“Zézero”,
dirigido por Ozualdo Candeias, é uma obra cinematográfica que se destaca pelo
seu caráter contestador, provocador e subversivo, representando um dos maiores
exemplos do “Cinema Marginal” brasileiro. A narrativa do filme é uma reflexão
crítica e amarga sobre a sociedade e a exploração econômica, abordando o dilema
de Zézero, um camponês que, seduzido pela promessa de uma vida melhor, decide
abandonar a roça e buscar riqueza na cidade grande. Através dessa trama
simples, mas profundamente simbólica, Candeias expõe as mazelas de um sistema
que alimenta ilusões de prosperidade e, ao mesmo tempo, mantém as massas
aprisionadas em um ciclo de exploração.
O que torna o
filme tão impactante é a maneira como ele foge das convenções tradicionais do
cinema da época. Em vez de seguir uma narrativa linear e convencional, Candeias
aposta em uma linguagem mais livre e experimental, característica do movimento
do “Cinema Marginal”. Ao se apropriar de uma estética crua e de recursos
técnicos refinados, o diretor reforça a sensação de alienação e desilusão
vivida pelos personagens, principalmente o protagonista, Zézero. O nome do
personagem, uma fusão de “Zé” com “zero”, já aponta para a falta de
individualidade e a insignificância do homem comum dentro das engrenagens de
uma sociedade desigual. Zézero é, portanto, o reflexo de uma massa de
trabalhadores que, embora busquem algo melhor, são constantemente esmagados pela
realidade.
A escolha de Carlos Biondi para interpretar Zézero é extremamente acertada, pois sua atuação transmite com precisão a angústia, a desesperança e os sonhos do personagem. Zézero, influenciado pela fada que lhe mostra as glórias da vida urbana através de jornais e revistas, acredita que a cidade é um local de oportunidades infinitas. Porém, à medida que avança em sua jornada, o protagonista é confrontado com uma realidade cruel, onde a classe dominante manipula as massas e onde sonhos de riqueza fácil se tornam uma armadilha. O filme, ao retratar essa busca incessante por uma vida melhor, coloca o espectador frente à dura realidade de uma sociedade que, através da propaganda e do consumo, alimenta fantasias enquanto mantém os pobres e marginalizados no fundo da pirâmide social.
A montagem de
“Zézero” é outro aspecto fundamental que contribui para o tom subversivo da
obra. Com cortes rápidos e uma edição fragmentada, o filme transmite uma
sensação de desorientação, como se o personagem estivesse perdido tanto no
espaço quanto no tempo. A fotografia também é decisiva ao criar um contraste
entre a simplicidade do campo e a complexidade caótica da cidade. Além disso, a
trilha sonora, composta principalmente por sons ambientais e de rádio,
desempenha um papel crucial na construção da atmosfera do filme. Quando o
rádio, símbolo dos sonhos de riqueza, transmite sons de lobos e coiotes, a
metáfora se torna clara: os poderosos da cidade são os predadores, e os
camponeses e pobres como Zézero são suas presas. Esse contraste é fundamental
para entender a mensagem central de “Zézero”: a opressão social e econômica que
coloca os mais pobres em um ciclo de exploração sem fim.
O filme também faz uma crítica velada àqueles que se iludem com promessas de riquezas rápidas, como a loteria esportiva, tema que aparece em diversos momentos do filme. A fada, ao mostrar para Zézero a vida dos ricos e poderosos através de revistas, oferece-lhe um olhar idealizado da realidade, que dificilmente será alcançado. Este detalhe dialoga fortemente com o presente, em que, como no filme, muitas pessoas se afundam em dívidas enquanto perseguem fantasias de sucesso fácil, seja através de apostas ou jogos de azar online. Assim, “Zézero” continua sendo um filme atual, pois aborda questões perenes sobre a alienação, a exploração e os efeitos das ilusões de riqueza na vida das pessoas.
Os outros
membros do elenco também são fundamentais para dar profundidade ao universo de
Zézero. Milton Pereira, Izabel Antinópolis, Arnaldo Galvão, Maria das Dores de
Oliveira, Maria Gizélia, Maria Nina Ferraz e Pamira Balbina de Almeida são
atores que desempenham papéis coadjuvantes que ajudam a construir o ambiente de
exploração e ilusão que cerca o protagonista. As suas presenças no filme,
embora pontuais, são essenciais para o desenvolvimento do tema e reforçam a
ideia de que Zézero não é um caso isolado, mas sim um representante de uma
classe que está sendo sistematicamente explorada.
“Zézero” é, portanto, uma obra de crítica social e política, que vai muito além de uma simples história de um camponês buscando riqueza na cidade. O filme expõe algumas das falácias da sociedade capitalista, que ilude seus cidadãos com promessas de prosperidade, mas, na realidade, os aprisiona em um ciclo de exploração e frustração. Ao questionar a busca incessante pelo “ter” em detrimento do “ser”, Candeias cria uma obra que soa como um alerta sobre os perigos de viver em uma sociedade que privilegia o materialismo e a alienação.




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