terça-feira, 13 de janeiro de 2026

UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

 


Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura militar brasileira, os dois homens carregam um passado comum que nunca foi realmente resolvido. O reencontro, aparentemente cordial, já nasce carregado de silêncios, olhares e tensões que denunciam que aquela visita vai muito além de uma simples conversa entre velhos conhecidos.

Com atuações intensas e absolutamente magnéticas de Osmar Prado e Samir Murad, interpretando Castro Mendes e Aristides, o curta constrói uma atmosfera densa desde os primeiros minutos. A preparação minuciosa da casa de Aristides, a organização quase obsessiva do ambiente e o cuidado nos pequenos gestos transmitem uma tentativa de acolhimento, mas também revelam um homem que busca controlar tudo ao seu redor, talvez como forma de compensar aquilo que nunca conseguiu dominar internamente.

O diálogo inicial é econômico, mas extremamente eficaz. Em poucos minutos, o espectador é situado nas alegrias, frustrações e marcas deixadas pelo tempo. Castro Mendes aparenta ter tido uma trajetória mais estável, enquanto Aristides, viúvo há mais de uma década, demonstra dificuldades evidentes em lidar com o envelhecimento, a solidão e, principalmente, com as memórias de um passado que ainda o assombra. O encontro, que começa com lembranças quase afetuosas, logo revela fissuras profundas.

Cristiano Requião, responsável pelo roteiro e direção, realiza um trabalho primoroso ao conduzir essa transição do confortável para o desconfortável. A conversa muda de tom de maneira quase imperceptível, mas extremamente eficiente. Em um momento, dois ex-torturadores trocam papos e lembranças do cotidiano; no seguinte, surgem questionamentos diretos sobre métodos, responsabilidades e justificativas morais. Um defende a ideia de dever cumprido e da suposta necessidade daquele trabalho; o outro deixa escapar incômodos e culpas que jamais encontraram descanso.

“Um Café e Quatro Segundos” propõe uma reflexão dura sobre feridas abertas durante o período ditatorial brasileiro, feridas que permanecem expostas e sem cicatrização até hoje. O diálogo entre Aristides e Castro Mendes se transforma em um embate moral e ético, que atravessa desde discursos de “defesa da nação” até a denúncia da violência institucionalizada e de seus efeitos prolongados na sociedade. O filme não oferece respostas simples, mas obriga o espectador a encarar essas contradições de frente.

O curta não se concentra na figura da vítima direta da tortura, mas lança luz sobre aqueles que executaram ordens e sobre como esse sistema também os corroeu. No entanto, a narrativa deixa claro que o impacto não foi igual para todos. Aristides parece ter sido atingido de forma mais profunda, carregando uma dor silenciosa e acumulada ao longo de décadas. Suas falas, pausas e expressões revelam um sofrimento contido, que nenhuma justificativa ideológica consegue apagar.

O debate sobre os limites ultrapassados pelos órgãos de repressão é abordado com contundência. A angústia de Aristides não está relacionada apenas à repressão de grupos armados, mas ao conhecimento de que inúmeros inocentes foram perseguidos, desapareceram ou morreram sem terem qualquer ligação direta com movimentos de resistência. Esse reconhecimento transforma o passado em um peso insuportável, que retorna naquele encontro aparentemente banal.

Com interpretações extraordinárias de Samir Murad e Osmar Prado, Cristiano Requião extrai o máximo de cada palavra e de cada silêncio. A tensão cresce de forma progressiva, colocando o espectador em um estado constante de expectativa e desconforto. Não se trata apenas de observar dois personagens em cena, mas de testemunhar um confronto entre consciências, onde arrependimento, negação e crueldade se chocam. Ou, talvez, a constatação de que para alguns não existe arrependimento possível.

O filme demonstra, com enorme precisão, como um único ambiente e um roteiro bem construído podem sustentar uma narrativa poderosa. “Um Café e Quatro Segundos” acerta plenamente nos aspectos narrativos e dramáticos, assim como nos elementos técnicos. A direção de arte, ao enfatizar a organização da casa de Aristides, cria um contraste perturbador com o que está prestes a acontecer. Fotografia e montagem mantêm um equilíbrio rigoroso, potencializando o impacto emocional dos personagens. O som e a trilha sonora, utilizados de forma contida, aproximam ainda mais o espectador dos dois amigos e reforçam a sensação de realidade.

“Um Café e Quatro Segundos” é uma verdadeira joia do cinema brasileiro em curta-metragem. Um drama com fortes camadas de suspense que incomoda, provoca e convida à reflexão sobre um passado que não pode ser esquecido. Ao abordar as consequências de ações cometidas em nome de um regime, o filme lembra que certas escolhas geram reações inevitáveis e que, muitas vezes, o acerto de contas chega de forma brutal e definitiva, culminando em um desfecho profundamente chocante. 



      

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A VELHA A FIAR (1964)

 


Com direção de Humberto Mauro, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, “A Velha a Fiar” é um delicioso curta-metragem que conduz o espectador a uma viagem por um universo próprio, onde o sentimento mais presente e marcante é a nostalgia. Trata-se de uma obra simples em aparência, mas extremamente rica em sensações, memórias e significados, capaz de atravessar gerações com a mesma força afetiva.

Humberto Mauro nos apresenta um ambiente rural que se constrói de maneira orgânica, acompanhado por uma música que imediatamente nos situa naquele espaço e naquele tempo. A música incidental, calma e cadenciada, funciona como um convite à contemplação. Ela introduz o lugar, os personagens e o ritmo da vida no campo, retratada de forma genuína, harmoniosa e serena. Tudo ali parece seguir um fluxo natural, distante da pressa urbana, permitindo que o espectador observe cada detalhe com atenção e afeto.

O cotidiano apresentado na primeira parte do curta, com homens, mulheres, animais e insetos compartilhando o mesmo espaço, prepara cuidadosamente o terreno para o que vem a seguir. Esse registro quase observacional, que acompanha gestos simples e rotinas básicas, cria uma atmosfera de intimidade e pertencimento. É a partir dessa construção que o filme transita para a segunda parte, marcada pela canção infantil que dá nome à obra e que passa a conduzir toda a narrativa.

Humberto Mauro trata cada elemento com extremo cuidado e sensibilidade. A introdução não é gratuita, mas uma preparação essencial para a imersão musical que se segue, fazendo com que o espectador, quase involuntariamente, tente acompanhar ou cantar a canção junto com o filme. Os arranjos musicais, de Aldo Taranto, e a interpretação do Trio Irakitã são fundamentais para o impacto da obra, conferindo ritmo, leveza e um caráter lúdico que dialoga diretamente com a memória afetiva do público.

Após longos planos abertos que revelam riachos, tanques, bois, cães e o carro de bois, elementos que povoam o imaginário da cultura caipira brasileira, somos finalmente apresentados à velha que dá título ao filme. A câmera observa com atenção esse universo, valorizando não apenas a personagem central, mas todo o contexto que a cerca, como se cada imagem fosse uma extensão da canção que está por vir.

Em sua máquina de costura, a velha tenta realizar o seu trabalho, sendo constantemente atrapalhada por uma mosca. Mateus Colaço, vivendo a velha a fiar, constrói sua atuação de maneira sensível e cômica, mesmo sem o uso de diálogos. A expressividade corporal e o timing preciso permitem que o espectador compreenda emoções, intenções e situações apenas pelo gesto e pelo olhar. O ator acaba por imortalizar não apenas uma canção, mas uma obra cinematográfica de valor inestimável.

Muita gente considera “A Velha a Fiar” o primeiro videoclipe brasileiro. No entanto, ao observar o filme como um todo, é possível perceber que sua primeira parte se aproxima de um registro documental, enquanto a segunda assume plenamente o caráter musical. A genialidade de Humberto Mauro está justamente nessa fusão, conseguindo, em pouco mais de seis minutos, apresentar um universo rural completo e evocar uma canção que independe de localidade, funcionando tanto no campo quanto na cidade.

A sequência musical é uma verdadeira obra de arte, marcada por uma montagem inventiva e extremamente precisa. A cada novo personagem que surge em cena, guiado pela letra da canção, o ritmo da edição se intensifica. Ainda assim, esse aumento não cansa nem dispersa, pelo contrário, acrescenta dinamismo e mantém a empolgação do espectador até o último minuto.

Mesmo com as diversas variações que a canção ganhou ao longo do tempo, é quase impossível não se identificar com o filme, especialmente para quem viveu a infância nos anos oitenta ou antes. “A Velha a Fiar” é uma obra atemporal, que atravessa épocas sem perder sua força, seu humor e sua ternura. É uma joia do cinema brasileiro, um clássico absoluto que merece todos os elogios. Ao assistir a esse curta de Humberto Mauro, a sensação final é a de um profundo e doce gosto de nostalgia, daqueles que permanecem na memória por muito tempo.




UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...