segunda-feira, 16 de junho de 2025

INEXISTENTE (2018) - CONTÉM SPOILERS







Ao assistir o curta-metragem “Inexistente” pela primeira vez, o espectador é imediatamente envolvido pela história de Andréia, uma jovem mulher que recentemente perdeu o marido em um trágico homicídio motivado por xenofobia. Ainda imersa em seu luto, ela se vê incapaz de aceitar completamente a morte abrupta de seu companheiro, e sua dor se reflete em cada palavra que pronuncia sobre essa perda devastadora. O filme começa com Andréia desabafando sobre a sua solidão e o vazio que a morte de seu marido deixou em sua vida. Ela questiona o sentido da existência, ao mesmo tempo em que expressa sua indignação com a maldade que levou ao crime de ódio.

Gustavo, interpretado de maneira contida e sensível por Mij Atunbi, surge como o amigo que tenta consolar Andréia, mas logo se percebe que, frente a uma dor tão profunda, não há muito que possa ser dito. Ele ouve atentamente enquanto ela narra a brutalidade da violência que tirou a vida do marido e reflete sobre as injustiças do mundo. Embora ele seja uma presença constante e tranquilizadora, Gustavo mantém uma postura discreta, com sua serenidade contrastando fortemente com a angústia da protagonista.

A atuação de Paloma Gavinhos, que interpreta Andréia, é notável pela intensidade emocional. Ela não apenas interpreta uma mulher em luto, mas sim uma pessoa à beira de uma crise existencial, dilacerada pela perda e pela crueldade do assassinato. Suas expressões faciais e a carga emocional em sua voz transmitem o peso do trauma, fazendo com que o público sinta cada momento de sua dor e revolta. A maneira como ela expõe suas incertezas sobre o futuro, e o porquê de tanta crueldade no mundo, nos aproxima ainda mais de sua realidade.

O filme é uma obra delicadamente conduzida pela diretora Giovanna Imperatore, que utiliza uma fotografia densa e evocativa para amplificar o clima de luto e reflexão. 

À medida que a trama avança, fica evidente que há mais do que um simples relato de perda. A relação entre Gustavo e Andréia se revela gradualmente, com ele tentando, de todas as maneiras, acalmar a viúva, oferecendo uma espécie de consolo que vai além das palavras. No entanto, o espectador atento perceberá que há algo de estranho na forma como Gustavo interage com ela, sempre com uma postura excessivamente calma, em contraste com a agitação de Andréia. Enquanto ela fala sobre o marido falecido, sobre os detalhes do crime e como tudo aconteceu, Gustavo escuta em silêncio, com suas poucas palavras sendo apenas o suficiente para manter a conversa.

Esse contraste entre a calma de Gustavo e a dor avassaladora de Andréia é uma das grandes sacadas do roteiro. O desempenho comedido de Mij Atunbi faz com que o público acredite que ele é apenas um amigo do casal, alguém que estava próximo o suficiente para conhecer ambos intimamente, mas que ainda mantém uma distância emocional. É exatamente essa atuação discreta que prepara o terreno para a grande revelação do filme.

Quando finalmente chega o clímax da narrativa, a verdade é revelada de maneira surpreendente: Gustavo, na verdade, é o marido assassinado. Essa reviravolta, executada de forma brilhante, transforma todo o filme em algo muito maior do que um simples drama sobre luto. Gustavo não é apenas uma figura de consolo, mas sim uma presença espectral, ainda preso ao mundo dos vivos, procurando ajudar sua esposa a seguir em frente. A sua aflição só se torna visível quando o sofrimento de Andréia atinge o ápice. Ele tenta tocá-la, estender-lhe a mão, mas é nesse momento que o público se depara com a verdade devastadora: ele já não pertence a este mundo.

A maneira como a diretora constrói essa revelação é sutil, mas extremamente impactante. Ao longo do filme, somos levados a acreditar que Gustavo é apenas um amigo solidário, mas a sua postura inexpressiva e as suas ações limitadas são pistas que, uma vez compreendidas, tornam a reviravolta ainda mais poderosa. É quando ele tenta acalmar Andréia que sua impotência fica evidente, e percebemos que, por mais que ele deseje aliviar o sofrimento dela, ele está preso em uma condição que impede qualquer intervenção real. Sua resignação é tocante, pois ele parece ter aceitado sua morte, enquanto Andréia ainda luta com a dor da ausência.

Além da questão da perda, “Inexistente” também aborda temas universais e urgentes, como a intolerância e os crimes motivados por ódio, algo especialmente relevante no Brasil e no mundo contemporâneo. A narrativa levanta reflexões importantes sobre como a xenofobia, o racismo e outras formas de discriminação continuam a impactar vidas de maneira trágica. A brutalidade que tirou a vida de Gustavo, um imigrante, reflete um problema social mais amplo, que o filme coloca em destaque de maneira urgente.

No fim, “Inexistente” não é apenas um filme sobre a morte, mas sobre o amor que persiste além da vida, sobre como lidar com o luto e a dor, e sobre as forças desumanizadoras que ainda permeiam a sociedade. A resolução final, com Gustavo aceitando sua nova realidade enquanto Andréia enfrenta a dura jornada de seguir em frente, é ao mesmo tempo triste e esperançosa. O filme é uma reflexão profunda sobre a morte, a saudade e as injustiças do mundo, e sua narrativa, ainda que breve, deixa uma marca no espectador.

A obra, conduzida com sensibilidade e inteligência, torna-se um espelho das nossas lutas cotidianas, questionando não apenas a violência e o preconceito, mas também nossa própria capacidade de lidar com a perda e encontrar sentido em um mundo tão cheio de ódio e dor.




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