quarta-feira, 18 de junho de 2025

SEM TÍTULO (2004)

O curta-metragem “Sem Título”, com roteiro e direção de Caio Polesi, é uma dessas obras que não se prestam a explicações fáceis e simplistas. Transitando entre a Comédia, o Drama e o Experimental e com uma premissa instigante, o filme apresenta um homem que desperta dentro de um museu e se vê, sem aviso, parte de uma instalação artística. A partir desse momento, inicia-se um percurso que não é apenas narrativo, mas também sensorial, filosófico e político. A narrativa não se resolve em si mesma: ela perturba, provoca, resiste à leitura rápida. E isso, por si só, já é um mérito do roteiro.

Inspirado em uma visita do diretor a uma exposição de arte contemporânea, em especial às obras de Henrique Oliveira, Polesi parte da confusão entre representação e realidade, característica marcante das instalações artísticas, para criar um cenário onde o limite entre o humano e o objeto artístico se dissolve. A ideia, segundo ele, nasce da observação crítica (e um tanto sarcástica) desse tipo de arte: e se alguém acordasse dentro de uma obra e não soubesse se está sendo representado ou exposto?

Essa proposta se concretiza com potência na direção de arte, que é um dos pontos altos do curta. A instalação central, criada por Patricia Osses, é ao mesmo tempo visualmente forte e conceitualmente cruel: um projetor de slides lança incessantemente luzes de recortes de jornal sobre o protagonista, que não consegue ver o conteúdo das imagens, apenas é agredido por elas. A obra se impõe como uma alegoria do excesso de informação, da opressão da imagem, da violência contida na própria ideia de representar o outro sem seu consentimento. O ruído mecânico do projetor torna-se trilha sonora, marca rítmica e linha narrativa do curta. É um som que, como o próprio filme, incomoda, e cumpre bem esse papel.

Mesmo produzido em 2004, bem antes da popularização da internet e das mídias sociais, “Sem Título” consegue dialogar com a atualidade, com exposição excessiva e extrema de pessoas e de como todos podem ser vistos, analisados, rotulados e julgados. Se o protagonista está preso à uma realidade concreta, dentro de um museu, as mídias sociais amplificam muito mais a crítica proposta por Polesi, pois, no atual cenário, a exposição virtual é muito mais acelerada e destrutiva.

A fotografia do filme colabora de maneira decisiva com o estado de desconforto do espectador. A luz ofuscante que atinge o personagem, o uso inteligente dos enquadramentos e a vastidão crua do espaço expositivo, o pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, cedido pelo MAC-USP, acentuam a sensação de solidão e absurdidade da situação. Tudo parece contribuir para a alienação do homem-obra: o espaço não o acolhe, não o explica, não o liberta.

O trabalho do ator Paulo Federal é outro grande acerto. Sem contar com uma direção tradicional, ele foi praticamente deixado livre para construir seu personagem; um risco que, nesse caso, resultou em uma atuação densa, ambígua e sensível. Federal consegue transmitir ao mesmo tempo a perplexidade, o incômodo e a impotência de quem é jogado no meio de um jogo de significações que não controla. Nas palavras do próprio diretor, foi o ator quem acabou dirigindo o filme em muitos momentos, tamanha a entrega e a consciência de cena.

A entrevista de Polesi à RUA (Revista Universitária Audiovisual), criada pelos alunos da turma de 2007 do Curso de Imagem e Som da UFSCar,  revela um diretor ao mesmo tempo consciente e crítico de suas limitações, e talvez seja essa franqueza que dá força ao curta. Ele admite os tropeços da produção, como a precariedade nos ensaios, a inexperiência na direção de atores e até o desabamento parcial do cenário durante as gravações. Mas também revela um entusiasmo genuíno, uma vontade experimental e coletiva de fazer cinema com o que se tem, e esse espírito transborda para o resultado final. A própria criação da “exposição fictícia” envolveu estudantes de artes plásticas, que criaram obras do zero com restos de materiais, conferindo ao projeto um caráter híbrido e quase performático.

Mais do que um exercício estético, “Sem Título” é um gesto político. Quando questionado sobre se o filme é uma afirmação ou uma negação da arte moderna, Polesi responde com sarcasmo e desdém, recusando o papel do artista que precisa “explicar sua obra”. Para ele, o curta é uma crítica feroz a tudo que está aí: ao mercado cultural, à arte esvaziada de sentido, ao cinema domesticado pelas fórmulas. Ele não pretende dialogar com o público; quer incomodar, deslocar, quebrar expectativas. E consegue.

 “Sem Título” é exatamente o que seu nome sugere: uma obra aberta, sem rótulo, sem submissão a categorias pré-determinadas. Um filme para poucos, talvez, mas um filme necessário, que reafirma a arte como lugar de embate, conflito e reflexão. Não é pouco, num tempo em que até a arte muitas vezes se rende à comodidade.




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