Tinha tudo
para ser apenas mais um dia normal de testes para seleção de atriz para um
comercial. Eis que chega Mariana... ops, Mariane. Já no local, Mariane,
interpretada de forma magistral por Antoniela Canto, nota que, talvez ela não
esteja apta para a vaga, mesmo antes do início da gravação do teste. Mesmo
assim, Mariane dá o seu melhor, na intenção de reverter uma situação adversa. E
quando ela percebe que não funcionou, a sua reação é extrema, insana e
totalmente surpreendente.
O cinegrafista
faz o seu papel, a responsável pelos contatos com as atrizes não dá tanta
importância para atrizes que não têm o perfil desejado. A explosão de Mariane
arranca risos, porque ela quer muito fazer aquele papel, ela quer muito
participar daquele comercial.
“Mariane com
E” tem roteiro de Antoniela Canto e Fernando Sanches, sendo ele o responsável
pela direção. O curta consegue prender a atenção do espectador e surpreender a
cada sequência. O filme tem muitos momentos tensos, mas também cômicos.
Fernando Sanches extrai o máximo do texto, com cada ação produzida de forma
pontual. Enquanto isso, Antoniela entrega uma atuação perfeita, densa e
inesquecível. Juntando às outras atuações e aos elementos técnicos, como
fotografia, arte, montagem e trilha sonora, “Mariane com E” torna-se uma das
melhores comédias brasileiras em curta-metragem.
Todos os personagens têm suas motivações. Se os responsáveis pelo comercial veem que Mariane não tem o perfil desejado, Mariane, num ato de desespero, enxerga que não pode perder aquela oportunidade; e ela fará o possível e impossível para não perder aquela vaga. O curta faz uso de uma comédia extremamente inteligente, que consegue transmitir as sensações dos personagens de maneira leve e engraçada.
Mas “Mariane
com E” não é apenas um curta-metragem de comédia que mostra uma atriz que
deseja profundamente a aprovação para um comercial. O curta traz uma crítica
importante de como, a partir de certa idade, profissionais são descartados e
passam a ser rejeitados reiteradamente. A má vontade da assistente de direção,
interpretada brilhantemente por Gabriela Fortanell, demonstra o quanto uma
atitude pode afetar alguém que está desesperado por um emprego. E essa dinâmica
entre as personagens de Antoniela e Gabriela é um dos pontos mais fortes do
curta, pois expõe os dois opostos dentro da trama. Uma tem o poder de escolher
ou não, enquanto a outra, praticamente, precisa se humilhar. Não que a atitude
de Mariane seja correta, mas é até certo ponto compreensível. E lógico, que
dentro de uma obra audiovisual de comédia, o absurdo se torna engraçado e
divertido.
“Mariane com
E” conta ainda com Fernando Rios, Fábio Acorsi, Pablo Perosa, Simonia Queiroz,
Paulo Passaro, Mauricio Bittencourt, Leticia Rossetti, Mari Kato e Carol
Mendes. E todos os personagens, desde os que estão do início ao fim, e os que
têm apenas uma fala, funcionam perfeitamente.
Fernando Sanches demonstra uma habilidade impressionante ao conduzir uma trama densa e cheia de camadas que se passa em um único ambiente. Em nenhum momento, o filme entra no marasmo ou demonstra alguma queda. Pelo contrário, até seu último segundo, “Mariane com E” se mostra como uma comédia potente, forte e instigante. É aquele filme que pede para ser revisitado de tempos em tempos. O filme tem seu lado cômico, divertido, que entretém, mas também é uma forte crítica ao mercado, que, com suas demandas, desumaniza pessoas conforme seus interesses.




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