segunda-feira, 30 de junho de 2025

BAILE (2019)


          O curta-metragem "Baile", dirigido por Cíntia Domit Bittar, é um exemplo impressionante da habilidade da cineasta em transformar situações cotidianas em histórias tocantes e emocionantes. A trama gira em torno de uma família, composta por Andrea, uma menina de 10 anos, sua mãe, Lurdes, e sua bisavó. Através de uma narrativa intimista e sensível, o filme explora as lutas diárias dessa família, que vive em condições simples, mas não se rende diante das dificuldades.

Lurdes, uma mãe solo que sustenta a casa com o seu emprego e tirando fotos 3x4 em casa, conta com a ajuda de Andrea para cuidar da bisavó. Andrea, apesar da pouca idade, já se depara com as desigualdades do mundo ao acompanhar sua mãe na vida diária, desde o corte dos remédios gratuitos que antes conseguiam nas farmácias públicas, até a sua visita à Assembleia Legislativa, onde ela percebe de maneira simbólica as diferenças de gênero e de poder na sociedade. Na assembleia, o espaço dedicado às mulheres eleitas é diminuto e composto de simples fotografias, enquanto os presidentes da casa, todos homens, são homenageados com quadros imponentes. A jovem Andrea se dá conta dessa desigualdade ao observar como os homens ganham mais destaque, algo que escancara as disparidades que ainda existem.

Com muita sutileza, Cíntia Domit Bittar traça um paralelo entre a situação de Andrea e o contexto maior em que ela vive. A coleção de fotos 3x4 tiradas em casa por sua mãe adquire uma relevância simbólica dentro da narrativa, estabelecendo uma ligação emocional entre as experiências cotidianas da protagonista e os retratos de figuras públicas. Essa metáfora, além de representar a luta por visibilidade das mulheres, também reflete os sonhos e as esperanças de uma menina que, mesmo diante das dificuldades, anseia por um futuro melhor.

Tecnicamente, "Baile" brilha em diversos aspectos. A fotografia é notável pela forma como os enquadramentos acompanham de perto a vida de Andrea, criando uma conexão íntima entre o público e a personagem. A trilha sonora, discreta e precisa, complementa o tom sensível da narrativa, assim como o figurino e a direção de arte, que retratam com fidelidade a simplicidade da vida de uma família comum.

Outro elemento essencial para o sucesso do filme é o elenco. Emily de Jesus, como Andrea, oferece uma interpretação cheia de nuances, que captura a inocência e a criatividade da infância. Patrícia Saravy, no papel de Lurdes, representa com honestidade e força a luta diária de uma mulher que faz o melhor para manter o bem estar da família. Adélia Domingues Garcia, interpretando a bisavó, completa o núcleo familiar com uma atuação tocante e comovente. Além disso, o filme conta com a presença de Adriane Canan, Chico Caprario, Elaina Sallas e Giovana Valgas, que acrescentam ainda mais riqueza ao elenco.

O curta tem uma estrutura narrativa circular, o que reforça a conexão entre o início e o final do filme. A sequência inicial, em que Lurdes fotografa as pessoas, é espelhada na cena final, quando Andrea, repetindo as palavras da mãe, tenta fazer o mesmo com a bisavó. A ideia de manter o sorriso diante das adversidades é um dos temas centrais da obra, sublinhando a resiliência e a força dessa família.

"Baile" foi exibido em diversos festivais ao redor do mundo, destacando-se por sua sensibilidade e pela maneira única como aborda questões sociais e pessoais. O filme foi premiado como melhor curta-metragem pela Academia Brasileira de Cinema em 2020 e recebeu elogios da crítica por seu olhar refinado sobre a vida de mulheres comuns que, muitas vezes, não têm suas histórias contadas. O sucesso do filme foi tanto que chegou a ser cotado para concorrer ao Oscar de melhor curta-metragem em 2021, consolidando Cíntia Domit Bittar como uma das diretoras mais importantes do cinema nacional.

"Baile" transcende sua condição de curta-metragem para se transformar em uma poderosa reflexão sobre desigualdade, sonhos e a importância de encontrar momentos de felicidade, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. A história de Andrea, Lurdes e sua bisavó é um convite para que o público veja a beleza nas pequenas coisas da vida e perceba que, mesmo em um ambiente de desafios e restrições, sempre há espaço para o sorriso e para a esperança, porém, sem abrir mão das pertinentes reflexões e críticas.




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