O Documentário
“Maranhão 66”, dirigido pelo icônico cineasta Glauber Rocha e com colaboração
de Fernando Duarte, é uma obra que transcende seu tempo. Lançado em 1966, o
filme se debruça sobre a posse de José Sarney como governador do Maranhão, no
mesmo ano, e sobre a crua realidade social do estado, marcada por promessas
políticas grandiosas, mas desprovidas de ações concretas. O filme, embora
antigo, ecoa uma mensagem dolorosamente atual, refletindo sobre como as
práticas políticas de discurso vazio e abandono social se perpetuam no Brasil.
Glauber Rocha,
um dos maiores expoentes do Cinema Novo, utilizou sua linguagem cinematográfica
inovadora para construir uma narrativa impactante e visualmente perturbadora.
No Documentário, Sarney, em um palanque majestoso, dirige seu discurso ao povo
do Maranhão, exaltando as belezas naturais e prometendo melhorias para o
estado. Contudo, o que se desenrola nas cenas seguintes é um contraste cruel:
as palavras do político são justapostas com a dura realidade das ruas, onde o
abandono, a pobreza extrema e a falta de infraestrutura se tornam
protagonistas.
A direção de Rocha é implacável ao intercalar o discurso cheio de esperanças e promessas com imagens desoladoras do cotidiano maranhense: casas de taipa, esgoto a céu aberto, hospitais caindo aos pedaços. A alternância dessas cenas gera uma sensação de desconforto e indignação no espectador, revelando a falsa esperança vendida pela classe política em tempos de eleição. O Documentário não é uma simples crítica ao governador, mas sim uma exposição de uma realidade muito mais ampla, que toca as oligarquias que há décadas controlam o poder em várias regiões do Brasil.
Nas imagens de
“Maranhão 66”, a pobreza e a desigualdade social ganham uma dimensão quase
palpável. A lente de Glauber Rocha escancara a situação precária da população
maranhense, abandonada por um sistema que promete mudança, mas perpetua um
ciclo de negligências. A promessa de Sarney de um governo voltado para o
desenvolvimento e a melhoria da vida das pessoas parece cada vez mais distante
à medida que o filme avança e as imagens de miséria se intensificam.
Um dos momentos mais impactantes do Documentário ocorre quando, em meio aos gritos de apoio ao governador, surgem os depoimentos de uma enfermeira e de um paciente em um hospital sem a mínima condição de funcionamento. A precariedade é evidente: falta de leitos, falta de medicamentos, e uma estrutura incapaz de atender as necessidades mais básicas. Esses depoimentos humanizam a narrativa e dão voz àqueles que mais sofrem com o abandono estatal.
Rocha e Duarte
fazem um trabalho excepcional ao contrastar esses relatos de dor e abandono com
a retórica política de Sarney, que ecoa palavras como "progresso" e
"desenvolvimento", mas que, na prática, não se concretizam para a
maioria da população. As contradições entre discurso e realidade são
escancaradas, fazendo com que o espectador reflita sobre a distância abissal
entre o que é prometido e o que é vivido.
“Maranhão 66”
é um Documentário que vai além de uma simples denúncia. Ele expõe a perpetuação
de um sistema político excludente, onde as promessas de campanha são
rapidamente esquecidas e onde os políticos, após eleitos, voltam a aparecer
apenas quando novas eleições se aproximam. O ciclo de abandono e promessas vazias
é apresentado de forma visceral, deixando claro que o que é retratado no
Maranhão é um reflexo de uma realidade brasileira muito mais ampla.
As cenas de
lixos nas ruas, urubus sobrevoando as áreas mais degradadas e crianças famintas
compõem um retrato visual impactante, que não pode ser ignorado. O filme não
oferece alívio ou esperança imediata. Ao contrário, Glauber Rocha provoca o
espectador a encarar a realidade nua e crua da miséria e da fome que assolam o
Maranhão, e que, em muitos aspectos, continuam a assolar diversas regiões do
Brasil, décadas depois.
A genialidade de Glauber Rocha reside também em sua capacidade de colocar o espectador como parte da crítica social. O estilo documental cru e direto cria uma ruptura emocional com a forma convencional de se fazer política. O filme é uma declaração audaciosa de que os problemas sociais não podem ser varridos para debaixo do tapete, e que o cinema tem o poder de revelar essas verdades incômodas.
Em termos de
linguagem cinematográfica, “Maranhão 66” é um exemplo da estética da fome
defendida por Glauber Rocha e pelo Cinema Novo, movimento que buscava retratar
as realidades sociais do Brasil de forma direta e sem romantizações. A opção
por não maquiar ou suavizar a miséria e as condições precárias da população é
uma escolha consciente, que visa chocar e provocar reflexão no espectador. A
estética utilizada no filme reforça a sensação de caos e abandono que permeia
as vidas das pessoas retratadas.
Outro ponto
que merece destaque é a fotografia, que, apesar de sua simplicidade, é
incrivelmente eficaz. As imagens de campos áridos, ruas enlameadas e corpos
subnutridos contrastam com a pompa e circunstância do discurso político,
criando uma dicotomia visual que amplifica a mensagem crítica do filme.
“Maranhão 66”
é, sem dúvidas, um Documentário essencial para quem deseja entender não apenas
a situação do Maranhão naquele período, mas também as dinâmicas políticas e
sociais que continuam a moldar o Brasil. O filme é um retrato fiel de uma
realidade que, infelizmente, permanece atual. Mesmo décadas após o lançamento
do Documentário, as promessas políticas para combater a miséria e melhorar as
condições de vida continuam a ser repetidas, e os problemas persistem.
Glauber Rocha,
com sua visão crítica e seu talento inquestionável, criou uma obra que é, ao
mesmo tempo, um documento histórico e uma denúncia atemporal. “Maranhão 66” é
uma peça fundamental do Cinema Novo e da filmografia brasileira, que continua a
reverberar como um grito de alerta contra a hipocrisia política e o abandono
social.




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