Com realização do Coletivo Santa
Madeira em parceria com a Associação de Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, o
curta-metragem “O Plantador de Quiabos” é dirigido coletivamente por Jair S.
Molina Jr., Luiz Romero de Araujo Lacerda, Renato Helena Jr., Aline Marques,
Andrei Moyssiadis e Caio Silva Ferraz. A força da coletividade se reflete
diretamente na riqueza estética, na sensibilidade narrativa e na atmosfera calorosa
que envolvem o filme do início ao fim.
A história
acompanha o cotidiano de uma família que vive na zona rural do interior do
estado de São Paulo. O pai, João, interpretado com grande naturalidade por
Divino Silva, é um homem simples, trabalhador, que cultiva quiabos em sua
pequena propriedade, onde vive com sua esposa e filha, interpretadas por Marcia
Martins e Vitória Souza. O cultivo, embora honesto e digno, impõe desafios
práticos: João precisa escoar sua produção com mais agilidade, e para isso, vê
na compra de uma bicicleta de carga a possibilidade de aliviar seu esforço
físico e aumentar sua produtividade. No entanto, ao decidir ir até a cidade com
sua esposa e sua filha, João se vê diante de um dilema que atravessa o filme
com sutileza e emoção: escolher entre sua necessidade como provedor e o desejo
singelo de sua filha.
“O Plantador de Quiabos” se desenha como uma Comédia dramática, mas é, sobretudo, um filme encantador em sua simplicidade, com uma atmosfera nostálgica, acolhedora e profundamente humana. A construção dessa sensação se deve à soma de elementos técnicos de altíssimo nível: a fotografia primorosa, que capta com delicadeza a luz do campo e a beleza dos gestos cotidianos; a montagem fluida, que permite à narrativa respirar no tempo da roça; a direção de arte sensível, que valoriza os pequenos detalhes da vida rural; e a trilha sonora encantadora, ancorada na viola caipira, que atua como fio condutor emocional da história.
O espectador é
convidado a mergulhar naquele universo rural, a vivenciar o dia a dia da
família, a acompanhar João ordenhando a vaca, colhendo quiabos ou simplesmente
sonhando com uma bicicleta ou moto. A coesão narrativa e dramática é um dos
grandes méritos do curta. A jornada da família até a cidade evidencia o quão
distantes estão do centro urbano e de suas facilidades. Enquanto a televisão,
presente no lar, mostra o caos da capital paulista, a viagem na carroceria de
uma caminhonete materializa a transição entre dois mundos: do ambiente calmo,
onde o trabalho é manual e familiar, ao cenário das grandes fazendas
mecanizadas, dominadas por colheitadeiras e pela eficiência impessoal.
Essa viagem não é apenas geográfica, mas simbólica. Ela escancara as transformações no campo e os desafios impostos à pequena produção familiar. O filme questiona, com sutileza, a pressão por adaptação que recai sobre João. A bicicleta de carga surge como uma possível solução, permitindo transportar mais caixas, alcançar mais clientes, competir melhor. Porém, ao lado disso, está o sonho infantil da filha, que deseja algo mais leve, lúdico, adequado à sua idade. O curta, então, contrapõe dois desejos legítimos: o do adulto, movido por necessidade, e o da criança, movido por pureza. A resolução final, tratada com profunda delicadeza, emociona sem forçar, e consegue arrancar um sorriso sincero do espectador.
O roteiro de
Jair S. Molina Jr. é coeso, maduro e afetuoso. Ele conduz a história com
simplicidade e precisão, permitindo que cada cena seja carregada de humanidade
e empatia. Não há sobras no texto: cada diálogo é significativo, cada ação é
pensada para transmitir a ternura e a força daquelas relações familiares. A
dinâmica entre pai, mãe e filha revela um modo de vida próprio, onde o afeto se
expressa em silêncios, gestos e olhares. É uma família que sonha com dias
melhores, sim, mas que também sabe valorizar a beleza da vida que leva.
“O Plantador de Quiabos” se revela como uma bela joia do cinema brasileiro em curta-metragem. Uma obra que, com recursos modestos e muito talento, entrega ao público uma experiência envolvente, poética e cheia de significado. Um filme que, com seu charme singelo, nos leva a repensar o que realmente importa.




Nenhum comentário:
Postar um comentário