O curta
"A Encomenda" nos conduz por uma jornada simbólica e reflexiva,
oferecendo uma narrativa que, à primeira vista, pode parecer simples, mas que
carrega uma profundidade significativa. O enredo central gira em torno de um
velho homem, interpretado magistralmente por Othon Bastos, que caminha
solitariamente por uma estrada de terra sob um sol implacável, carregando uma mala
cujo conteúdo permanece um mistério até o final. Esse homem, com sua expressão
cansada e passos lentos, carrega consigo muito mais do que apenas um objeto
físico. A mala, aos poucos, revela-se como uma metáfora para o peso emocional
de sua vida; arrependimentos, sonhos não realizados, angústias e frustrações
acumuladas ao longo dos anos.
Logo no início da jornada, o velho encontra João, um homem mais jovem, vivido por Marcos Breda, que está à beira da estrada tentando consertar seu carro. A interação entre os dois começa de maneira aparentemente casual, com o velho pedindo um pouco de água para matar sua sede. No entanto, o diálogo que se segue, girando em torno da mala enigmática, logo assume uma tonalidade mais profunda. João, curioso sobre o que poderia estar dentro da mala, oferece ajuda, mas o velho recusa, preferindo continuar sozinho sua caminhada. Esse encontro, que inicialmente parece uma obra do acaso, carrega uma carga simbólica que se revela ao longo da trama, sugerindo que o destino de ambos está interligado de maneiras inesperadas.
O cenário em
que o curta se desenrola é fundamental para a atmosfera da história. A estrada
de terra deserta, com o calor escaldante do sol, não é apenas um pano de fundo
físico, mas também uma representação das adversidades da vida, uma metáfora
para a solidão e o desgaste emocional que o protagonista carrega. A fotografia
de Alan Minas, que também dirige e roteiriza o filme, é essencial para
transmitir essa sensação de desconforto, com a luz crua do sol escaldante
acentuando o peso da jornada do velho homem. A aridez da paisagem reflete seu
estado emocional, enquanto o longo trajeto que percorre sugere uma busca por
algo que talvez nem ele mesmo compreenda completamente.
O ponto alto
da narrativa ocorre quando os personagens se reencontram, já calçando sapatos
novos. Essa mudança aparentemente sutil sugere um progresso simbólico, uma
transição para um novo estágio em suas respectivas jornadas. João, que pode ser
interpretado como uma figura de transformação ou redenção, insiste em saber o
que há dentro da mala, intrigado com o valor que o velho atribui a ela. A
resposta, no entanto, nunca é explícita. A mala não é apenas um recipiente
físico; ela simboliza o fardo emocional que o velho homem carrega, algo que ele
sente ser seu dever suportar, como todos nós carregamos nossas próprias
bagagens emocionais ao longo da vida.
O momento mais revelador do filme ocorre quando João finalmente se identifica como alguém enviado para buscar a "encomenda". É nesse ponto que o curta transcende o plano material e assume uma dimensão mais filosófica e metafórica. João, que inicialmente parecia apenas um curioso ou um viajante comum, revela-se como uma espécie de mensageiro, talvez uma figura alegórica da morte ou da aceitação, aquele que vem para aliviar o peso que o velho homem carrega. Quando o velho, relutante, entrega a mala a João, o espectador compreende que essa ação representa muito mais do que uma simples troca de objetos, sendo um ato de desapego, de liberação de suas angústias e traumas, um momento de redenção pessoal.
A jornada do
velho homem ao longo da estrada árida torna-se uma metáfora para a própria
existência humana, com suas dificuldades, desafios e incertezas. A chegada de
João para "buscar" a encomenda pode ser vista como uma representação
da inevitabilidade do momento em que todos nós devemos confrontar o que
acumulamos e, eventualmente, abrir mão disso para encontrar paz.
O final do
curta é envolto em poesia e ambiguidade, deixando muito espaço para a interpretação
do espectador. Quando João sugere ao velho que "volte para o lugar de onde
veio", essa frase pode ser interpretada de diversas formas: um retorno às
origens, à infância ou às memórias mais profundas, ou talvez até um convite
para reencontrar a paz interior, agora que o fardo foi entregue. Esse retorno
pode representar tanto uma jornada física quanto espiritual/mental, sugerindo
uma reconciliação com o passado e uma aceitação do presente.
Outro símbolo que merece destaque é o dos sapatos novos. Ao calçar novos sapatos, tanto o velho quanto João, indicam que estão prontos para seguir em frente, cada um pelo seu próprio caminho. O ato de deixar para trás os sapatos antigos pode ser interpretado como um gesto de renovação, de abandono do passado e das cargas emocionais que ele representa. Essa escolha estética simples reforça a ideia de que, ao longo da vida, precisamos, em algum momento, abandonar aquilo que já não nos serve e caminhar com mais leveza.
"A
Encomenda" é um curta-metragem que, apesar de sua duração limitada,
consegue explorar questões existenciais e espirituais de forma profunda e
significativa. A simplicidade aparente da narrativa esconde uma riqueza de
camadas simbólicas que propõe ao espectador refletir sobre o peso das escolhas,
a inevitabilidade do desapego e o processo de encontrar sentido e redenção ao
longo da vida. Ao não fornecer respostas definitivas, o filme permite que cada
espectador traga suas próprias vivências e interpretações, tornando a
experiência ainda mais pessoal. Trata-se de uma obra que ressoa no silêncio, na
solidão da estrada e no mistério da mala, deixando um impacto duradouro sobre
aqueles que se dispõem a acompanhá-la até o final.
"A Encomenda" está disponível para assinantes do Porta Curtas





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