A chuva intensa não impede dois
jovens de saírem para curtir a noite. Dentro do Landau ano 1966, os dois amigos
planejam como será a noite. Porém, tudo muda quando passam por um homem na
estrada que pede carona. Eles preferem não ajudar o homem, mas o carro tem um
problema mecânico e para alguns metros à frente.
“Landau
66” é um Suspense de primeira que, através de uma narrativa fluida, consegue
manter o ritmo, mesmo com o filme se passando dentro do veículo. Aí, destaca-se
os méritos tanto do texto, quanto da competente direção de Fernando Sanches,
que com recursos técnicos muito interessantes, cria uma atmosfera tensa, logo
após a pane no veículo, e que fica ainda mais pesada quando o enigmático carona
entra no veículo.
Logo
após passarem pelo ponto onde o homem pede carona, o veículo para de funcionar
imediatamente. Porém, ao explicarem que não tinham a intenção de dar carona, o
homem pede para que abram o capô. Ele mexe em algo e, surpreendentemente, o
veículo volta a funcionar. Isso faz com que os jovens se sintam na obrigação de
levar o homem de carona.
A
conversa entre eles flui naturalmente e, sentindo-se à vontade com a presença
do carona, iniciam um bate-papo à base de maconha e cerveja.
É
interessante notar que o excelente roteiro de J.M. Trevisan, vai soltando
algumas pistas de algo ali não está normal. O motorista, filho do dono do
Landau, parece não estar confortável, enquanto os outros dois bebem, fumam e
conversam sobre garotas, noitadas, distrações.
Pedro Carvalho, Ricardo Gelli e Victor Ribeiro
têm atuações monstruosas, que, através do entrosamento deles, vai ditando o
grau de tensão dentro do carro. E de papo em papo, a conversa chega num assunto
que muda o destino de todos eles. Em seu clímax, “Landau 66” consegue elevar a
tensão para o seu nível máximo, insinuando que algo sobrenatural possa estar
afetando o comportamento dos jovens.
“Landau
66” é um Suspense potente e surpreendente. Com ótimos elementos narrativos,
dramáticos e técnicos, o filme intriga, fascina e impacta, com uma resolução
final memorável.
Com direção e roteiro de Flávio
Costa e Gabriel Mayer, “A Rua das Casas Surdas” se passa na década de 1970.
Numa vizinhança tranquila, Carlos e Ernesto estão no trabalho e acompanham a
transmissão de uma partida de futebol. Logo que o jogo entre no intervalo, eles
decidem voltar ao trabalho.
“A
Rua das Casas Surdas” trabalha com ótimos elementos dramáticos e narrativos. A
trama é fluida, com o seu desenrolar sobre assuntos de futebol e curiosidades
sobre baratas, que incomodam os protagonistas.
A
direção de arte fez um trabalho incrível de ambientação, com objetos e móveis e
também na parte de figurino. E a equipe está atenta a todos os detalhes,
pontuando todos os elementos que são necessários para impactar o espectador.
Outro
detalhe bastante interessante é a forma como Carlos e Ernesto dialogam, tanto
quando o assunto é futebol, quanto quando o assunto parte para um lado mais
obscuro e sádico, com Ernesto explicando sobre a sua experiência em retirar a
cabeça de uma barata e ver a mesma sobreviver (e sofrer) por uma semana. A
direção é certeira em demonstrar a naturalidade com que os protagonistas
enxergam o trabalho. E isto é muito impactante, pois, ao descerem para o
subsolo do imóvel, agem tranquilamente, como aquilo sendo algo rotineiro e
comum.
A
forma como a narrativa transita entre os atos é de uma competência fora de
série. Os únicos sons audíveis são, no primeiro ato, a transmissão do jogo e os
diálogos dos personagens. Os diálogos são calmos e pausados, não demonstrando
sentimentos de empatia ou compaixão por parte dos dois colegas de trabalho.
Entre a ida para o subsolo e a preparação para a execução do trabalho, o que
impera é o silêncio. E, uma vez que se abre uma porta e gritos são iniciados, o
filme tem a resolução final surpreendente e chocante. Com a porta entreaberta
ainda é possível ouvir o que acontece. Logo que ela é fechada, o silêncio volta
a imperar.
“A
Rua das Casas Surdas” traz a reflexão sobre como alguns órgãos ligados à
ditadura militar funcionavam e como impactavam a sociedade. A vizinhança sabia
ou não sobre o que acontecia naquele local? Se soubesse, seria mais prudente
fingir que não sabia?
Um
dos grandes acertos do filme é não explicitar a violência, deixando com que o
som falasse por si só. Da mesma forma que a vizinhança não via o que acontecia,
o espectador também não vê. O espectador somente ouve alguns instantes sobre o
que acontece no local. Provavelmente, alguns moradores poderiam escutar algo,
assim como o espectador. Porém, num período ditatorial, seria natural não
procurar saber a origem ou detalhes dos sons vindos daquele imóvel.
Outro
detalhe extremamente pontual é o documento na lixeira, que diz muito sobre o
destino do personagem que está no subsolo. A imagem é muito forte, pois,
antecipa o destino desse personagem e toda a angústia que amigos e parentes
terão posteriormente.
“A
Rua das Casas Surdas” tem um trabalho impecável de fotografia, som, trilha
sonora e montagem. Todos os elementos técnicos são fundamentais para a
realização de um curta que transita entre o Drama e o Thriller de uma forma
impressionante, causando diversos tipos de sentimentos, quando a verdadeira
face do trabalho de Carlos e Ernesto é exposta.
Com
atuações impecáveis de João França e Evandro Soldatelli, nos papéis dos
protagonistas, “A Rua das Casas Surdas” conta ainda com Rafael Franskowiak, Léo
Tietboehl e Luis Fernando da Silva Bettio no elenco.
“A
Rua das Casas Surdas” é um filme forte, impactante e reflexivo, pois leva o
espectador a refletir sobre como muitos órgãos de repressão agiam e como muitas
vidas foram afetadas durante a ditadura militar brasileira.
Em uma isolada
e pacata propriedade rural, um agricultor começa a ser atormentado por um
zumbido incessante e dores intensas em seu ouvido. À medida que o incômodo
cresce, ele decide investigar o problema por conta própria e descobre uma larva
que havia se alojado em seu ouvido. Acreditando que teria resolvido a questão,
ele se tranquiliza momentaneamente. No entanto, as dores e o zumbido retornam
de forma ainda mais intensa, levando-o a procurar um médico. Após a consulta, o
diagnóstico é tão assustador quanto a situação: uma mosca havia entrado em seu
ouvido e depositado uma quantidade significativa de ovos. O médico retira
diversas larvas, mas mesmo com a intervenção, o agricultor descobre que a
solução definitiva para seu problema exigiria uma consulta com um especialista,
algo que poderia levar muito tempo. Com o tormento aumentando e a espera se
tornando insuportável, o protagonista começa a perder o controle sobre si
mesmo, culminando em uma atitude desesperada e insana que encerra o filme de
maneira perturbadora.
O
curta-metragem "Larvae", dirigido e roteirizado por Felipe M. Guerra,
é uma obra de Terror que se destaca pela combinação eficiente de elementos dos
subgêneros Trash e Gore. Desde o início, o filme se propõe a mergulhar o
espectador na experiência agoniante do protagonista, utilizando recursos
visuais e sonoros que intensificam o desconforto. A estética visual é
construída com grande competência através do uso de efeitos práticos, que criam
uma atmosfera grotesca e visceral. O espectador é confrontado com cenas
gráficas e explícitas, que exibem o sofrimento físico do personagem com uma
crueza impressionante. O sangue, as larvas e o constante foco no ouvido do
protagonista são elementos que reforçam a tensão, aproximando o público do
terror que o personagem vive.
A direção de
Felipe M. Guerra demonstra uma habilidade ímpar em orquestrar o desconforto,
criando uma crescente de angústia ao longo da trama. A escolha de planos e
ângulos de câmera é essencial para essa construção. No início do curta,
prevalecem ângulos mais abertos, que contextualizam o ambiente rural e a rotina
solitária do agricultor. Contudo, conforme o tormento avança, a câmera se
aproxima do protagonista, com planos fechados e invasivos que amplificam a dor
e a sensação de perturbação do personagem. Essa transição é acompanhada por uma
trilha sonora cuidadosamente construída para evocar tensão e desconforto. Os
sons perturbadores, como o zumbido no ouvido e o barulho das larvas, são
trabalhados de forma a intensificar a angústia do espectador, criando uma
imersão sensorial que vai além do visual.
Além dos
aspectos técnicos, é necessário destacar o trabalho do elenco, que contribui
significativamente para o impacto dramático de "Larvae". Renoaldo
Pavan, que interpreta o agricultor protagonista, oferece uma atuação
impressionante. Sem muitos diálogos, ele transmite a crescente agonia de seu
personagem através de expressões faciais e corporais. A forma como o medo, o
desespero e a loucura vão se apoderando dele ao longo da narrativa é um dos
pontos altos do filme. O elenco coadjuvante, composto por José Carlos Ribeiro e
Oldina do Monte, também entrega performances convincentes, reforçando a
veracidade das interações e elevando o nível da produção.
O roteiro de
Felipe M. Guerra é outro fator de destaque. Embora a premissa de uma infestação
de larvas no ouvido seja, por si só, uma ideia perturbadora, o desenvolvimento
da trama vai além do terror físico, abordando também o impacto psicológico do
sofrimento prolongado e da espera por uma solução. A narrativa explora como a
dor constante pode levar uma pessoa à beira da insanidade, tornando o
protagonista vulnerável a atos extremos. O filme não oferece um alívio fácil
para o espectador; ao contrário, ele mantém a tensão até o final, culminando em
uma resolução brutal e chocante.
A fotografia
desempenha um papel crucial na construção do clima do filme. Com um cuidado
estético, combinado com a direção de arte detalhada, cria uma atmosfera
opressiva que é mantida do início ao fim.
Outro ponto
que merece ser ressaltado é o uso do som em "Larvae". O design sonoro
do filme é tão importante quanto os elementos visuais. Os zumbidos, o barulho
das larvas e os sons ambientes são usados de forma estratégica para amplificar
o horror e criar uma experiência sensorial completa. É uma obra que explora o
desconforto de maneira minuciosa, fazendo com que o espectador sinta
fisicamente o tormento vivido pelo protagonista.
A sequência
final de "Larvae" é, sem dúvida, um dos momentos mais impactantes do
filme. Incapaz de suportar a dor e o tormento mental, o protagonista toma uma
decisão desesperada que culmina em um ato de surpreendente. O desfecho é brutal
e não oferece qualquer tipo de resolução confortável, deixando o espectador
atordoado e reflexivo. A escolha de encerrar o filme dessa forma é ousada e
reforça a natureza perturbadora do curta, tornando-o uma obra que não é
recomendada para espectadores sensíveis, especialmente aqueles que podem ser
afetados por temas de autolesão e desespero.
"Larvae"
é uma obra de Terror que se destaca pela sua ousadia e pela capacidade de gerar
desconforto genuíno. Com uma trama simples, mas muito bem executada, o
curta-metragem utiliza os elementos clássicos do Gore e do Trash para construir
uma experiência visceral, onde os aspectos técnicos, como a direção de arte, os
efeitos práticos e o design de som, trabalham em perfeita harmonia para criar
uma atmosfera de horror intenso. O resultado é um filme perturbador, que deixa
uma forte impressão e é especialmente recomendado para os fãs do gênero que
apreciam obras carregadas de tensão e brutalidade visual. "Larvae" é
uma experiência única dentro do Terror Trash e Gore, e merece ser destacado
pela qualidade com que entrega seu impacto dramático e sua originalidade.