terça-feira, 25 de março de 2025

A RUA DAS CASAS SURDAS (2016)

 







Com direção e roteiro de Flávio Costa e Gabriel Mayer, “A Rua das Casas Surdas” se passa na década de 1970. Numa vizinhança tranquila, Carlos e Ernesto estão no trabalho e acompanham a transmissão de uma partida de futebol. Logo que o jogo entre no intervalo, eles decidem voltar ao trabalho.

         “A Rua das Casas Surdas” trabalha com ótimos elementos dramáticos e narrativos. A trama é fluida, com o seu desenrolar sobre assuntos de futebol e curiosidades sobre baratas, que incomodam os protagonistas.

         A direção de arte fez um trabalho incrível de ambientação, com objetos e móveis e também na parte de figurino. E a equipe está atenta a todos os detalhes, pontuando todos os elementos que são necessários para impactar o espectador.

       Outro detalhe bastante interessante é a forma como Carlos e Ernesto dialogam, tanto quando o assunto é futebol, quanto quando o assunto parte para um lado mais obscuro e sádico, com Ernesto explicando sobre a sua experiência em retirar a cabeça de uma barata e ver a mesma sobreviver (e sofrer) por uma semana. A direção é certeira em demonstrar a naturalidade com que os protagonistas enxergam o trabalho. E isto é muito impactante, pois, ao descerem para o subsolo do imóvel, agem tranquilamente, como aquilo sendo algo rotineiro e comum.

          A forma como a narrativa transita entre os atos é de uma competência fora de série. Os únicos sons audíveis são, no primeiro ato, a transmissão do jogo e os diálogos dos personagens. Os diálogos são calmos e pausados, não demonstrando sentimentos de empatia ou compaixão por parte dos dois colegas de trabalho. Entre a ida para o subsolo e a preparação para a execução do trabalho, o que impera é o silêncio. E, uma vez que se abre uma porta e gritos são iniciados, o filme tem a resolução final surpreendente e chocante. Com a porta entreaberta ainda é possível ouvir o que acontece. Logo que ela é fechada, o silêncio volta a imperar.

         “A Rua das Casas Surdas” traz a reflexão sobre como alguns órgãos ligados à ditadura militar funcionavam e como impactavam a sociedade. A vizinhança sabia ou não sobre o que acontecia naquele local? Se soubesse, seria mais prudente fingir que não sabia?

         Um dos grandes acertos do filme é não explicitar a violência, deixando com que o som falasse por si só. Da mesma forma que a vizinhança não via o que acontecia, o espectador também não vê. O espectador somente ouve alguns instantes sobre o que acontece no local. Provavelmente, alguns moradores poderiam escutar algo, assim como o espectador. Porém, num período ditatorial, seria natural não procurar saber a origem ou detalhes dos sons vindos daquele imóvel.

              Outro detalhe extremamente pontual é o documento na lixeira, que diz muito sobre o destino do personagem que está no subsolo. A imagem é muito forte, pois, antecipa o destino desse personagem e toda a angústia que amigos e parentes terão posteriormente.

         “A Rua das Casas Surdas” tem um trabalho impecável de fotografia, som, trilha sonora e montagem. Todos os elementos técnicos são fundamentais para a realização de um curta que transita entre o Drama e o Thriller de uma forma impressionante, causando diversos tipos de sentimentos, quando a verdadeira face do trabalho de Carlos e Ernesto é exposta.

         Com atuações impecáveis de João França e Evandro Soldatelli, nos papéis dos protagonistas, “A Rua das Casas Surdas” conta ainda com Rafael Franskowiak, Léo Tietboehl e Luis Fernando da Silva Bettio no elenco.

         “A Rua das Casas Surdas” é um filme forte, impactante e reflexivo, pois leva o espectador a refletir sobre como muitos órgãos de repressão agiam e como muitas vidas foram afetadas durante a ditadura militar brasileira.




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