Adaptado do
conto homônimo de Moacyr Scliar, o curta-metragem de animação “A Orelha de Van
Gogh”, dirigido por Thiago Franco Ribeiro, com roteiro de Cris Lima, Glauciene
Lara e Marcelo Bassoli, é uma obra sensível e inteligente, que consegue mesclar
humor, drama e uma crítica sutil ao comportamento humano em situações de
desespero. A história, contada a partir da perspectiva de um garoto, explora a
relação de admiração e questionamento que ele tem em relação ao pai, um
comerciante endividado que tenta, de forma quase ingênua, driblar suas
dificuldades financeiras com uma solução inusitada.
O garoto narra
a trama de forma carinhosa e ao mesmo tempo reflexiva, descrevendo seu pai como
uma das pessoas mais inteligentes que ele conhece, alguém em quem ele se
inspira. No entanto, essa visão começa a ser desafiada quando um evento
específico, relacionado a uma dívida, faz com que o menino passe a questionar a
esperteza e as escolhas do pai. O pai, dono de um pequeno armazém, enfrenta
dificuldades financeiras por vender fiado, acumulando uma série de dívidas que
colocam sua família à beira da ruína. Quando um fornecedor chega ao armazém
cobrando uma dessas dívidas, o pai se vê numa encruzilhada.
A salvação momentânea surge de forma inesperada: um livro sobre o pintor holandês Vincent van Gogh, esquecido por algum cliente no balcão do armazém. O fornecedor, por coincidência, revela-se um grande admirador do artista, e o clima, antes tenso, se transforma em uma conversa amistosa. Aproveitando a oportunidade, o pai aceita o convite do fornecedor para visitar sua casa e ver de perto as réplicas das obras de Van Gogh que ele coleciona. Determinado a conquistar a simpatia do fornecedor, o pai elabora um plano ousado e mirabolante: ele decide levar um pote de vidro contendo a suposta orelha de Van Gogh, acompanhado de uma explicação criativa e engenhosa sobre como ela teria chegado em suas mãos.
Essa narrativa
é o ponto de partida para uma série de reflexões tanto para o garoto quanto
para o espectador. O curta não só expõe o desespero do pai ao tentar encontrar
uma solução para seus problemas financeiros, mas também mostra como, em
situações de crise, as pessoas podem agir de forma impulsiva e irracional,
buscando saídas absurdas para escapar da pressão das dívidas. O humor do filme
surge exatamente nesse contraste entre a genialidade do plano do pai e o quão
absurda é a ideia de que alguém acreditaria que ele possui a orelha de um dos
pintores mais famosos da história. Ainda assim, é uma lição para o menino, que,
ao ver o pai tentando ludibriar o fornecedor, começa a entender as
complexidades do mundo adulto e a necessidade de assumir responsabilidades.
Tecnicamente,
“A Orelha de Van Gogh” é um primor. A animação, realizada com extremo cuidado e
capricho, recria com precisão os ambientes por onde a história se desenrola: o
armazém humilde, as ruas da cidade, a casa da família. Cada detalhe contribui
para a atmosfera da narrativa, transportando o espectador diretamente para o
cotidiano da família. O trabalho de dublagem também é de alta qualidade, com
Samuel Altivo Campos, Leandro Acácio e Marco Nepomuceno dando voz aos
personagens de maneira convincente e carismática, o que só enriquece a experiência.
A trilha sonora, de Peregrino Music Studio, com a participação de Izael Castro, Dandan Gallagher, Ana Roberta Resende, Alaécio Martins e Daniel Guedes, é outro destaque do curta. Ela equilibra perfeitamente os momentos de tensão, humor e sensibilidade, acompanhando o ritmo da história e ressaltando os momentos mais impactantes da narrativa. A música serve não apenas como pano de fundo, mas como um elemento fundamental que ajuda a criar a atmosfera envolvente da obra.
Além de
abordar temas como a precariedade financeira e as escolhas desesperadas, o
curta-metragem faz uma reflexão sobre o processo de amadurecimento do garoto.
Ele percebe, ao longo da história, que o pai, apesar de toda sua criatividade e
inteligência, comete erros, como a decisão de vender fiado para clientes que
não pagam. O garoto já tem consciência de que esse é um dos maiores erros do
pai, e essa situação apenas reforça sua percepção de que é preciso aprender a
dizer “não” para certas pessoas e enfrentar a realidade com mais assertividade.
“A Orelha de
Van Gogh” é uma Animação dinâmica e agradável, que prende a atenção do público
ao contar uma história simples, mas cheia de nuances. A equipe de animação,
liderada por Marco Túlio Ramos, Thiago Franco Ribeiro e Carlos Matheus Cacá,
demonstra grande habilidade técnica ao criar personagens e cenários cativantes,
ao mesmo tempo em que mantém a fluidez necessária para que a narrativa se
desenvolva de forma natural e envolvente.
O curta é uma ode à imaginação, à ironia e à capacidade humana de encontrar soluções criativas, mesmo nas situações mais difíceis. Ao mesmo tempo, é uma lembrança de que, muitas vezes, a criatividade pode ser insuficiente diante das adversidades da vida real, e que é preciso lidar com as consequências de nossas ações. A experiência do menino, ao lado do pai e do fornecedor admirador de Van Gogh, deixa uma lição importante: o valor de encarar a realidade de frente e a importância de manter o equilíbrio entre a fantasia e a responsabilidade.
Com sua
narrativa fluida, personagens cativantes e um humor refinado, “A Orelha de Van
Gogh” é uma Animação que conquista tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O
curta consegue capturar a essência do conto de Moacyr Scliar, trazendo à tona a
ironia e o humor característicos do autor, ao mesmo tempo em que oferece uma
experiência cinematográfica única e emocionante.





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