Com direção
sensível e apurada de Fernanda Terra Costa, o curta-metragem “Ausência”
mergulha de forma delicada, mas profunda, na complexidade emocional de um
reencontro entre pai e filho após um longo período de distanciamento. Já no
primeiro contato entre os dois, em uma cafeteria, fica evidente o abismo que os
separa. O silêncio inicial, as palavras hesitantes e a linguagem corporal
contida deixam claro que a reconexão será um processo lento, cercado de mágoas
não ditas e afetos sufocados.
O roteiro, com
autoria de Fernanda Terra Costa, Giovana Tavares e Mirielen de Arantes, conduz
o espectador por um caminho repleto de nuances, onde cada pausa e cada frase
carregam significados profundos. A narrativa evita apontar culpados ou definir
um motivo único para o afastamento, apostando na sutileza para construir um retrato
honesto sobre relações familiares marcadas por lacunas emocionais. Em vez de
julgamentos ou confrontos abertos, o que se vê é uma tentativa de reconciliação
marcada pelo respeito e pela necessidade mútua de compreensão.
Na conversa aparentemente banal sobre a antiga sorveteria que existia onde hoje está a cafeteria, há um lampejo de memória afetiva. Pequenas lembranças do passado surgem com um certo calor nostálgico, sugerindo que, apesar da distância e das feridas, ainda existem raízes compartilhadas que podem sustentar um recomeço.
À medida que a
dupla se desloca para um parque da cidade, um novo cenário, frio, vazio e
cinzento, reflete com precisão o estado emocional dos personagens. A escolha do
local é simbólica: o parque representa o espaço aberto da possibilidade, mas
também o terreno gelado das emoções ainda não resolvidas. É ali que o texto
começa a expor com mais clareza os motivos da ruptura, mas sem recorrer a
explicações diretas. O que importa não é tanto o que aconteceu, mas o que ainda
pode acontecer entre os dois.
As atuações de Marcus Amaral e Lucas Barbosa são um dos pontos altos do curta. Eles oferecem interpretações profundamente comoventes, construindo seus personagens com camadas de dor, arrependimento e um desejo sincero de se reconectarem. Os diálogos entre os dois são marcados por uma tensão emocional palpável, mas também por um carinho contido, que se manifesta mais nos gestos e nos silêncios do que nas palavras.
“Ausência” é
também um exemplo primoroso de como os elementos técnicos podem potencializar
uma narrativa intimista. A fotografia aposta em uma paleta de cores frias e
acinzentadas, sugerindo o distanciamento emocional e a rigidez de sentimentos
que ainda precisam ser descongelados. Isso se mantém durante toda a narrativa,
porém, abrindo possibilidade para que uma luz mais forte e quente possa
iluminar o relacionamento entre pai e filho a partir daquele reencontro.
A direção de
arte acerta nos detalhes, utilizando objetos e figurinos de maneira funcional e
simbólica, reforçando os estados internos dos personagens sem apelar para coisas
superficiais. Já a trilha sonora, ou melhor, sua quase ausência, funciona como
um recurso de imersão. O silêncio é preenchido por sons diegéticos suaves, como
os passos sobre a terra ou o canto distante de pássaros, criando uma atmosfera
contemplativa que amplifica as emoções contidas. A ausência de uma trilha
musical invasiva é, na verdade, um recurso narrativo poderoso: ela reforça o
tom realista e introspectivo da obra.
O que “Ausência”
entrega ao espectador é mais do que uma história sobre reconciliação: é uma
reflexão sobre o tempo, a solidão, os afetos que se perdem, e os laços que,
mesmo frágeis, ainda podem ser restaurados. O curta grita, silenciosamente, por
um abraço que não se vê, mas se sente, um abraço carregado de afeto, dor, e
sobretudo de esperança. Não há pretensões de redenção plena ou soluções fáceis.
O que se vê é um gesto singelo de abertura, um primeiro passo em direção à
reconstrução de algo que, por muito tempo, esteve quebrado.
“Ausência” é
um Drama intimista e emocionalmente profunda, uma obra feita com afeto, empatia
e inteligência emocional. A sensibilidade da direção, aliada ao texto maduro e
às atuações impactantes, resulta em um filme comovente, que ressoa no coração
de quem já enfrentou o silêncio de vínculos familiares interrompidos. É,
sobretudo, um convite à escuta, à presença e ao perdão. Um curta que, ao final,
deixa uma certeza: mesmo os afetos mais adormecidos podem despertar, quando
alimentados com honestidade e desejo sincero de recomeçar.



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