quinta-feira, 7 de agosto de 2025

MARANHÃO 66 (1966)

 


O Documentário “Maranhão 66”, dirigido pelo icônico cineasta Glauber Rocha e com colaboração de Fernando Duarte, é uma obra que transcende seu tempo. Lançado em 1966, o filme se debruça sobre a posse de José Sarney como governador do Maranhão, no mesmo ano, e sobre a crua realidade social do estado, marcada por promessas políticas grandiosas, mas desprovidas de ações concretas. O filme, embora antigo, ecoa uma mensagem dolorosamente atual, refletindo sobre como as práticas políticas de discurso vazio e abandono social se perpetuam no Brasil.

Glauber Rocha, um dos maiores expoentes do Cinema Novo, utilizou sua linguagem cinematográfica inovadora para construir uma narrativa impactante e visualmente perturbadora. No Documentário, Sarney, em um palanque majestoso, dirige seu discurso ao povo do Maranhão, exaltando as belezas naturais e prometendo melhorias para o estado. Contudo, o que se desenrola nas cenas seguintes é um contraste cruel: as palavras do político são justapostas com a dura realidade das ruas, onde o abandono, a pobreza extrema e a falta de infraestrutura se tornam protagonistas.

A direção de Rocha é implacável ao intercalar o discurso cheio de esperanças e promessas com imagens desoladoras do cotidiano maranhense: casas de taipa, esgoto a céu aberto, hospitais caindo aos pedaços. A alternância dessas cenas gera uma sensação de desconforto e indignação no espectador, revelando a falsa esperança vendida pela classe política em tempos de eleição. O Documentário não é uma simples crítica ao governador, mas sim uma exposição de uma realidade muito mais ampla, que toca as oligarquias que há décadas controlam o poder em várias regiões do Brasil.

Nas imagens de “Maranhão 66”, a pobreza e a desigualdade social ganham uma dimensão quase palpável. A lente de Glauber Rocha escancara a situação precária da população maranhense, abandonada por um sistema que promete mudança, mas perpetua um ciclo de negligências. A promessa de Sarney de um governo voltado para o desenvolvimento e a melhoria da vida das pessoas parece cada vez mais distante à medida que o filme avança e as imagens de miséria se intensificam.

Um dos momentos mais impactantes do Documentário ocorre quando, em meio aos gritos de apoio ao governador, surgem os depoimentos de uma enfermeira e de um paciente em um hospital sem a mínima condição de funcionamento. A precariedade é evidente: falta de leitos, falta de medicamentos, e uma estrutura incapaz de atender as necessidades mais básicas. Esses depoimentos humanizam a narrativa e dão voz àqueles que mais sofrem com o abandono estatal.

Rocha e Duarte fazem um trabalho excepcional ao contrastar esses relatos de dor e abandono com a retórica política de Sarney, que ecoa palavras como "progresso" e "desenvolvimento", mas que, na prática, não se concretizam para a maioria da população. As contradições entre discurso e realidade são escancaradas, fazendo com que o espectador reflita sobre a distância abissal entre o que é prometido e o que é vivido.

“Maranhão 66” é um Documentário que vai além de uma simples denúncia. Ele expõe a perpetuação de um sistema político excludente, onde as promessas de campanha são rapidamente esquecidas e onde os políticos, após eleitos, voltam a aparecer apenas quando novas eleições se aproximam. O ciclo de abandono e promessas vazias é apresentado de forma visceral, deixando claro que o que é retratado no Maranhão é um reflexo de uma realidade brasileira muito mais ampla.

As cenas de lixos nas ruas, urubus sobrevoando as áreas mais degradadas e crianças famintas compõem um retrato visual impactante, que não pode ser ignorado. O filme não oferece alívio ou esperança imediata. Ao contrário, Glauber Rocha provoca o espectador a encarar a realidade nua e crua da miséria e da fome que assolam o Maranhão, e que, em muitos aspectos, continuam a assolar diversas regiões do Brasil, décadas depois.

A genialidade de Glauber Rocha reside também em sua capacidade de colocar o espectador como parte da crítica social. O estilo documental cru e direto cria uma ruptura emocional com a forma convencional de se fazer política. O filme é uma declaração audaciosa de que os problemas sociais não podem ser varridos para debaixo do tapete, e que o cinema tem o poder de revelar essas verdades incômodas.

Em termos de linguagem cinematográfica, “Maranhão 66” é um exemplo da estética da fome defendida por Glauber Rocha e pelo Cinema Novo, movimento que buscava retratar as realidades sociais do Brasil de forma direta e sem romantizações. A opção por não maquiar ou suavizar a miséria e as condições precárias da população é uma escolha consciente, que visa chocar e provocar reflexão no espectador. A estética utilizada no filme reforça a sensação de caos e abandono que permeia as vidas das pessoas retratadas.

Outro ponto que merece destaque é a fotografia, que, apesar de sua simplicidade, é incrivelmente eficaz. As imagens de campos áridos, ruas enlameadas e corpos subnutridos contrastam com a pompa e circunstância do discurso político, criando uma dicotomia visual que amplifica a mensagem crítica do filme.

“Maranhão 66” é, sem dúvidas, um Documentário essencial para quem deseja entender não apenas a situação do Maranhão naquele período, mas também as dinâmicas políticas e sociais que continuam a moldar o Brasil. O filme é um retrato fiel de uma realidade que, infelizmente, permanece atual. Mesmo décadas após o lançamento do Documentário, as promessas políticas para combater a miséria e melhorar as condições de vida continuam a ser repetidas, e os problemas persistem.

Glauber Rocha, com sua visão crítica e seu talento inquestionável, criou uma obra que é, ao mesmo tempo, um documento histórico e uma denúncia atemporal. “Maranhão 66” é uma peça fundamental do Cinema Novo e da filmografia brasileira, que continua a reverberar como um grito de alerta contra a hipocrisia política e o abandono social.




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