“Rifa-me” é um
curta-metragem comovente que retrata o desespero e a solidão de Ana Paula, uma
jovem mãe em Quixeramobim, no Ceará, que enfrenta uma situação limite.
Abandonada pelo marido e sobrecarregada pela maternidade, Ana Paula se vê sem
alternativas para deixar a cidade e busca uma solução radical: rifar-se,
oferecendo seu corpo em troca de dinheiro para comprar uma passagem e escapar
do lugar que a aprisiona.
O filme,
protagonizado por Bilica Léo e dirigido por Karim Aïnouz, um dos grandes nomes
do cinema brasileiro atual, foi um dos primeiros trabalhos do cineasta,
mostrando já a marca sensível e impactante que ele traria em suas obras
posteriores. Aïnouz, conhecido por sua capacidade de criar personagens
altamente complexos e tramas envolventes, trata o tema delicado da prostituição
de uma maneira que evita julgamentos e abre espaço para uma profunda empatia
com Ana Paula. Mesmo que sua decisão seja difícil de aceitar, o espectador é
conduzido a compreender a dimensão de seu desespero.
A escolha narrativa de Aïnouz de incluir a narração de dois repentistas logo no início não só conecta a história ao contexto cultural do sertão nordestino, mas também cria um distanciamento, em que o público é constantemente lembrado de que está assistindo a uma história contada. Isso é reforçado pelo uso do rádio como um elemento narrativo que marca a passagem do tempo, como uma presença constante que simboliza a continuidade da vida para todos ao redor, mesmo quando Ana Paula está à beira do colapso.
Além disso, a
quebra da quarta parede, com alguns personagens interagindo diretamente com a
câmera, é uma técnica poderosa que traz o espectador para dentro da situação de
Ana Paula, permitindo que suas emoções, angústias e frustrações sejam
vivenciadas de forma visceral. A influência do cordel também é evidente nas
poesias recitadas ao longo do filme, reforçando a ligação da história com as
tradições nordestinas e conferindo uma camada poética ao enredo.
A ambientação de “Rifa-me” é igualmente crucial para transmitir o estado de espírito da protagonista. Ao optar por locações como estradas vazias e um posto de gasolina deserto, Aïnouz simboliza a viagem que Ana Paula deseja realizar, uma fuga para longe da vida que a oprime. O isolamento dessas paisagens, sem o movimento habitual do centro de uma cidade, reflete sua solidão e o desejo de se distanciar de um ambiente que não lhe oferece saídas.
Tecnicamente,
o filme impressiona por sua fotografia que, ao mesmo tempo em que realça a
aridez do sertão, contrasta com a delicadeza do olhar sobre Ana Paula. A trilha
sonora, marcada pelos sons da rádio, contribui para criar uma sensação de
imersão no lugar e na cidade. Em meio à desolação de sua situação, Ana Paula
não é apresentada como uma vítima passiva, mas como uma mulher determinada,
ainda que insatisfeita com as escolhas que a vida lhe impôs.
A crítica
social subjacente ao filme é profunda. Ao mesmo tempo em que expõe como muitas
mulheres são objetificadas e vistas como mercadorias, o curta-metragem também
lança luz sobre a falta de oportunidades e a vulnerabilidade das mulheres em
situações de abandono e pobreza. A decisão de Ana Paula de rifar-se não é
apresentada como uma escolha livre, mas como a única opção viável em meio a uma
sociedade que ignora suas necessidades e a trata com indiferença.
No entanto, o filme também carrega uma mensagem de esperança e empatia. Mesmo diante de um gesto tão radical, a narrativa sugere que a compaixão e a solidariedade ainda são possíveis. O público é convidado a refletir sobre a forma como muitas vezes negligenciamos os dilemas alheios, seja por falta de tempo, seja por simplesmente por egoísmo. O rádio, que segue transmitindo sua programação diária, alheio aos dramas individuais, simboliza essa desconexão, enquanto a decisão de Ana Paula ecoa como um grito de socorro que, por fim, não pode ser ignorado.
“Rifa-me”
revela, desde seus primeiros minutos, o talento de Karim Aïnouz em construir
personagens multidimensionais, que resistem às simplificações. Ana Paula é uma
mulher marcada pela dor e pelo desespero, mas também é alguém que, apesar de
tudo, ainda carrega sonhos e desejos. Ela não é um estereótipo; é um retrato
sensível de tantas mulheres que se veem forçadas a tomar decisões extremas para
sobreviver.
Com uma
construção narrativa sólida, um elenco afiado e uma direção que equilibra o
lirismo com o realismo cru, “Rifa-me” é uma obra que transcende o drama pessoal
e toca em questões universais sobre a dignidade humana, a solidariedade e a
resiliência. É um filme que é enorme em impacto emocional e social.




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