sábado, 21 de junho de 2025

O ÚLTIMO RETRATO (2016)

 


         "O Último Retrato", com roteiro e direção de Arthur Tuoto, é um curta-metragem que mistura com maestria elementos de Drama e Suspense, envolvendo o espectador em uma atmosfera emocional densa e introspectiva. A trama acompanha uma mulher, interpretada pela talentosa Camilla Loreta, que luta para lidar com o luto após a morte de seu companheiro, interpretado por Marco Barreto. Ele permanece presente em sua vida, não apenas em suas lembranças, mas também em inúmeras fotos, seja nas redes sociais ou em retratos físicos espalhados por sua casa. A atuação de Loreta é sutil, porém intensa, transmitindo com profundidade a dor silenciosa e o vazio que acompanham sua personagem.

O curta explora uma questão aparentemente banal, mas de grande impacto emocional: a decisão de deletar ou manter ativo o perfil do falecido nas redes sociais. Em um mundo onde as memórias de uma pessoa são frequentemente capturadas e armazenadas digitalmente, apagar o perfil de alguém que partiu pode ser visto como um gesto simbólico de apagar partes de sua existência, o que aumenta a angústia da protagonista. O filme aborda essa reflexão de forma sensível, questionando o que significa se desapegar das memórias de alguém e como as plataformas digitais moldam nosso luto.

A atmosfera sombria e introspectiva do filme é acentuada pela escolha cuidadosa da fotografia e da trilha sonora. A fotografia, com seus tons escuros e pouca luminosidade, espelha o estado mental da protagonista, imersa na escuridão de seu luto. O ambiente retratado no filme reflete a sensação de isolamento, não apenas físico, mas também emocional, à medida que a personagem se afasta de qualquer contato com o mundo exterior. O apartamento, sempre em tons opacos e cinzentos, parece uma extensão do estado de espírito da mulher, representando o confinamento emocional em que ela vive. Mesmo fora de casa, não há cores vibrantes ou muitos sinais de vida. Tudo parece tingido por uma névoa de tristeza, sugerindo que, onde quer que ela vá, o luto a acompanha.

A trilha sonora é igualmente impactante, optando pelo silêncio e por sons ambientes ao longo da maior parte do filme. Esse silêncio é uma escolha poderosa, que enfatiza o isolamento da protagonista e cria uma imersão completa no universo emocional da personagem. O som quase inexistente, acompanhado pela ausência de falas, contribui para o desenvolvimento da tensão emocional que cresce gradualmente. Somente no terceiro ato, o silêncio é rompido de maneira sutil, mas decisiva, quando o elemento do Suspense começa a se revelar.

Embora o início de "O Último Retrato" sugira um filme focado no Drama, o roteiro se transforma de maneira elegante, introduzindo gradualmente o Suspense. O filme, que até então acompanhava o cotidiano sombrio e repetitivo da protagonista, passa a insinuar que o "último retrato" do título pode não ser aquele que ela contempla nas fotografias. Há uma sensação crescente de que algo mais está acontecendo, algo que transcende a simples tristeza. O espectador é convidado a questionar a realidade dos acontecimentos: estaria a mulher, em seu desespero, criando um universo próprio, no qual o falecido pode retornar para vê-la, ou os eventos sobrenaturais que parecem se desenrolar no final são reais?

O curta é inteligente ao deixar espaço para múltiplas interpretações. Pode-se ver o final do filme através de uma lente mais concreta e emocional, interpretando as ações da protagonista como fruto de sua angústia e de uma mente perturbada pela dor. Ou pode-se optar por uma leitura mais metafísica, na qual a mulher, ao reviver incessantemente as memórias de seu amado, acaba por invocá-lo de alguma forma. A ambiguidade em torno dessa questão é um dos pontos altos do roteiro, mantendo o público em um estado de suspense até o último segundo.

Tecnicamente, "O Último Retrato" é impecável. A montagem é fluida, conduzindo o espectador por uma jornada emocional profunda e, ao mesmo tempo, ajudando a construir a tensão de maneira sutil e gradual. A direção de arte também merece destaque, criando um cenário minimalista, mas carregado de simbolismo. Cada detalhe do apartamento da protagonista reflete sua dor e seu luto, desde a falta de cor até a disposição dos objetos que indicam sua obsessão em manter vivas as memórias do companheiro.

A transição de Drama para Suspense é feita de forma gradual e refinada, sem apelos a sustos fáceis ou clichês. O Suspense em "O Último Retrato" não é do tipo que provoca medo imediato, mas sim um desconforto psicológico, um questionamento sobre o que é real e o que é fruto da mente da personagem. O desfecho deixa o espectador com a inquietante dúvida: será que a mulher sucumbiu a seu luto e perdeu o contato com a realidade, ou será que houve algo mais, algo inexplicável, que a visitou em seus momentos finais?

"O Último Retrato" é um exemplo notável de como é possível criar uma narrativa envolvente e profunda com recursos limitados, focando-se na exploração emocional e psicológica da protagonista. Com sua atmosfera densa e sombria, o curta não apenas toca no coração dos espectadores, mas também os deixa refletindo sobre o poder das memórias, o luto e as maneiras complexas com as quais lidamos com a perda.





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