O
curta-metragem “Domingos” oferece uma imersão perturbadora na vida de um homem aparentemente
comum, cuja rotina meticulosamente repetida esconde segredos macabros. O filme,
dirigido e roteirizado por Jota Bosco, tem início com a apresentação de
Domingos, um sujeito que acorda sempre no mesmo horário, segue os mesmos
rituais ao longo do dia, e cumpre com precisão cada etapa de seu cotidiano.
Desde a preparação matinal até o momento em que, ao fim do expediente, relaxa
em frente à TV comendo pipoca, a vida do protagonista parece rotineira e
inofensiva.
No trabalho, Domingos é visto ao lado de sua colega Rosinha, interpretada por Raíza Cardoso, e do chefe, o desprezível Seu Francisco, vivido por Chico Nóbrega. Ambos os personagens orbitam ao redor de Domingos sem perceber o abismo que se esconde por trás de sua fachada pacata. A interação entre os três aparenta ser a de qualquer escritório normal, sem desconfiança alguma de que algo de sombrio possa acontecer. No entanto, Bosco constrói cuidadosamente uma atmosfera de crescente tensão, com pistas sutis de que nem tudo é o que parece ser. À medida que o enredo se desenvolve, o espectador é levado a questionar se Domingos é realmente tão normal quanto sua rotina faz parecer.
A repetição
intencional das ações do protagonista tem um efeito quase hipnótico, conduzindo
o público a se sentir parte daquela vida monótona e, ao mesmo tempo, deixando
uma sensação incômoda de que algo está fora do lugar. Jota Bosco, que também
interpreta o protagonista, entrega uma atuação contida, mas que carrega uma
inquietante dualidade: por um lado, ele transmite a calma e a ordem de um homem
que vive no piloto automático; por outro, há pequenos detalhes em seu
comportamento que sugerem que essa rotina meticulosa pode estar ocultando algo
muito mais sinistro.
Rosinha, sua colega de trabalho, é a chave para a descoberta dessa faceta obscura. Quando ela encontra os documentos de Domingos no chão da empresa, isso desperta uma série de questionamentos. Ele deixou os papéis ali de propósito, como uma espécie de teste ou armadilha? Ou foi um acidente, fruto de sua distração? Esses momentos em que o filme sugere possibilidades sem entregar respostas definitivas enriquecem o suspense, permitindo ao público interpretar a cena de diferentes maneiras. Ao seguir para a casa de Domingos com a intenção de devolver os documentos, Rosinha se depara com a face oculta do colega da pior maneira possível. Quando ele abre a porta e, de forma seca, tenta encerrar a interação, nos perguntamos se ele está lutando contra seus impulsos, porque tem algum pequeno sentimento de compaixão pela colega de trabalho.
O clímax da
trama é assustador e sinistro. No dia seguinte ao ocorrido, Domingos segue sua
rotina exatamente como qualquer outro dia, reforçando a ideia de que, para ele,
nada mudou. Isso levanta questões sobre quantas outras pessoas como ele podem
existir, escondendo segredos sombrios sob uma fachada de normalidade. A vida de
Domingos continua, imutável, como se os acontecimentos recentes não tivessem
impacto sobre ele. Essa indiferença perante o horror vivido é o que torna o
personagem ainda mais assustador.
A atmosfera de
“Domingos” é habilmente construída pela equipe técnica. A fotografia,
inicialmente simples e estática, vai ganhando tons mais sombrios à medida que a
trama avança, refletindo a mudança na percepção que o público tem do protagonista.
A trilha sonora acompanha essa transformação, começando de forma sutil e
gradualmente tornando-se mais intensa, aumentando a sensação de desconforto. O
uso de planos e ângulos que inicialmente parecem banais acaba sendo uma
ferramenta eficaz para destacar a normalidade do cenário, mas que, com o passar
do tempo, se transformam em uma representação visual do aprisionamento
psicológico de Domingos dentro de sua própria rotina e de sua mente.
“Domingos” é
um Terror psicológico que dialoga com a ideia de que a verdadeira ameaça muitas
vezes não está à espreita em locais escuros ou em personagens excêntricos, mas
em figuras cotidianas, aquelas que vemos todos os dias e que não chamam
atenção. O curta faz referência a clássicos do gênero que exploram a mente
humana e o perigo que ela pode representar, onde o terror emerge de dentro, de
uma mente comum que, lentamente, se revela monstruosa.
Além disso, o filme oferece uma reflexão sobre a rotina e o quanto ela pode ser uma armadilha psicológica. Domingos é um personagem que encontra segurança na repetição de suas atividades, mas essa rotina também serve para esconder suas inclinações mais sombrias. É como se, por trás da tranquilidade de cada dia, houvesse uma fenda pela qual ele permite que sua verdadeira natureza escape, de forma calculada e controlada.
“Domingos”
é um curta-metragem impactante, que utiliza de forma inteligente os recursos do
Terror psicológico para construir um personagem complexo, cuja aparente
normalidade esconde segredos perturbadores. Com uma direção precisa e atuações
envolventes, o filme prende a atenção do público até o último momento, deixando
uma marca bastante forte ao levantar questionamentos sobre o que realmente
sabemos sobre aqueles com quem convivemos diariamente.





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