quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A ORELHA DE VAN GOGH (2014)

 


Adaptado do conto homônimo de Moacyr Scliar, o curta-metragem de animação “A Orelha de Van Gogh”, dirigido por Thiago Franco Ribeiro, com roteiro de Cris Lima, Glauciene Lara e Marcelo Bassoli, é uma obra sensível e inteligente, que consegue mesclar humor, drama e uma crítica sutil ao comportamento humano em situações de desespero. A história, contada a partir da perspectiva de um garoto, explora a relação de admiração e questionamento que ele tem em relação ao pai, um comerciante endividado que tenta, de forma quase ingênua, driblar suas dificuldades financeiras com uma solução inusitada.

O garoto narra a trama de forma carinhosa e ao mesmo tempo reflexiva, descrevendo seu pai como uma das pessoas mais inteligentes que ele conhece, alguém em quem ele se inspira. No entanto, essa visão começa a ser desafiada quando um evento específico, relacionado a uma dívida, faz com que o menino passe a questionar a esperteza e as escolhas do pai. O pai, dono de um pequeno armazém, enfrenta dificuldades financeiras por vender fiado, acumulando uma série de dívidas que colocam sua família à beira da ruína. Quando um fornecedor chega ao armazém cobrando uma dessas dívidas, o pai se vê numa encruzilhada.

A salvação momentânea surge de forma inesperada: um livro sobre o pintor holandês Vincent van Gogh, esquecido por algum cliente no balcão do armazém. O fornecedor, por coincidência, revela-se um grande admirador do artista, e o clima, antes tenso, se transforma em uma conversa amistosa. Aproveitando a oportunidade, o pai aceita o convite do fornecedor para visitar sua casa e ver de perto as réplicas das obras de Van Gogh que ele coleciona. Determinado a conquistar a simpatia do fornecedor, o pai elabora um plano ousado e mirabolante: ele decide levar um pote de vidro contendo a suposta orelha de Van Gogh, acompanhado de uma explicação criativa e engenhosa sobre como ela teria chegado em suas mãos.

Essa narrativa é o ponto de partida para uma série de reflexões tanto para o garoto quanto para o espectador. O curta não só expõe o desespero do pai ao tentar encontrar uma solução para seus problemas financeiros, mas também mostra como, em situações de crise, as pessoas podem agir de forma impulsiva e irracional, buscando saídas absurdas para escapar da pressão das dívidas. O humor do filme surge exatamente nesse contraste entre a genialidade do plano do pai e o quão absurda é a ideia de que alguém acreditaria que ele possui a orelha de um dos pintores mais famosos da história. Ainda assim, é uma lição para o menino, que, ao ver o pai tentando ludibriar o fornecedor, começa a entender as complexidades do mundo adulto e a necessidade de assumir responsabilidades.

Tecnicamente, “A Orelha de Van Gogh” é um primor. A animação, realizada com extremo cuidado e capricho, recria com precisão os ambientes por onde a história se desenrola: o armazém humilde, as ruas da cidade, a casa da família. Cada detalhe contribui para a atmosfera da narrativa, transportando o espectador diretamente para o cotidiano da família. O trabalho de dublagem também é de alta qualidade, com Samuel Altivo Campos, Leandro Acácio e Marco Nepomuceno dando voz aos personagens de maneira convincente e carismática, o que só enriquece a experiência.

A trilha sonora, de Peregrino Music Studio, com a participação de Izael Castro, Dandan Gallagher, Ana Roberta Resende, Alaécio Martins e Daniel Guedes, é outro destaque do curta. Ela equilibra perfeitamente os momentos de tensão, humor e sensibilidade, acompanhando o ritmo da história e ressaltando os momentos mais impactantes da narrativa. A música serve não apenas como pano de fundo, mas como um elemento fundamental que ajuda a criar a atmosfera envolvente da obra.

Além de abordar temas como a precariedade financeira e as escolhas desesperadas, o curta-metragem faz uma reflexão sobre o processo de amadurecimento do garoto. Ele percebe, ao longo da história, que o pai, apesar de toda sua criatividade e inteligência, comete erros, como a decisão de vender fiado para clientes que não pagam. O garoto já tem consciência de que esse é um dos maiores erros do pai, e essa situação apenas reforça sua percepção de que é preciso aprender a dizer “não” para certas pessoas e enfrentar a realidade com mais assertividade.

“A Orelha de Van Gogh” é uma Animação dinâmica e agradável, que prende a atenção do público ao contar uma história simples, mas cheia de nuances. A equipe de animação, liderada por Marco Túlio Ramos, Thiago Franco Ribeiro e Carlos Matheus Cacá, demonstra grande habilidade técnica ao criar personagens e cenários cativantes, ao mesmo tempo em que mantém a fluidez necessária para que a narrativa se desenvolva de forma natural e envolvente.

O curta é uma ode à imaginação, à ironia e à capacidade humana de encontrar soluções criativas, mesmo nas situações mais difíceis. Ao mesmo tempo, é uma lembrança de que, muitas vezes, a criatividade pode ser insuficiente diante das adversidades da vida real, e que é preciso lidar com as consequências de nossas ações. A experiência do menino, ao lado do pai e do fornecedor admirador de Van Gogh, deixa uma lição importante: o valor de encarar a realidade de frente e a importância de manter o equilíbrio entre a fantasia e a responsabilidade.

Com sua narrativa fluida, personagens cativantes e um humor refinado, “A Orelha de Van Gogh” é uma Animação que conquista tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O curta consegue capturar a essência do conto de Moacyr Scliar, trazendo à tona a ironia e o humor característicos do autor, ao mesmo tempo em que oferece uma experiência cinematográfica única e emocionante.




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