domingo, 6 de julho de 2025

ANTES QUE VENHAM ESTOURAR OS NOSSOS MIOLOS (2016) - CONTÉM SPOILERS

 

O encontro entre um garoto e o chefe de um grupo criminoso marca o ponto de partida de "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos"; uma obra que transcende as expectativas de um simples acerto de contas no mundo do crime. No passado, o chefe foi acolhido pelo pai do garoto, e agora, ele decide que chegou a hora do menino ser introduzido aos meandros violentos e impiedosos da vida criminosa. A primeira lição? Executar um homem. A vítima, amarrada e imobilizada em uma cadeira, luta desesperadamente para negociar sua sobrevivência, numa tentativa frenética de escapar da morte iminente.

Dirigido por Tiago Picado e com um roteiro afiado de Pedro Murad, o curta "Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é uma joia rara do cinema nacional. Ele se destaca por navegar entre diferentes gêneros, pegando o espectador de surpresa e entregando uma obra cheia de camadas e reviravoltas inesperadas. O que começa como uma tensa negociação entre um criminoso e sua vítima logo se transforma em uma trama de Suspense psicológico e até mesmo de Horror, envolvendo elementos sobrenaturais. O filme quebra expectativas ao ir além do clichê do acerto de contas, criando uma narrativa rica em tensão e mistério.

O elenco é composto por Alan Pellegrino, André Soares, André Tavares e Cridemar Aquino, todos entregando performances de alta qualidade que elevam a densidade dramática da trama. Cada um traz uma intensidade visceral às suas cenas, destacando o peso moral e emocional da situação em que seus personagens estão envolvidos. Em especial, a interação entre o garoto e o chefe do grupo criminoso é carregada de uma dualidade perturbadora: de um lado, a figura paternal distorcida do chefe, ensinando o menino a matar; do outro, a resistência silenciosa do garoto, que enfrenta o dilema de seguir adiante com a execução.

O enredo nos coloca nos momentos finais da vida de um homem desesperado. A primeira parte de sua negociação é com o chefe do grupo, que, sem hesitar, entrega uma pistola nas mãos do garoto, o deixando encarregado de realizar a execução. Não sabemos exatamente o que o homem fez para acabar ali, mas essa ausência de explicação é proposital, deixando espaço para que o público especule sobre o passado da vítima. Esse mistério dá profundidade à trama, enquanto o roteiro, sabiamente, mantém o foco na tensão presente.

O que inicialmente parece ser apenas uma execução no submundo do crime ganha uma dimensão inesperada após o disparo fatal. O homem, agora à beira da morte, é conduzido a uma experiência sobrenatural, onde se vê frente a frente com a personificação da Morte. Esta segunda negociação, entre ele e a Morte, insere um novo nível de complexidade na narrativa, pois revela que, assim como ele devia algo aos criminosos em vida, também deve algo à Morte. O filme surpreende o espectador ao transformar a trama em um Suspense metafísico, onde o homem é pressionado a revelar um segredo crucial que, até então, ele e seus irmãos mantinham. No entanto, seus irmãos já se foram, e ele é a última chance da Morte de descobrir esse segredo.

A dinâmica entre o homem e a Morte é magistralmente construída. Enquanto ele tentava negociar com os criminosos sua vida, agora sua barganha é com a própria entidade da Morte, o que amplia ainda mais o clima de desespero e tensão. A Morte não é simplesmente uma figura passiva à espera; ela tem um interesse próprio e impõe sua vontade, buscando respostas que só o homem pode fornecer. Esse toque sobrenatural não apenas eleva a história, mas também a torna mais instigante e rica em possibilidades interpretativas.

A direção de Tiago Picado é notável por conseguir manter o suspense elevado ao longo de todo o curta, mesmo com poucos cenários e uma trama essencialmente centrada em diálogos e negociações. Ele consegue extrair o máximo de cada cena, criando uma atmosfera sufocante que prende a atenção do espectador do início ao fim. A fotografia, arte e montagem trabalham em perfeita harmonia para criar um ambiente perturbador e sombrio, refletindo o desespero do homem e a implacabilidade dos criminosos. Já os efeitos visuais, muito bem elaborados, dão vida à aparição da Morte, sem exageros, mas com impacto visual suficiente para marcar a sequência sobrenatural.

A escolha de não explicar o passado do homem e o motivo pelo qual ele está naquela situação é uma jogada inteligente do roteiro, pois permite que a trama se concentre mais no presente e no que está em jogo naquele momento decisivo. Essa omissão deliberada também contribui para o ar de mistério que permeia o filme, fazendo com que o espectador fique imerso na tensão do agora, ao invés de se perder em explicações sobre o passado. A resolução final é chocante, tanto em termos narrativos quanto dramáticos, deixando o público refletindo sobre as escolhas que foram feitas e as implicações que elas trazem.

"Antes que Venham Estourar os Nossos Miolos" é um filme que desafia expectativas, mesclando Suspense, Drama e Thriller com uma pitada de sobrenatural de maneira hábil e original. Sua atmosfera densa e seu ritmo bem conduzido fazem dele uma experiência única e envolvente. É um curta que nos deixa com a sensação de que, no universo do crime, assim como na vida e na morte, nada é tão simples quanto parece.




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