sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

VINIL VERDE (2004)








Dirigido por Kleber Mendonça Filho e escrito por ele, em parceria com Bohdana Smyrnov. O filme é uma livre adaptação de uma fábula infantil russa intitulada “Luvas Verdes”. A trama se desenrola quando Mãe dá a Filha uma caixa com vários disquinhos coloridos. Ele pode ouvir todos, exceto o disco verde.

         Montado a partir de fotografias 35mm e com uma narrativa inventiva e surreal, o curta tem uma atmosfera perturbadora e sinistra. Com esse estilo narrativo e com uma direção de arte extremamente eficiente, “Vinil Verde” trabalha de forma macabra com temas como desobediência e castigo, causa e efeito.

         O filme conta com as atuações de Verônica Alves, no papel da mãe, e Gabriela Souza, no papel da filha. O enredo flui com a intensa narração de Ivan Soares, que dá um toque poético a essa história de suspense e horror.

          Filha é uma personagem complexa. Estando num estágio transitório da infância para a adolescência, ela continua a desobedecer a Mãe, mesmo com os estragos que o vinil verde é capaz de fazer. A narrativa tem uma tensão constante. E se aprofunda mais a cada vez que a menina escuta o disco, independente das consequências que atingem a mãe. Essa fase de transição etária e egoísmo por parte da filha é perceptível se compararmos a personagem no início e no final do filme. O aspecto infantil dá lugar a uma jovem adolescente. E o filme demonstra que essa quase mulher pode ser perigosa para qualquer outra pessoa.

          Muito perto da morte e, diante do pedido da mãe para que a filha não use luvas verdes, a jovem decide ir contra a mãe. As músicas de Silvério Pessoa, que acompanham o curta, ajudam a criar a atmosfera de estranheza e perturbação. E essa atmosfera não é algo que está somente no meio externo; antes fosse. Essa atmosfera dá significado à personalidade e temperamento da filha.  Indiferente ao sofrimento da mãe, essa criança logo será uma adulta que, muito provavelmente, será capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quer.

         Kleber Mendonça Filho utiliza muito bem os elementos técnicos e narrativos para construir uma obra densa, sinistra e profundamente perturbadora. A fotografia e montagem são providenciais para a criação de um filme marcante e, ao mesmo tempo, horripilante.

         Rico em metáforas e simbolismos, “Vinil Verde” tem várias interpretações e mensagens que vão desde a perda da inocência, à curiosidade pelo desconhecido, o gosto pelo proibido e as consequências de nossas escolhas.




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