segunda-feira, 14 de julho de 2025

TODA SOMBRA PARECE VIVA (2019)

 

Com roteiro e direção de Leandro Afonso, "Toda Sombra Parece Viva" é um perturbador e incômodo Suspense que reflete, de maneira inquietante, a realidade da segurança das mulheres em diversas sociedades, seja em grandes metrópoles ou em pequenas cidades. O curta-metragem mergulha o espectador na angústia da protagonista, utilizando uma construção cuidadosa para criar uma atmosfera de constante tensão e medo, um reflexo do que muitas mulheres experimentam diariamente.

A partir de elementos inicialmente sutis, o filme gradualmente desenvolve uma atmosfera claustrofóbica e assustadora. A escolha da fotografia é crucial para estabelecer esse tom, com o uso de filtros frios que realçam o desconforto da protagonista e envolvem o espectador em sua jornada de apreensão. Essa sensação de frio não é apenas visual, mas também emocional, deixando clara a vulnerabilidade da personagem frente ao mundo que a cerca.

No centro da narrativa, temos uma protagonista que vive constantemente em estado de alerta. Para ela, simples ações cotidianas, como caminhar pela rua, pegar um elevador ou utilizar um carro de aplicativo, podem representar um risco iminente. A ameaça de assédio ou violência parece sempre à espreita, transformando esses espaços comuns em campos de batalha silenciosos, onde cada olhar e cada movimento pode carregar um perigo oculto.

O grande mérito de "Toda Sombra Parece Viva" é evitar discursos expositivos ou panfletários. Em vez disso, o filme aproxima o público da protagonista, fazendo com que vivenciemos suas aflições de maneira visceral. Sentimos sua paranoia, suas incertezas e seu medo crescente à medida que as "sombras" – que simbolizam ameaças invisíveis, mas sempre presentes – passam a dominar o campo visual e emocional. É uma abordagem inteligente por parte do roteiro, que nos mantém constantemente em alerta, aguardando, com temor, pelo momento em que a protagonista pode ser vítima de algo terrível. A tensão é palpável, e a incerteza é uma companheira constante ao longo do curta.

Fernanda Marques entrega uma performance magistral, transmitindo com precisão as emoções contraditórias de uma mulher que, ao mesmo tempo em que tenta manter uma aparência de normalidade, está sempre à beira do colapso. Seus olhares, gestos e postura corporal revelam uma personagem que já viveu o trauma – ou pelo menos, o medo de viver esse trauma – e que, por isso, interpreta qualquer sombra ou gesto como uma ameaça. Mesmo um simples olhar acintoso de um desconhecido pode ser devastador, revelando o quanto a protagonista está constantemente em posição de defesa.

Tecnicamente, o curta é impecável. O uso de sons diegéticos cria uma sensação de realismo que aproxima ainda mais o espectador da protagonista. Esses sons, tão comuns no dia a dia, se transformam em gatilhos de ansiedade quando vistos do ponto de vista da personagem, que parece nunca estar completamente segura, exceto quando está dentro de sua casa, rodeada por fechaduras e barreiras que lhe proporcionam algum alívio momentâneo. A conexão entre o início e o final do filme é habilmente trabalhada, destacando a diferença brutal entre o mundo externo, que representa o perigo, e o espaço interno da casa, onde ela finalmente pode relaxar e sentir-se segura.

O ápice do curta é uma longa sequência final, onde vemos pessoas transitando pelas ruas, num vai e vem que parece banal, mas que para a protagonista – e para o espectador, a essa altura, é carregado de uma tensão silenciosa. As "sombras" que povoam essas cenas são uma metáfora poderosa para as ameaças invisíveis que mulheres enfrentam diariamente, muitas vezes sem que ninguém ao redor perceba ou compreenda a gravidade da situação.

"Toda Sombra Parece Viva" é um filme que combina Suspense psicológico e crítica social de forma elegante e impactante. Além de entreter, o curta convida à reflexão sobre como o medo da violência é uma constante na vida de muitas mulheres. Leandro Afonso entrega uma obra sensível e poderosa, que ressoa profundamente com os medos e inseguranças que fazem parte do cotidiano feminino em um mundo onde as ameaças nem sempre são visíveis, mas estão sempre presentes, como sombras que espreitam em cada esquina, elevador ou corrida de aplicativo.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

UM CAFÉ E QUATRO SEGUNDOS (2018)

  Castro Mendes chega à residência de Aristides depois de décadas sem contato. Ex-colegas de trabalho em um órgão de repressão da ditadura m...