Ao assistir o curta-metragem “Inexistente” pela primeira vez, o
espectador é imediatamente envolvido pela história de Andréia, uma jovem mulher
que recentemente perdeu o marido em um trágico homicídio motivado por
xenofobia. Ainda imersa em seu luto, ela se vê incapaz de aceitar completamente
a morte abrupta de seu companheiro, e sua dor se reflete em cada palavra que
pronuncia sobre essa perda devastadora. O filme começa com Andréia desabafando
sobre a sua solidão e o vazio que a morte de seu marido deixou em sua vida. Ela
questiona o sentido da existência, ao mesmo tempo em que expressa sua
indignação com a maldade que levou ao crime de ódio.
Gustavo, interpretado de maneira contida e sensível por Mij
Atunbi, surge como o amigo que tenta consolar Andréia, mas logo se percebe que,
frente a uma dor tão profunda, não há muito que possa ser dito. Ele ouve
atentamente enquanto ela narra a brutalidade da violência que tirou a vida do
marido e reflete sobre as injustiças do mundo. Embora ele seja uma presença
constante e tranquilizadora, Gustavo mantém uma postura discreta, com sua
serenidade contrastando fortemente com a angústia da protagonista.
A atuação de Paloma Gavinhos, que interpreta Andréia, é notável
pela intensidade emocional. Ela não apenas interpreta uma mulher em luto, mas
sim uma pessoa à beira de uma crise existencial, dilacerada pela perda e pela
crueldade do assassinato. Suas expressões faciais e a carga emocional em sua
voz transmitem o peso do trauma, fazendo com que o público sinta cada momento
de sua dor e revolta. A maneira como ela expõe suas incertezas sobre o futuro,
e o porquê de tanta crueldade no mundo, nos aproxima ainda mais de sua
realidade.
O filme é uma obra delicadamente conduzida pela diretora Giovanna
Imperatore, que utiliza uma fotografia densa e evocativa para amplificar o
clima de luto e reflexão.
À medida que a trama avança, fica evidente que há mais do que um
simples relato de perda. A relação entre Gustavo e Andréia se revela
gradualmente, com ele tentando, de todas as maneiras, acalmar a viúva,
oferecendo uma espécie de consolo que vai além das palavras. No entanto, o
espectador atento perceberá que há algo de estranho na forma como Gustavo
interage com ela, sempre com uma postura excessivamente calma, em contraste com
a agitação de Andréia. Enquanto ela fala sobre o marido falecido, sobre os
detalhes do crime e como tudo aconteceu, Gustavo escuta em silêncio, com suas
poucas palavras sendo apenas o suficiente para manter a conversa.
Esse contraste entre a calma de Gustavo e a dor avassaladora de
Andréia é uma das grandes sacadas do roteiro. O desempenho comedido de Mij
Atunbi faz com que o público acredite que ele é apenas um amigo do casal,
alguém que estava próximo o suficiente para conhecer ambos intimamente, mas que
ainda mantém uma distância emocional. É exatamente essa atuação discreta que
prepara o terreno para a grande revelação do filme.
Quando finalmente chega o clímax da narrativa, a verdade é
revelada de maneira surpreendente: Gustavo, na verdade, é o marido assassinado.
Essa reviravolta, executada de forma brilhante, transforma todo o filme em algo
muito maior do que um simples drama sobre luto. Gustavo não é apenas uma figura
de consolo, mas sim uma presença espectral, ainda preso ao mundo dos vivos,
procurando ajudar sua esposa a seguir em frente. A sua aflição só se torna
visível quando o sofrimento de Andréia atinge o ápice. Ele tenta tocá-la,
estender-lhe a mão, mas é nesse momento que o público se depara com a verdade
devastadora: ele já não pertence a este mundo.
A maneira como a diretora constrói essa revelação é sutil, mas
extremamente impactante. Ao longo do filme, somos levados a acreditar que Gustavo
é apenas um amigo solidário, mas a sua postura inexpressiva e as suas ações
limitadas são pistas que, uma vez compreendidas, tornam a reviravolta ainda
mais poderosa. É quando ele tenta acalmar Andréia que sua impotência fica
evidente, e percebemos que, por mais que ele deseje aliviar o sofrimento dela,
ele está preso em uma condição que impede qualquer intervenção real. Sua
resignação é tocante, pois ele parece ter aceitado sua morte, enquanto Andréia
ainda luta com a dor da ausência.
Além da questão da perda, “Inexistente” também aborda temas
universais e urgentes, como a intolerância e os crimes motivados por ódio, algo
especialmente relevante no Brasil e no mundo contemporâneo. A narrativa levanta
reflexões importantes sobre como a xenofobia, o racismo e outras formas de
discriminação continuam a impactar vidas de maneira trágica. A brutalidade que
tirou a vida de Gustavo, um imigrante, reflete um problema social mais amplo,
que o filme coloca em destaque de maneira urgente.
No fim, “Inexistente” não é apenas um filme sobre a morte, mas
sobre o amor que persiste além da vida, sobre como lidar com o luto e a dor, e
sobre as forças desumanizadoras que ainda permeiam a sociedade. A resolução
final, com Gustavo aceitando sua nova realidade enquanto Andréia enfrenta a
dura jornada de seguir em frente, é ao mesmo tempo triste e esperançosa. O
filme é uma reflexão profunda sobre a morte, a saudade e as injustiças do
mundo, e sua narrativa, ainda que breve, deixa uma marca no espectador.
A obra, conduzida com sensibilidade e inteligência, torna-se um
espelho das nossas lutas cotidianas, questionando não apenas a violência e o
preconceito, mas também nossa própria capacidade de lidar com a perda e
encontrar sentido em um mundo tão cheio de ódio e dor.



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