sábado, 16 de agosto de 2025

LIXO (2023)

 

O que se vê em cena provavelmente não é a primeira discussão sobre o assunto entre Guta e Ernesto, mas, provavelmente será a última. Há algo de cíclico nesse embate, como se fosse um capítulo recorrente na vida conjugal do casal. Sob a direção segura de Renato Simões e com roteiro de Cadu Pereiva, “Lixo” nos apresenta esses dois personagens interpretados com naturalidade e presença por Rebecca Carvalho e Ben Gomes, mergulhando o espectador, já no início, em uma situação íntima que equilibra descontração e franqueza.

A comédia, de imediato, encontra seu ponto de partida no cansaço de Ernesto, mais uma vez abordado por Guta no momento em que ela busca intimidade. O texto, longe de adotar um tom vulgar, opta por brincar com a forma como o sexo é representado em tela, refletindo, com sutileza, sobre a função que o desejo e o contato físico exercem dentro de uma relação. Há humor, mas também existe um subtexto sobre expectativas, rotina e a capacidade (ou incapacidade) de comunicação entre parceiros.

À medida que a narrativa avança, novas camadas se revelam. A recusa de Ernesto não é mero desinteresse, há uma motivação curiosa e inesperada, construída de maneira hilária, que envolve desejos adormecidos, vontades inesperadas e a tentação de experimentar algo novo. O ponto alto da trama ocorre quando Ernesto revela ter encontrado, no lixo do condomínio, um antigo diário pertencente a outro morador. Ao folhear as páginas, ele se aproxima emocionalmente do autor anônimo, numa conexão silenciosa que contrasta com o distanciamento de sua própria esposa.

“Lixo” transcende a comédia romântica ao explorar tabus de forma desarmada. Guta, jovem, atraente e confiante, não consegue compreender como o marido poderia voltar suas atenções para outra pessoa. Mas o roteiro subverte as expectativas: o interesse de Ernesto não se traduz numa traição convencional, e sim numa forma alternativa de intimidade e identificação. Essa descoberta é tanto um choque para ele quanto para o público, pois o obriga a questionar seus próprios limites e o medo de revelar sentimentos que podem não ser correspondidos.

Rebecca Carvalho e Ben Gomes entregam atuações cheias de carisma e sintonia, com um timing cômico preciso e uma energia que mantém a narrativa agradável. A química entre eles é convincente o suficiente para que o espectador acredite tanto no desgaste da relação quanto no vínculo afetivo que ainda os une. A presença de Giulia Tolezzani, numa participação especial, ainda que breve, ajuda a ampliar a percepção do espectador sobre o segredo de Ernesto.

O roteiro é ágil e bem amarrado, evitando dispersões e conduzindo a história de forma fluida até uma resolução final espirituosa, que combina a leveza da comédia com a doçura de um olhar compreensivo sobre as falhas humanas. A direção de Renato Simões demonstra precisão na gestão do ritmo e na harmonização dos elementos narrativos, potencializada por uma fotografia funcional e uma direção de arte que não se impõe, mas constrói um cenário cotidiano verossímil. A trilha sonora, pontual e bem inserida, reforça a pegada cômica sem sobrecarregar as cenas.

“Lixo” é mais que uma comédia de DR’s e desencontros conjugais; é um retrato espirituoso sobre afetividade, comunicação e aceitação das diferenças, seja de idade, orientação sexual ou expectativas emocionais. Um curta que diverte, provoca reflexões leves e, acima de tudo, humaniza seus personagens, lembrando-nos de que nem todo conflito precisa ser resolvido com grandes gestos, às vezes, basta rir junto.




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