

         A presença do comércio de algodão, da feira de Campina Grande e da pesca da baleia é particularmente significativa. Walfredo não olha apenas para paisagens ou costumes. Ele registra atividades econômicas, mostrando circulação de mercadorias, trabalho e formas de produção. Isso fortalece a ideia de um Nordeste economicamente ativo e conectado.

        Há algo quase aventureiro no projeto. Walfredo percorreu a Paraíba durante anos, em condições bastante precárias, utilizando diferentes meios de transporte e buscando registrar localidades que ainda estavam longe de possuir uma representação cinematográfica sistemática. Isso dá às imagens um valor particular. Hoje podemos simplesmente viajar para uma cidade e fotografá-la. Na década de 1920, colocar uma câmera em determinados lugares e produzir uma documentação cinematográfica era uma operação muito mais complexa. Assim, existe uma espécie de gesto de descoberta no filme: a câmera está descobrindo lugares para o próprio cinema brasileiro.

         Um elemento que se perdeu foi a mistura de documentário e ficção. A obra original possuía um prólogo ficcional, com Braz Cantizani e Eleonora Cantizani, embora o restante fosse essencialmente documental. Isso quebra a ideia de que o documentário de Walfredo seria apenas um registro objetivo. A ficção aparece associada à própria ideia de formação histórica, incluindo a presença indígena, segundo a descrição da obra. Portanto, o diretor mistura reconstrução, encenação e observação documental. Isso também mostra que a fronteira entre documentário e ficção já era mais fluida do que às vezes imaginamos quando pensamos no cinema dos anos 1920.

         “Sob o Céu Nordestino” é evidentemente um documento histórico, mas reduzi-lo a isso seria perder parte de sua força. Walfredo Rodrigues estava fazendo algo bastante ambicioso: usar o cinema para construir uma memória visual de sua terra. Ele queria mostrar o Nordeste, mas também queria que determinadas imagens permanecessem.

          E existe uma ironia poderosa no fato de que o filme tenha sobrevivido apenas parcialmente. A obra que pretendia preservar cidades, pessoas, paisagens e costumes acabou precisando, ela mesma, ser preservada. Por isso, talvez o que mais impressione hoje não seja apenas aquilo que vemos, mas a consciência de tudo aquilo que não podemos mais ver.

         O fragmento de 24 minutos funciona, então, em duas direções: é uma janela para a Paraíba dos anos 1920 e, simultaneamente, uma lembrança da fragilidade da própria memória cinematográfica. E talvez seja justamente aí que “Sob o Céu Nordestino” adquira sua maior importância: Walfredo Rodrigues não apenas registrou um Nordeste que existia. Ele deixou para o futuro vestígios de um Nordeste que já não existe exatamente daquela maneira.




sexta-feira, 22 de agosto de 2025

BÉRADÊRO: CHICO CÉSAR E MAMA ÁFRICA (2025)


        O curta-metragem “Béradêro: Chico César e Mama África” oferece um mergulho profundo e sensível no universo do cantor e compositor paraibano Chico César, nascido em Catolé do Rocha. A obra traça a trajetória de um artista que partiu de uma cidade do interior da Paraíba para se tornar um dos nomes mais respeitados da música popular brasileira, conquistando reconhecimento nacional e internacional, mas sem jamais abandonar suas raízes. A narrativa do curta nos permite compreender não apenas sua carreira, mas também os vínculos afetivos, culturais e familiares que moldaram sua identidade artística e pessoal.

O filme combina memórias afetivas do artista com entrevistas de familiares, músicos, produtores e amigos, criando um retrato intimista e comovente. Ele nos conduz desde a vida simples no sítio, marcada por experiências cotidianas e pelo contato próximo com a natureza e a comunidade, até o estrelato e o reconhecimento internacional. A sensibilidade do curta revela como Chico César transforma sua vivência pessoal em arte, mantendo sempre um diálogo vivo com suas origens e com a cultura nordestina, sem perder a universalidade de sua música.

A canção “Mama África” ocupa lugar central na obra e serve como uma ponte entre passado e presente, lembrando ao Brasil sua herança africana, marcada por resistência, criatividade e resiliência. Apesar do processo histórico de exploração e violência sofrido pelos povos africanos, a africanidade continua presente na música, na dança, na culinária, na literatura e em todas as formas de expressão cultural brasileiras. “Mama África” não é apenas uma música: é um retrato etnocultural que nos convida a reconhecer e celebrar a ancestralidade africana, muitas vezes ignorada, mas pulsante e essencial para a formação social e cultural do Brasil. Por meio dela, Chico César dá voz a um Brasil plural, diverso e conectado às suas origens, seja na Paraíba, em São Paulo ou em qualquer outra região do país.

O curta também destaca a importância do ambiente familiar na formação do artista. A irmã de Chico, Iracy de Almeida, professora de música e idealizadora do Projeto “Gente que Encanta”, foi fundamental no desenvolvimento do talento do cantor. Iracy conduzia sozinha iniciativas socioeducativas voltadas à música, oferecendo oportunidades para crianças e jovens descobrirem e lapidarem seus potenciais artísticos. Essa dedicação influenciou diretamente a trajetória de Chico, que, em 2001, já reconhecido internacionalmente, fundou junto com a irmã o “Instituto Cultural Casa do Béradêro”, consolidando um espaço de promoção da música, da cultura nordestina e da formação artística.

Com roteiro, animação e direção de Gabriel Navajo, o filme combina dinamismo e profundidade narrativa. O espectador é transportado para Catolé do Rocha, conhecendo sua paisagem, habitantes, familiares e amigos de Chico César, sentindo a energia e a autenticidade da cidade que moldou parte de sua vida. As entrevistas com Aline Fernandes, Aprígio Ferreira do Nascimento, Carina Costa Fonseca, Chico Corrêa, Edclaudio Martins Costa, Emerina Gonçalves da Silva, Gael Mendes, Hermínio Neto, Jake Savona, Luciana França, Maria de Fátima Gonçalves da Silva, Nath Rodrigues, Reginaldo Silvestre e Renan Guaceroni aprofundam ainda mais a percepção do público sobre Chico e sobre a música “Mama África”. Cada depoimento ajuda a construir uma narrativa rica em detalhes, que aproxima o espectador da história do artista e evidencia como a influência africana está presente em todas as regiões do Brasil, conectando cidades pequenas como Catolé do Rocha a grandes metrópoles como São Paulo.

A menção a São Paulo é estratégica: foi nesta cidade que Chico vivenciou experiências transformadoras que, somadas às lembranças de Catolé do Rocha, deram origem à criação de “Mama África”. O curta mostra que a música de Chico não é restrita a um local específico; ela é um hino coletivo às mães brasileiras e a todos que enfrentam desafios diários com coragem, esforço e dedicação, transformando suas lutas em força para sustentar suas famílias e oferecer oportunidades aos filhos. Chico César consegue, assim, universalizar sua experiência, transformando vivências pessoais em mensagens de alcance nacional e internacional.

Tecnicamente, “Béradêro: Chico César e Mama África” se destaca por sua excelência. Arte, fotografia, montagem e trilha sonora se unem em harmonia, potencializando a narrativa e criando uma experiência sensorial rica para o espectador. A produção, realizada pela Xeque Mate Estúdios em parceria com a Xeque Mate Bebidas, resulta em um documentário visualmente impactante, emocionalmente envolvente e culturalmente relevante. Cada elemento técnico é cuidadosamente pensado para valorizar a história de Chico César, sua música e o universo que ele representa.

Mais do que um registro biográfico, o curta é uma celebração da música, da ancestralidade e da força transformadora das artes. Ele reforça o legado de Chico César e a importância de reconhecer e valorizar nossas raízes, mostrando como talento, dedicação e consciência cultural podem transcender fronteiras, tocar a alma do público e deixar um legado inesquecível. “Béradêro: Chico César e Mama África” nos lembra que a arte é capaz de unir história, memória e identidade, revelando a profundidade de um Brasil que pulsa em cada nota, em cada verso e em cada trajetória humana. 




sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A PRESEPADA (2019)

 


A ótima Comédia protagonizada por Tay Lopes tem direção de Rodrigo César e roteiro de Cadu Pereiva. A trama se desenrola seguindo um golpe que o malandro Hiltinho dá na esposa de um sargento da polícia e com quem ele tem um caso. Após se envolver com a mulher e roubar dinheiro que o sargento guardava debaixo do colchão, ela confessa a traição e o roubo ao marido.

         Perseguido pelos policiais, Hiltinho percorre vários pontos da cidade, até chegar na estação rodoviária e, ao se esconder no banheiro, encontra uma mala. Hiltinho descobre que a mala pertence a um Frei que teve uma dor de barriga. Hiltinho embarca no ônibus, vestido com as vestes do religioso e segue para Belém de Nazaré, usando a identidade de Frei Fernando.

         Quando desembarca na cidade, é recebido pelo Padre Zezinho, interpretado por Paulo Pontes, e fica sabendo que toda a paróquia lhe aguarda para a realização da Cantada de Natal.

         O curta tem uma trama muito bem desenrolada, com uma inteligente construção dos personagens e nas relações que são estabelecidas. Hiltinho conhece, ainda no ônibus, a bela Elaine, interpretada por Camila Bastos. A jovem é filha do prefeito que, alegando dificuldades financeiras, comunica ao Padre que não poderá financiar a tradicional Cantada de Natal. O ator Zé Ramos dá vida ao político.

        Neste contexto, o texto tem um campo fértil para desenvolver a Comédia, com um malando se passando por um Frei; um Romance, com o início de uma ligação de Hiltinho com Elaine; a o Drama, envolvendo o sentimento natalino da população da cidade e o risco de não ter a Cantada de Natal.

         “A Presepada” tem ótimos elementos narrativos, que além da trama conduzida pelos personagens, conta com animações inspiradas em xilogravuras e a narração de um repentista, o que insere o espectador no contexto nordestino, lembrando a literatura de cordel.

         Outro elemento narrativo muito interessante é que a equipe criativa alia muito bem a comédia mais leve a um humor mais ácido. Equilibrando muito bem esses dois tipos de humor, Rodrigo César entrega um curta muito divertido e gostoso de assistir.

        Os elementos técnicos de produção são muito bem aproveitados com destaque para a ótima fotografia, direção de arte, montagem e trilha sonora. A combinação desses elementos com o arco dramático, fazem de “A Presepada” uma ótima Comédia com muito humor do começo ao fim.



SOB O CÉU NORDESTINO (1929)

         Com produção, roteiro, direção e fotografia de Walfredo Rodrigues, o filme “Sob o Céu Nordestino” é originalmente um longa-metragem...