O filme "A Volta Para Casa", baseado no argumento de Guilherme Rodio, apresenta uma narrativa tocante e profundamente emocionante ao seguir a jornada de Plínio, um idoso aposentado que vive em um asilo na cidade de São Paulo. A marcenaria é sua forma de terapia, e na pequena oficina do asilo, ele mantém a mente ativa ao criar peças em madeira. Esses trabalhos manuais são muito mais que simples atividades; representam a tentativa de Plínio de se conectar com suas lembranças e preservar sua autonomia em meio ao inevitável processo de envelhecimento.
A chegada de
Anselmo, o novo jardineiro do asilo, marca o início de uma relação que, à
primeira vista, parece casual, mas rapidamente revela uma profundidade
emocional inesperada. O filme ganha ritmo quando Plínio, ao ver Anselmo podando
as plantas de forma que considera inadequada, critica o seu trabalho. Esse
embate inicial, sutil e aparentemente trivial, esconde camadas mais profundas;
enquanto Anselmo, jovem e cheio de vigor, segue sua rotina sem grande apego, Plínio
agarra-se a detalhes como forma de manter algum controle sobre sua vida. Essa
cena não é apenas um choque de gerações; ela antecipa um dos principais temas
do filme: a busca pela dignidade na velhice e o desejo de manter relevância em
um mundo que parece esquecê-lo.
À medida que o filme avança, o elo entre Plínio e Anselmo se fortalece, especialmente durante a celebração da Páscoa no asilo. Plínio espera ansiosamente pela visita de seus familiares, acreditando que eles chegarão a qualquer momento. Em contraste, uma outra residente, em meio à demência, fala sobre a chegada de sua mãe e primos, figuras que claramente não vêm. Plínio, ainda lúcido, insiste que seus filhos virão, criando uma tensão dolorosa. Ele se distingue da outra idosa, mas, conforme a festa avança e seus parentes não aparecem, a linha entre o delírio da demência e a esperança em vão começa a se apagar. Este momento é crucial para o espectador compreender a fragilidade emocional de Plínio e a profunda sensação de abandono que ele enfrenta.
Em uma
demonstração de bondade, Anselmo se oferece para levar Plínio até sua antiga
casa. O percurso é repleto de diálogos que evidenciam o abismo entre o passado
de Plínio e o presente, trazendo à tona o sentimento de desconexão que muitos
idosos sentem em relação ao mundo moderno. Plínio fala com nostalgia dos tempos
em que nadava no rio Tietê, agora poluído e irreconhecível, enquanto Anselmo
tenta explicar o uso de aplicativos e GPS, tecnologias que parecem distantes
demais para o idoso compreender plenamente. Esse contraste entre o passado e o
presente simboliza não apenas a transformação do ambiente ao redor de Plínio,
mas também o quanto ele se sente deslocado em um mundo que mudou drasticamente.
Ao chegarem ao local onde ficava sua antiga casa, Plínio é tomado por uma sensação de desolação ao perceber que sua residência foi substituída por um prédio moderno. A cena captura, de maneira devastadora, o sentimento de perda que permeia a vida de Plínio — ele não perdeu apenas um espaço físico, mas uma parte significativa de sua identidade, das memórias e das conexões que faziam parte de quem ele é. Anselmo, com sua paciência habitual, permanece ao lado de Plínio, permitindo-lhe processar essa nova realidade. Depois de um tempo, o jardineiro o convida para sua casa, onde compartilham uma refeição simples, mas cheia de simbolismo e afeto.
O ápice
emocional do filme ocorre quando, após o almoço, Plínio presenteia Anselmo com
uma pequena casinha de madeira que ele mesmo esculpiu. Ao receber o presente,
Anselmo o coloca em uma estante já repleta de casinhas idênticas. Esse momento
revela uma verdade impactante: a jornada de Plínio não é única, mas parte de um
ciclo que ele já percorreu diversas vezes, sem lembrança de que isso já tinha
ocorrido antes. A coleção de casinhas que Anselmo acumula simboliza a repetição
desse ritual de esquecimento e reencontro, indicando que, apesar de sua
aparente lucidez, Plínio está preso a um ciclo de memórias fragmentadas.
A atuação de
Lima Duarte como Plínio é um espetáculo de sensibilidade. Ele transita entre
momentos de lucidez e dor com uma sutileza notável, demonstrando o sofrimento
silencioso de alguém que luta para preservar sua dignidade em meio à sensação
de abandono. Guilherme Rodio, no papel de Anselmo, traz uma serenidade
acolhedora, atuando como um contraponto necessário à turbulência emocional de
Plínio. Seu personagem é a âncora de calma e compaixão, sugerindo, sem precisar
dizer, que existe uma profunda conexão entre os dois homens. Essa ligação, que
o filme nunca esclarece completamente, deixa o público com a dúvida: será
Anselmo apenas um cuidador atencioso ou há uma relação mais íntima, talvez
familiar, entre eles?
A direção de arte e a fotografia são igualmente impecáveis. As cores suaves, quase desbotadas, e a iluminação difusa criam a atmosfera melancólica e nostálgica que permeia o filme, reforçando a sensação de perda e o peso do tempo. Já a trilha sonora, sutil e discreta, acompanha as cenas com delicadeza, amplificando o impacto emocional dos momentos-chaves sem jamais se sobrepor à narrativa.
"A Volta
Para Casa" é uma meditação profunda sobre o envelhecimento, a memória e o
valor das conexões humanas. Plínio, com sua casinha de madeira, tenta se
agarrar ao que ainda resta de sua identidade e de suas lembranças, enquanto
Anselmo, com sua paciência e cuidado, representa a esperança de que, mesmo em
meio à perda e ao esquecimento, há espaço para gestos de gentileza e empatia. O
filme nos convida a refletir sobre a finitude da vida e sobre como podemos
lidar com a passagem do tempo — não com respostas, mas com solidariedade e
aceitação.




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