quarta-feira, 22 de outubro de 2025

LITANIA DA VELHA (1997)

 

Com um tom sensível e melancólico, o Drama em curta-metragem é baseado no poema homônimo de Arlete Nogueira da Cruz. Com direção e roteiro adaptado de Frederico Machado, a trama se desenrola a partir do início do último dia de uma velha mulher que mendiga pelas ruas históricas de São Luiz.

         O curta, com narração de Othon Bastos, dialoga em sincronia perfeita com a fotografia e a triste música selecionada pela equipe de som. A dificuldades de locomoção, as fragilidades do corpo e as roupas rasgadas se misturam com os prédios históricos abandonados e degradados. A mesma passagem de tempo que transformou o corpo e a alma da idosa ao longo de sua vida é a mesma que fragilizou as antigas edificações tomadas por mato, sem teto e com paredes caindo.

        “Litania da Velha” tem Porfíria de Jesus como a protagonista que, ao mesmo tempo que luta e resiste pela sua existência, tem o seu caminho marcado pelo descaso, abandono e indiferença. Seja na sua pobre e humilde casa de pau a pique, ou em frente a suntuosos prédios largados e desgastados pelo tempo, a idosa é o que carrega em seu velho corpo e tem o que carrega dentro da sacola.

         A sensibilidade da equipe criativa combina os elementos narrados com a elaboração perfeita da condução de trama, trazendo à tona os sentimentos do espectador sobre a pobre e esquecida mulher e em como o descaso é um elemento forte de outros personagens que transformam ela numa figura invisível, sem direitos e sem dignidade.

        “Litania da Velha” dá voz a uma velha que parece estar refletindo sobre sua vida, suas experiências e sobre a passagem do tempo. A velha no poema se encontra em um estado de contemplação, e sua "litania" é um tipo de oração ou mantra que reflete seus pensamentos, seus desejos e seus lamentos. O tom é melancólico, mas também resignado, e o poema capta o espírito da velhice, da solidão e da sabedoria que vem com o passar dos anos.

         Frederico Machado destaca-se em “Litania da Velha” especialmente por sua profundidade visual e a delicadeza com que aborda o envelhecimento e as emoções humanas. Com seu estilo único de direção, foca mais nas imagens e no simbolismo para transmitir os sentimentos e a poesia contida na vida da velha personagem.

        “Litania da Velha” é um curta esteticamente perfeito, com um arco narrativo e dramático extremamente emocionante e sensível, que traz uma reflexão importante sobre o respeito à dignidade humana e as dores silenciosas da velhice. A obra não só evidencia a fragilidade física e emocional de sua protagonista, como também aprofunda a ideia de isolamento e abandono que muitos idosos enfrentam na sociedade. A direção de Frederico Machado consegue equilibrar o lirismo visual com uma narrativa profunda, provocando no espectador uma empatia genuína pela personagem, que resiste com dignidade aos desafios impostos pelo tempo. A atuação de Porfíria de Jesus contribui para criar uma atmosfera tocante, onde o silêncio, a solidão e a memória formam a espinha dorsal do filme, conduzindo-o a um final ao mesmo tempo melancólico e belo, deixando uma marca duradoura sobre a importância de valorizar a vida em todas as suas fases.




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