segunda-feira, 22 de junho de 2026

DUAS COXINHAS (2021)

 


Com roteiro e direção de Leo Miguel, “Duas Coxinhas” apresenta um bar no centro do Rio de Janeiro durante o fim do expediente, mas rapidamente deixa claro que aquele espaço é muito mais do que um simples cenário. Desde os primeiros minutos, o curta constrói uma atmosfera pesada e desconfortável, sustentada principalmente pelos grandes acertos da direção de fotografia e da direção de arte. O ambiente decadente do bar não serve apenas como pano de fundo: ele reflete diretamente o estado emocional e psicológico dos personagens que ocupam aquele espaço.

         Leo Miguel demonstra paciência e habilidade ao conduzir a narrativa. “Duas Coxinhas” não entrega suas intenções logo de início. O filme prefere mergulhar o espectador naquele ambiente para, aos poucos, revelar quem são aquelas pessoas e quais histórias carregam. Essa construção gradual é um dos maiores méritos do curta, pois cria tensão constante e faz com que a curiosidade aumente a cada nova cena. Desde cedo, percebe-se que há algo errado naquele lugar, mas o filme evita explicações imediatas, trabalhando o mistério de forma eficiente.

        A degradação física do espaço e a degradação humana dos personagens caminham juntas. Inácio, dono do bar, e Armandinho, um morador de rua, não estão ali por acaso. O encontro entre os dois é carregado de significados e de um passado que o filme revela em camadas. O curta entende que suas personagens são resultado de trajetórias difíceis e marcadas por perdas, dores e cicatrizes emocionais.

         Henrique Brito e Sidney Guedes entregam atuações intensas e extremamente viscerais. A relação que inicialmente parece simples, entre um dono de bar e um homem em situação de rua, ganha complexidade à medida que o roteiro avança. O que surge na tela é uma dinâmica atravessada por ressentimentos, memórias dolorosas e feridas que jamais foram completamente cicatrizadas. Essa construção emocional fortalece muito o impacto do filme.

        O roteiro é um dos pontos mais fortes da obra. Leo Miguel demonstra domínio no roteiro e na direção, conduzindo o arco dramático com segurança e equilíbrio. O curta sabe dosar silêncio, tensão e revelação, sem apressar os acontecimentos. Essa condução faz com que cada descoberta ou dúvida tenha peso e transforme a percepção do espectador sobre os personagens.

         A fotografia exerce papel fundamental na construção desse universo. A escuridão constante, o filtro acinzentado e a escolha de ângulos específicos ajudam a criar uma sensação de claustrofobia e desconforto. Conforme os segredos são revelados, a câmera se aproxima mais dos personagens, intensificando a carga dramática e emocional da trama.

         Outro grande destaque é a direção de arte, acompanhada pelo cuidadoso trabalho com objetos, figurinos e maquiagem. Tudo no ambiente parece desgastado, sujo e decadente. Essa estética não é gratuita: ela reforça a trajetória de desgaste daqueles personagens e ajuda a tornar o universo do filme mais convincente. Os efeitos práticos também merecem elogios, especialmente por serem usados de forma precisa e impactante.

         O restante do elenco, formado por David Wilson, Edilson Salles e Marcos Alfa, contribui de maneira importante para sustentar a narrativa. Cada um, dentro de suas funções, ajuda a ampliar o contexto da história e fortalecer a jornada dos protagonistas.

          Mesclando Suspense, Thriller e Drama, “Duas Coxinhas” é um filme que não se limita a um único gênero. A trama aborda perdas, lutos, culpa e vingança, sentimentos que movem os personagens e dão profundidade ao conflito central. Isso torna a experiência ainda mais complexa, pois em certos momentos é difícil para o espectador julgar moralmente as ações dos personagens.

         O bar, no fim das contas, é apenas o ponto final de uma história muito mais antiga. É ali que segredos enterrados finalmente emergem e exigem confronto. Inácio administra um lugar aparentemente sem importância social, mas como o próprio filme sugere, certos espaços guardam marcas e memórias difíceis de apagar.

         “Duas Coxinhas” é um curta denso, maduro e profundamente incômodo. Leo Miguel constrói uma narrativa que começa explorando a degradação física e social, mas termina mergulhando em níveis ainda mais profundos de violência emocional e humana. É uma obra forte do cinema brasileiro em curta-metragem, sustentada por um excelente roteiro, atuações marcantes e um uso técnico extremamente eficiente.




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