segunda-feira, 29 de junho de 2026

OBSESSIVA (2017)

 


Questionado sobre o período entre a morte de sua esposa e o convite que fez para uma pessoa com quem pretende passar a noite em sua residência, o protagonista responde sem hesitar que deseja que ela vá naquele mesmo dia. A resposta parece simples, mas carrega um peso enorme. O problema é que ele pode estar completamente enganado sobre estar pronto para isso.

         Com uma premissa inteligente e inquietante, Jeziel Bueno mais uma vez demonstra grande habilidade ao construir um curta perturbador, tenso e extremamente assustador. “Obsessiva” trabalha com uma atmosfera sufocante desde seus primeiros segundos, apostando menos no susto fácil e mais na construção gradual de desconforto.

         A mulher, ao telefone, questiona se ainda não é cedo para ir até sua casa. A fala é carregada de hesitação e deixa evidente que existe uma ferida ainda muito recente. Mesmo assim, ele decide que o tempo já foi suficiente para tentar se envolver em uma nova relação. É justamente nesse ponto que o diretor acerta em cheio. Quando o protagonista começa a apagar fotografias e eliminar lembranças da esposa falecida, o filme comunica muito sem precisar explicar demais. Mostrando apenas o essencial, Jeziel permite que o espectador monte as peças e compreenda como aquela morte aconteceu e quais marcas ela deixou.

         Rodrigo David entrega uma atuação segura e convincente, sustentando o peso emocional da trama. Seu personagem transita entre culpa, desejo, negação e medo de forma bastante natural, tornando ainda mais palpável a tensão crescente.

         Numa composição muito eficiente entre direção de fotografia, arte, trilha sonora e montagem, “Obsessiva” se consolida como uma produção forte para quem aprecia Suspense e Terror Sobrenatural. Um dos grandes méritos do filme está justamente em permitir que esses elementos técnicos trabalhem em perfeita sintonia, sem recorrer a jumpscares desnecessários que poderiam enfraquecer a proposta.

         Ao utilizar efeitos sonoros perturbadores em momentos específicos de tensão, o filme potencializa o que já está em cena. O medo não surge de um choque repentino, mas da sensação constante de que algo está errado. Isso torna a experiência muito mais eficiente.

            A abertura, ainda em tela preta, com a voz de Camila perguntando se ele realmente tem certeza da decisão, já prepara de forma brilhante o terreno para tudo o que vem depois. Quando o “fade in” finalmente revela o ambiente, o espectador é jogado diretamente na realidade daquele homem e no horror que parece cercá-lo.

         Além de Rodrigo David, o curta conta ainda com Juane Melo e Evelyn Campos, dando vida à ficante do protagonista e à esposa falecida. Com grandes performances, um texto bem conduzido e uma execução técnica muito sólida, “Obsessiva” é uma pequena joia do Terror e do Suspense nacional em curta-metragem, reafirmando Jeziel Bueno como um nome de destaque dentro do gênero.




segunda-feira, 22 de junho de 2026

DUAS COXINHAS (2021)

 


Com roteiro e direção de Leo Miguel, “Duas Coxinhas” apresenta um bar no centro do Rio de Janeiro durante o fim do expediente, mas rapidamente deixa claro que aquele espaço é muito mais do que um simples cenário. Desde os primeiros minutos, o curta constrói uma atmosfera pesada e desconfortável, sustentada principalmente pelos grandes acertos da direção de fotografia e da direção de arte. O ambiente decadente do bar não serve apenas como pano de fundo: ele reflete diretamente o estado emocional e psicológico dos personagens que ocupam aquele espaço.

         Leo Miguel demonstra paciência e habilidade ao conduzir a narrativa. “Duas Coxinhas” não entrega suas intenções logo de início. O filme prefere mergulhar o espectador naquele ambiente para, aos poucos, revelar quem são aquelas pessoas e quais histórias carregam. Essa construção gradual é um dos maiores méritos do curta, pois cria tensão constante e faz com que a curiosidade aumente a cada nova cena. Desde cedo, percebe-se que há algo errado naquele lugar, mas o filme evita explicações imediatas, trabalhando o mistério de forma eficiente.

        A degradação física do espaço e a degradação humana dos personagens caminham juntas. Inácio, dono do bar, e Armandinho, um morador de rua, não estão ali por acaso. O encontro entre os dois é carregado de significados e de um passado que o filme revela em camadas. O curta entende que suas personagens são resultado de trajetórias difíceis e marcadas por perdas, dores e cicatrizes emocionais.

         Henrique Brito e Sidney Guedes entregam atuações intensas e extremamente viscerais. A relação que inicialmente parece simples, entre um dono de bar e um homem em situação de rua, ganha complexidade à medida que o roteiro avança. O que surge na tela é uma dinâmica atravessada por ressentimentos, memórias dolorosas e feridas que jamais foram completamente cicatrizadas. Essa construção emocional fortalece muito o impacto do filme.

        O roteiro é um dos pontos mais fortes da obra. Leo Miguel demonstra domínio no roteiro e na direção, conduzindo o arco dramático com segurança e equilíbrio. O curta sabe dosar silêncio, tensão e revelação, sem apressar os acontecimentos. Essa condução faz com que cada descoberta ou dúvida tenha peso e transforme a percepção do espectador sobre os personagens.

         A fotografia exerce papel fundamental na construção desse universo. A escuridão constante, o filtro acinzentado e a escolha de ângulos específicos ajudam a criar uma sensação de claustrofobia e desconforto. Conforme os segredos são revelados, a câmera se aproxima mais dos personagens, intensificando a carga dramática e emocional da trama.

         Outro grande destaque é a direção de arte, acompanhada pelo cuidadoso trabalho com objetos, figurinos e maquiagem. Tudo no ambiente parece desgastado, sujo e decadente. Essa estética não é gratuita: ela reforça a trajetória de desgaste daqueles personagens e ajuda a tornar o universo do filme mais convincente. Os efeitos práticos também merecem elogios, especialmente por serem usados de forma precisa e impactante.

         O restante do elenco, formado por David Wilson, Edilson Salles e Marcos Alfa, contribui de maneira importante para sustentar a narrativa. Cada um, dentro de suas funções, ajuda a ampliar o contexto da história e fortalecer a jornada dos protagonistas.

          Mesclando Suspense, Thriller e Drama, “Duas Coxinhas” é um filme que não se limita a um único gênero. A trama aborda perdas, lutos, culpa e vingança, sentimentos que movem os personagens e dão profundidade ao conflito central. Isso torna a experiência ainda mais complexa, pois em certos momentos é difícil para o espectador julgar moralmente as ações dos personagens.

         O bar, no fim das contas, é apenas o ponto final de uma história muito mais antiga. É ali que segredos enterrados finalmente emergem e exigem confronto. Inácio administra um lugar aparentemente sem importância social, mas como o próprio filme sugere, certos espaços guardam marcas e memórias difíceis de apagar.

         “Duas Coxinhas” é um curta denso, maduro e profundamente incômodo. Leo Miguel constrói uma narrativa que começa explorando a degradação física e social, mas termina mergulhando em níveis ainda mais profundos de violência emocional e humana. É uma obra forte do cinema brasileiro em curta-metragem, sustentada por um excelente roteiro, atuações marcantes e um uso técnico extremamente eficiente.




domingo, 14 de junho de 2026

DEZ BONEQUINHOS PEDREIROS DE DEZENOVE E NOVENTA E NOVE (2011)

 


Com direção de André Miranda e Gui Campos, o curta-metragem de Drama e Fantasia “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” parte de uma premissa simples, mas extremamente criativa: um homem compra um pacote com dez bonequinhos pedreiros por R$ 19,99 e os coloca em uma maquete. A partir desse ponto aparentemente banal, o filme desenvolve uma reflexão surpreendentemente profunda sobre comportamento humano, organização social e a forma como as sociedades se estruturam ao longo do tempo.

         Com narração de Sérgio Sartório, a narrativa acompanha as transformações da maquete conforme os bonequinhos passam a interferir diretamente no ambiente onde vivem. O criador da pequena cidade continua expandindo aquele universo, adquirindo novos pacotes com personagens e veículos. Homens, mulheres e crianças passam a ocupar o espaço ao lado de carros, caminhões, barcos e aviões, criando uma sociedade cada vez mais complexa.

        O fascínio inicial do narrador logo dá lugar ao espanto. Os bonequinhos não apenas se multiplicam, mas também desenvolvem comportamentos coletivos que lembram muito a vida real. Aos poucos, surgem hierarquias, rotinas, burocracias e formas de organização que passam a definir a existência daquela população em miniatura. O curta utiliza essa construção para questionar diversos aspectos da sociedade contemporânea, especialmente a maneira como os indivíduos se adaptam às estruturas sociais que eles próprios ajudam a criar.

         A alegoria é extremamente eficiente. Conforme a cidade cresce, elementos como trabalho, trânsito, compromissos diários, previsibilidade e isolamento passam a fazer parte da vida dos bonequinhos. O progresso material acontece de forma constante, mas ele parece vir acompanhado de uma perda gradual da espontaneidade e da liberdade individual. O que antes era um espaço aberto a inúmeras possibilidades passa a funcionar segundo padrões rígidos e repetitivos.

         Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é que o criador da maquete não impõe regras nem limitações. Os bonequinhos possuem liberdade para construir suas próprias trajetórias. Ainda assim, a sociedade criada por eles segue um caminho marcado por excesso de trabalho, repetição e conformismo. O curta sugere que determinadas estruturas acabam surgindo naturalmente quando grupos humanos passam a viver em coletividade, levantando questionamentos sobre o próprio desejo humano por ordem e estabilidade.

         A rotina dos bonequinhos assume um caráter mecânico. Eles parecem cada vez mais distantes de sua própria essência, presos a uma lógica produtiva que ocupa praticamente toda a sua existência. Essa alienação pode ser relacionada às reflexões de Karl Marx sobre trabalho e sociedade, mas também dialoga com referências culturais importantes, como “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, e a canção “Construção”, de Chico Buarque. Em todos esses casos, surge a ideia de indivíduos transformados em peças de uma engrenagem maior, subordinados a sistemas que parecem funcionar independentemente de suas vontades.

         A pergunta central do curta permanece ecoando durante toda a projeção: o ser humano realmente deseja liberdade ou prefere a segurança oferecida pela ordem e pela previsibilidade? O criador da maquete não interfere diretamente na vida dos bonequinhos. Ele apenas observa, tentando compreender por que eles insistem em reproduzir determinados comportamentos e estruturas.

         Outro aspecto importante é a forma como a cidade se transforma em um organismo autônomo. Os bonequinhos não reproduzem apenas indivíduos, mas também relações sociais, modelos de produção e formas de convivência. Construções e fábricas se multiplicam continuamente, enquanto a expansão urbana parece nunca encontrar limites. O crescimento se torna um objetivo em si mesmo, muitas vezes sem uma finalidade clara.

        Com roteiro de André Miranda, “Dez Bonequinhos Pedreiros de Dezenove e Noventa e Nove” demonstra enorme eficiência ao combinar elementos narrativos, dramáticos e visuais. A fotografia, a direção de arte, a montagem e a trilha sonora ampliam o significado das imagens e transformam uma ideia simples em uma reflexão bastante abrangente sobre sociedade, trabalho e vida urbana.

         Produzido com criatividade e precisão, o curta impressiona pela capacidade de abordar tantos temas em apenas três minutos. É uma obra que convida tanto à reflexão individual quanto ao debate coletivo, demonstrando como o cinema de curta duração pode ser extremamente poderoso quando utiliza seus recursos de forma inteligente.




O BOSQUE DOS SONÂMBULOS (2017)

  Com direção e roteiro de Matheus Marchetti, “O Bosque dos Sonâmbulos” é uma obra que encanta desde seus primeiros minutos e impressiona pe...