Com direção e roteiro de Flávio Costa e Gabriel Mayer, “A Rua das Casas Surdas” se passa na década de 1970. Numa vizinhança tranquila, Carlos e Ernesto estão no trabalho e acompanham a transmissão de uma partida de futebol. Logo que o jogo entre no intervalo, eles decidem voltar ao trabalho.
“A
Rua das Casas Surdas” trabalha com ótimos elementos dramáticos e narrativos. A
trama é fluida, com o seu desenrolar sobre assuntos de futebol e curiosidades
sobre baratas, que incomodam os protagonistas.
A
direção de arte fez um trabalho incrível de ambientação, com objetos e móveis e
também na parte de figurino. E a equipe está atenta a todos os detalhes,
pontuando todos os elementos que são necessários para impactar o espectador.
Outro detalhe bastante interessante é a forma como Carlos e Ernesto dialogam, tanto quando o assunto é futebol, quanto quando o assunto parte para um lado mais obscuro e sádico, com Ernesto explicando sobre a sua experiência em retirar a cabeça de uma barata e ver a mesma sobreviver (e sofrer) por uma semana. A direção é certeira em demonstrar a naturalidade com que os protagonistas enxergam o trabalho. E isto é muito impactante, pois, ao descerem para o subsolo do imóvel, agem tranquilamente, como aquilo sendo algo rotineiro e comum.
A forma como a narrativa transita entre os atos é de uma competência fora de série. Os únicos sons audíveis são, no primeiro ato, a transmissão do jogo e os diálogos dos personagens. Os diálogos são calmos e pausados, não demonstrando sentimentos de empatia ou compaixão por parte dos dois colegas de trabalho. Entre a ida para o subsolo e a preparação para a execução do trabalho, o que impera é o silêncio. E, uma vez que se abre uma porta e gritos são iniciados, o filme tem a resolução final surpreendente e chocante. Com a porta entreaberta ainda é possível ouvir o que acontece. Logo que ela é fechada, o silêncio volta a imperar.
“A
Rua das Casas Surdas” traz a reflexão sobre como alguns órgãos ligados à
ditadura militar funcionavam e como impactavam a sociedade. A vizinhança sabia
ou não sobre o que acontecia naquele local? Se soubesse, seria mais prudente
fingir que não sabia?
Um
dos grandes acertos do filme é não explicitar a violência, deixando com que o
som falasse por si só. Da mesma forma que a vizinhança não via o que acontecia,
o espectador também não vê. O espectador somente ouve alguns instantes sobre o
que acontece no local. Provavelmente, alguns moradores poderiam escutar algo,
assim como o espectador. Porém, num período ditatorial, seria natural não
procurar saber a origem ou detalhes dos sons vindos daquele imóvel.
Outro detalhe extremamente pontual é o documento na lixeira, que diz muito sobre o destino do personagem que está no subsolo. A imagem é muito forte, pois, antecipa o destino desse personagem e toda a angústia que amigos e parentes terão posteriormente.
“A
Rua das Casas Surdas” tem um trabalho impecável de fotografia, som, trilha
sonora e montagem. Todos os elementos técnicos são fundamentais para a
realização de um curta que transita entre o Drama e o Thriller de uma forma
impressionante, causando diversos tipos de sentimentos, quando a verdadeira
face do trabalho de Carlos e Ernesto é exposta.
Com
atuações impecáveis de João França e Evandro Soldatelli, nos papéis dos
protagonistas, “A Rua das Casas Surdas” conta ainda com Rafael Franskowiak, Léo
Tietboehl e Luis Fernando da Silva Bettio no elenco.
“A
Rua das Casas Surdas” é um filme forte, impactante e reflexivo, pois leva o
espectador a refletir sobre como muitos órgãos de repressão agiam e como muitas
vidas foram afetadas durante a ditadura militar brasileira.




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