Com roteiro e
direção de Leandro Afonso, "Toda Sombra Parece Viva" é um perturbador
e incômodo Suspense que reflete, de maneira inquietante, a realidade da
segurança das mulheres em diversas sociedades, seja em grandes metrópoles ou em
pequenas cidades. O curta-metragem mergulha o espectador na angústia da
protagonista, utilizando uma construção cuidadosa para criar uma atmosfera de
constante tensão e medo, um reflexo do que muitas mulheres experimentam
diariamente.
A partir de
elementos inicialmente sutis, o filme gradualmente desenvolve uma atmosfera
claustrofóbica e assustadora. A escolha da fotografia é crucial para estabelecer
esse tom, com o uso de filtros frios que realçam o desconforto da protagonista
e envolvem o espectador em sua jornada de apreensão. Essa sensação de frio não
é apenas visual, mas também emocional, deixando clara a vulnerabilidade da
personagem frente ao mundo que a cerca.
No centro da narrativa, temos uma protagonista que vive constantemente em estado de alerta. Para ela, simples ações cotidianas, como caminhar pela rua, pegar um elevador ou utilizar um carro de aplicativo, podem representar um risco iminente. A ameaça de assédio ou violência parece sempre à espreita, transformando esses espaços comuns em campos de batalha silenciosos, onde cada olhar e cada movimento pode carregar um perigo oculto.
O grande
mérito de "Toda Sombra Parece Viva" é evitar discursos expositivos ou
panfletários. Em vez disso, o filme aproxima o público da protagonista, fazendo
com que vivenciemos suas aflições de maneira visceral. Sentimos sua paranoia,
suas incertezas e seu medo crescente à medida que as "sombras" – que
simbolizam ameaças invisíveis, mas sempre presentes – passam a dominar o campo
visual e emocional. É uma abordagem inteligente por parte do roteiro, que nos
mantém constantemente em alerta, aguardando, com temor, pelo momento em que a
protagonista pode ser vítima de algo terrível. A tensão é palpável, e a
incerteza é uma companheira constante ao longo do curta.
Fernanda
Marques entrega uma performance magistral, transmitindo com precisão as emoções
contraditórias de uma mulher que, ao mesmo tempo em que tenta manter uma
aparência de normalidade, está sempre à beira do colapso. Seus olhares, gestos
e postura corporal revelam uma personagem que já viveu o trauma – ou pelo
menos, o medo de viver esse trauma – e que, por isso, interpreta qualquer
sombra ou gesto como uma ameaça. Mesmo um simples olhar acintoso de um
desconhecido pode ser devastador, revelando o quanto a protagonista está
constantemente em posição de defesa.
Tecnicamente, o curta é impecável. O uso de sons diegéticos cria uma sensação de realismo que aproxima ainda mais o espectador da protagonista. Esses sons, tão comuns no dia a dia, se transformam em gatilhos de ansiedade quando vistos do ponto de vista da personagem, que parece nunca estar completamente segura, exceto quando está dentro de sua casa, rodeada por fechaduras e barreiras que lhe proporcionam algum alívio momentâneo. A conexão entre o início e o final do filme é habilmente trabalhada, destacando a diferença brutal entre o mundo externo, que representa o perigo, e o espaço interno da casa, onde ela finalmente pode relaxar e sentir-se segura.
O ápice do
curta é uma longa sequência final, onde vemos pessoas transitando pelas ruas,
num vai e vem que parece banal, mas que para a protagonista – e para o
espectador, a essa altura, é carregado de uma tensão silenciosa. As
"sombras" que povoam essas cenas são uma metáfora poderosa para as
ameaças invisíveis que mulheres enfrentam diariamente, muitas vezes sem que
ninguém ao redor perceba ou compreenda a gravidade da situação.
"Toda Sombra Parece Viva" é um filme que combina Suspense psicológico e crítica social de forma elegante e impactante. Além de entreter, o curta convida à reflexão sobre como o medo da violência é uma constante na vida de muitas mulheres. Leandro Afonso entrega uma obra sensível e poderosa, que ressoa profundamente com os medos e inseguranças que fazem parte do cotidiano feminino em um mundo onde as ameaças nem sempre são visíveis, mas estão sempre presentes, como sombras que espreitam em cada esquina, elevador ou corrida de aplicativo.




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