Com uma linguagem poética e sensível, Ernesto de Carvalho dirige com maestria o Documentário “Nunca é Noite no Mapa”. Utilizando apenas imagens do Google Maps e Google Street View, ele narra com muita assertividade alguns dos problemas sociais flagrados pelas lentes da big tech. O Google Street View é uma ferramenta do Google Maps que permite explorar virtualmente ruas e avenidas em todo o mundo. Ele oferece imagens panorâmicas de 360° em horizontal.
O
diretor, que também narra o Documentário, divaga sobre as ferramentas
disponibilizadas pelo Google e pelo fato dele ter conseguido fotografar a
viatura da empresa que captura imagens de cidades e ruas pelo mundo.
O curta, porém, vai muito além de imagens de ruas, prédios históricos e monumentos importantes. Os realizadores demonstram como a viatura do Google pode apresentar uma triste realidade, especialmente nas periferias das grandes cidades. Os flagrantes registrados de viaturas policiais abordando jovens é frequente. Como também é comum imagens de moradores de rua.
A
linguagem poética dá uma enorme força na capacidade de absorção do espectador,
que passa a refletir sobre como muitas coisas mudam no ambiente e, muitas
vezes, não damos conta. As datas de imagens revelam essas mudanças e, muitas
delas, são difíceis de digerir. Portanto, “Nunca é Noite no Mapa” mostra que
essas reflexões são necessárias.
Nas mudanças de datas feitas pelo diretor, uma mesma área onde pequenas e humildes casa estavam localizadas, foram sendo, ao longo do tempo, derrubadas para uma construção de um edifício usado nas Olimpíadas. Para muito além das imagens e de sua passagem no tempo, passamos a perceber que famílias foram desalojadas. E onde elas estariam nesse momento?
“Nunca
é Noite no Mapa” tem elementos técnicos extremamente importantes para a
construção da narrativa. Mesmo com a curta duração de seis minutos, o curta é
de uma profundidade impressionante, refletindo sobre cada pessoa flagrada no
Google Street View tem uma vida, dificuldades e personalidade. Uma pessoa
alcoolizada que dorme num beco, provavelmente não queria ser fotografada pela
viatura do Google. Mas, infelizmente, a câmera fez esse registro. E por que
essa pessoa estaria alcoolizada? Quais os problemas que ela enfrenta.
De forma magistral, os realizadores apresentam muitos dos problemas da sociedade atual, com a existência de outras viaturas, que modificam o ambiente ou representam a opressão de parte da população periférica e pobre. A viatura do Google escolheu capturar essas imagens? O profissional que dirige a viatura tinha esse objetivo? O funcionário da empresa de segurança privada que trabalha para o Google tinha isso em mente?
O Google Street View mostra casas, pontos turísticos, prédios históricos, praças arborizadas, praias ensolaradas, mas, infelizmente não tem a capacidade de ignorar a pobreza, a repressão policial, o desprezo governamental. “Nunca é Noite no Mapa” convida o espectador para essas reflexões. Tudo isso acontece no mesmo mapa que mostra a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade.




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