Com direção de
Humberto Mauro, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, “A Velha a Fiar” é
um delicioso curta-metragem que conduz o espectador a uma viagem por um
universo próprio, onde o sentimento mais presente e marcante é a nostalgia.
Trata-se de uma obra simples em aparência, mas extremamente rica em sensações,
memórias e significados, capaz de atravessar gerações com a mesma força
afetiva.
Humberto Mauro
nos apresenta um ambiente rural que se constrói de maneira orgânica,
acompanhado por uma música que imediatamente nos situa naquele espaço e naquele
tempo. A música incidental, calma e cadenciada, funciona como um convite à
contemplação. Ela introduz o lugar, os personagens e o ritmo da vida no campo,
retratada de forma genuína, harmoniosa e serena. Tudo ali parece seguir um
fluxo natural, distante da pressa urbana, permitindo que o espectador observe
cada detalhe com atenção e afeto.
O cotidiano
apresentado na primeira parte do curta, com homens, mulheres, animais e insetos
compartilhando o mesmo espaço, prepara cuidadosamente o terreno para o que vem
a seguir. Esse registro quase observacional, que acompanha gestos simples e
rotinas básicas, cria uma atmosfera de intimidade e pertencimento. É a partir
dessa construção que o filme transita para a segunda parte, marcada pela canção
infantil que dá nome à obra e que passa a conduzir toda a narrativa.
Humberto Mauro trata cada elemento com extremo cuidado e sensibilidade. A introdução não é gratuita, mas uma preparação essencial para a imersão musical que se segue, fazendo com que o espectador, quase involuntariamente, tente acompanhar ou cantar a canção junto com o filme. Os arranjos musicais, de Aldo Taranto, e a interpretação do Trio Irakitã são fundamentais para o impacto da obra, conferindo ritmo, leveza e um caráter lúdico que dialoga diretamente com a memória afetiva do público.
Após longos
planos abertos que revelam riachos, tanques, bois, cães e o carro de bois,
elementos que povoam o imaginário da cultura caipira brasileira, somos
finalmente apresentados à velha que dá título ao filme. A câmera observa com
atenção esse universo, valorizando não apenas a personagem central, mas todo o
contexto que a cerca, como se cada imagem fosse uma extensão da canção que está
por vir.
Em sua máquina de costura, a velha tenta realizar o seu trabalho, sendo constantemente atrapalhada por uma mosca. Mateus Colaço, vivendo a velha a fiar, constrói sua atuação de maneira sensível e cômica, mesmo sem o uso de diálogos. A expressividade corporal e o timing preciso permitem que o espectador compreenda emoções, intenções e situações apenas pelo gesto e pelo olhar. O ator acaba por imortalizar não apenas uma canção, mas uma obra cinematográfica de valor inestimável.
Muita gente
considera “A Velha a Fiar” o primeiro videoclipe brasileiro. No entanto, ao
observar o filme como um todo, é possível perceber que sua primeira parte se
aproxima de um registro documental, enquanto a segunda assume plenamente o
caráter musical. A genialidade de Humberto Mauro está justamente nessa fusão,
conseguindo, em pouco mais de seis minutos, apresentar um universo rural
completo e evocar uma canção que independe de localidade, funcionando tanto no
campo quanto na cidade.
A sequência musical é uma verdadeira obra de arte, marcada por uma montagem inventiva e extremamente precisa. A cada novo personagem que surge em cena, guiado pela letra da canção, o ritmo da edição se intensifica. Ainda assim, esse aumento não cansa nem dispersa, pelo contrário, acrescenta dinamismo e mantém a empolgação do espectador até o último minuto.
Mesmo com as
diversas variações que a canção ganhou ao longo do tempo, é quase impossível
não se identificar com o filme, especialmente para quem viveu a infância nos
anos oitenta ou antes. “A Velha a Fiar” é uma obra atemporal, que atravessa
épocas sem perder sua força, seu humor e sua ternura. É uma joia do cinema
brasileiro, um clássico absoluto que merece todos os elogios. Ao assistir a
esse curta de Humberto Mauro, a sensação final é a de um profundo e doce gosto
de nostalgia, daqueles que permanecem na memória por muito tempo.




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