terça-feira, 29 de julho de 2025

AUSÊNCIA (2024)

 


Com direção sensível e apurada de Fernanda Terra Costa, o curta-metragem “Ausência” mergulha de forma delicada, mas profunda, na complexidade emocional de um reencontro entre pai e filho após um longo período de distanciamento. Já no primeiro contato entre os dois, em uma cafeteria, fica evidente o abismo que os separa. O silêncio inicial, as palavras hesitantes e a linguagem corporal contida deixam claro que a reconexão será um processo lento, cercado de mágoas não ditas e afetos sufocados.

O roteiro, com autoria de Fernanda Terra Costa, Giovana Tavares e Mirielen de Arantes, conduz o espectador por um caminho repleto de nuances, onde cada pausa e cada frase carregam significados profundos. A narrativa evita apontar culpados ou definir um motivo único para o afastamento, apostando na sutileza para construir um retrato honesto sobre relações familiares marcadas por lacunas emocionais. Em vez de julgamentos ou confrontos abertos, o que se vê é uma tentativa de reconciliação marcada pelo respeito e pela necessidade mútua de compreensão.

Na conversa aparentemente banal sobre a antiga sorveteria que existia onde hoje está a cafeteria, há um lampejo de memória afetiva. Pequenas lembranças do passado surgem com um certo calor nostálgico, sugerindo que, apesar da distância e das feridas, ainda existem raízes compartilhadas que podem sustentar um recomeço.

À medida que a dupla se desloca para um parque da cidade, um novo cenário, frio, vazio e cinzento, reflete com precisão o estado emocional dos personagens. A escolha do local é simbólica: o parque representa o espaço aberto da possibilidade, mas também o terreno gelado das emoções ainda não resolvidas. É ali que o texto começa a expor com mais clareza os motivos da ruptura, mas sem recorrer a explicações diretas. O que importa não é tanto o que aconteceu, mas o que ainda pode acontecer entre os dois.

As atuações de Marcus Amaral e Lucas Barbosa são um dos pontos altos do curta. Eles oferecem interpretações profundamente comoventes, construindo seus personagens com camadas de dor, arrependimento e um desejo sincero de se reconectarem. Os diálogos entre os dois são marcados por uma tensão emocional palpável, mas também por um carinho contido, que se manifesta mais nos gestos e nos silêncios do que nas palavras.

“Ausência” é também um exemplo primoroso de como os elementos técnicos podem potencializar uma narrativa intimista. A fotografia aposta em uma paleta de cores frias e acinzentadas, sugerindo o distanciamento emocional e a rigidez de sentimentos que ainda precisam ser descongelados. Isso se mantém durante toda a narrativa, porém, abrindo possibilidade para que uma luz mais forte e quente possa iluminar o relacionamento entre pai e filho a partir daquele reencontro.

A direção de arte acerta nos detalhes, utilizando objetos e figurinos de maneira funcional e simbólica, reforçando os estados internos dos personagens sem apelar para coisas superficiais. Já a trilha sonora, ou melhor, sua quase ausência, funciona como um recurso de imersão. O silêncio é preenchido por sons diegéticos suaves, como os passos sobre a terra ou o canto distante de pássaros, criando uma atmosfera contemplativa que amplifica as emoções contidas. A ausência de uma trilha musical invasiva é, na verdade, um recurso narrativo poderoso: ela reforça o tom realista e introspectivo da obra.

O que “Ausência” entrega ao espectador é mais do que uma história sobre reconciliação: é uma reflexão sobre o tempo, a solidão, os afetos que se perdem, e os laços que, mesmo frágeis, ainda podem ser restaurados. O curta grita, silenciosamente, por um abraço que não se vê, mas se sente, um abraço carregado de afeto, dor, e sobretudo de esperança. Não há pretensões de redenção plena ou soluções fáceis. O que se vê é um gesto singelo de abertura, um primeiro passo em direção à reconstrução de algo que, por muito tempo, esteve quebrado.

“Ausência” é um Drama intimista e emocionalmente profunda, uma obra feita com afeto, empatia e inteligência emocional. A sensibilidade da direção, aliada ao texto maduro e às atuações impactantes, resulta em um filme comovente, que ressoa no coração de quem já enfrentou o silêncio de vínculos familiares interrompidos. É, sobretudo, um convite à escuta, à presença e ao perdão. Um curta que, ao final, deixa uma certeza: mesmo os afetos mais adormecidos podem despertar, quando alimentados com honestidade e desejo sincero de recomeçar.



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