Ponte Nova é
um bairro humilde, localizado na porção continental de São Vicente, na Baixada
Santista, que enfrenta sérias dificuldades estruturais e sociais, agravadas
pela pandemia. A região, marcada por uma história de negligência ambiental, já
foi alvo de despejo de resíduos tóxicos pela empresa Rhodia, antes mesmo da
formação do bairro, contribuindo para os problemas sanitários e de saúde que
afetam os moradores até hoje. Essa herança de descaso continua a impactar a
qualidade de vida local, tornando ainda mais desafiadora a luta por melhorias,
especialmente durante o período crítico da pandemia, quando a carência de
serviços públicos se acentuou.
Em meio a esse
cenário adverso, o jovem médico Yago Torres decidiu agir. Com um olhar voltado
para o futuro, ele idealizou projetos que visavam não apenas melhorar a saúde
física dos moradores, mas também promover um senso de comunidade e
pertencimento. Um dos primeiros passos foi a criação de um grupo de caminhadas,
composto por usuários da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Ponte Nova. A
iniciativa, simples à primeira vista, rapidamente conquistou a adesão de muitas
pessoas, principalmente idosos, que viram nas caminhadas uma forma de manter-se
ativos e socialmente engajados.
No entanto, os projetos de Yago não se limitaram às caminhadas. Ao observar o espaço ocioso no terreno da UBS, ele vislumbrou uma oportunidade de criar algo que pudesse beneficiar ainda mais os moradores: uma horta comunitária. Assim nasceu a “Roça Urbana”, uma proposta inovadora de cultivo sustentável, que alia saúde, bem-estar e consciência ambiental. A horta, suspensa devido à contaminação do solo local pelos resíduos da Rhodia, utiliza terra trazida de outras regiões, garantindo que os alimentos cultivados sejam livres de toxinas e seguros para o consumo. Dessa forma, a “Roça Urbana” se tornou não apenas uma fonte de alimentos saudáveis, mas também um símbolo de resistência e renovação em meio às dificuldades.
O Documentário
“Roça Urbana”, dirigido, roteirizado e com fotografia de Jean Pierre Pierote,
acompanha de perto essa transformação no bairro Ponte Nova. Com uma narrativa
fluida e envolvente, o filme conduz o espectador pelo cotidiano dos moradores,
mostrando como o cultivo da horta e as caminhadas criaram novos laços de amizade
e solidariedade entre eles. Os depoimentos de Luciene Formosina de Jesus,
Josefa da Silva, Josefa Maria e Manoel Nascimento são carregados de emoção e
revelam como essas iniciativas não apenas promoveram a saúde física, mas também
trouxeram melhorias significativas na qualidade de vida emocional e psicológica
dos participantes.
O Documentário
destaca, de forma sensível, o impacto dessas atividades na vida dos idosos da
comunidade, muitos dos quais enfrentam o isolamento e a falta de estímulo
físico. Para eles, as caminhadas e o cultivo de alimentos tornaram-se muito
mais do que simples atividades de rotina; são momentos de convivência, troca de
experiências e fortalecimento de vínculos. A melhoria na saúde desses moradores
é visível, não apenas pela prática de exercícios regulares, mas também pelo
acesso a alimentos frescos e livres de agrotóxicos, cultivados com as próprias
mãos.
Além dos benefícios físicos e alimentares, o filme explora a importância do fortalecimento dos laços sociais entre os participantes. O grupo que se formou em torno da horta e das caminhadas representa uma nova forma de convívio comunitário, onde os moradores compartilham suas histórias, cuidam uns dos outros e encontram na coletividade uma forma de enfrentar os desafios do dia a dia. Essa rede de apoio e amizade contribui diretamente para a melhoria da saúde mental e emocional dos participantes, que passaram a ver essas atividades não como uma obrigação, mas como momentos de prazer e realização.
Tecnicamente,
“Roça Urbana” é uma produção impecável. Jean Pierre Pierote, acerta em cada
detalhe, capturando a essência do bairro e a realidade dos seus moradores com
uma sensibilidade única. A produção e som direto de Cinthia dos Santos e
Patrycia Nunes, a montagem de Mateus Ribeiro e o design gráfico de Cássia
Oliveira se unem de maneira harmoniosa para criar um Documentário dinâmico, que
em apenas doze minutos consegue transmitir uma mensagem poderosa e impactante.
A fluidez da narrativa, aliada à precisão técnica dos elementos audiovisuais,
permite que o espectador se sinta parte da história, acompanhando de perto o
crescimento da horta, as caminhadas dos moradores e os depoimentos emocionantes
que dão vida ao filme.
“Roça Urbana”
não é apenas um registro das transformações que ocorreram na Ponte Nova, mas
também um retrato de como iniciativas simples, quando guiadas pela vontade de
melhorar a vida em comunidade, podem gerar impactos profundos. O documentário
reforça a importância da solidariedade, do trabalho em equipe e da busca por
soluções sustentáveis para os problemas que afetam áreas marginalizadas como
Ponte Nova. Através de uma narrativa clara e objetiva, “Roça Urbana” celebra o
esforço coletivo e a resiliência de um povo que, apesar das dificuldades,
continua a lutar por uma vida mais saudável e digna.
Com uma
mensagem de esperança e superação, “Roça Urbana” é um exemplo de como o cinema
pode dar voz às comunidades que muitas vezes são esquecidas, mostrando que,
mesmo em meio ao descaso e às adversidades, é possível plantar sementes de
mudança e colher frutos de transformação.



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