Em uma pequena
cidade do interior, o bar local está em plena agitação com uma animada partida
de truco. Quatro homens jogam concentrados, mas o que está em jogo não é
dinheiro ou bebida, e sim a promessa de contar um “causo” em caso de derrota,
uma tradição peculiar entre os frequentadores daquele local. A aposta, simples
à primeira vista, carrega uma atmosfera de mistério, já que, em uma cidade onde
as histórias se misturam com o folclore, um “causo” pode revelar mais do que
apenas uma anedota; ele pode mergulhar o ouvinte em um universo onde o real e o
sobrenatural se encontram.
“O Perfumado”,
um curta-metragem envolvente, nos transporta para esse cenário de suspense e
mistério, utilizando como ponto de partida a figura enigmática de um homem que
vive na região, conhecido apenas por seu apelido: O Perfumado. O filme encanta
logo de início, não só pela sua narrativa intrigante, mas também pela forma
como mescla elementos do folclore brasileiro com um enredo cheio de tensão e
sutileza. Desde o começo, o espectador é convidado a adentrar um universo onde
as histórias contadas na mesa de um bar podem esconder verdades sombrias e inesperadas.
Dirigido por
Mauro Giuntini e com roteiro de Di Moretti, “O Perfumado” se destaca ao
construir sua trama a partir de uma narração bem-humorada e envolvente, que aos
poucos vai revelando os mistérios que cercam a figura central da história. O
causo narrado durante a partida de truco tem como protagonista uma mulher que
aparece certo dia no bar, com um objetivo claro: encontrar o homem conhecido
como O Perfumado. A mulher, interpretada por Felícia Johanson, se aproxima do
proprietário do local pedindo um copo d’água e, em seguida, questiona o
paradeiro do enigmático homem. O ambiente muda de tom, pois o simples pedido do
endereço gera desconforto, como se o nome do Perfumado trouxesse uma espécie de
maldição.
A presença do sobrenatural no filme é sutil, mas marcante. O Perfumado é uma figura temida, cuja reputação se espalha por lendas e cochichos entre os moradores, chegando até a cidade grande. O filme consegue, com maestria, criar uma atmosfera de mistério que prende o espectador, enquanto acompanhamos a jornada da vendedora em busca desse homem que parece habitar tanto o mundo real quanto o imaginário da cidade. A cada passo que a mulher dá em direção ao seu destino, a tensão cresce.
A trilha
sonora é um dos elementos mais poderosos da produção, contribuindo para a
imersão completa nesse universo rural e misterioso. O som da viola caipira,
característico da região, acompanha a narração do causo, adicionando uma camada
emocional que enriquece ainda mais a experiência do espectador. A música não só
reforça o tom folclórico da história, como também funciona como um fio
condutor, guiando-nos pela crescente sensação de que algo perturbador está
prestes a acontecer.
A fotografia é outro aspecto técnico que merece destaque. Utilizando tons escuros e sombras profundas, o diretor de fotografia opta por uma abordagem que amplifica o mistério em torno do Perfumado. O homem é retratado de forma quase fantasiosa, com suas roupas escuras e presença elegante, criando um contraste com o ambiente simples da cidade.
No que diz
respeito à montagem, o filme adota um ritmo que reflete o suspense crescente da
narrativa. Cada corte é calculado para aumentar a tensão, e a cada momento em
que a mulher se aproxima do encontro com o Perfumado, a montagem enfatiza a
iminência de um possível desfecho trágico ou sobrenatural. Entretanto, a
revelação final é tanto surpreendente quanto sutil, deixando no ar a pergunta
sobre até que ponto o medo e o mistério em torno do homem são fruto de sua
natureza ou de projeções daqueles que o temem.
O elenco do
filme é igualmente eficiente na criação dessa atmosfera de suspense. João
Antônio assume o papel do contador do causo, trazendo uma performance cheia de
carisma e autenticidade, enquanto José Delvinei Santos interpreta o enigmático
Perfumado de maneira contida, mas impactante. Sua atuação é marcada por gestos
sutis, que vão compondo a aura sobrenatural em torno de sua figura. Os
personagens coadjuvantes, interpretados por Chico Sant’Anna e Patrícia
Carvalho, completam o elenco com atuações que contribuem para o senso de
comunidade e folclore que permeia o filme.
“O Perfumado” é um exemplo primoroso de como o cinema pode utilizar o sobrenatural de forma criativa e original, sem recorrer aos clichês do gênero. Em vez de imagens assustadoras ou sustos batidos, o filme opta por um suspense construído lentamente, baseado no desconhecido e no poder das histórias contadas. O que torna o curta ainda mais fascinante é sua capacidade de brincar com as expectativas do espectador, subvertendo-as de maneira inteligente ao final.
Com suas
camadas de mistério, narrativa cativante e elementos técnicos primorosos,
"O Perfumado" não é apenas um filme de Suspense, mas uma reflexão
sobre o medo do desconhecido e o poder das histórias que contamos uns aos
outros. Ao término do curta, o espectador é deixado com uma sensação de
encantamento e reflexão, relembrando que, no final, as maiores ameaças podem
estar mais em nossas mentes do que na realidade.





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