“Programa de
Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” é um curta-metragem que
mistura, de forma habilidosa e provocativa, Drama, Comédia e Suspense,
conduzindo o espectador por uma narrativa marcada pelo humor ácido e por uma
crítica cortante à indústria cultural contemporânea. Com direção de Manu
Gavassi e Gabriel Dietrich, o filme apresenta uma artista que, cansada de seu
afastamento do cenário musical, procura o misterioso serviço do chamado
“Programa de Proteção à Carreira Artística”, acreditando que ali encontrará a
chance de retomar sua trajetória.
O roteiro, da própria Manu Gavassi, é uma peça afiada, inteligente e ousada, que revela os sintomas de um modelo de arte cada vez mais padronizado, em que a autenticidade e a originalidade de um artista são frequentemente sufocadas por exigências de mercado. A narrativa desconstrói o glamour superficial da indústria cultural e evidencia a lógica perversa que transforma a expressão artística em produto, expondo a forma como a arte, em nome da popularidade, é desfigurada e moldada ao gosto das massas.
Manu Gavassi
entrega uma atuação dupla impecável, interpretando tanto a cantora que deseja
reencontrar sua voz quanto a atendente impassível da empresa. As duas
personagens são antagônicas e, ao mesmo tempo, complementares. De um lado, há o
desejo genuíno de criar, cantar e ser ouvida. Do outro, o sistema impessoal,
frio e calculista, que dita tendências, impõe estéticas e define o que é
“vendável”. A atendente, com sua voz robótica e seus pacotes absurdos de
“reabilitação artística”, representa o poder desumanizador da indústria, que
transforma artistas em marionetes de algoritmos e estratégias de marketing.
A tensão cresce à medida que a artista tenta resistir, mas suas tentativas são esmagadas por um discurso padronizado. O filme acerta em cheio ao evidenciar o absurdo travestido de normalidade, como se fosse natural que um artista precisasse se enquadrar em moldes que anulam sua própria identidade. É nesse ponto que o curta brilha: o que poderia facilmente se tornar uma paródia ou uma comédia de esquetes, nas mãos de outro diretor, aqui ganha profundidade, ironia e uma crítica mordaz, equilibrando perfeitamente humor e desconforto.
As atuações
são intensas, e a química entre as duas “versões” da própria Manu potencializa
a força dramática da obra. A atendente jamais perde a compostura, suas falas
são precisas, calculadas, robóticas, enquanto a artista, aos poucos, se
fragmenta emocionalmente diante da impossibilidade de conciliar autenticidade e
aceitação. Essa dualidade é uma metáfora poderosa do conflito que tantos
criadores vivem: a arte como necessidade versus a arte como produto.
A direção de Gabriel Dietrich e Manu Gavassi imprime ritmo e sofisticação à narrativa, apoiada por uma produção visual impecável. A fotografia reforça o clima opressivo com tons frios e iluminação controlada, que ressaltam o contraste entre o artificial e o humano. A montagem, com seus cortes secos e às vezes abruptos, intensifica a sensação de claustrofobia e submissão, interrompendo falas da artista e acentuando sua impotência diante da máquina cultural.
A trilha
sonora desempenha um papel essencial: um ruído constante e incômodo permanece
ao fundo, funcionando quase como a materialização do desconforto interno da
protagonista. Esse som, que parece vir de dentro da própria estrutura da
empresa, é ao mesmo tempo moderno e perturbador, marcando o compasso da
decadência emocional da artista até o desfecho, um final que é, ao mesmo tempo,
simbólico, crítico, profundamente poético e perturbador.
Com apenas sete minutos, “Programa de Proteção à Carreira Artística, Em que Posso Ajudar?” consegue condensar uma crítica feroz à engrenagem cultural contemporânea, em que a individualidade é sacrificada em nome de números, engajamento e estética. O curta transcende a crítica à música pop e alcança outras esferas da arte, incluindo o cinema, a televisão e as redes sociais, espaços em que a linha entre expressão e mercadoria se torna cada vez mais tênue.
O resultado é
uma obra densamente simbólica e surpreendentemente madura, que faz refletir e
desconcertar na mesma medida. Com roteiro afiado, atuações inspiradas e uma
direção de arte impecável, o curta reafirma Manu Gavassi como uma artista
consciente e criativa, capaz de ironizar a um tipo de indústria que engole
artistas e entrega enlatados com rótulos. “Programa de Proteção à Carreira
Artística, Em que Posso Ajudar?” é um espelho, ácido, sarcástico e necessário,
sobre o preço da autenticidade em tempos de padronização.





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