quinta-feira, 12 de março de 2026

SER O QUE SE É (2018)

 


Livre adaptação da carta “A Garota do Maiô Verde”, de autoria de Jessica Gómez, “Ser O Que Se É” é um Drama introspectivo e intimista. O curta é uma realização produzida com muita delicadeza e competência pela Maria Farinha Filmes. O curta se constrói como uma obra de observação sensível, na qual pequenas ações, gestos discretos e silêncios carregam significados profundos.

         Com roteiro de Josefina Trotta e Marcela Lordy, o curta é uma obra sensível e fascinante, utilizando ao máximo todos os elementos narrativos, dramáticos e técnicos que constroem seu universo e mergulham o espectador numa experiência sensorial intensa. O filme aposta em uma narrativa contemplativa, que não se apressa em revelar suas emoções, permitindo que cada momento seja absorvido de maneira gradual.

         Com direção de Marcela Lordy, o filme apresenta uma mulher sentada numa cadeira de praia, observando seus filhos brincarem enquanto lê um livro à sombra de um guarda-sol. A cena inicial estabelece imediatamente um clima de serenidade. O mar, a luz natural e o ritmo tranquilo da praia criam uma atmosfera que parece suspensa no tempo, como se aquele instante fosse um pequeno refúgio dentro da rotina da vida adulta.

          Essa tranquilidade, porém, não permanece intacta por muito tempo. O ambiente calmo da praia dá lugar a um cenário mais “barulhento e festivo” com a chegada de alguns adolescentes. Risadas, conversas, música e movimentos mais agitados passam a ocupar o espaço. A mulher observa o grupo com atenção, e seu olhar passa a se deter especialmente em Marta, uma jovem adolescente tímida que parece não se encaixar completamente na dinâmica dos amigos.

         É nesse ponto que o filme revela uma de suas maiores qualidades narrativas. Em “Ser O Que Se É”, a narração em voice over é extremamente eficaz para transmitir aquilo que sabemos da mulher e aquilo que começamos a perceber sobre Marta. As palavras que surgem na narração são profundamente tocantes, funcionando como um fluxo de pensamento íntimo.

         Os detalhes apontados pela mulher revelam uma observação cuidadosa da jovem. Ao mesmo tempo, suas reflexões acabam se voltando para a própria vida. O que começa como uma análise silenciosa sobre outra pessoa acaba se transformando em um processo de autoconhecimento. A mulher passa a refletir sobre o tempo, sobre escolhas feitas no passado e sobre as transformações que a vida inevitavelmente impõe.

          O filme traz uma mensagem importante sobre aquilo que somos, aquilo que podemos ser e aquilo que desejamos nos tornar. Muitas vezes, a vida não segue exatamente o rumo que imaginamos, quando vivemos as fases da adolescência ou da juventude. Em alguns casos, isso acontece por dificuldades internas, como inseguranças e conflitos com a própria autoestima. Em outros momentos, são as circunstâncias externas que acabam direcionando nossos caminhos de maneira inesperada.

         Nesse contexto, o questionamento da mulher, agora aos cerca quarenta anos, surge com grande força emocional. Em que momento deixamos de ser uma determinada versão de nós mesmos para nos transformarmos em outra? Essa pergunta atravessa toda a narrativa do curta e ecoa de forma contemplativa ao longo das cenas.

         Apesar de tratar de maneira muito sensível do universo feminino, o filme dialoga também com o público masculino. Os temas que atravessam a narrativa são universais. A passagem do tempo, o amadurecimento, as mudanças inevitáveis da vida e a reflexão sobre o próprio percurso são experiências compartilhadas por praticamente todas as pessoas.

         Independentemente das escolhas que fazemos, o tempo segue seu curso. Em determinado momento da vida, muitas pessoas passam a olhar para trás e avaliar aquilo que viveram. Esse balanço pessoal pode trazer orgulho, dúvidas ou até mesmo arrependimentos. A maneira como a protagonista reflete sobre esses sentimentos é profundamente cativante e emocionalmente honesta.           

         Marta não chama a atenção da mulher por acaso. A jovem parece funcionar como uma espécie de espelho simbólico. Ao observá-la, a protagonista parece revisitar uma versão mais jovem de si mesma, lembrando desejos, inseguranças e possibilidades que talvez tenham ficado pelo caminho.

         Tudo o que acontece nos poucos minutos do curta é conduzido com precisão pela direção de Marcela Lordy. O filme apresenta uma estrutura narrativa clara, com seus momentos muito bem definidos e uma progressão dramática que conduz o espectador de forma natural até o desfecho final.

         No elenco, Alanis Guillen e Martha Nowill assumem os papéis centrais. As duas atrizes quase não utilizam diálogos diretos, mas suas expressões faciais e corporais comunicam uma enorme quantidade de emoções. Pequenos gestos, olhares e movimentos revelam sentimentos complexos que seriam difíceis de expressar apenas por palavras.

         O restante do elenco, formado por Ângelo Vital, Clarice Niskier, Drika Pontes, Fabian Araújo, Juliana Gerais, Natan Matiusso, Pedro Castaldelli, Rafael Imbroisi, Raphael Rodrigues e Thomás Bobadilha, contribui para a construção do ambiente que cerca as duas personagens principais. Suas presenças ajudam a compor o universo coletivo que envolve a mulher e Marta.

         Os elementos técnicos utilizados no filme são fundamentais para ampliar o impacto emocional e sensorial da história. A fotografia de Janice D’avila valoriza a luz natural da praia e cria imagens que reforçam a atmosfera contemplativa do curta. A direção de arte de Fernanda Carlucci constrói um ambiente visual que dialoga diretamente com o estado emocional das personagens.

         A trilha sonora de Edson Secco e Tiago Bittencourt também exerce um papel importante na construção da narrativa. A música acompanha as mudanças de atmosfera entre os momentos mais tranquilos e as passagens mais reflexivas, ajudando a conduzir o espectador por essa jornada emocional.

        A montagem de Paulo Sacramento trabalha de forma equilibrada entre planos mais longos e momentos de maior dinamismo. Tomadas, planos, ângulos, figurino, maquiagem e produção de objetos conseguem transmitir as sensações tanto da mulher quanto de Marta, unindo os dois universos e os transformando em um só. Os planos mais longos, com câmera estática, e os plano com câmera viva e com cortes rápidos, cumprem com perfeição a função de mesclar os dois universos, preparando o terreno para a resolução final.

         “Ser O Que Se É” é um curta profundamente envolvente, capaz de provocar uma reflexão silenciosa e sincera sobre identidade, tempo e transformação. Produzido com grande sensibilidade e qualidade técnica, o filme conduz o espectador até uma resolução final que convida a um diálogo interno muito pessoal e transformador. 


 

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