quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A VELHA A FIAR (1964)

 


Com direção de Humberto Mauro, um dos maiores nomes do cinema brasileiro, “A Velha a Fiar” é um delicioso curta-metragem que conduz o espectador a uma viagem por um universo próprio, onde o sentimento mais presente e marcante é a nostalgia. Trata-se de uma obra simples em aparência, mas extremamente rica em sensações, memórias e significados, capaz de atravessar gerações com a mesma força afetiva.

Humberto Mauro nos apresenta um ambiente rural que se constrói de maneira orgânica, acompanhado por uma música que imediatamente nos situa naquele espaço e naquele tempo. A música incidental, calma e cadenciada, funciona como um convite à contemplação. Ela introduz o lugar, os personagens e o ritmo da vida no campo, retratada de forma genuína, harmoniosa e serena. Tudo ali parece seguir um fluxo natural, distante da pressa urbana, permitindo que o espectador observe cada detalhe com atenção e afeto.

O cotidiano apresentado na primeira parte do curta, com homens, mulheres, animais e insetos compartilhando o mesmo espaço, prepara cuidadosamente o terreno para o que vem a seguir. Esse registro quase observacional, que acompanha gestos simples e rotinas básicas, cria uma atmosfera de intimidade e pertencimento. É a partir dessa construção que o filme transita para a segunda parte, marcada pela canção infantil que dá nome à obra e que passa a conduzir toda a narrativa.

Humberto Mauro trata cada elemento com extremo cuidado e sensibilidade. A introdução não é gratuita, mas uma preparação essencial para a imersão musical que se segue, fazendo com que o espectador, quase involuntariamente, tente acompanhar ou cantar a canção junto com o filme. Os arranjos musicais, de Aldo Taranto, e a interpretação do Trio Irakitã são fundamentais para o impacto da obra, conferindo ritmo, leveza e um caráter lúdico que dialoga diretamente com a memória afetiva do público.

Após longos planos abertos que revelam riachos, tanques, bois, cães e o carro de bois, elementos que povoam o imaginário da cultura caipira brasileira, somos finalmente apresentados à velha que dá título ao filme. A câmera observa com atenção esse universo, valorizando não apenas a personagem central, mas todo o contexto que a cerca, como se cada imagem fosse uma extensão da canção que está por vir.

Em sua máquina de costura, a velha tenta realizar o seu trabalho, sendo constantemente atrapalhada por uma mosca. Mateus Colaço, vivendo a velha a fiar, constrói sua atuação de maneira sensível e cômica, mesmo sem o uso de diálogos. A expressividade corporal e o timing preciso permitem que o espectador compreenda emoções, intenções e situações apenas pelo gesto e pelo olhar. O ator acaba por imortalizar não apenas uma canção, mas uma obra cinematográfica de valor inestimável.

Muita gente considera “A Velha a Fiar” o primeiro videoclipe brasileiro. No entanto, ao observar o filme como um todo, é possível perceber que sua primeira parte se aproxima de um registro documental, enquanto a segunda assume plenamente o caráter musical. A genialidade de Humberto Mauro está justamente nessa fusão, conseguindo, em pouco mais de seis minutos, apresentar um universo rural completo e evocar uma canção que independe de localidade, funcionando tanto no campo quanto na cidade.

A sequência musical é uma verdadeira obra de arte, marcada por uma montagem inventiva e extremamente precisa. A cada novo personagem que surge em cena, guiado pela letra da canção, o ritmo da edição se intensifica. Ainda assim, esse aumento não cansa nem dispersa, pelo contrário, acrescenta dinamismo e mantém a empolgação do espectador até o último minuto.

Mesmo com as diversas variações que a canção ganhou ao longo do tempo, é quase impossível não se identificar com o filme, especialmente para quem viveu a infância nos anos oitenta ou antes. “A Velha a Fiar” é uma obra atemporal, que atravessa épocas sem perder sua força, seu humor e sua ternura. É uma joia do cinema brasileiro, um clássico absoluto que merece todos os elogios. Ao assistir a esse curta de Humberto Mauro, a sensação final é a de um profundo e doce gosto de nostalgia, daqueles que permanecem na memória por muito tempo.




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