terça-feira, 19 de agosto de 2025

RIFA-ME (2000)

 


“Rifa-me” é um curta-metragem comovente que retrata o desespero e a solidão de Ana Paula, uma jovem mãe em Quixeramobim, no Ceará, que enfrenta uma situação limite. Abandonada pelo marido e sobrecarregada pela maternidade, Ana Paula se vê sem alternativas para deixar a cidade e busca uma solução radical: rifar-se, oferecendo seu corpo em troca de dinheiro para comprar uma passagem e escapar do lugar que a aprisiona.

O filme, protagonizado por Bilica Léo e dirigido por Karim Aïnouz, um dos grandes nomes do cinema brasileiro atual, foi um dos primeiros trabalhos do cineasta, mostrando já a marca sensível e impactante que ele traria em suas obras posteriores. Aïnouz, conhecido por sua capacidade de criar personagens altamente complexos e tramas envolventes, trata o tema delicado da prostituição de uma maneira que evita julgamentos e abre espaço para uma profunda empatia com Ana Paula. Mesmo que sua decisão seja difícil de aceitar, o espectador é conduzido a compreender a dimensão de seu desespero.

A escolha narrativa de Aïnouz de incluir a narração de dois repentistas logo no início não só conecta a história ao contexto cultural do sertão nordestino, mas também cria um distanciamento, em que o público é constantemente lembrado de que está assistindo a uma história contada. Isso é reforçado pelo uso do rádio como um elemento narrativo que marca a passagem do tempo, como uma presença constante que simboliza a continuidade da vida para todos ao redor, mesmo quando Ana Paula está à beira do colapso.

Além disso, a quebra da quarta parede, com alguns personagens interagindo diretamente com a câmera, é uma técnica poderosa que traz o espectador para dentro da situação de Ana Paula, permitindo que suas emoções, angústias e frustrações sejam vivenciadas de forma visceral. A influência do cordel também é evidente nas poesias recitadas ao longo do filme, reforçando a ligação da história com as tradições nordestinas e conferindo uma camada poética ao enredo.

A ambientação de “Rifa-me” é igualmente crucial para transmitir o estado de espírito da protagonista. Ao optar por locações como estradas vazias e um posto de gasolina deserto, Aïnouz simboliza a viagem que Ana Paula deseja realizar, uma fuga para longe da vida que a oprime. O isolamento dessas paisagens, sem o movimento habitual do centro de uma cidade, reflete sua solidão e o desejo de se distanciar de um ambiente que não lhe oferece saídas.

Tecnicamente, o filme impressiona por sua fotografia que, ao mesmo tempo em que realça a aridez do sertão, contrasta com a delicadeza do olhar sobre Ana Paula. A trilha sonora, marcada pelos sons da rádio, contribui para criar uma sensação de imersão no lugar e na cidade. Em meio à desolação de sua situação, Ana Paula não é apresentada como uma vítima passiva, mas como uma mulher determinada, ainda que insatisfeita com as escolhas que a vida lhe impôs.

A crítica social subjacente ao filme é profunda. Ao mesmo tempo em que expõe como muitas mulheres são objetificadas e vistas como mercadorias, o curta-metragem também lança luz sobre a falta de oportunidades e a vulnerabilidade das mulheres em situações de abandono e pobreza. A decisão de Ana Paula de rifar-se não é apresentada como uma escolha livre, mas como a única opção viável em meio a uma sociedade que ignora suas necessidades e a trata com indiferença.

No entanto, o filme também carrega uma mensagem de esperança e empatia. Mesmo diante de um gesto tão radical, a narrativa sugere que a compaixão e a solidariedade ainda são possíveis. O público é convidado a refletir sobre a forma como muitas vezes negligenciamos os dilemas alheios, seja por falta de tempo, seja por simplesmente por egoísmo. O rádio, que segue transmitindo sua programação diária, alheio aos dramas individuais, simboliza essa desconexão, enquanto a decisão de Ana Paula ecoa como um grito de socorro que, por fim, não pode ser ignorado.

“Rifa-me” revela, desde seus primeiros minutos, o talento de Karim Aïnouz em construir personagens multidimensionais, que resistem às simplificações. Ana Paula é uma mulher marcada pela dor e pelo desespero, mas também é alguém que, apesar de tudo, ainda carrega sonhos e desejos. Ela não é um estereótipo; é um retrato sensível de tantas mulheres que se veem forçadas a tomar decisões extremas para sobreviver.

Com uma construção narrativa sólida, um elenco afiado e uma direção que equilibra o lirismo com o realismo cru, “Rifa-me” é uma obra que transcende o drama pessoal e toca em questões universais sobre a dignidade humana, a solidariedade e a resiliência. É um filme que é enorme em impacto emocional e social.




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