Com produção, roteiro, atuação e
direção de Andrea Villela, “Antes do Café” é uma adaptação do monólogo de
Eugene O'Neill. A peça escrita por O'Neill apresenta Mrs. Rowland, esposa de
Alfred, que precisa lidar com a rotina e “presença” do marido.
Gravado
durante a pandemia de Covid, a adaptação produzida por Andrea consegue, ao
mesmo tempo, inserir o espectador naqueles momentos sombrios de isolamento
social, na relação conflituosa entre esposa e marido e, por último, mas não
menos importante, dentro do psicológico e emocional da protagonista.
A
repetição do nome do marido incomoda. Porém, chamar tantas vezes por Alfredo
tem esse objetivo e é primordial para que possamos compreender a raiva,
angústia, decepção, ou seja, tudo o que a protagonista sente em relação ao
marido, pela situação que vive. O curta não mostra apenas uma mulher aborrecida
com o marido; mostra uma relação desgastada e cheia de nuances (algumas mais
sutis, outras mais diretas).
Com fotografia intimista, o filme não fala tanto sobre Alfredo – apesar de seu nome ser dito várias vezes ao longo do curta. Com câmera na mão, colada ao rosto da protagonista, o filme reflete o estado emocional da protagonista, revoltada com o que o marido fez (ou ainda faz). A trilha sonora também é outro ponto de destaque. Nenhum som está fora do lugar, e tudo acontece lentamente, mas de forma impactante.
Se
no início, ao preparar o café, o som ambiente é natural, confortável e
rotineiro, o que vem a seguir é uma crescente no som, que começa a preparar o
espectador para uma tempestade. As trovoadas, anunciando o temporal, é um
espelho do estado mental, emocional e psicológico da protagonista.
Apesar
de contar apenas com uma única personagem (dois, se contarmos com Alfredo, o
personagem oculto), Andrea Villela extrai o máximo do texto, seja pela forma
como a trama ganha densidade, seja com a sua atuação visceral. É possível
perceber desespero quando, ainda no início, ela chama por Alfredo de forma
calma e sutil. E é também possível perceber uma certa tranquilidade, mesmo
quando ela grita, esbravejando e xingando o marido. Como dizem: “é aquela calma
que só o desespero é capaz de dar”. A protagonista mistura calma e agonia,
aceitação e negação, força e fraqueza, porém, tudo de forma intensa, onde cada
barreira é ultrapassada de um segundo para o outro. Essa ambiguidade mostra
como um sentimento pode dar lugar a outro de forma extremamente rápida.
“Antes do Café” trata de temas densos e pesados, ainda mais quando sabemos o que realmente aconteceu com Alfredo. Aí sim, conseguimos compreender totalmente o comportamento da esposa; sua raiva, sua dor, ou quem sabe, ou o peso de carregar uma culpa, que, talvez, ela nem a tenha, porém, se responsabiliza. A insistência por chamar por Alfredo pode ser interpretada como uma forma de alívio. A impressão que dá é que isso é a única coisa que resta na vida da protagonista: chamar por Alfredo, na esperança que ele possa dar algum sinal. Dessa forma, o filme trata do tema da perda e da solidão, levando o espectador a se perguntar onde está Alfredo e porquê ele não responde. A protagonista mente pra si mesma, vive uma ilusão de forma intencional ou não. Isso porque, estando num estado de confusão mental, não dá para afirmar com certeza o que ela acredita ser verdade ou não, o que ela pensa ou não, o que ela vive como real ou como ilusão.
Com poucos recursos e com uma limitação física, Andrea Villela consegue entregar uma atuação potente, mostrando a fragilidade de sua personagem. Ela também demonstra muita versatilidade ao roteirizar, dirigir e montar. A limitação física, imposta pela pandemia, dá força ao filme, fazendo o espectador sentir a opressão daquele lugar que, a protagonista se sente incomodada e presa. Isso reforça que ela não está presa apenas ao local, ao imóvel, mas à própria situação de vida. O espaço físico e a trilha sonora, transmitem o estado mental de uma personagem que vive no limite, devido à atitude de Alfredo. E a pergunta que fica é: mesmo que ela não tenha responsabilidade sobre o destino de Alfredo, por que ela se sente tão culpada?




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