segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

RÓTULO (2013)

 


        É manhã. Fernando e Carol acordam na cama da casa dele e tudo indica que aquele será apenas mais um dia comum, sem grandes acontecimentos. O ambiente é íntimo, tranquilo e cotidiano, até que uma conversa aparentemente banal começa a ganhar corpo. Entre comentários despretensiosos, os dois iniciam um debate sobre beijos. O que começa como uma troca leve de lembranças; beijos bons, ruins, estranhos ou inesquecíveis, rapidamente se transforma em algo muito maior, conduzindo a narrativa para um rumo surpreendente, provocador e extremamente divertido.

“Rótulo” é aquele tipo de curta extremamente eficiente, que demonstra como a combinação precisa entre elementos narrativos, dramáticos e técnicos pode potencializar um texto aparentemente simples. Toda a ação se passa em um único ambiente – o quarto – o que reforça ainda mais a qualidade do roteiro e, sobretudo, a competência de Felipe Cabral, responsável por direção e roteiro. Trabalhar em um espaço limitado exige domínio absoluto de ritmo, diálogos e encenação. E o filme tira o máximo proveito dessa escolha, transformando a limitação espacial em força criativa.

Com Felipe Cabral no papel de Fernando e Julia Stockler interpretando Carol, acompanhamos um debate tão íntimo quanto universal. A conversa sobre beijos se expande e passa a incluir terceiros: ex-namorados, ex-namoradas, casos passageiros e relações que, à primeira vista, pareciam pouco relevantes. Essas lembranças vão sendo usadas como argumentos em uma disputa quase lúdica, mas carregada de implicações, em que cada um tenta provar seu ponto de vista com convicção e ironia.

“Rótulo” trabalha de forma muito inteligente com a ideia de que a orientação sexual de uma pessoa pode, erroneamente, ser definida a partir de experiências pontuais. Na tentativa de “ganhar” o debate, tanto Carol quanto Fernando passam a determinar quem pode ficar com quem e o que cada um é, baseando-se apenas no sexo das pessoas com quem se relacionaram. As conclusões surgem de maneira cada vez mais exagerada, revelando o absurdo dessas categorizações. Se a explicação parecer confusa no papel, o filme “tenta resolver” isso com extrema clareza em cena e, acima de tudo, com muito humor. Mais do que entender racionalmente, o convite aqui é se deixar levar pela lógica torta e pelas provocações do casal.

A química entre Felipe Cabral e Julia Stockler é impressionante. Ambos entregam atuações grandes, cheias de nuances, que transitam com naturalidade entre a brincadeira, o incômodo, a provocação e a irritação genuína. Os diálogos fluem de acordo com o estado emocional de cada personagem, criando uma dinâmica viva e orgânica. Eles se provocam, se desafiam, perdem a paciência e retomam a conversa com ironia e afeto. Carol tenta impor rótulos a Fernando, delimitando o que ele pode ou não ser, enquanto ele oscila entre aceitar o jogo e questionar suas regras. Porém, as “regras criadas” por Carol podem valer para ela também. O grande carisma de “Rótulo” está justamente na forma natural e desarmada com que o filme aborda um tema tão sensível quanto a sexualidade.

Indo além do que se vê em cena, o curta propõe uma reflexão direta e necessária: não existem regras fixas que determinem quem uma pessoa é a partir de suas experiências afetivas ou sexuais. O filme evidencia que rótulos simplificam realidades complexas e ignoram a pluralidade do desejo humano. Em última instância, o que sustenta qualquer relação, afetiva ou social, é o respeito à diversidade. Embora “Rótulo” trate especificamente da sexualidade, sua mensagem se estende a outros campos fundamentais da vida em sociedade: liberdade de pensamento, expressão, crença religiosa e identidade individual. Cada pessoa tem o direito de ser quem é, sem precisar se encaixar em categorias impostas.

Tecnicamente, “Rótulo” é um curta muito bem produzido. A trilha sonora aparece de forma pontual, empolgando nos momentos de maior leveza e cedendo espaço ao silêncio do quarto quando a conversa exige mais intimidade e atenção. Isso permite que os diálogos ganhem ainda mais força. Fotografia, direção de arte e montagem trabalham em perfeita sintonia, sustentando a coesão narrativa e dramática sem jamais chamar mais atenção do que o necessário. Tudo funciona em favor da história e dos personagens.

O resultado final é uma obra divertida, provocadora e extremamente cativante, que prende o espectador do início ao fim. “Rótulo” diverte, faz rir, incomoda na medida certa e convida à reflexão, mostrando que, às vezes, uma simples conversa de manhã pode revelar muito mais sobre quem somos do que imaginamos.




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